domingo, setembro 08, 2013

SE DEUS VIER QUE VENHA ARMADO



E começa a edição deste ano do Cine Ceará, agora com casa nova e uma estrutura um tanto estranha: funcionando ao mesmo tempo no pequeno teatro, onde acontecem as cerimônias ao vivo, e nas duas salas do novo e reformado cinema do Dragão do Mar. Pelo menos na primeira noite tudo transcorreu muito bem. Mas há ainda muitos dias pela frente para que possamos avaliar melhor o festival. Falemos do filme de abertura, SE DEUS VIER QUE VENHA ARMADO (2013), de Luis Dantas.

Seu protagonista é Vinícius de Oliveira, que estreou no cinema ainda criança, no papel de Josué, o menino que queria conhecer o pai no emocionante CENTRAL DO BRASIL, de Walter Salles. O ator teve sorte de não ser mais uma dessas crianças que desaparecem depois de um papel de destaque. Assim, depois de mais dois trabalhos com Salles, ele passou a voar por conta própria, ainda que sem trabalhar como protagonista. SE DEUS VIER QUE VENHA ARMADO é a sua chance de encabeçar um elenco com um papel desafiador.

No filme, o jovem ator interpreta Damião, um presidiário que consegue passe para o dia das mães em 2012, mas tem também uma tarefa a fazer para o crime organizado. Seu irmão o recebe em sua casa, mas o velho pai, que perdeu os trilhos de sua vida desde que sua esposa morreu (o velho sugere que foi por causa de Damião), o considera um vagabundo.

O filme também se concentra em mais três personagens, uma jovem professora de teatro, Cléo (Sara Antunes), o estudante de teatro e amigo de Josué, Palito (Ariclenes Barroso), e o policial novato (Leonardo Santiago) que, logo no primeiro dia de trabalho, presencia a brutalidade da polícia, representada principalmente por seu sargento, que quer a todo custo prender ou matar o sujeito que atirou em sua viatura. Isso acaba trazendo mais tragédias para Damião, que muda seu foco para a vingança. Contra a polícia. Contra o sistema.

O interessante desta produção é flertar explicitamente com o marginal, embora não seja tudo preto no branco. Mas há que se perceber o quanto a polícia é vista como um inimigo ainda mais diabólico do que o bandido. O fato de o filme tomar de empréstimo o título de uma canção da banda paulista de rap rock Pavilhão 9 evidencia de que lado Luis Dantas parece tomar partido.

Ao final da projeção, um grupo de manifestantes invadiu o teatro no qual o filme estava sendo exibido e fez suas exigências e reclamações diante de um país que ainda deve muito ao cidadão. Assim, a vida invadindo o campo da ficção foi bem-vinda e casou muito bem com a proposta do filme, que talvez seja um tanto mais radical, chegando a lembrar até mesmo as ações desesperadas de povos como os palestinos, diante das humilhações sofridas por anos e anos por parte dos israelenses.

Quanto às qualidades fílmicas de SE DEUS VIER QUE VENHA ARMADO, diria que há algo faltando para uma história que é supostamente cheia de emoções catárticas que não se concretizam de fato e fazem do filme mais uma tentativa do que um acerto. Ainda assim, é uma obra que merece atenção e funciona muito bem para provocar reflexão.

P.S.: A homenageada da noite desta 23ª edição do Cine Ceará foi a atriz, diretora e cantora portuguesa Maria de Medeiros, que recebeu o troféu Eusélio Oliveira e brindou o público com o seu sofisticado espetáculo e sua simpatia. Ao longo do festival, vários filmes estrelados ou dirigidos por ela serão exibidos.

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