terça-feira, janeiro 31, 2006

CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS



Que maravilha que é esse CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS (2005), de Marcelo Gomes. Fico até sem saber o que falar sobre o filme sem ter que repetir os elogios que tantos já escreveram a respeito. Se não me engano, o filme estreou em São Paulo e no Rio na mesma semana de CIDADE BAIXA, de Sérgio Machado. Os dois títulos são representativos de um novo cinema brasileiro, mais modesto na produção, mas ambicioso na realização. O filme de Marcelo Gomes teve distribuição em menos salas, provavelmente por não contar com nenhum ator global. Por isso o filme ficou restrito apenas ao circuito alternativo e infelizmente não deve parecer muito atraente para pessoas desavisadas. Mas o importante é que quem se permitir vê-lo vai passar 90 prazeirosos minutos na sala escura.

O filme começa com a tela bem clara, quase que toda branca, com a luz estourada, dando pra ver apenas, pelo retrovisor do caminhão, o rosto de Johann (Peter Ketnath), alemão fugido da Segunda Guerra Mundial que agora vive de vender aspirinas pelo Brasil. Ele usa o cinema como meio de divulgação da então pouco conhecida pílula. Ele arma um pano branco à noite, em pequenos vilarejos, e passa filmes promocionais sobre a pílula. Para o povo do interior que nunca tinha visto cinema, aquilo é uma maravilha; representa a chegada do progresso em suas vidas. É no sertão que Johann conhece Ranulpho (João Miguel), que fica trabalhando com ele como ajudante. Ranulpho tem uma personalidade ácida, vive dizendo que o lugar onde vive não presta, que quer mesmo é se mudar para o Rio de Janeiro e ser bem sucedido na vida. Numa cena em que Johann leva uma picada de cobra e acha que vai morrer, Ranulpho diz pra ele, numa maneira pouco gentil de consolá-lo: "vaso ruim não quebra". Já Johann, acha tudo muito interessante, curioso, e se sente feliz em estar num lugar onde, pelo menos, não caem bombas do céu. Enquanto isso, Ranulpho diz: "no Brasil, nem guerra chega." A amizade dos dois vai crescendo, à medida que eles vão se conhecendo e mostrando suas diferentes visões de mundo.

Assim como o alemão, que acha interessante as pessoas e o modo de vida dos sertanejos, não deixa de ser curioso o fato de o cinema nacional se voltar constantemente para o nordeste brasileiro, já que é um dos lugares que ainda conserva algo de exótico para aqueles que vivem em cidades mais cosmopolitas. Acho que desde o cinema novo que o nordeste é território de grande potencial cinematográfico. Os desertos, as árvores sem folhas, o sol escaldante, os cactus, a vida sofrida, tudo contribui para tornar o sertão nordestino um prato cheio para quem deseja contar uma história com um tempero de sofrimento. Espero que essa turma, formada por Marcelo Gomes, Karim Ainouz, Paulo Caldas e Sérgio Machado, cineastas que vivem no Nordeste e que estão contribuindo para a descentralização do cinema brasileiro, durante muito tempo centrado no eixo Rio-São Paulo, espero que eles recebam o respeito merecido daqueles que detêm o dinheiro para as produções, para que possam nos mostrar mais dessas pequenas pérolas.

segunda-feira, janeiro 30, 2006

MUNIQUE (Munich)



Em 2005, Spielberg repetiu o feito de 1993, quando dirigiu dois grandes filmes, JURASSIC PARK e A LISTA DE SCHINDLER. Um blockbuster e um filme mais sério, mais adulto, digamos assim. Sei que essa classificação não é muito feliz, já que há subtextos políticos também em GUERRA DOS MUNDOS, mas acho que me fiz entender. A diferença desses dois novos filmes de Spielberg está na controvérsia. A polêmica, no caso de MUNIQUE, é mais explícita, tendo em vista o tema explosivo escolhido pelo diretor. O fato de ele ter preferido uma certa neutralidade para acompanhar os passos de um grupo de cinco homens com a missão de matar os responsáveis pelo atentado em Munique, nas Olimpíadas de 1972, fez com que ele não fosse visto com bons olhos pela comunidade judaica. Os palestinos, obviamente, também não gostaram nada do filme. Como os EUA protege e é protegido pelos judeus é natural que se espere algo mais tendencioso para o filme, o que felizmente não ocorre.

Spielberg fez o seu filme mais violento até hoje. Até cenas de sexo (e com mulher grávida) e nudez frontal ele incluiu, o que não deixa de ser uma surpresa vindo do cineasta. Parece que ele parou com aquela besteira de querer fazer filmes para os seus filhos pequenos. O que é motivo de comemoração. Spielberg nos presenteou com duas seqüências eletrizantes, que lembram grandes momentos do mestre Hitchcock: a explosão no quarto de hotel e a bomba instalada no telefone. A cena da vingança à espiã holandesa também está entre os pontos altos.

Eric Bana chegou a manter contato com o verdadeiro Avner e leu muitos livros sobre o conflito entre israelenses e palestinos. Tentou entender o que é viver sob constante tensão. Pelo visto, isso funcionou bastante, como podemos ver ao final do filme, quando ele volta de sua missão e fica paranóico.

Dizem que no final de MUNIQUE, enquanto sobem os créditos, aparecem as torres gêmeas. Não percebi. Mas pode-se dizer que Spielberg quis mostrar que os EUA meio que se transformaram numa nova Israel, lugar marcado por constantes conflitos. A terra prometida já não existe mais.

MUNIQUE é desses filmes que nos fazem sair do cinema meio sem saber o que dizer, o que pensar. Com o tempo, ele cresce na memória afetiva, quando lembramos das espetaculares cenas de tensão e da fotografia maravilhosa do polonês Janusz Kaminski, que já havia trabalhado com Spielberg em outros nove filmes (e ainda vai ser o responsável pela fotografia dos próximos dois trabalhos do diretor). Foi uma experiência bem diferente de quando eu saí da sessão de GUERRA DOS MUNDOS, entusiasmado como uma criança que acabou de ganhar um doce. MUNIQUE, ao contrário, nos deixa com um gosto amargo na boca.

domingo, janeiro 29, 2006

MASTERS OF HORROR: FAIR HAIRED CHILD



E eis que chegamos ao nono filme da antologia MASTERS OF HORROR. Com a saída de Takashi Miike da programação do Showtime, ficam faltando agora apenas mais três títulos, dirigidos por Lucky McKee, Larry Cohen e John McNaughton. É possível que ainda surjam belas surpresas até lá, mas o fato é que, depois da excelente trinca Dante-Landis-Carpenter, a tendência agora é esfriar um pouco os ânimos.

FAIR HAIRED CHILD (2006) foi dirigido por William Malone. Junto com Mick Garris, Malone é um dos diretores menos nobres da turma. Seus títulos mais famosos são A CASA DA COLINA (1999) - refilmagem de A CASA DOS MAUS ESPÍRITOS, de William Castle - e MEDOPONTOCOMBR (2003), dois filmes que eu não cheguei a me entusiasmar para ver. Inclusive, chega a ser ridículo esse BR no título do filme. Acredito que esse foi o título nacional mais idiota que eu tive notícia.

FAIR HAIRED CHILD conta a história de uma jovem de 13 anos que é raptada por um homem e jogada num porão de uma casa bastante afastada. Dentro do porão está um garoto tentando se suicidar com uma corda. Depois que ela o impede de se matar, a menina tenta se comunicar com ele, a fim de procurar uma maneira de sair daquele lugar. O garoto não consegue falar e é freqüentemente alvo de choques no corpo, podendo se transformar numa criatura horrenda. Entre o casal de seqüestradores do filme está Lori Petty, bastante envelhecida, levando em consideração que ela foi a Tank Girl no filme homônimo de 1995.

FAIR HAIRED CHILD é um dos mais fracos da antologia. Mas ainda assim prefiro esse a DANCE OF THE DEAD, do Tobe Hooper.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

HAIR



HAIR (1979) é talvez o filme que melhor representa o ideal hippie. Ou ao menos, o mais famoso. Nele estão o lema "faça amor, não faça guerra", o amor à natureza, o desprezo pelo capitalismo e a simpatia pelo esoterismo. Em 1979, já havia acontecido o movimento punk, trazendo uma visão mais pessimista da sociedade; como também estava acontecendo o boom da discoteca. Portanto, o filme de Milos Forman não era bem uma novidade. Estava até um pouco anacrônico. Mas a Guerra do Vietnã era um acontecimento bem recente e a tarefa de adaptar a peça musical anti-bélica para o cinema foi mais do que bem vinda. Principalmente porque as canções apresentadas são muito legais e ajudaram a dar um gás no gênero musical, em decadência desde os anos 60.

O filme mostra um jovem rapaz (John Savage) prestes a se apresentar no exército para lutar no Vietnã. Como ele ainda tem um dia de folga em Nova York, resolve passear para conhecer a cidade. É quando ele encontra um grupo de hippies, com quem faz amizade, apesar das diferenças bastante evidentes. Entre uma e outra cena, ouvimos as canções e assistimos as coreografias. Algumas músicas são bastante conhecidas, especialmente "Aquarius". Mas há canções até mais bonitas, como "Electric Blues" e "Let The Sunshine In". Essa última, cantada no final do filme, chega a ser arrepiante.

Vendo HAIR e comparando o modo de vida daquele povo com a sociedade em que vivemos hoje é que vejo o quanto nos distanciamos cada vez mais daquele ideal. Nos tornamos ainda mais consumidores de shopping centers e menos apegados à natureza, mais apegados ao mundo virtual da internet e dos telefones celulares. O fato de nos aproximarmos de pessoas pela internet por afinidade não deixa de ser uma maneira mais espiritual de se gostar das pessoas, mas tenho minhas dúvidas se esse é o mais saudável modo de se relacionar. Se bem que também não é nada saudável ficar tomando LSD por aí e, com essa onda de AIDS, o sexo livre e as orgias acabaram se tornando algo perigoso.

