quinta-feira, outubro 10, 2013

BOA SORTE, MEU AMOR



De dar gosto entrar na sala 2 do novíssimo Cinema do Dragão e dar de cara com uma cópia em DCP 4K e em scope em tão excelente qualidade. E a fotografia e o som de BOA SORTE, MEU AMOR (2012) são perfeitos para se testar o equipamento. Afinal, a fotografia e o som são dois elementos não apenas importantíssimos para o filme, mas são dois grandes destaques. E isso já é motivo mais do que suficiente para que o espectador fortalezense vá conferir essa experiência.

Se vai gostar ou não do filme de Daniel Aragão, aí é outra história, muito embora seja um trabalho dos mais interessantes dessa fervilhante fase que o cinema produzido em Pernambuco está vivendo atualmente. Inclusive, há sim semelhanças com O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho, principalmente no que se refere a tratar tanto do crescimento desordenado de Recife, quanto de problematizar o ambiente rural do estado, que ainda conta com um coronelismo cujas raízes ainda são profundas demais para ter desaparecido nos dias de hoje.

Para tecer esta sinfonia que envolve tanto arranha-céus, máquinas de escavação, apartamentos luxuosos e casebres semiabandonados no interior, com pessoas que mais parecem zumbis, Daniel Aragão nos apresenta uma história de amor entre Dirceu (Vinícius Zinn), funcionário de uma empresa de demolição, e Maria (Christiana Ubach), uma estudante de piano. Se por um lado, ele é conivente com a situação social, até por pertencer a uma classe mais abastada, Maria é mais revoltada com a atual hierarquia existente, já que sente na pele o que é dar duro na vida para sobreviver.

Uma cena bastante representativa desse abismo social e que chega a incomodar e a deixar o nosso coração pesado é uma em que Maria avista a mulher que conheceu numa festa de amigos do namorado, vivida por Maeve Jenkins (a inimiga do cão e amiga da máquina de lavar roupa de O SOM AO REDOR), e vai até lá cumprimentá-la. A recepção da mulher rica a ela, até por Maria estar vestida com trajes de quem está trabalhando nas ruas para promover alguma empresa, é fria e cruel.

Dividido em três atos, o filme dá mais atenção a Maria nos dois primeiros atos, chegando ao ponto de ela deter o ponto de vista da narrativa, para nos deixar sem chão no terceiro ato, que é provavelmente o melhor, com um sentimento de mal estar constante, ao acompanharmos a descida aos infernos de Dirceu. Quase como uma alegoria ao mito de Orfeu.

Essa história de amor um tanto cruel, se é que dá pra chamar de história de amor, é emoldurada por uma fotografia que, ao enfatizar os contrastes, funciona como metáfora para a própria história, para as diferentes condições sociais dos personagens; e por uma música que, com seus timbres muitas vezes dissonantes, contribui para aumentar o impacto das sensações desagradáveis que seus personagens vivenciam. Vale destacar também a participação de Carlo Mossy, em papel pequeno mas poderoso.

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