domingo, janeiro 26, 2014

A GRANDE BELEZA (La Grande Bellezza)



Numa das primeiras sequências de A GRANDE BELEZA (2013), de Paolo Sorrentino, Jep Gambardella, personagem de Toni Servillo, uma espécie de colunista ou crítico de arte, assiste, junto com outros apreciadores de arte da alta sociedade, a um espetáculo em que uma mulher nua com um pano transparente na cabeça corre e se joga de cabeça em uma parede até sangrar. Em seguida, ela se levanta e grita uma frase de ódio e revolta. Mais tarde, Jep, durante entrevista com a tal artista, ela pergunta se ele gostou do espetáculo. Ele diz algo como: gostei de algumas partes. A da pancada na cabeça, por exemplo.

Pode-se dizer o mesmo de A GRANDE BELEZA, este que é certamente o filme mais incensado e famoso do diretor de AS CONSEQUÊNCIAS DO AMOR (2004) e AQUI É O MEU LUGAR (2011). Já ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e está entre os cinco concorrentes na mesma categoria no Oscar, com grandes chances de ganhar também. Além disso, há as inúmeras críticas positivas, mas, curiosamente, há também vários espectadores e críticos que consideram o filme intragável. Não estou em nenhuma das duas categorias, pois vejo tanto qualidades quanto problemas em A GRANDE BELEZA. O maior dos problemas talvez seja a duração, a falta de coragem de Sorrentino de cortar algumas cenas.

Uma coisa que notamos no cinema italiano recente, ou melhor, dos últimos vinte anos pelo menos, é o quanto ele deixou de ser aquele cinema grandioso que brilhou na década de 1960, quando se poderia dizer que se tratava da maior e melhor cinematografia do mundo. Não apenas por Fellini, Antonioni, Pasolini e Visconti, mas também pelo excepcional cinema de gênero que era produzido na “terra da bota”. Hoje, temos que nos contentar com esse cinema menor.

Em A GRANDE BELEZA, Sorrentino nos apresenta a um grupo de pessoas de cinquenta anos pra cima que ainda vive a vida como uma festa que nunca termina. O próprio protagonista, Jeb, é um solteirão que ainda pensa no amor da juventude. E esse amor volta mais fortemente ao seu pensamento quando ele fica sabendo de sua morte, contada pelo homem que se casou com ela e que lhe confessa que era ele, Jeb, quem ela sempre amou.

Jeb é um homem cínico com a vida, apesar de usufruir dos prazeres imediatistas, como o sexo, a bebida e as festas. Ele é mais ou menos como o personagem de Marcello Mastroianni em A DOCE VIDA, de Fellini. Só que ainda mais amargo, já que está com 65 anos e sabe que não basta apenas beleza para agradá-lo. Ele passa a ficar interessado por uma stripper cinquentona, filha de um amigo. Ramona (Sabrina Ferilli) é o que ele encontra de mais próximo de uma namorada perfeita naquele momento.

A decadência é um elemento constante no filme. Roma é uma cidade antiga que é vendida aos turistas por suas ruínas, sua arquitetura de vários séculos e pela religião, o Catolicismo, que é representado na figura de uma mulher que é tida como santa e parece uma múmia na mesa de jantar e um cardeal que só quer falar de receitas culinárias. Respostas para as dúvidas existenciais de Jeb o cardeal não tem.

A GRANDE BELEZA também oferece momentos interessantes acerca da arte. O próprio diretor, ele mesmo tendo suas qualidades fílmicas questionadas com frequência por parte da crítica, e que brinca com isso ao final, oferece pelo menos duas cenas em que se pode tanto criticar a alta sociedade consumidora de arte, quanto trazer à tona reflexões sobre o que é arte. O que não quer dizer que o filme esteja, com isso, isento de seus próprios problemas.

Com relação à projeção do filme oferecida em Fortaleza, os excessos da festa de aniversário de Jeb que iniciam a narrativa e remetem a Fellini, assim como a suntuosidade dos edifícios e da geografia da cidade, acabam sendo prejudicados pela cópia ruim em digital Auwe, disponibilizada pela Europa Filmes. Além de afetar a qualidade da imagem, ela ainda mutila o filme, originalmente em scope. Uma pena que a essa altura da transição do celuloide para o digital ainda tenhamos que conviver com esse tipo de projeção desrespeitosa.

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