Agradecimentos à Carol, que me emprestou o DVD.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

CASSINO ROYALE (Casino Royale)



Nunca fui fã dos filmes de James Bond e nem tinha vontade de ver CASSINO ROYALE (1967), paródia dos filmes de 007 produzida por Charles Feldman. Comecei a ficar curioso para ver esse filme graças aos comentários recentes de Quentin Tarantino, que chegou a dizer que sonhava em fazer um remake do título. Com certeza, Tarantino faria algo bastante original e divertido. Meio sem saber o que pegar quando passei na locadora no último sábado, resolvi arriscar. Afinal, o filme tinha participações de Woody Allen e Orson Welles. Logo, não podia ser ruim, pensei eu. Ledo engano: CASSINO ROYALE é um dos piores filmes que eu tive o desprazer de ver nos últimos meses. É mais divertido ler sobre sua realização do que ter que passar mais de duas horas o assistindo.

E a história da realização de CASSINO ROYALE é das mais interessantes. No começo, a intenção de Charles Feldman era de fazer um filme convencional de James Bond, mas bem melhor do que as produções de Albert Broccoli - na época, já haviam sido realizados três filmes do 007. Porém, quando Feldman não conseguiu trazer para o seu filme nem o Sean Connery nem a música de James Berry, ele resolveu levar na brincadeira e transformar o seu produto numa paródia. A coisa estava tão bagunçada que ele contratou vários diretores, sendo que um não sabia o que havia no script do outro. Os cinco diretores creditados foram Val Guest, John Huston, Kenneth Hughes, Joseph McGrath e Robert Parrish. Além disso, uma dúzia de roteiristas meteram a mão no roteiro, inclusive Billy Wilder. Woody Allen também teve participação nessa colagem. Uma das melhores cenas é aquela em que ele, prestes a ser fuzilado, avisa para os soldados que o médico lhe disse que ele tem baixa resistência à morte. Essa frase acabou por se tornar uma das mais famosas de Woody.

O método de Feldman era contratar grandes astros como Peter O'Toole, Jean-Paul Belmondo e George Raft para trabalhar num único dia e engrossar a lista de atores presentes, que já incluía: David Niven, Peter Sellers, Woody Allen, Ursula Andress, Charles Boyer, William Holden, John Huston, Deborah Kerr e Orson Welles. Entre as fofocas da produção, dizem que Peter Sellers se desentendeu de tal forma com Orson Welles, que se recusou a contracenar com ele. Se não me engano, os dois não aparecem juntos, nem mesmo na cena em que os dois estão na mesa do cassino.

Se essa bagunça toda tivesse alguma função até que eu teria gostado, mas a verdade é que as piadas hoje não têm a menor graça. O filme não gerou nada além de sono em mim. Foi preciso eu assistí-lo "em fascículos". A melhor coisa de CASSINO ROYALE é a música de Burt Bacharach, que agrada desde o primeiro momento. Outra coisa boa do filme é o desfile de beldades sensuais. Além de Ursula Andress, vale destacar a presença de Joana Pettet no papel de Mata Bond, filha de James Bond com Mata Hari, entre outras moças menos conhecidas mas tão sexys quanto.

A nova versão de CASSINO ROYALE está no forno, mas acredito que se trata de um filme bem mais convencional. Não deve ser nada parecido com esse estrago de dinheiro de Charles Feldman.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

CASA VAZIA (Bin Jip)



Uma das coisas que mais funcionam contra CASA VAZIA (2004), de Kim Ki-duk, é a frase que aparece no final. Fica parecendo uma tentativa do diretor de explicar o filme através de palavras, como se não tivesse sido capaz de passar a mensagem apenas com o filme. Das duas uma: ou o cineasta duvida da capacidade do espectador de entender sua obra ou ele duvida de seu próprio filme. Essa frase no final não deixa de ser uma ironia, já que o filme sustenta sua narrativa com pouquíssimas linhas de diálogo.

Falando assim, até parece que eu não gostei de CASA VAZIA. Na verdade, o filme é bastante agradável de se ver e o diretor tem a capacidade de contar uma história como se estivesse fazendo cinema mudo. Coisa que poucos diretores conseguem, já bastante acostumados com o uso das palavras. CASA VAZIA foi meu primeiro contato com o cinema de Kim Ki-duk. Tenho curiosidade de conferir A ILHA (2000), mas tenho antipatia até mesmo pelo título de PRIMAVERA, VERÃO, OUTONO, INVERNO...E PRIMAVERA (2003).

A trama de CASA VAZIA apresenta um rapaz que vive invadindo casas de pessoas que viajam. Como pagamento por sua estadia, ele realiza pequenos consertos, lava roupas, rega plantas etc. Estranhamente, esse rapaz não emite uma palavra. Nem mesmo quando descobre que uma das casas que ele invadiu não está vazia. Havia uma mulher na casa. Triste, ela tinha brigado com o marido e ficava chorando pelos cantos. Essa mulher gosta tanto do invasor (mudo?) que acaba por seguí-lo, invadindo com ele casas alheias.

O filme tem bons momentos de humor sutil - como quando ele tira fotografias das casas ou quando ele inventa "pegadinhas" para o carcereiro - e não cansa em nenhum momento. Sem falar que é mais um título que demonstra a vitalidade do atual cinema sul-coreano. Mas isso não é o bastante para um filme com tantas pretensões.

P.S.: Nova coluna para o CCR. Dessa vez eu falo sobre a realização de JULES E JIM, do Truffaut.

terça-feira, janeiro 24, 2006

PARCEIROS DA MORTE (The Deadly Companions)



Depois de obter sucesso dirigindo produções para a televisão, Sam Peckinpah conseguiu prestígio suficiente para dirigir o seu primeiro longa-metragem para o cinema: PARCEIROS DA MORTE (1961). E o homem já começou muito bem. Não foi uma estréia tão chapante quanto a de Fuller, que atacou logo um MATEI JESSE JAMES, mas PARCEIROS DA MORTE é desses filmes a que a gente começa a assistir e não quer mais parar. Ainda não tinha a violência que ficou famosa com MEU ÓDIO SERÁ TUA HERANÇA (1969). Na verdade, acho que Peckinpah ficou estigmatizado com esse negócio de violência. Como se todos os seus filmes fossem parecidos. O que não é verdade. O próprio Peckinpah tentou não se repetir, fazendo um filme lírico como A MORTE NÃO MANDA RECADO (1970) - o título brasileiro engana.

PARCEIROS DA MORTE mostra uma mulher (Maureen O'Hara, famosa por sua participação em alguns filmes de John Ford) lutando contra o preconceito numa cidadezinha. Ela havia perdido o marido num ataque de apaches e quando se muda para outra cidade com seu filho, todos acham que ela é mãe solteira. O fato de ela trabalhar como dançarina num saloon não ajuda muito. Do outro lado, temos um homem (Brian Keith) obcecado por vingança. Ele se une a dois foras-da-lei (Steve Cochran e Chill Wills) para assaltar um banco. O problema é que um outro grupo de pistoleiros chega primeiro ao banco e, durante o tiroteio, Keith mata acidentalmente o filho de Maureen. A maior parte do filme mostra os quatro personagens seguindo uma trilha para enterrrar a criança, tendo que passar por um deserto, sob o risco de ser atacado por apaches.

O filme já antecipa aquela melancolia que seria melhor trabalhada em filmes como A MORTE NÃO MANDA RECADO e PAT GARRET & BILLY THE KID (1973). Achei que a questão da vingança do protagonista não ficou muito bem resolvida. Seu motivo pareceu pouco para justificar o comportamento dele.

O DVD foi lançado recentemente pela Aurora. Pena que a imagem (em fullscreen) não é das melhores. Mas na falta de outra opção é mais do que bem vindo.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

A MARCHA DOS PINGÜINS (La Marche de l'Empereur)



Lembro que, quando eu era criança, aproveitava meu tempo livre com a criatividade. Assim como fazia com os bonecos dos super-heróis - alguém se lembra daqueles que a gente ganhava quando juntava tampinha da Pepsi? -, às vezes eu ficava olhando pra rua e vendo o comportamento dos cachorros vira-latas e inventando historinhas para eles. Como eu gostava muito de história em quadrinhos, esses cachorros me inspiraram uma vez até a fazer uma história sobre eles também. O problema maior, e que me impediu de eu continuar com esse trabalho, era que eu nunca fui um bom desenhista. Hoje eu sei que é possível fazer uma HQ de qualidade com desenhos toscos, mas naquela época isso nem me passava pela cabeça.

O trabalho de Luc Jacquet em A MARCHA DOS PINGÜINS (2005) é semelhante ao que eu fazia quando criança, guardadas as devidas proporções. Jacquet colocou dois diretores de fotografia durante um ano na Antártica filmando o máximo possível de imagens dos pingüins-imperador para que, com a edição, fosse possível criar uma história ficcional baseada no ciclo reprodutor dos pingüins. E a história, reforçada com as imagens espetaculares, é realmente impressionante. Acredito que a cena mais forte do filme é aquela em que os pingüins machos agüentam uma demorada tempestade de gelo, enquanto protegem com todo o cuidado os seus filhotes.

A MARCHA DOS PINGÜINS é um filme tão envolvente que nos momentos em que nossos pequenos heróis passam por apuros a gente sente até um certo medo também. Há dois momentos de terror e suspense no filme. Até das muito criticadas narrações, eu gostei. E não me senti nem um pouco constrangido. Não sei como está a versão dublada em português. O filme tem três narradores: dois para o casal de pingüins e um para o filhote. Quem faz a narração do macho, inclusive, é Charles Berning, de ESPIONAGEM NA REDE, de Olivier Assayas.

O que eu achei mais curioso foi o fato de esses pingüins passarem meses sem comer nada e do enorme sacrifício a que eles se submetem para manter vivo o ovo ou o filhote. Também achei curioso o fato deles serem capazes de conhecer uns aos outros, mesmo depois de todo o tempo distante. O filme faz com que a gente se sinta maravilhado com o milagre da vida. Em certos momentos parece que os pingüins formam um só todo pensante, sem individualismos. Mas em outros, há uma grande semelhança com o individualismo humano. Sobretudo na cena que uma das fêmeas, depois de ter perdido seu filhote durante uma tempestade de gelo, tenta tomar o filhote da outra.

domingo, janeiro 22, 2006

MASTERS OF HORROR: CIGARETTE BURNS



Certas coisas não têm preço. Tirando o que a gente paga pelo serviço Velox, pode-se dizer que sai praticamente de graça ver três obras seguidas e inéditas de três dos maiores mestres do cinema de horror do mundo. Depois de ter conferido duas pérolas de Joe Dante e John Landis, chegou a vez de ver CIGARETTE BURNS, a contribuição de John Carpenter para a antologia MASTERS OF HORROR.

