sábado, outubro 26, 2013

O CONSELHEIRO DO CRIME (The Counselor)



Se um grande filme pode ser descrito como sendo a junção de grandes cenas/sequências, temos, sem dúvida, um grande filme em O CONSELHEIRO DO CRIME (2013), o mais recente e um dos mais inspirados trabalhos de Ridley Scott. A ajudinha de Cormac McCarthy, autor do romance que deu origem à obra-prima ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ (2007), dos irmãos Coen, foi inestimável. Sua tendência a criar histórias cheias de desesperança combinou perfeitamente com a direção segura de Scott, que costuma fazer filmes com pouco ou quase nenhum alívio cômico. No caso de O CONSELHEIRO DO CRIME, há um alívio cômico: a antológica cena de Cameron Diaz e o carro.

Curiosamente o título ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ se aplicaria perfeitamente a este filme de Scott. Muito mais do que O CONSELHEIRO DO CRIME, já que o "counselor" do título original talvez fosse melhor traduzido como "advogado". Essa é a profissão do personagem de Michael Fassbender, que curiosamente não tem um nome no filme, é sempre chamado de "counselor", traduzido como "doutor" nas legendas. Na verdade, ele está até longe de ser um conselheiro, principalmente em seu primeiro investimento com tráfico de drogas. Seria uma maneira de ele manter o padrão de vida e dar o melhor para sua amada, vivida por Penélope Cruz. Em certo momento do filme, ele diz que viver é estar na cama com ela, tudo o mais é apenas espera.

Por mais que Scott seja pouco afeito a excesso de sentimentalidades em seus filmes, o amor que o advogado sente por ela é perfeitamente crível e tocante. A começar pela primeira cena do filme: um momento de intimidade entre o casal que poucos filmes americanos costumam apresentar. E essa apresentação da intimidade dos dois, que é tão boa de se ver, é só o começo de um filme que vai mudando de cenário a todo instante e criando uma intrincada teia de intrigas envolvendo o advogado, o traficante vivido por Javier Bardem, sua companheira pouco confiável vivida por Cameron Diaz, o verdadeiro conselheiro vivido por Brad Pitt, entre outros personagens secundários mas também bem importantes.

Aliás, tudo no filme parece importante, cada detalhe. Até a única cena em que vemos Bruno Ganz, no papel de um vendedor de diamantes, é um primor. A conversa que ele trava com Fassbender sobre tipos de diamantes é hipnotizante, assim como várias outras, em especial as duas com Brad Pitt, que interpreta um personagem cheio de carisma, mas que traz para o protagonista uma sensação de desconforto crescente em relação àquilo que ele está prestes a fazer. O segundo encontro, então, quando o filme já chegou a um crescendo de angústia e desespero, é ainda mais perturbador. E ao mesmo tempo fascinante para nós, apreciadores de um texto de qualidade, uma direção segura e um elenco afiado.

Há dois momentos que se destacam pelo aspecto filosófico e existencial: a conversa de Fassbender com um advogado mexicano, que contou de um poeta que perdeu a amada; e a conversa final da personagem de Cameron Diaz, sobre a natureza dos caçadores e da caça, da beleza de tudo. Soa perverso diante de toda a violência que o filme mostra em sequências bem gráficas inclusive, mas ao mesmo tempo é belo do ponto de vista da narrativa. Como se o próprio McCarthy descrevesse o seu prazer em montar narrativas e personagens que eventualmente serão caça e caçador e a maneira elegante como tudo isso é descrito.

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