terça-feira, janeiro 10, 2006

EROS



Enquanto 2046 não chega - o filme, não o ano -, EROS (2004), o projeto coletivo dirigido por Michelangelo Antonioni, Steven Soderbergh e Wong Kar-wai, aporta por essas bandas. Já havia lido algumas críticas, tanto de colegas da blogosfera quanto de quem escreve para jornais impressos, que já seriam motivo suficiente para me deixar com o pé atrás com esse trabalho. Porém, não consegui conter o meu entusiasmo quando o filme estreou por aqui. Principalmente pela chance de ver um trabalho novo de Antonioni na telona.

O cineasta está com a saúde bastante debilitada. Seu último filme para o cinema, ALÉM DAS NUVENS (1995), havia sido dirigido em parceria com Wim Wenders. E é impressionante como, mesmo com o corpo frágil, o sexo está ainda mais presente em seu novo trabalho. Dos três segmentos, o dele é o que mais nos presenteia com cenas de nudez feminina. Seu filme é o que mais se assemelha a um sonho, até porque a estória não tem muito sentido. O que interessa mais é a harmonia dos corpos do ator e das duas atrizes com os objetos e a paisagem. Há um gosto pela simples composição dos corpos no quadro, não importando se aquilo vai tornar a "trama" menos ou mais inteligível. Afinal, qual o sentido de terminar o filme com as duas mulheres nuas na praia a não ser pelo prazer estético que isso nos proporciona? Bom, até pode haver um sentido, mas não sou eu quem vai interpretar as intenções de Antonioni.

Depois do segmento de Antonioni (intitulado "Il Filo pericoloso delle cose"), temos que aturar um dos trabalhos mais chatos de Steven Soderbergh desde KAFKA (1991). Coincidentemente esses dois filmes foram produzidos em preto e branco. E o que mais me aflige é o fato de que o próximo trabalho dele, THE GOOD GERMAN (2006), também vai ser em preto e branco. Tenho um pressentimento que não deve sair coisa boa desse negócio. Quanto a "Equilibrio", o segmento de Soderbergh para EROS, é o que menos aborda o sexo de modo mais direto. O fato de a estória se passar quase que completamente num consultório de psicanálise dá até impressão que os americanos são travados em relação ao sexo e ainda vivem sob o complexo de culpa dos tempos do puritanismo. O que é bem provável. Só não sei se a intenção de Soderbergh era mesmo mostrar isso. Vendo o filme, a impressão que se tem é que ele só queria enrolar todo mundo.

Tão ou mais cheios de neuroses que os americanos são os chineses. Ainda que "A Mão", segmento de Wong Kar-Wai, tenha a cena mais excitante do filme, percebe-se que o sentimento de culpa e de vergonha ainda é muito presente na cultura chinesa. Aqui no Brasil, um sujeito estando sozinho com uma mulher, na mesma situação que o protagonista do filme estava com Gong Li, muito dificilmente reagiria daquela maneira. Ainda estou um pouco longe de entender a natureza do cinema de Wong Kar-Wai. Talvez por isso o meu favorito de EROS seja mais o sonho erótico de Antonioni e menos a tragédia cheia de elipses de Kar-wai.

P.S.: Está no ar, no Cinema com Rapadura, minha nova coluna, onde eu enumero os meus dez filmes mais aguardados de 2006.

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