quinta-feira, outubro 31, 2013

SERRA PELADA



E finalmente Heitor Dhalia mostrou que pode dirigir um grande filme. Depois de uma experiência não muito agradável nos Estados Unidos, com o thriller 12 HORAS (2012), ele retorna ao Brasil para realizar o seu ambicioso projeto dos sonhos: SERRA PELADA (2013), uma mistura de western com filme de gângster à brasileira, com direito a muita música quente feita especialmente no Pará no início dos anos 1980, dando um tempero especial à história de dois amigos que resolvem largar tudo em São Paulo e partir para o formigueiro que estava chamando a atenção de gente de todo o Brasil, situado no sul do Pará.

Os amigos são interpretados por Juliano Cazarré e Júlio Andrade, vivendo os personagens Juliano e Joaquim, respectivamente. Como o filme é também uma espécie de fábula sobre a ambição e a degradação do caráter, há que se parabenizar ambos os atores pela excelente composição. De Júlio Andrade já sabemos de seu talento, mas Juliano Cazarré surpreendeu como o sujeito cujo poder lhe sobe à cabeça, à ponto de seu personagem ser bastante parecido com o Tony Montana de SCARFACE, de Brian De Palma.

É o caso de filme em que tudo parece ter dado certo. O elenco de apoio também é sensacional, com Wagner Moura roubando a cena como uma espécie de mafioso psicótico. A cena do bar, em que ele é mandado embora, é antológica, remetendo ao personagem de Joe Pesci em OS BONS COMPANHEIROS, de Martin Scorsese. Matheus Nachtergaele, também está muito bom, mas seu papel é bem pequeno. E Sophie Charlotte como a prostituta que ganha o coração de Juliano está linda e compõe a personagem muito bem. Deveria fazer cinema mais vezes. Foi a sua estreia na telona, depois de ter feito algumas telenovelas. Aliás, impressionante como ainda tem lindas e talentosas atrizes que ficam relegadas a novelas e muitas vezes perdemos a chance de conhecê-las ou de vê-las desempenhando um papel mais intenso.

Destaque também para a excelente fotografia do filme, em tons marrons, como a terra que suja os garimpeiros. Há uma sujeira que lembra alguns dos melhores westerns (americanos ou italianos). A sujeira também está nas ruas, especialmente na cidade onde os garimpeiros passam as noites, cheias de inferninhos e bordéis. Sem falar nos frequentes tiroteios, resultados de brigas e bebedeira. A trilha sonora ajuda a nos colocar naquele ambiente inóspito, mas perfeitamente agradável de ver do lado de cá da tela, ao longo da narrativa, tão bem amarrada.

No fim das contas, a experiência de Dhalia em Hollywood, com um cinema mais convencional, talvez o tenha ajudado a fazer um filme menos indie e mais clássico-narrativo. Em se tratando de sua filmografia, é, muito provavelmente, o seu grande acerto.

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