Abrindo um parênteses no filme do Carpenter, a bomba da semana foi a notícia de que o canal Showtime vetou a exibição de IMPRINT, de Takashi Miike. Segundo o produtor Mick Garris, o filme de Miike era muito perturbador, que era difícil até pra ele, acostumado com filmes de terror barra-pesada. IMPRINT vai poder ser visto apenas quando for lançado em DVD.

Voltando a CIGARETTE BURNS, a trama é das mais instigantes. A história envolve um colecionador de filmes raros (Udo Kier) que deseja conseguir uma cópia do ultra-maldito "Le Fin Absolute du Monde". Dizem que todos os envolvidos nesse filme ou morreram ou ficaram loucos. "Le Fin Absolute du Monde" teve uma única exibição. Os espectadores que estiveram presentes na sessão enlouqueceram e mataram uns aos outros. Udo Kier contrata, então, os serviços de um sujeito que é famoso por conseguir filmes bastante raros. Como o rapaz estava precisando de grana urgente, sob risco de perder a própria vida, acaba enfrentando a missão.

A trama é uma espécie de variação desses filmes em que pessoas saem à cata de snuff movies, tipo 8 MM e TESIS, só que com mais mistério ainda, já que se trata de algo ligado ao sobrenatural. Uma pena é que o final do filme acaba um pouco com o mistério. Só na conclusão é que o filme perde um pouco alguns pontos. Mas ainda assim é um filmaço e os fãs de gore não se decepcionarão com as várias cenas de mortes e agressões físicas que aparecem pelo filme. Destaque para a cena de Udo Kier usando suas próprias vísceras como filme! Além disso, CIGARETTE BURNS é um filme que nos faz refletir sobre a nossa própria condição de cinéfilos.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

MISTÉRIOS DA CARNE (Mysterious Skin)



Demorei quase uma semana para escrever sobre MISTÉRIOS DA CARNE (2004). Esse é o tipo de filme que precisa ser pensado e repensado. Se bem que com esse meu ritmo de ver vários filmes, eu corro o risco de acabar esquecendo um pouco os anteriores. Quando vou escrever sobre eles é que vou me lembrando de certas coisas. Mas, independente do que eu possa racionalizar ou analisar os pontos negativos do filme, o fato é que ver MISTÉRIOS DA CARNE foi um grande prazer pra mim. Uma hora e meia de olhos grudados na tela e de grande interesse pela história e pelos personagens. Sentir prazer é até um pouco estranho quando se está falando de um filme que trata de um assunto tão barra-pesada quanto a pedofilia. E alguém pode até dizer que o diretor (Gregg Araki) pode ter falhado nesse ponto se a sua intenção era chocar.

Porém, acredito que a intenção do diretor não era chocar. Embora o filme trate de lembranças dolorosas e de suas repercussões nas vidas dos garotos, essas memórias são tratadas como algo bastante dúbio. Às vezes até com certo romantismo e saudosismo. De um lado, temos o caso do garotinho que esqueceu cinco horas de sua vida e acredita que foi abduzido por alienígenas; de outro, o menino que desde criança já descobriu que gostava de homens e se deixou ser seduzido pelo treinador do time de beisebol. Já grandinhos, esses meninos seguem caminhos opostos: um se transforma num nerd assexuado e obcecado por discos voadores, o outro vira um garoto de programa que, depois de ter transado com (ou feito felação em) todos os homens da cidade, muda-se para a grande Nova York. Entre os coadjuvantes, destaque para Michelle Trachtenberg, mais conhecida por sua participação na série BUFFY, A CAÇA-VAMPIROS. Pena que a participação dela é pequena no filme.

Mesmo já advinhando parte da revelação que vai acontecer no final, quando os dois rapazes finalmente se encontram, esse final não deixa de ser belo e triste. Depois de tanto sofrimento, ainda será possível refazer as vidas depois de tantos traumas? Gregg Araki teve a coragem de mostrar a sexualidade em crianças, algo bastante incomum dentro do cinema americano. Só me lembro de ter visto tal coisa em filmes italianos ou franceses. Mas nunca de maneira tão agressiva. Uma prova de que o cinema independente americano é algo que corre paralelo e realmente independente do que se faz em Hollywood. Para evitar maiores controvérsias, Araki disse numa entrevista que durante as filmagens das cenas de sexo com as crianças, elas não sabiam do conteúdo sexual das cenas e que só seria possível para elas entendê-las se as visse depois da edição. Porém, fiquei me perguntando: será que as crianças puderam ver o filme depois, já que aqui ele ganhou classificação 18 anos (nos EUA, NC-17)?

quinta-feira, janeiro 19, 2006

O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA (Du bi quan wang da Poe xue di zi / The One-Armed Boxer II / Master of the Flying Guillotine / The One-Armed Boxer Vs. The Flying Guillotine)


Quem costuma fuçar nos saldões de DVD dos grandes magazines pode dar de cara com esse belo exemplar do cinema de artes marciais. Eu confesso que eu me tornei um pouco mais interessado nesse gênero só depois de KILL BILL. Tarantino meio que implantou em mim um pouco do prazer de ver um bom filme de artes marciais, embora minha formação esteja bastante distante disso tudo. Quando criança eu era mais de ficar lendo revista em quadrinhos (ou a Bíblia!) do que ficar brigando na rua.

O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA (1974) pode ser encontrado no Extra e a capinha do DVD já chama a atenção com os dizeres "o filme preferido de Quentin Tarantino". Bom, não sei se isso é verdade ou se é pura picaretagem da distribuidora para vender o produto, mas acredito que, no mínimo, Tarantino deve ter gostado bastante desse filme. Até já procurei pela internet um ranking dos filmes preferidos do Tarantino, mas não encontrei. Mas deixemos Tarantino de lado, que o filme tem dono. E o dono aqui chama-se Wang Yu, ou Jimmy Wang Yu, um astro que só não fez mais sucesso porque foi eclipsado por Bruce Lee.

O MESTRE DA GUILHOTINA VOADORA é a continuação de O BOXEADOR CHINÊS DE UM BRAÇO (1971). Na trama, o tal homem de um braço só (o próprio Wang Yu) é um mestre de uma escola de artes marciais que tem que enfrentar um poderoso monge cego que empunha uma arma capaz de decepar a cabeça das pessoas. Ele sai à procura do sujeito que matou seus dois amigos. Sua única pista: o sujeito tem apenas um braço.

O filme se concentra muito tempo num torneio dos melhores lutadores do mundo. Esse torneio é sangrento e as lutas em geral terminam em morte. Bem divertido ver os diversos tipos de luta e os mais bizarros lutadores. O mais estranho deles é um indiano capaz de esticar os braços feito o Homem-Elástico!! De início, essas lutas parecem não ter nada a ver com a trama principal, mas depois percebemos que alguns desses lutadores tomarão parte, de alguma maneira, no combate final, entre o monge cego e o homem de um braço.

O DVD vem dublado em inglês, mas estranhamente, em alguns momentos, os atores falam cantonês (ou seria mandarim?). Não sei se isso é deficiência da dublagem americana. Mas o bom é que o filme está com a imagem boa e em widescreen 2.35:1.

Quem quiser saber mais sobre o filme, recomendo ler o texto do especialista Otávio Moulin do Cineprojeto 365.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

MASTERS OF HORROR: DEER WOMAN



Desisto de tentar dizer qual é o melhor filme de MASTERS OF HORROR. Depois de ter admirado HOMECOMING, o belo horror-político de Joe Dante, e dito que se tratava do melhor da antologia, eis que DEER WOMAN, de John Landis, me deixou chapado e tomou o lugar do filme de Dante no topo de minhas preferências. Assisti a DEER WOMAN com um sorriso no rosto durante praticamente o filme inteiro.

DEER WOMAN é filme irmão de UM LOBISOMEM AMERICANO EM LONDRES (1981), o melhor filme de lobisomem já feito. E assim como o seu parente clássico, DEER WOMAN é um "filme de monstro". O monstro aqui é inspirado numa lenda indígena americana, sobre uma criatura metade mulher, metade veado, que seduz e mata os homens. A trama começa com um detetive deprimido - o cara havia levado um par de chifres da esposa, de quem estava separado - que é chamado para investigar um caso estranho. O corpo de uma vitima foi encontrado dentro de um caminhão. Na verdade não era bem um corpo. Era como se alguém o tivesse colocado dentro de um liquidificador gigante. Procurando investigar esse caso bizarro, os detetives até lembram de um estranho caso de um certo lobisomem que aparecera em 1981, na cidade de Londres. Enquanto isso, a mulher-veado faz novas vítimas.

A moça que faz a mulher-veado é a brasileira Cinthia Moura, uma top model debutando no cinema. Ela foi convidada por Landis por ter uma certa semelhança com as índias americanas. Ainda assim, foi preciso que colocassem um pouco de maquiagem no seu corpo a fim de tornar sua pele um pouco mais escura. Essa mulher é um espetáculo de beleza e em determinada cena ela ainda consegue ser assustadora. O filme é narrado com um certo humor negro que nem todo mundo conseguiu apreciar. As seqüências em que o detetive tenta entender como aconteceu o crime são hilárias. Fora que o filme mostra o quanto uma mulher bonita exerce poder sobre os homens, que viram verdadeiros patinhos em suas mãos.

DEER WOMAN representa o retorno de Landis à boa forma do passado. Os anos 90 não foram muito felizes para o diretor, já que o seu trabalho mais famoso nessa década foi o videoclipe "Black or White" (1991), que ele fez para o Michael Jackson. Nos anos 80, "Thriller", também dirigido por ele, revolucionou o mundo dos videoclipes. Parece que agora ele está voltando com força total, já que ele anunciou quatro produções dos gêneros favoritos dele: comédia e terror.

P.S.: Pra quem se interessar, entrevista de Cinthia Moura no link.

terça-feira, janeiro 17, 2006

GLOBO DE OURO 2006



O Globo de Ouro desse ano foi um dos mais previsíveis e sem graça dos últimos anos. Valeu assistir por pequenos detalhes. Seja por alguns engraçados discursos de agradecimento, seja pra ver as beldades da festa. Globo de Ouro é a festa em que eu mais me permito ser superficial e ver quem está bonito(a), quem está feio(a). Se Hollywood se destaca muito por seu glamour, nada mais natural que isso esteja no centro das atenções. Para o Globo de Ouro, vou só fazer algumas observações soltas e sem nenhuma ordem.

