domingo, janeiro 12, 2014

O LOBO DE WALL STREET (The Wolf of Wall Street)



Comparações, por mais inúteis que sejam, acabam surgindo quando acompanhamos a carreira de um cineasta ou qualquer artista. Por isso, ao sair de uma sessão de O LOBO DE WALL STREET (2013), filme em que passamos boa parte do tempo com um sorriso de orelha a orelha, ou gargalhando ou boquiabertos com determinadas sequências, sejam elas dramáticas ou cômicas, se é para comparar com outra obra de Martin Scorsese, podemos dizer que trata-se do melhor trabalho dele desde O AVIADOR (2004). Mas aí lembramos que O AVIADOR não causou o mesmo efeito de maravilhamento e podemos viajar no tempo sem medo para OS BONS COMPANHEIROS (1990), filme que, aliás, guarda muitas similaridades com o novo trabalho do cineasta.

Ambos são filmes narrados sob efeito da cocaína (a droga da moda nos anos anos 1980), ainda que em diferentes registros (comédia versus tragédia). Por isso, em vez de recomendar o uso da droga, o que seria absurdo e irresponsável, diria que para ver o filme e entrar no espírito, um bom café cairia bem. Até porque o filme tem três horas de duração. Que vale cada minuto. O LOBO DE WALL STREET, com sua narrativa nervosa, divertida e cheia de momentos incríveis inspirados em uma história real, é uma joia rara na atual cinematografia americana. Ainda que esta seja, no mínimo, uma das melhores do mundo na atualidade.

Além do mais, difícil não ficar impressionado com a performance monstruosa de Leonardo DiCaprio, na pele do corretor de ações Jordan Belfort, um homem que enriqueceu com métodos pouco honestos, através de uma bolsa de valores de empresas pequenas, mas que, graças ao seu dom impressionante de convencer as pessoas a comprar, conseguiu fazer uma fortuna. O problema é que ele passou a chamar a atenção do FBI.

Geralmente o fim dessas histórias é previsível. Mas uma coisa sabemos com relação a Scorsese: ele é um homem que se solidariza pelos pecadores, por aqueles que atravessam um caminho alternativo e que mais tarde sofrerão as consequências. Mas o grande barato de O LOBO DE WALL STREET é que isso é narrado em tom de comédia. Assim, não há um julgamento moralista com relação ao que o personagem faz. Ao contrário: fica-se a impressão de que tudo o que ele viveu valeu a pena.

O consumo das drogas, entre elas a cocaína e pílulas para ficar mais agitado ou mais tranquilo, não é necessariamente visto como um inferno. O inferno está em viver sóbrio, para o protagonista. Em determinada sequência, quando Belfort, o amigo vivido por Jonah Hill e sua esposa estão cruzando um mar furioso em um iate, Belfort pede as pílulas tranquilizantes ao amigo. "Não quero morrer sóbrio", diz ele. E tudo isso é mostrado como uma grande piada, ainda que não seja para todas as idades e gostos.

Ao que parece, os espectadores mais conservadores não gostaram nada do filme, o que pode prejudicar as chances de Scorsese ganhar mais um Oscar pelo trabalho. Mas, assim como se pode dizer sobre a vida de Belfort, cheia de sexo, drogas e curtição, dane-se o prêmio da Academia. O importante é termos um filme dessa qualidade circulando no mercado. O importante é termos o privilégio de conferir uma obra que nada contra a maré de caretice atual.

Assim, quem pensava que Scorsese ia fazer filmes mais suaves depois do sucesso de A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (2011), um trabalho destinado também às crianças, eis que vemos um filme que abraça a vida louca, as orgias e as drogas. No entanto, não se trata de uma apologia. Nada é tão simples assim. Do mesmo modo, o filme pode ser visto como uma crítica à sociedade capitalista e sua obsessão pelo dinheiro e status social.

Belfort, enquanto tem sua empresa muito bem instalada e ganhando rios de dinheiro, faz discursos que mais lembram pastores de certas igrejas evangélicas ou treinamentos motivacionais que lidam com a importância de ser um vencedor. E um vencedor rico. É possível que haja algum espectador que veja Belfort com olhos acusadores, mas o filme raramente vai encaminhá-lo para essa vereda, já que o personagem é extremamente simpático e carismático.

Além do mais, vivemos hoje tempos bem mais complexos no que se refere à moral. Tudo pode ter começado com os filmes de gângster da Warner na década de 1930, mas ganhou fôlego renovado em séries de televisão recentes, em que personagens como Tony Soprano (FAMÍLIA SOPRANO) e Walter White (BREAKING BAD), respectivamente chefe de uma família mafiosa e fabricante de metanfetamina, são vistos com bons olhos pelo público. Alçados a heróis, até.

No mais, além de um filme destinado a um público adulto e responsável, O LOBO DE WALL STREET é um filme de sequências antológicas. Uma atrás da outra, sem termos tempo para respirar, no ritmo frenético de quem acabou de cheirar muito pó. Além do mais, testemunhamos a melhor atuação da carreira de Leonardo DiCaprio, a celebração de uma nova deusa das telas (Margot Robbie) e mais um ponto brilhante na carreira sem igual de Scorsese, que com seus 71 anos de idade compensa a saudade dos excessos e prazeres da mocidade com a criação de um mundo todo seu, com sua marca registrada.

O LOBO DE WALL STREET foi indicado ao Globo de Ouro nas categorias de melhor filme (comédia) e melhor ator (comédia) para Leonardo DiCaprio.

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