sexta-feira, setembro 27, 2013

OLHO NU



Os longas-metragens mais populares desta última edição do Cine Ceará foram OLHO NU (2012), uma espécie de autobiografia poética de Ney Matogrosso, e MERCEDES SOSA, A VOZ DA AMÉRICA LATINA. Ambos, documentários sobre dois cantores muito queridos por uma parcela bem considerável do público. Logo, é natural que boa parte dos espectadores dessas sessões tenham sido de fãs dos respectivos cantores.

No que se refere a esse público, o documentário da mais famosa cantora da América Latina não decepcionou. Já no que se refere a OLHO NU, alguns fãs de Ney Matogrosso não gostaram da abordagem de Joel Pizzini, que preferiu abdicar dos modelos convencionais do gênero documentário para apresentar um painel com recortes de diversos momentos do cantor, não necessariamente em ordem cronologia, mas em ordem temática.

Eu, que não me considero fã de Ney Matogrosso, fiquei positivamente intoxicado durante a projeção, que reúne cerca de 80 canções do repertório do cantor, incluindo as do tempo dos Secos e Molhados, com as belíssimas imagens recentes, filmadas pelo próprio Pizzini, a maioria mostrando Ney sozinho e em contato com a natureza. Inclusive, um leve sentimento de solidão é sentido ao longo do filme, e Pizzini, na cobertura de imprensa, disse que o cantor, ao ver o filme pronto, falou ao cineasta: "Joel, você não acha que eu fiquei muito triste neste filme?"

De fato, pode ter ficado sim, talvez pela vontade de o diretor querer aproximar o tempo todo o seu filme de uma poesia. A voz do cantor contando sobre sua vida, junto com as mais belas canções de seu repertório e imagens lindas, às vezes usando panorâmicas, resultaram neste belo filme, que não é para todos os gostos. Talvez seja preciso gostar mais de cinema do que de sua música, mas também é importante gostar do cantor e saber algo a respeito, sob o risco de ficar um pouco desorientado, como foi o caso dos jornalistas estrangeiros presentes ao festival, que não conheciam o trabalho do intérprete.

Senti falta de citações ao grupo teatral Dzi Croquettes, que fazia um tipo de espetáculo parecido com o dele, utilizando torsos nus e másculos se rebolando de maneira feminina, além de muita maquiagem e outros acessórios. Era algo definitivamente ousado para a época, mas lembremos que o fim dos anos 1960 e início dos 1970, na Inglaterra, já trouxe o glitter rock. Logo, era algo do espírito da época também.

OLHO NU foi a segunda parceria de Pizzini com Ney Matogrosso. A primeira foi com o curta CARAMUJO-FLOR (1988), seu primeiro trabalho de direção. Curiosamente, OLHO NU ganhou o prêmio de melhor trilha sonora no festival. Pelo visto eles não ligam se Ney Matogrosso não compôs nenhuma das canções ou se a trilha tem que ser algo inédito. De todo modo, se é pra homenagear o cantor, não deixa de ser válido.

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