quinta-feira, janeiro 23, 2014

PITTY – {DES}CONCERTO AO VIVO – 06-07-07



Parece que foi ontem que eu vi o primeiro videoclipe da Pitty na MTV. Nem lembrava mais que ainda nos anos 2000 eu tinha o hábito de ver clipes. Foi quando estreou “Máscara”, faixa de trabalho do primeiro álbum da cantora, ADMIRÁVEL CHIP NOVO (2003). Na hora eu achei aquilo tudo muito ruim. Aquele gorila horrível no clipe, a dança e a própria "lição" da letra, de que devemos ser nós mesmos, independentemente de as pessoas nos acharem bizarros, na hora me pareceu óbvia e simplificadora. Impressionante que passados tantos anos eu tenha uma impressão tão distinta desta faixa e da cantora em si, que se tornou uma das minhas preferidas nessa fase em que o rock ficou menos popular nas rádios, a partir dos anos 2000.

Ontem, minha mãe encontrou este DVD que acredito que seja de minha irmã meio que jogado pelos cantos. Tinha alguns arranhões, mas eu fiquei feliz de tê-lo encontrado, ainda que seja um DVD lançado em 2007. Mas, como música boa não perde a validade, vi o show hoje à tarde com muito entusiasmo. O repertório ainda é apenas dos dois primeiros discos, mas já é o suficiente para se fazer um puta show. E foi o que vi. O DVD vem com legendas para se cantar junto e opção de áudio em DTS.

Cheia de charme, beleza, vestida de preto como sempre, Pitty chega com sua banda logo com um sonzão pesado, porrada, ainda que pop. A primeira faixa tocada é "Admirável Chip Novo", não apenas uma alusão ao romance de Aldous Huxley, mas à canção "Admirável Gado Novo", de Zé Ramalho, numa crítica a um modelo de sociedade que deve sempre obedecer às regras impostas pelos poderosos.

"Semana que vem" traz um tema mais comum entre outros artistas, que é o fato de não se deixar nada para depois, pois o futuro pode não existir. "Déjà Vu", por sua vez, é mais profunda, lidando com a questão do sentimento de vazio espiritual, mas ao mesmo tempo uma recusa de buscar opções espirituais convencionais. É, pela pegada, uma canção sobre dor, sobre desacreditar de tudo que não seja palpável.

Em “Brinquedo Torto”, a Pitty empunha a guitarra com o riff que abre a canção, pesada e gostosa. Em “Memórias”, há a questão do desapego com o passado e uma busca por algo próprio, ainda que seja matando seus heróis. A vontade de se perder por aí não deixa de ser contagiante e encontra ecos no espírito juvenil.

Curiosamente, Pitty tem relativamente poucas canções de amor, mas quando ela faz, acerta em cheio. "Na Estante", na verdade, é uma canção de fim de relação. Mas nada de choradeira. Ela mostra uma visão de que o amor que ela sente pelo sujeito é uma espécie de droga, mas que "essa abstinência uma hora vai passar".

"De você" remete a "A Minha Alma (A Paz Que Eu Não Quero)", dO Rappa. Também critica as prisões que a própria sociedade cria para si mesmas, mas completa que o nosso maior vilão somos nós mesmos. "No escuro" é deliciosa, com o riff inicial que remete a "Rape Me", do Nirvana. É uma faixa poderosa que celebra e glorifica a noite. Adoro a parte gritada da música. Pitty se deita no palco enquanto canta, nesse momento, como se nunca estivesse tão à vontade.

"Equalize", a canção que fez com que eu me rendesse ao talento da moça e que eu costumava ouvir no ônibus pelos idos de 2003 e 2004, é talvez a mais bela canção de amor que ela fez até hoje. Transformar o amado na canção, a fim de eternizá-lo, remete até mesmo aos sonetos de Shakespeare, embora eu duvide que ela tenha pensado nisso.

"Pulsos" é uma canção nova que creio que não entrou em nenhum álbum de estúdio. É relativamente otimista, mas fala, claramente, de suicídio. Dá pra fazer relação com "Essa noite não", do Lobão, embora seja bem menos mórbida. Depois do blues pesado "Ignorin'u", cantada em inglês e com um lindo solo de guitarra, vem outras bem mais agitadas: "A Saideira", "I Wanna Be" e o punk rock pesado "Seu Mestre Mandou" (mais uma canção sobre desobediência civil).

A banda fecha com "Máscara", o primeiro hit, tocada com muita energia. Difícil não ficar satisfeito. Deu vontade de conhecer o mais recente DVD ao vivo deles. Deve ser bem interessante, já que também gosto do terceiro álbum.

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