segunda-feira, setembro 23, 2013

A DOCE VIDA (La Dolce Vita)



Cerca de nove anos depois de ter visto A DOCE VIDA (1960) na telinha (com perda de imagem por causa das laterais cortadas), eis que surge a oportunidade de rever esta obra-prima de Federico Fellini na telona, em DCP 4K, nas novas instalações do Dragão do Mar. Não ia deixar passar uma oportunidade dessas. Em nove anos, muita coisa muda e, embora muitas cenas tenham ficado guardadas em minha memória, rever na telona, que valoriza principalmente os planos gerais, que são belíssimos, é outra coisa.

Pena que estava (aliás, estou) com o corpo todo moído, por causa de crise de laringite alérgica. Mas se eu me entregar não faço nada a não ser dormir. Então, fui cafeinado para sentir menos dores e ver o filme sem chances de dormir. Afinal, não é nenhum épico ou filme de fantasia. Aliás, nem é um exemplar felliniano no sentido mais amplo, no que o seu cinema se transformou a partir da década de 1970, cheio de tipos esquisitos e cenários mais oníricos. E embora goste muito de ROMA DE FELLINI (1972), a ponto de ter dito em 2004 que era o meu favorito do diretor, creio que o ponto que eu mais gosto de sua carreira está mesmo neste filme, que nos leva para os loucos anos 60, ainda em seu início, mas já trazendo a rebeldia da contracultura e um sentimento de vazio existencial que muito lembra NOITE VAZIA, filme que Walter Hugo Khouri faria quatro anos depois. Aliás, o alter-ego de Khouri, também de nome Marcelo, muito lembra este personagem de Mastroianni.

Não sei se por estar com o corpo moído, achei que havia um pouco de gordura no filme, mas provavelmente estou enganado. Cada cena tem a sua importância e o seu fascínio. Desde a cena de Marcello com a personagem de Anita Ekberg na Fontana de Trevi, uma das cenas mais famosas da História do cinema, ou a sequência da movimentação em torno de duas crianças que dizem ter visto a Virgem Maria. São duas cenas totalmente distintas, mas com igual poder de fascinação.

Aliás, impressionante como essas cenas um tanto soltas, que poderiam ser pequenos e poderosos curtas-metragens, ganham, de certa forma, uma unidade. Principalmente por causa da personagem de Emma (Yvonne Furneaux), a namorada oficial de Marcello, que aparece em quatro momentos importantes do filme. Inclusive, uma coisa que me chamou bem mais a atenção na revisão foi a DR dos dois no carro, com Marcello querendo a sua liberdade e a namorada querendo cada vez mais a sua presença. Afinal, sua vida é cheia de aventuras e ele não quer perder tempo em casa. Faz lembrar o discurso do pai de Marcello, em outro momento memorável. O velho diz que quando fica em casa se sente um velho de 80 anos, ao passo que se ele sai para o mundo, volta a se sentir vivo. São dois momentos que desta vez me chamaram a atenção.

No mais, as demais cenas clássicas continuam poderosas, embora eu tenha achado, nesta revisão, que a catarse na festa, na penúltima cena, ficou um pouco datada. Talvez por causa das restrições quanto às ousadias que se poderia ter na época. Ainda assim, o sujeito ficar em cima de uma mulher e tratá-la como uma égua é uma imagem forte o bastante, bem como a "transformação" dela numa galinha. Pra não dizer que é um filme machista, tudo foi feito com o consentimento da moça.

A DOCE VIDA é uma dessas maravilhas do cinema que só se criam de tempos em tempos. E embora haja várias mulheres lindas no filme, o grande astro é mesmo Marcello, vivido por Marcello Mastroianni, que na época tinha cerca de 36 anos e já apresentava visíveis cabelos brancos. Três anos depois ele retomaria a parceria com Fellini no cultuado 8 ½ (1963), outro filme que eu preciso rever, pois a primeira vez que vi em VHS não foi uma experiência muito boa.

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