- A mais bela da festa: Evangeline Lilly, a Kate de LOST, num vestidinho verde. Sou doido por essa menina. Quando ela anunciou o prêmio de melhor ator de série, ela devia estar torcendo pelo Matthew Fox. A segunda mais bela da festa era talvez Scarlett Johansson (foto). Tenho impressão que ela está arrasadora no novo filme do Woody Allen. Passaram um pedacinho de MATCH POINT pra gente tomar um gostinho. E tomara que o filme fique entre os cinco indicados à categoria principal do Oscar para que ele chegue aqui mais cedo.

- Chega a ser irritante a imprensa babando o ovo por causa da premiação do filme de Fernando Meirelles. Repararam que o destaque que a imprensa colocou no final da premiação foi: atriz de filme de Meirelles ganhou o prêmio de atriz coadjuvante? Por falar nela, como pode a Rachel Weisz ter se enfeiado tanto? E nem é porque está grávida. Muita mulher fica até mais bonita quando está grávida. Parece que ali foi questão de mal gosto mesmo. Roupa, cabelo e maquiagem horríveis. Melhor parar senão eu fico parecendo aqueles críticos de moda. E disso eu não sei nada.

- O discurso de agradecimento mais engraçado que eu já vi na vida: Steve Carrell (revelação por O VIRGEM DE 40 ANOS), recebendo prêmio de ator pela série THE OFFICE, avisou que não havia preparado discurso, mas que sua esposa preparou por ele. Esse Carrell merece fazer mais comédias para o cinema. O homem é dos bons. Deixou Chris Rock comendo poeira.

- Esse negócio de bronzeamento artificial às vezes deixa as mulheres com uma pele feia. Mariah Carey estava a cara da Queen Latifah (como ela está bem acima do peso, essa semelhança se acentuou) e Jessica Alba parecia que tinha vindo parar em Fortaleza e dormiu o dia todo enquanto pegava sol.

- Minha série favorita da atualidade - LOST - papou o prêmio de melhor série (drama). E J.J.Abrams subiu no palco com parte do elenco e da equipe técnica. Eles merecem.

- Pelo visto, O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, de Ang Lee, vai ser o grande favorito ao Oscar. Vamos ver se os membros da academia também vão curtir a história de amor dos caubóis gays. Parece ser um dos melhores trabalhos de Lee.

- Reese Witherspoon está no auge. Não tinha pra ninguém o prêmio de melhor atriz (comédia ou musical). JOHNNY E JUNE foi a grande surpresa da noite, faturando ainda os prêmios de melhor filme e ator (comédia ou musical). Será que as chances para o Oscar também são altas?

- Uma das vantagens do Globo de Ouro é fazer com que nós saibamos quais são as produções para a tv mais celebradas do momento. Não me refiro às séries, mas aos filmes e mini-séries. Em anos anteriores, tivemos como destaque ANGELS IN AMERICA e A VIDA E MORTE DE PETER SELLERS. Esse ano, fiquei interessado em ver as mini-séries EMPIRE FALLS e ELVIS. Vamos ver quando é que elas chegam em DVD ou tv paga.

- Ang Lee, quando recebeu das mãos de Clint Eastwood o prêmio de melhor diretor por O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN, demonstrou o seu respeito ao homem tratando Clint como "the man". Uma simpatia, o Ang Lee.



Lista dos vencedores

CINEMA

Melhor Filme Musical ou Comédia
JOHNNY E JUNE

Melhor Filme Drama
O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN

Melhor Diretor
Ang Lee (O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN)

Melhor Atriz Dramática
Felicity Huffman (TRANSAMERICA)

Melhor Ator Dramático
Philip Seymour Hoffman (CAPOTE)

Melhor Ator de Comédia ou Musical
Joaquin Phoenix (JOHNNY E JUNE)

Melhor Atriz de Comédia ou Musical
Reese Witherspoon (JOHNNY E JUNE)

Melhor Ator Coadjuvante
George Clooney (SYRIANA)

Melhor Atriz Coadjuvante
Rachel Weisz (O JARDINEIRO FIEL)

Melhor Roteiro
Larry McMurtry e Diana Ossana (O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN)

Melhor Trilha Sonora
John Williams (MEMOIRS OF A GEISHA)

Melhor Música
"A Love That Will Never Grow Old" (O SEGREDO DE BROKEBACK MOUNTAIN)

Melhor Filme Estrangeiro
PARADISE NOW (Palestina)

TELEVISÃO

Melhor Série Dramática
LOST (ABC)

Melhor Série Cômica
DESPERATE HOUSEWIVES (ABC)

Melhor Minissérie ou Telefilme
EMPIRE FALLS (HBO)

Melhor Atriz Dramática
Geena Davis (COMMANDER IN CHIEF)

Melhor Ator Dramático
Hugh Laurie (HOUSE)

Melhor Atriz de Comédia
Mary-Louise Parker (WEEDS)

Melhor Ator de Comédia
Steve Carell (THE OFFICE)

Melhor Atriz em Minissérie ou Telefilme
S. Epatha Merkerson (LACKAWANNA BLUES)

Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme
Jonathan Rhys Meyers (ELVIS)

Melhor Atriz Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme
Sandra Oh (GREY'S ANATOMY)

Melhor Ator Coadjuvante em Série, Minissérie ou Telefilme
Paul Newman (EMPIRE FALLS)

Prêmio Cecil B. DeMille por Conjunto da Obra
Anthony Hopkins

segunda-feira, janeiro 16, 2006

TUDO EM FAMÍLIA (The Stone Family)



Meu interesse inicial em TUDO EM FAMÍLIA (2005) foi pelo elenco feminino. Gosto muito de Sarah Jessica Parker (principalmente por causa de sua personagem em SEX AND THE CITY), da nova sensação Rachel McAdams, de Claire Danes e da minha musa "woodyalleniana" favorita Diane Keaton, cada vez mais assumindo papéis de pessoas mais velhas. Ela já havia feito uma cena de nudez bastante ousada em ALGUÉM TEM QUE CEDER e agora dá mais um passo rumo à aceitação da terceira idade.

Porém, quem eu gostei mais no filme foi da Rachel McAdams, que faz o papel da moça implicante que não vai com a cara da cunhada (Sarah Jessica Parker, indicada ao Globo de Ouro pelo papel) que o irmão (Dermot Mulroney) traz para a festa de natal da família com o propósito de propor-lhe casamento. Sua família é liberal: os cabeças (Diane Keaton e Craig T. Nelson) aceitam o namorado do filho surdo numa boa, tratando-lhe com todo o carinho. Um dos momentos mais tocantes do filme é quando Diane Keaton demostra o seu imenso amor de mãe ao filho com deficiência auditiva. O curioso é que o filme critica um pouco uma certa intolerância a críticas que as famílias democratas demonstram ter. Há uma espécie de ditadura do politicamente correto.

O foco do filme está principalmente no relacionamento entre Mulroney e Sarah e na dificuldade que ela tem de se entrosar com a família, que por sua vez também não lhe dá folga. Ela é muito nervosa e tensa, não consegue relaxar nenhum momento e ainda por cima tem que agüentar uma menina chata lhe enchendo o saco. A menina chata, Rachel McAdams, está adorável. Nem quando é insuportável de chata eu deixo de gostar dela. Quem também brilha muito é Claire Danes, que aparece lá pelo meio do filme e chama bastante a atenção. Talvez o problema do filme esteja mais na maneira muito rápida com que as coisas se resolvem entre os personagens, mas é algo que dá pra relevar. A relação de Sarah com Luke Wilson é até melhor trabalhada.

TUDO EM FAMÍLIA equilibra muito bem momentos de puro melodrama com outros de comédia pastelão, que às vezes surge como uma espécie de alívio cômico. Por conta de seus vários clichês (que não me incomodaram nenhum pouco, quero deixar claro), o filme vem sendo recebido com certo cinismo pela crítica. Acho que se o filme tivesse sido lançado aqui no natal talvez tivesse um maior impacto nas emoções do público, já que no final do ano as pessoas costumam ficar mais sensíveis. Mas independente da época do ano, o filme emociona bastante, principalmente as pessoas que têm um carinho especial por suas próprias famílias. Quem nunca pensou que um dia alguém que a gente ama muito pode não estar mais entre nós? Essa possibilidade pode ser algo que a gente até evita pensar, mas ela faz com que momentos aparentemente banais ganhem um significado muito maior.

domingo, janeiro 15, 2006

ESCURIDÃO (The Dark)



Todo mundo está descendo a lenha neste ESCURIDÃO (2005), de John Fawcett. Então, não pretendo me juntar ao coro dos insatisfeitos. Não teria graça. O filme pode até ser mesmo ruim, mas eu vou tentar falar um pouco de seus méritos. Embora seja quase impossível evitar de falar de seus vários defeitos.

Na verdade, logo que eu vi o trailer, eu sabia que se tratava de uma picaretagem das grandes. Notei que a cena em que uma pessoa se joga de um precipício é idêntica a uma cena de O CHAMADO. Não contente em copiar essa cena, Fawcett ainda copia um pouco da trama de O CHAMADO 2.

Antes de continuar a falar sobre ESCURIDÃO, vamos dar uma checada no diretor. Quem é John Fawcett? Esse diretor canadense tem um filme de terror muito bom no currículo: POSSUÍDA (2000), título subestimado pela platéia em geral, mas descoberto pelos fãs de cinema de horror nas locadoras. Trata-se de um dos melhores filmes de lobisomem já feitos. Teve duas continuações não dirigidas por Fawcett, que eu não cheguei a ver. O restante do currículo do diretor foi dedicado principalmente a séries de televisão. Fawcett pode não ser um mestre do gênero, mas tem experiência na direção e um ótimo filme do gênero em sua filmografia.

Voltando a ESCURIDÃO, com meia hora de filme, eu confesso que já queria que ele terminasse. Já estava pensando no que eu iria comer quando saísse do cinema, entre outras coisas que aparecem na cabeça da gente quando o filme não nos fisga. Na trama, mulher (Maria Bello) vai visitar o ex-marido (Sean Bean) em companhia da filha, numa região meio desolada do País de Gales. Ao chegar lá, ela já começa a perceber que o lugar é bem sinistro e a partir de um pesadelo teme pela morte da filha. Não deu outra, mal ela tira os olhos da menina, ela desaparece. Seu corpo não é encontrado.

