domingo, janeiro 08, 2006

SOLDADO ANÔNIMO (Jarhead)



A guerra pode ser algo estúpido e sem sentido, mas ao menos pra uma coisa boa ela serve: fornecer matéria-prima para o cinema produzir belos filmes. Se a Primeira Guerra Mundial tem GLÓRIA FEITA DE SANGUE (1957) como exemplo máximo, a Segunda Guerra tem, sei lá, AGONIA E GLÓRIA (1980) e a Guerra do Vietnã tem APOCALYPSE NOW (1979), SOLDADO ANÔNIMO (2005), de Sam Mendes, é sem dúvida o melhor representante da Guerra do Golfo, pelo menos até aparecer outro tão bom. Alguns filmes de guerra são homenageados em SOLDADO ANÔNIMO, destaque para o próprio APOCALYPSE NOW, de Coppola, e NASCIDO PARA MATAR, de Kubrick.

Lembro que no começo dos anos 90, quando a televisão noticiava a guerra, eu ficava meio frustrado porque não podia ver nada. Queria poder assistir a guerra de camarote e tudo que aparecia na televisão eram aquelas luzesinhas passeando pelo fundo preto ao som dos mísseis e das armas de fogo, mais parecendo videogame de primeira geração. SOLDADO ANÔNIMO nos dá a chance de chegar um pouco mais perto daquela guerra e, o que é melhor, sem o risco de levarmos nenhum tiro. Inclusive, tem uma cena no filme em que o personagem de Jamie Foxx diz que se considera um privilegiado de estar presenciando aquilo tudo, enquanto contempla a explosão dos poços de petróleo. Essa cena é meio ambígua no sentido de que o filme pode criticar e ao mesmo tempo tornar justificável ou bela certas coisas. O filme também questiona, ainda que de modo discreto, as verdadeiras razões daquela guerra, o motivo de os soldados estarem ali.

SOLDADO ANÔNIMO é baseado no livro de Anthony Swofford, combatente que esteve na guerra, e que no filme é vivido por Jake Gyllenhaal. O rapaz foi pra guerra e deixou uma namorada por quem era apaixonado. O problema é que ele suspeita que ela vai acabar lhe passando um par de chifres durante a sua ausência. E isso é algo bastante comum entre os marines: há até um mural só com fotos de mulheres que os traíram.

Um dos momentos mais legais do filme, e que comprova o grande talento de Mendes, é a cena em que ouvimos "Something in the way", do Nivana. Taí um belo exemplar de música que ilustra bem a juventude do começo dos anos 90: os jovens quase explodindo de tanta testosterona, tendo que se masturbar várias vezes por dia para amenizar as tensões, sentindo um vazio de viver, a falta da pessoa amada, os sentimentos contraditórios de amor e ódio, tesão e abandono. SOLDADO ANÔNIMO é uma bela surpresa.

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