sexta-feira, janeiro 20, 2006

MISTÉRIOS DA CARNE (Mysterious Skin)



Demorei quase uma semana para escrever sobre MISTÉRIOS DA CARNE (2004). Esse é o tipo de filme que precisa ser pensado e repensado. Se bem que com esse meu ritmo de ver vários filmes, eu corro o risco de acabar esquecendo um pouco os anteriores. Quando vou escrever sobre eles é que vou me lembrando de certas coisas. Mas, independente do que eu possa racionalizar ou analisar os pontos negativos do filme, o fato é que ver MISTÉRIOS DA CARNE foi um grande prazer pra mim. Uma hora e meia de olhos grudados na tela e de grande interesse pela história e pelos personagens. Sentir prazer é até um pouco estranho quando se está falando de um filme que trata de um assunto tão barra-pesada quanto a pedofilia. E alguém pode até dizer que o diretor (Gregg Araki) pode ter falhado nesse ponto se a sua intenção era chocar.

Porém, acredito que a intenção do diretor não era chocar. Embora o filme trate de lembranças dolorosas e de suas repercussões nas vidas dos garotos, essas memórias são tratadas como algo bastante dúbio. Às vezes até com certo romantismo e saudosismo. De um lado, temos o caso do garotinho que esqueceu cinco horas de sua vida e acredita que foi abduzido por alienígenas; de outro, o menino que desde criança já descobriu que gostava de homens e se deixou ser seduzido pelo treinador do time de beisebol. Já grandinhos, esses meninos seguem caminhos opostos: um se transforma num nerd assexuado e obcecado por discos voadores, o outro vira um garoto de programa que, depois de ter transado com (ou feito felação em) todos os homens da cidade, muda-se para a grande Nova York. Entre os coadjuvantes, destaque para Michelle Trachtenberg, mais conhecida por sua participação na série BUFFY, A CAÇA-VAMPIROS. Pena que a participação dela é pequena no filme.

Mesmo já advinhando parte da revelação que vai acontecer no final, quando os dois rapazes finalmente se encontram, esse final não deixa de ser belo e triste. Depois de tanto sofrimento, ainda será possível refazer as vidas depois de tantos traumas? Gregg Araki teve a coragem de mostrar a sexualidade em crianças, algo bastante incomum dentro do cinema americano. Só me lembro de ter visto tal coisa em filmes italianos ou franceses. Mas nunca de maneira tão agressiva. Uma prova de que o cinema independente americano é algo que corre paralelo e realmente independente do que se faz em Hollywood. Para evitar maiores controvérsias, Araki disse numa entrevista que durante as filmagens das cenas de sexo com as crianças, elas não sabiam do conteúdo sexual das cenas e que só seria possível para elas entendê-las se as visse depois da edição. Porém, fiquei me perguntando: será que as crianças puderam ver o filme depois, já que aqui ele ganhou classificação 18 anos (nos EUA, NC-17)?

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