Maria Bello se esforça bastante para dar credibilidade ao filme, no papel da mãe desesperada para encontrar a filha. A coisa começar a ganhar forma quando ela encontra uma menina misteriosa parecida com sua filha. Fazendo algumas pesquisas (bem típicas desse tipo de filme), ela descobre que essa menina havia morrido há mais de cinqüenta anos. E a tal menina diz que sabe onde está sua filha.

No meio de um monte de sustos fáceis e irritantes e uns flashbacks mais irritantes ainda, quem não desistiu do filme ainda pode perceber que ele melhora a partir de seu terço final. O final, aliás, é assustador, especialmente se tivermos a sensibilidade de nos colocarmos no lugar da protagonista. A cena em que Maria Bello vai parar no mundo dos mortos é um dos destaques. A fotografia fica mais escura e embaçada, criando uma atmosfera toda especial.

ESCURIDÃO é o tipo de filme que, se o diretor tivesse um maior cuidado, se tivesse evitado os tais sustos fáceis e as cópias de cenas de outros filmes recentes, poderia ter um resultado bem mais satisfatório e não seria motivo de chacota para a maioria dos críticos.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

EXÍLIOS (Exils)



EXÍLIOS (2004), de Tony Gatlif, foi um filme que fez com que eu lidasse principalmente com meus preconceitos. Especialmente quando me senti forçado a ver aquele longo plano-seqüência da incorporação, já perto do final do filme. Quem me conhece sabe o quanto eu vejo com olhos não muito amistosos algumas religiões afro. Acho que o fato de eu ter raízes no Protestantismo contribui um pouco para essa minha resistência a religiões que lidam com incorporação de entidades ou algo parecido.

Outro preconceito, esse de natureza ainda mais cultural, se deve aos países visitados pelos protagonistas. Acho que não ficaria nada à vontade tendo que dividir o mesmo prato de comida com dezenas de estranhos. EXÍLIOS foi um dos poucos road movies que não me trouxe aquela sensação de alegria que normalmente sinto com esse tipo de filme. Talvez eu já estivesse prevendo o que viria pela frente. Quem não viu o filme e me vê falando assim até acha que se trata de uma tragédia ou coisa parecida. Não é.

Como cinema, não dá pra negar as qualidades do filme. O formato scope é muito bem preenchido e as cenas que mostram a natureza - as flores, as árvores, as nuvens, a cena de sexo no pomar - também são muito bonitas. Gostei particularmente das cenas que focalizavam a personagem de Lubna Azabal. Inclusive, essa atriz está num filme que muito me interessa: PARADISE NOW (2005), de Hany Abu-Assad, sobre dois amigos de infância que são recrutados para uma missão suicida, trabalhando de homens-bomba.

Quanto a EXÍLIOS, apenas não me identifiquei com os personagens, não entendi a proposta nem as metáforas do diretor, não tenho espírito cigano e nem tenho curiosidade de procurar minhas raízes. Lembro que um dia, até pensei nisso, de onde veio o avô de meu avô, por exemplo. Mas não chegou a ser uma idéia fixa, algo que me fizesse ir atrás de minhas origens. Talvez eu veja a questão das origens como algo que transcende o corpo e o núcleo familiar, algo ligado diretamente ao mundo espiritual. Acredito que EXÍLIOS foi um filme que o diretor fez para si mesmo, o que é ótimo. Sorte dele que muita gente gostou.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

MASTERS OF HORROR: HOMECOMING



Posso dizer sem sombra de dúvida que HOMECOMING é o melhor filme exibido na antologia MASTERS OF HORROR. Pelo menos, entre os que eu pude ver até o momento. Curiosamente, como o próprio Joe Dante falou, o filme é provavelmente o menos assustador de todos da série.

HOMECOMING é um filme político de zumbi, parecido com os de George Romero, mas bem menos codificado. A intenção de Joe Dante é mesmo tornar o filme claro para a audiência, de modo que todo mundo entenda a mensagem. Na trama, soldados mortos na Guerra do Iraque voltam para assombrar os republicanos em plena campanha de reeleição para Presidente da República. Um detalhe importante é que os zumbis não são tão violentos quanto os dos filmes de Romero. Eles só querem votar na eleição para Presidente. Apesar da ênfase na política, os efeitos especiais e de maquiagem comumente vistos nesse tipo de filme também são muito bem utilizados em HOMECOMING. Em especial, numa cena em que um cientista faz experimentos com um dos zumbis, já tendo lhes retirado os braços e as pernas.

Em nenhum momento o filme cita o nome de George Bush ou do Iraque, mas isso nem é necessário. Em determinada cena, a mãe de um dos soldados que morreram no conflito fala para um programa de televisão, perguntando-se porque razão o seu filho morreu, já que não havia as tais armas de destruição em massa, que eram a principal razão alegada pelo governo dos EUA para que houvesse uma invasão ao Iraque. Seu filho morreu por uma mentira. E toda essa raiva está bastante presente no filme. Há uma revolta, não apenas pela morte de americanos, mas de iraquianos também.

Não tinha reparado no quanto os filmes de Joe Dante são políticos. Se bem que nem teria bem como reparar, já que vi poucos de seus filmes. Na revista eletrônica Cinema Scope tem uma entrevista sensacional com o diretor, onde ele bota a boca no trombone e fala mais de política do que de cinema. Vale a pena ler a entrevista completa.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

HOWARD HAWKS EM DOIS FILMES



Uma vez que a gente se familiariza com o cinema de Howard Hawks torna-se quase impossível não amar seus filmes. Foi bom demais ver tão perto um do outro os westerns-irmãos EL DORADO (1967) e RIO LOBO (1970). O ideal seria também ter revisto o incensado RIO BRAVO (1959), que vi numa época em que não era fã de Hawks. Tenho certeza que revendo hoje eu iria gostar muito mais. Fica pra uma próxima vez. Por enquanto, estou dando por encerrada essa minha primeira peregrinação pela obra do diretor. Também terminei de ler a deliciosa entrevista que Hawks deu a Peter Bogdanovich, contida no livro Afinal, Quem Faz os Filmes. É, com certeza, uma das melhores entrevistas do livro, até pelo fato de que toda a filmografia do homem é comentada, do primeiro ao último filme.

EL DORADO e RIO LOBO são dois filmes derivados de RIO BRAVO, quase remakes. Ambos contêm uma cena no qual os heróis ficam acuados dentro de uma delegacia, enquanto os bandidos ameaçadores estão do lado de fora. Os três filmes são protagonizados por John Wayne.

EL DORADO

Provavelmente a última obra-prima de Hawks. E o último filme onde podemos ver com força total a rapidez e agilidade típicas do diretor. No filme, John Wayne é um dos melhores pistoleiros da região que visita o seu amigo xerife de El Dorado (Robert Mitchum). Por questões éticas, ele acaba desistindo de cumprir um serviço na cidade e por causa disso, ele acaba levando um tiro nas costas. O médico não consegue tirar a bala, alojada próxima à espinha, e por isso, com certa freqüência Wayne tem espasmos de dor seguidos de uma paralisia. Depois de algum tempo, ele retorna a El Dorado, dessa vez ao lado de seu novo amigo Mississipi (James Caan) - Hawks tinha que manter a sua tradição em botar apelidos nos personagens. Mississipi era um sujeito que sabia manejar bem uma faca, mas era péssimo no uso de uma arma. Chegando na cidade, Wayne descobre que seu amigo (Mitchum) havia se tornado um alcóolatra. Tudo culpa de uma mulher que havia lhe abandonado. Seu principal companheiro era um velho que se orgulhava de ter lutado contra índios no passado. Imagina só: um pistoleiro com uma bala alojada, um xerife alcóolatra, um jovem que não sabe atirar e um ancião. Quando os quatro têm que lutar contra os bandidos lá perto do final do filme, não tem como não ficar emocionado. EL DORADO é um dos filmes que trazem mais forte o sentimento de heroísmo. Emocionante o tiroteio final. E adoro o epílogo também, com os dois amigos, cada um com uma muleta, andando pelas ruas de El Dorado. O humor de Hawks eleva o nosso espírito. Eu ria com prazer cada vez que Mitchum perguntava a Wayne quem diabos era Mississipi. Não poderia faltar a mulher hawksiana, aqui representada por duas: Charlene Holt e Michele Carey.

RIO LOBO

Esse filme é basicamente dividido em duas partes. A primeira funciona como um western de cavalaria. John Wayne é um coronel durante a Guerra Civil. Ele precisa deter um grupo de rebeldes que assalta o ouro de um trem. Essa primeira seqüência é eletrizante. Depois dela, o filme diminui um pouco o ritmo, dá uma travada. O que não deixa de ser coerente com o envelhecimento tanto de Hawks quanto de Wayne. Aliás, o tema da velhice está bastante presente em todo o filme. Assim como o termo "confortável" é usado para descrever Wayne em certa ocasião, coisa que ele não vê como um elogio. Quando acaba a guerra, o filme muda de tom. Até parece um outro filme, dessa vez mais parecido com EL DORADO e RIO BRAVO. Essa sensação de repetição me deu um certo bem estar, senti-me confortável. Fiquei surpreso quando li na entrevista de Hawks que ele não gostou de Jennifer O'Neill. Eu achei-a, além de linda, encantadora. Pode não ser a melhor mulher dos filmes de Hawks, mas talvez seja a mais bela. E Jennifer nasceu no Brasil, vejam só. A atriz é mais conhecida pelo papel principal de VERÃO DE 42 (1971). Nessa época, ela devia estar no auge da beleza. Tem uma cena no filme de Hawks que eu achei bem interessante: quando ela zomba do romantismo meloso de Jorge Rivero que lhe pede "um último beijo antes de morrer", quando os dois estão debaixo de uma cama. Bem Hawks isso. Assim como é bem do diretor, o fato de a mulher tomar a iniciativa. É ela quem beija Rivero primeiro. Já Wayne, assumindo a velhice, ficou sem par nesse filme.

Sobre RIO LOBO, recomendo um excelente texto de Filipe Furtado, publicado na Contracampo já há algum tempo. O texto é um pouco longo (8 páginas, letra pequena), mas vale a pena ler, especialmente quem já viu os principais filmes de Hawks. O texto do Filipe é sóbrio, mas o amor pelos filmes de Hawks está bem evidente.

