quinta-feira, janeiro 30, 2014

PAIXÃO NA PRAIA



Meu retorno à filmografia de Alfredo Sternheim se dá depois de eu ter conseguido dois outros trabalhos do cineasta. Este é sua estreia na direção e o esqueleto da trama é praticamente o mesmo de VIOLÊNCIA NA CARNE (1981), realizado cerca de dez anos depois e em um momento em que a permissividade para as cenas de sexo não era apenas mais aceita, era também incentivada. Era chamariz para as bilheterias e o Cinema da Boca era uma indústria que se mantinha sem incentivos do Governo. PAIXÃO NA PRAIA (1971), portanto, é uma espécie de VIOLÊNCIA NA CARNE sem sacanagem. E isso acaba fazendo falta no filme de estreia do diretor.

Na trama, Norma Bengell é esposa de um bancário e está desiludida com o casamento. Ao voltar para sua casa de praia, vê que o lugar está invadido por dois homens: um sujeito metido a galã e chefe do pequeno bando (Adriano Reys) e o irascível barbudo vivido por Ewerton de Castro, que fala sempre em uma revolução que tramam, motivo para o filme amargar um ano nos porões da censura até ser liberado comercialmente. Ela e seus empregados são feitos de reféns. O grupo de foras-da-lei espera a chegada de uma mulher, a baronesa (Lola Brah).

Enquanto isso, os personagens de Bengell e Reys começam a se envolver afetivamente. Reys fica o tempo todo dizendo o quanto ela é linda e fina, mas curiosamente não vejo beleza em Norma Bengell, principalmente neste filme, em particular. Lendo o livrinho do Alfredo Sternheim, da Coleção Aplauso, soube que o roteiro foi pensado na Eva Wilma, que o diretor havia conhecido durante as filmagens de A ILHA (1960), de Walter Hugo Khouri, em que foi assistente de direção. Faz todo o sentido pensar em Eva Wilma, ainda mais se a imaginarmos jovem, em 1960. Já não sei em 1971.

Uma coisa que me chamou a atenção no filme foi o figurino de Adriano Reys, que me lembrou muito o meu pai. Naquela época, era muito comum os homens se vestirem de camisa de manga longa e deixarem o peito praticamente nu com poucos botões abotoados. Meu pai costumava se vestir exatamente assim, mesmo em plenos anos 1990, quando a moda já havia passado há tempos.

Sobre fofocas de bastidores, a mais curiosa que Sternheim conta em seu livro é de que Bengell brigou com Reys durante as filmagens, pois ele ficou excitado durante uma cena íntima que fez com ela. Lembrando que essas cenas íntimas, por mais que tivessem sido feitas com poucas roupas, são mostradas por baixo dos lençóis.

Como não tem o fator sexploitation descarado de VIOLÊNCIA NA CARNE, PAIXÃO NA PRAIA perde muito da graça que poderia ter, até como forma de compensar suas fraquezas. Felizmente, na próxima empreitada, Sternheim fez um de seus melhores e mais memoráveis trabalhos, ANJO LOIRO (1973), com Vera Fischer. Esse sim foi um acerto, não só pelo apelo sensual, mas também pela construção dos personagens e de suas dores e desejos.

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