Pra terminar, arrisco um top 10 do diretor, com base nos (apenas) 14 filmes que assisti dele:

1. HATARI! (1962)
2. RIO VERMELHO (1948)
3. O PARAÍSO INFERNAL (1939)
4. EL DORADO (1967)
5. LEVADA DA BRECA (1938)
6. JEJUM DE AMOR (1940)
7. UMA AVENTURA NA MARTINICA (1944)
8. RIO BRAVO (1959)
9. SCARFACE (1932)
10. TERRA DOS FARAÓS (1955)

terça-feira, janeiro 10, 2006

EROS



Enquanto 2046 não chega - o filme, não o ano -, EROS (2004), o projeto coletivo dirigido por Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-wai, aporta por essas bandas. Já havia lido algumas críticas, tanto de colegas da blogosfera quanto de quem escreve para jornais impressos, que já seriam motivo suficiente para me deixar com o pé atrás com esse trabalho. Porém, não consegui conter o meu entusiasmo quando o filme estreou por aqui. Principalmente pela chance de ver um trabalho novo de Antonioni na telona.

O cineasta está com a saúde bastante debilitada. Seu último filme para o cinema, ALÉM DAS NUVENS (1995), havia sido dirigido em parceria com Wim Wenders. E é impressionante como, mesmo com o corpo frágil, o sexo está ainda mais presente em seu novo trabalho. Dos três segmentos, o dele é o que mais nos presenteia com cenas de nudez feminina. Seu filme é o que mais se assemelha a um sonho, até porque a estória não tem muito sentido. O que interessa mais é a harmonia dos corpos do ator e das duas atrizes com os objetos e a paisagem. Há um gosto pela simples composição dos corpos no quadro, não importando se aquilo vai tornar a "trama" menos ou mais inteligível. Afinal, qual o sentido de terminar o filme com as duas mulheres nuas na praia a não ser pelo prazer estético que isso nos proporciona? Bom, até pode haver um sentido, mas não sou eu quem vai interpretar as intenções de Antonioni.

Depois do segmento de Antonioni (intitulado "Il Filo pericoloso delle cose"), temos que aturar um dos trabalhos mais chatos de Steven Soderbergh desde KAFKA (1991). Coincidentemente esses dois filmes foram produzidos em preto e branco. E o que mais me aflige é o fato de que o próximo trabalho dele, THE GOOD GERMAN (2006), também vai ser em preto e branco. Tenho um pressentimento que não deve sair coisa boa desse negócio. Quanto a "Equilibrio", o segmento de Soderbergh para EROS, é o que menos aborda o sexo de modo mais direto. O fato de a estória se passar quase que completamente num consultório de psicanálise dá até impressão que os americanos são travados em relação ao sexo e ainda vivem sob o complexo de culpa dos tempos do puritanismo. O que é bem provável. Só não sei se a intenção de Soderbergh era mesmo mostrar isso. Vendo o filme, a impressão que se tem é que ele só queria enrolar todo mundo.

Tão ou mais cheios de neuroses que os americanos são os chineses. Ainda que "A Mão", segmento de Wong Kar-Wai, tenha a cena mais excitante do filme, percebe-se que o sentimento de culpa e de vergonha ainda é muito presente na cultura chinesa. Aqui no Brasil, um sujeito estando sozinho com uma mulher, na mesma situação que o protagonista do filme estava com Gong Li, muito dificilmente reagiria daquela maneira. Ainda estou um pouco longe de entender a natureza do cinema de Wong Kar-Wai. Talvez por isso o meu favorito de EROS seja mais o sonho erótico de Antonioni e menos a tragédia cheia de elipses de Kar-wai.

P.S.: Está no ar, no Cinema com Rapadura, minha nova coluna, onde eu enumero os meus dez filmes mais aguardados de 2006.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

RAOUL WALSH EM DOIS FILMES



Meu entusiasmo e interesse maior pelos filmes de Raoul Walsh começou há pouco tempo, depois de eu ter visto dus obras-primas dirigidas por ele e estreladas pelo grande James Cagney - HERÓIS ESQUECIDOS (1939) e FÚRIA SANGUINÁRIA (1949). Em dezembro último peguei pra ver mais dois filmes de Walsh: um belo exemplar do filme de gângster e um western de cavalaria, ambos lançados em 1941. Aliás, Walsh era tão invocado que no ano de 1941 foram lançados quatro filmes dele nos cinemas! Abaixo, comentários breves sobre dois belos títulos do "cineasta aventureiro".

O ÚLTIMO REFÚGIO / SEU ÚLTIMO REFÚGIO (High Sierra)

Se na década de 30, Humphrey Bogart ainda não havia alcançado o estrelato, ainda que tenha brilhado como vilão de vários títulos da Warner, nos anos 40 ele finalmente teve a sua vez. Se bem que em O ÚLTIMO REFÚGIO, apesar de ele ser o protagonista, o primeiro nome que aparece nos créditos é o de Ida Lupino, uma estrela na época. Sua personagem é a de uma típica mulher walshiana: sem frescuras e com uma certa vulgaridade. Como em HERÓIS ESQUECIDOS, o herói do filme se apaixona por uma garota que é um exemplo de pureza, pertencente a um outro mundo, alheio ao seu, longe da sujeira do mundo do crime. Bogart, assim como Cagney, quebra a cara com a escolha. No filme, Bogart é recém saído da prisão e já parte para um novo trabalho. Que para ele é encarado como uma profissão, não como uma atividade criminosa. Ele é bom no que faz. Como acontece em grande parte dos filmes do gênero, a história termina em tragédia. O DVD da Warner vem com um mini-documentário bem legal sobre as filmagens.

O INTRÉPIDO GENERAL CUSTER (They Died with Their Boots On)

Errol Flynn e Olivia de Havilland foram um dos casais mais constantes de Hollywood. O INTRÉPIDO GENERAL CUSTER foi a oitava e última de suas parcerias. Antes desse filme, os dois estiveram juntos em: CAPITÃO BLOOD (1935), A CARGA DA BRIGADA LIGEIRA (1936), AS AVENTURAS DE ROBIN WOOD (1938), AMANDO SEM SABER (1938), UMA CIDADE QUE SURGE (1939), MEU REINO POR UM AMOR (1939) e SANTA FE (1940). A maioria deles, aventuras dirigidas por Michael Curtiz. Por isso a cena que mostra o General Custer (Flynn) se despedindo de sua esposa é tão marcante. Tem esse peso a mais o fato de representar a despedida dos dois das telas. Eu que só fui saber disso vendo o documentário do DVD, acabei chorando assim mesmo com a cena. O General Custer de Walsh não é o mesmo mostrado em O PEQUENO GRANDE HOMEM. Não é um malvado matador de índios, mas um homem corajoso e honrado, que via o fato de morrer em batalha uma glória. Aliás, esse negócio de receber glória ao morrer em batalha era bem do espírito da época. Como era 1941 e a Segunda Guerra Mundial rolava na Europa, havia uma tendência a louvar a coragem dos soldados. Para isso, o uso de uma música que despertasse o ânimo para a batalha também é importante. A trilha sonora de Max Steiner desempenha muito bem esse papel. Quanto às cenas de batalha, achei um pouco fracas as que se passam durante a Guerra Civil. Só vemos os soldados cavalgando e umas explosões de lado. Porém, a cena da luta contra os índios é impressionante. A primeira metade do filme é cômica, mostrando o treinamento de Custer e o início do namoro com a filha de um dos oficiais (Olivia); a segunda se aproxima de uma tragédia. Interessante notar a participação de Anthony Quinn no papel de um índio. No DVD, além do mini-documentário, temos os curtas:

SOLDIERS IN WHITE (21 min). Claramente um filme feito para inflar o espírito patriótico diante da guerra.

A TALE OF TWO KITTIES (6 min). Traz o precursor do Piu-piu. Engraçado que até no desenho há momentos inspirados na guerra.

domingo, janeiro 08, 2006

SOLDADO ANÔNIMO (Jarhead)



A guerra pode ser algo estúpido e sem sentido, mas ao menos pra uma coisa boa ela serve: fornecer matéria-prima para o cinema produzir belos filmes. Se a Primeira Guerra Mundial tem GLÓRIA FEITA DE SANGUE (1957) como exemplo máximo, a Segunda Guerra tem, sei lá, AGONIA E GLÓRIA (1980) e a Guerra do Vietnã tem APOCALYPSE NOW (1979), SOLDADO ANÔNIMO (2005), de Sam Mendes, é sem dúvida o melhor representante da Guerra do Golfo, pelo menos até aparecer outro tão bom. Alguns filmes de guerra são homenageados em SOLDADO ANÔNIMO, destaque para o próprio APOCALYPSE NOW, de Coppola, e NASCIDO PARA MATAR, de Kubrick.

Lembro que no começo dos anos 90, quando a televisão noticiava a guerra, eu ficava meio frustrado porque não podia ver nada. Queria poder assistir a guerra de camarote e tudo que aparecia na televisão eram aquelas luzesinhas passeando pelo fundo preto ao som dos mísseis e das armas de fogo, mais parecendo videogame de primeira geração. SOLDADO ANÔNIMO nos dá a chance de chegar um pouco mais perto daquela guerra e, o que é melhor, sem o risco de levarmos nenhum tiro. Inclusive, tem uma cena no filme em que o personagem de Jamie Foxx diz que se considera um privilegiado de estar presenciando aquilo tudo, enquanto contempla a explosão dos poços de petróleo. Essa cena é meio ambígua no sentido de que o filme pode criticar e ao mesmo tempo tornar justificável ou bela certas coisas. O filme também questiona, ainda que de modo discreto, as verdadeiras razões daquela guerra, o motivo de os soldados estarem ali.

SOLDADO ANÔNIMO é baseado no livro de Anthony Swofford, combatente que esteve na guerra, e que no filme é vivido por Jake Gyllenhaal. O rapaz foi pra guerra e deixou uma namorada por quem era apaixonado. O problema é que ele suspeita que ela vai acabar lhe passando um par de chifres durante a sua ausência. E isso é algo bastante comum entre os marines: há até um mural só com fotos de mulheres que os traíram.

Um dos momentos mais legais do filme, e que comprova o grande talento de Mendes, é a cena em que ouvimos "Something in the way", do Nivana. Taí um belo exemplar de música que ilustra bem a juventude do começo dos anos 90: os jovens quase explodindo de tanta testosterona, tendo que se masturbar várias vezes por dia para amenizar as tensões, sentindo um vazio de viver, a falta da pessoa amada, os sentimentos contraditórios de amor e ódio, tesão e abandono. SOLDADO ANÔNIMO é uma bela surpresa.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

MASTERS OF HORROR: CHOCOLATE



Provavelmente a série MASTERS OF HORROR é a melhor coisa do currículo de Mick Garris, que possui em sua filmografia produções pouco louváveis como a mini-série O ILUMINADO (1997) e os filmes SONÂMBULOS (1992), MONTADO NA BALA (2004) e PSICOSE IV - A REVELAÇÃO (1990). O maior crédito do sucesso e da concretização de MASTERS OF HORROR é de Garris, produtor da empreitada. Como ele é um dos nomes menos brilhantes entre os 13 cineastas, esperava que CHOCOLATE fosse um filme ruim. Longe disso, CHOCOLATE lembra os melhores momentos da série ALÉM DA IMAGINAÇÃO - refiro-me à versão anos 80, a única que cheguei a acompanhar.

"Have you ever been in love?", pergunta o protagonista Henry Thomas (mais conhecido como o garotinho de E.T.) em direção à câmera e com a roupa suja de sangue. Assim começa CHOCOLATE. Na intrigante trama, Thomas é um sujeito que vive fazendo dietas sob o risco de engordar. A vida pra ele é cheia de concessões e dificuldades. Ele é um sujeito solitário e separado da esposa e do filho. As coisas começam a sair da normalidade quando ele passa a sentir, em flashes, cheiros, gostos, sensações, visão e audição de uma outra pessoa. Nessas horas, ele tem uma espécie de ligação mental com uma mulher que vive em outra cidade. Ele passa, então, a acreditar que está apaixonado por essa mulher. E vai atrás dela. A expectativa do encontro dos dois é um dos pontos altos do filme, quando se cria um suspense em torno dessa situação. Como CHOCOLATE é muito bem conduzido e os atores são muito bons, em especial Henry Thomas, cria-se um grau de verossimilhança necessário para que haja um envolvimento do espectador com a história.

O resultado é que CHOCOLATE é o meu terceiro favorito da antologia, só perdendo para DREAMS IN THE WITCH-HOUSE, de Stuart Gordon, e JENIFER, de Dario Argento. Já tenho gravados em casa, esperando para serem vistos: HOMECOMING, de Joe Dante, DEER WOMAN, de John Landis, e CIGARETTE BURNS, de John Carpenter. Ainda vem muita coisa boa por aí.

quarta-feira, janeiro 04, 2006

GEORGES FRANJU EM DOIS FILMES



Simplesmente uma maravilha esse DVD de OS OLHOS SEM ROSTO (1959), lançado no Brasil pela Magnus Opus. Ao que parece, é copiado do DVD americano da Criterion. Além da obra-prima de Franju, o DVD ainda vem com o excepcional curta/documentário SANGUE DAS BESTAS (1948), primeiro trabalho solo de Franju. Antes desse filme, ele havia apenas dirigido um curta em parceria com Henri Langlois, o mais célebre dos diretores da Cinemateca Francesa. Aliás, Franju foi co-fundador da Cinemateca, ao lado de Langlois.

Além dessas duas preciosidades, o DVD ainda vem com duas pequenas entrevistas de Franju, onde ele esclarece alguns pontos importantes de sua obra, como a utilização de cenas de frieza cirúrgica com o objetivo de trazer o horror pra mais perto da realidade. O DVD também vem com textos diversos. Além de uma pequena biografia do cineasta, tem também um texto dele sobre Fritz Lang. Fiquei sabendo que Franju considerava Luis Buñuel o único surrealista do cinema e o melhor cineasta do mundo. O homem tinha bom gosto.

OS OLHOS SEM ROSTO (Les Yeux sans Visage)

Tinha enorme vontade de ver esse filme desde que li um texto sobre ele que saiu na saudosa Cine Monstro. (Digo "saudosa" porque sei que essa nova encarnação da revista, mais magrinha, não é a mesma coisa.) OS OLHOS SEM ROSTO é um filme que une o horror e a poesia como poucos. Na trama, cirurgião plástico tenta conseguir "doadoras" de rosto para que ele possa fazer um transplante na filha, que teve o rosto totalmente desfigurado num acidente. A jovem anda triste pela casa com uma máscara que lhe dá um ar ao mesmo tempo angelical e sinistro. O cirurgião conta com a ajuda de uma assistente - Alida Valli, de AGONIA DE AMOR, de Hitchcock, e O GRITO, de Antonioni - que lhe traz as jovens até sua casa, situada próxima a um bosque. Ela o ajuda como forma de gratidão pelo fato de o médico ter-lhe ajudado a reconstituir seu rosto. O filme tem uma cena de retirada da pele do rosto bastante realista. Deve-se louvar os efeitos de maquiagem. Uma outra cena inesquecível e que causa horror e angústia é a da moça que foge depois de ter seu rosto retirado. A seqüência final é igualmente bela e poética.

Curiosamente, no ano passado ocorreu o primeiro transplante de rosto. Só não sei se a cirurgia (parcial) foi bem sucedida, se não houve nenhuma rejeição do tecido.

SANGUE DAS BESTAS (Le Sang des Bêtes)

São apenas 20 minutos, mas foram suficientes para me deixar completamente desnorteado. SANGUE DAS BESTAS é um documentário sobre a rotina de um matadouro de animais em Paris. A narração fria contrapõe com as imagens cruéis de execução dos animais. O primeiro animal que o filme mostra sendo abatido é um cavalo, um dos pratos favoritos dos franceses, como também pode ser visto no curta CARNE, de Gaspar Noé. Mas o curta de Noé perde feio para o documentário de Franju, que toca fundo na perversidade e hipocrisia humana. Ver, por exemplo, uma vaca sendo despedaçada ou dezenas de ovelhas sendo abatidas é de uma crueldade tremenda. Engraçado que às vezes perdemos a noção de que aquilo que estamos comendo no prato um dia já esteve vivo e andando. Vi esse filme antes do almoço e cheguei a perder o apetite. O impacto foi até maior do que a primeira vez que ouvi "Meat is murder", dos Smiths. E nem foi preciso que Franju nos fizesse um apelo. O filme é frio como uma intervenção cirúrgica. Franju acreditava que mostrando o filme dessa maneira obtinha-se um resultado mais perturbador na mente do espectador. É mais ou menos como aquela cena do Hannibal Lecter comendo um pedaço do cérebro do Ray Liotta, enquanto ele está vivo em HANNIBAL, de Ridley Scott. O fato de Liotta estar vivo e sorrindo tornou aquilo muito mais impactante!

P.S.: No site do Cineprojeto 365, tem uma excelente crítica do Fabrizio Barberini sobre o filme. Aproveito para avisar que o novo site da turma já está pronto e que em breve contará com textos inéditos. Por enquanto, já é possível apreciar o belo trabalho de web design que o Estêvão nos prestou.

terça-feira, janeiro 03, 2006

PRISON BREAK - 1ª TEMPORADA - 1ª PARTE



PRISON BREAK (2005) foi uma série que pegou todo mundo de surpresa. A princípio, todos achavam que era apenas mais uma série de segunda linha que a FOX colocava no ar para preencher a lacuna deixada por 24 HORAS, que ainda continua sendo a série mais importante da emissora. Mesmo quem assistiu ao piloto não botou muita fé em PRISON BREAK, que prometia ser uma mistura de 24 HORAS com OZ.

A trama envolve uma missão dificílima, uma protagonista fodão, e um prazo apertado para cumprí-la. Na história, Michael Scofield (Wentworth Miller) é um arquiteto cujo irmão foi condenado à execução pelo assassinato de um homem. Acreditando na inocência do irmão, Scofield assalta um banco com a intenção de entrar na prisão e tirar o irmão de lá, tendo a planta do presídio tatuada no corpo, disfarçadamente.

Sim, o enredo é deveras absurdo e capaz de espantar muitos espectadores, mas uma vez que se aceite a trama e se assista os três primeiros episódios, a série deixa o espectador grudado na tv toda segunda-feira. A grande dúvida que aflige a todos é: será que Scofield conseguirá aplicar o seu plano de fuga antes da execução do irmão no final da temporada? Ou vão arrumar um jeito de enrolar a gente até a segunda? Quando soube pela FOX que a série iria ter o seu final ontem, fiquei surpreso. Na verdade, não se trata de um final da temporada, mas de uma pausa. A série foi interrompida nos EUA, mesmo estando com altos índices de audiência. Aqui no Brasil PRISON BREAK também foi elevada a carro-chefe da emissora, superando a audiência de NIP/TUCK. Por isso a FOX tratou de usar a mesma estratégia utilizada com 24 HORAS, isto é, colocando dois episódios seguidos da série toda segunda.

Pra quem gosta de filmes de prisão (como eu), a série é um prato cheio. Alguns episódios são tão empolgantes que chegam a lembrar os melhores momentos de 24 HORAS. Destaque para os dois episódios que mostram uma rebelião no presídio. Entre os personagens coadjuvantes da série, fiquei fã da gatíssima Sarah Wayne Callies, que faz a médica do presídio e interesse amoroso de Scofield. Além dela, os parceiros de fuga de Scofield também vão conquistando a nossa simpatia ao longo da série.

O gancho deixado nesse 13º episódio, o último da primeira parte da temporada, é de deixar a gente com o coração na boca de tanta aflição. Nesse episódio, a execução de Lincoln (Dominic Purcell) está marcada para o dia seguinte e é chegada a hora de se apressar a fuga. Ao mesmo tempo, a advogada de Lincoln luta, do lado de fora da prisão, contra aqueles que conspiram contra o rapaz. A coisa envolve figuras do alto escalão da política.

PRISON BREAK só deve voltar ao ar nos EUA, com seus nove episódios restantes, em março. Aqui no Brasil, só no segundo semestre de 2006.

segunda-feira, janeiro 02, 2006

A PASSAGEM (Stay)



Tanto o título nacional quanto o original já deixam uma pista para o espectador do que realmente trata A PASSAGEM (2005), mais recente filme dirigido pelo versátil Marc Forster. Esse é o tipo de filme que vale mais pelo visual, pelos aspectos técnicos - montagem inventiva, belíssima fotografia - do que pela condução da trama, que chega a ser um convite ao sono. Eu, por exemplo, tive que lutar contra o sono a partir da metade do filme e só fui acordar de fato numa cena de acidente de carro, realmente perturbadora, já perto do final.

Não é qualquer um que consegue manter o interesse do espectador com uma história confusa. Nem todo diretor é David Lynch, que pode se dar ao luxo de nem mesmo ter que explicar a trama pra ninguém. Talvez se o filme de Forster optasse pela não explicação da trama, poderia adquirir um status de cult ou algo parecido. A PASSAGEM lembra um pouco o intrigante (e superior) ALUCINAÇÕES DO PASSADO, de Adrian Lyne.

Na trama, Ewan McGregor (que parece saído direto do set de A ILHA) é um psiquiatra que substitui uma colega de trabalho e começa a cuidar de um paciente que planeja se matar em poucos dias (Ryan Gosling). O psiquiatra namora uma ex-paciente que sobreviveu a uma tentativa de suicídio (Naomi Watts). Depois de uma série de situações estranhas, ele começa a questionar a realidade. Impressionante como nos últimos anos o cinema americano tem abordado a idéia da descrença da realidade. MATRIX seria o exemplo mais popular, enquanto que CIDADE DOS SONHOS seria o mais profundo.

Tenho acompanhado os filmes de Marc Forster e dá pra notar que ele quase sempre consegue extrair de seus filmes ótimas performances do elenco. GRITOS NA NOITE (2000) tem aquele desempenho excepcional de Radha Mitchell; A ÚLTIMA CEIA (2001) tem aquela poderosa cena de sexo com Halle Berry; EM BUSCA DA TERRA DO NUNCA (2004), embora apoiado por um ótimo elenco, já se constitui numa involução em sua carreira. Talvez a opção por um trabalho mais experimental como A PASSAGEM seja uma tentativa de voltar às origens, de se aproximar novamente da criatividade do cinema independente, que é de onde ele veio. Seu próximo trabalho, STRANGER THAN FICTION (2006), tem um enredo interessante sobre um sujeito (Will Ferrell) que ouve uma narração de sua própria vida, como se ele fosse apenas um personagem de ficção. Novamente o tema do questionamento da realidade?

domingo, janeiro 01, 2006

O TOP 20 2005 E UMA BREVE RETROSPECTIVA



1. ANTES DO PÔR-DO-SOL (Richard Linklater)
2. MENINA DE OURO (Clint Eastwood)
3. O AVIADOR (Martin Scorsese)
4. O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS (Zhang Yimou)
5. BENS CONFISCADOS (Carlos Reichenbach)



6. GUERRA DOS MUNDOS (Steven Spielberg)
7. 2 FILHOS DE FRANCISCO (Breno Silveira)
8. O CASTELO ANIMADO (Hayao Miyazaki)
9. CLEAN (Olivier Assayas)
10. AMOR EM JOGO (Peter and Bobby Farrelly)



11. BOM DIA, NOITE (Marco Bellocchio)
12. CLOSER - PERTO DEMAIS (Mike Nichols)
13. A JANELA DA FRENTE (Ferzan Ozpetek)
14. MARCAS DA VIOLÊNCIA (David Cronenberg)
15. A DAMA DE HONRA (Claude Chabrol)



16. OLDBOY (Chan-wook Park)
17. OS SONHADORES (Bernardo Bertolucci)
18. ENTREATOS (João Moreira Salles)
19. PARA SEMPRE NA MINHA VIDA (Gabriele Muccino)
20. REENCARNAÇÃO (Jonathan Glazer)

Acho que esse foi o top 20 anual mais difícil que eu já fiz. Só pra se ter uma idéia, vejam a lista de filmes ótimos que ficaram de fora: MAR ADENTRO, CIDADE BAIXA, O SENHOR DAS ARMAS, REFÉM, TERRA DOS MORTOS, PARA SEMPRE LILYA, O LENHADOR, NINGUÉM PODE SABER, O EXORCISMO DE EMILY ROSE, EM SEU LUGAR, E SE FOSSE VERDADE.

A lista contém filmes vistos por mim no ano de 2005, não importando se os mesmos foram lançados em São Paulo em 2004. Foi o caso de ANTES DO PÔR-DO-SOL, de PARA SEMPRE NA MINHA VIDA e de ENTREATOS. Aliás, no dia que vi o filme de Linklater já sabia que nenhum outro filme me conquistaria da mesma maneira. E esse ano foi muito especial, pois tivemos duas obras-primas de dois dos maiores cineastas vivos do mundo. Imagina só: poder ver no mesmo fim de semana MENINA DE OURO e O AVIADOR!

Em comparação com a lista do ano passado, que não teve sequer um filme brasileiro no ranking, nesse ano, fiz questão de pôr três! E por pouco CIDADE BAIXA não entrou também. E olha que um monte de filmes legais como CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS e O FIM E O PRINCÍPIO não pintaram por essas bandas ainda. A sessão de BENS CONFISCADOS, de Carlos Reichenbach, vai ficar marcada pro resto da minha vida como uma das sessões mais especiais de todas. Além do fato de o filme ter sido dedicado a mim pelo próprio realizador, a obra em si é de primeira grandeza. Espero que o filme entre em cartaz no circuito comercial daqui para que eu possa vê-lo de maneira mais calma, com o coração batendo menos forte.

Além do cinema nacional, destaco também o gênero "comédia romântica". Os americanos têm caprichado cada vez mais nesse tipo de filme, que faz bastante sucesso entre as mulheres, mas que muito marmanjo - como eu - também curte. A safra desse ano contém pequenas pérolas: EM BOA COMPANHIA, DE REPENTE É AMOR, O VIRGEM DE 40 ANOS, EM SEU LUGAR, E SE FOSSE VERDADE, e o meu favorito: AMOR EM JOGO, uma prova de que os Farrelly, mesmo fazendo filmes de encomenda, conseguem fazer trabalhos sensíveis, engraçados e autorais.

Claro que ficou faltando um grande filme de horror, esse que é um dos meus gêneros favoritos. Isso se não considerarmos GUERRA DOS MUNDOS um filme de horror, o que seria uma tremenda injustiça para esse filme, que já foi alvo de tantas críticas desfavoráveis. Alguém poderia até reclamar da não inclusão de TERRA DOS MORTOS, do grande George Romero. Foi, sem dúvida, emocionante ver o retorno do mestre aos seus filmes de zumbis. Mesmo assim, diria que o filme mais aterrorizante do ano foi mesmo O EXORCISMO DE EMILY ROSE. Sempre que acordo às 3 da manhã, eu me lembro do filme. Mesmo com o sucesso dos dois JOGOS MORTAIS, o horror em 2005 foi marcado por remakes. Felizmente, de boa qualidade: O GRITO, O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA, O CHAMADO 2, ÁGUA NEGRA, A CASA DE CERA e KING KONG.

O bom foi que, com essa onda de remake de filme oriental e de um pequeno empurrãozinho de mr. Tarantino, tivemos uma pequena invasão de filmes vindos do lado de lá do planeta: HERÓI, O CLÃ DAS ADAGAS VOADORAS, VISÕES, KUNG-FUSÃO, OLDBOY e mais uma animação maravilhosa do genial Hayao Miyazaki: a homenagem à velhice O CASTELO ANIMADO. Fato inédito desde que me entendo por cinéfilo.

Filmes velhos em cópias novas

Em se tratando de filmes antigos vistos na telona, o ano foi fraco. Apenas dois foram exibidos em sessões especiais: TERRA EM TRANSE, de Glauber Rocha, e PELE DE ASNO, de Jacques Demy, ambos em cópias novas.

As peregrinações

E falando em filmes antigos, as maiores pérolas do cinema estão nas locadoras. Esse ano, tive a chance de completar minha peregrinação pela obra de Alfred Hitchcock, o maior cineasta de todos os tempos. Também comecei a estudar um pouco a obra de Howard Hawks, com o pouco que se tem dele à disposição. Para 2006, a minha intenção é fazer o mesmo com a obra de Leo McCarey, Orson Welles, Carl Theodor Dreyer e José Mojica Marins. Espero que seja possível nesses próximos 365 dias.

A premiação e os amigos

O ano de 2005 também foi muito importante pra mim por causa da premiação que o Diário de um Cinéfilo ganhou no início do ano. Sem dúvida, um dos momentos mais felizes do ano. Embora não tenha tido condições financeiras de ir até São Paulo buscar o prêmio, acabei conhecendo - por causa dele - um paraíso tropical chamado São Miguel do Gostoso (RN) quando fui buscar o Quepe do Comodoro das mãos do cineasta Eugênio Puppo. De quebra, conheci o Marcos Felipe. Durante o Cine Ceará, além do Carlão, tive o prazer de conhecer pessoalmente também o Marcus Mello (Teorema), Marcelo Lyra e o cineasta e poeta Nirton Venâncio. Durante o ano, também tive o prazer de conhecer o Michel Simões , que veio passar parte das férias em Fortaleza e nas praias cearenses.

Os 20 favoritos em DVD, VHS e DIVX

1. A MORTE NUM BEIJO (Robert Aldrich)
2. HATARI! (Howard Hawks)
3. O PROCESSO DE JOANA D'ARC (Robert Bresson)
4. O HOMEM ELEFANTE (David Lynch)
5. ESPIONAGEM NA REDE (Olivier Assayas)
6. FÚRIA SANGUINÁRIA (Raoul Walsh)
7. OS OLHOS SEM ROSTO (Georges Franju)
8. MATEI JESSE JAMES (Samuel Fuller)
9. DISQUE M PARA MATAR (Alfred Hitchcock)
10. ERA UMA VEZ NO OESTE (Sergio Leone)
11. RIO VERMELHO (Howard Hawks)
12. O PARAÍSO INFERNAL (Howard Hawks)
13. A TORTURA DO SILÊNCIO (Alfred Hitchcock)
14. A MISTERIOSA MORTE DE NATALIE WOOD (Peter Bogdanovich)
15. THE SHOOTING (Monte Hellman)
16. SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Sam Peckinpah)
17. O ESPELHO (Andrei Tarkovski)
18. ASSALTO AO TREM PAGADOR (Roberto Farias)
19. UM FILME FALADO (Manoel de Oliveira)
20. O PÁSSARO DAS PLUMAS DE CRISTAL (Dario Argento)