sábado, novembro 14, 2020

OITO FILMES BRASILEIROS



Uma das vantagens destes tempos de cinema em casa tem sido a possibilidade de ver alguns filmes brasileiros novos, que tem surgido em festivais online, seja o de Gramado, seja a Mostra de São Paulo, seja o Olhar de Cinema, ou mesmo no circuito ou em serviço de streaming. Hoje foi dia de falta de inspiração. E amanhã é dia de trabalhar como mesário nas eleições, neste ano louco. Então, vamos de comentários rápidos mais uma vez.

AS ÓRBITAS DA ÁGUA

Nem todo filme precisa ser agradável. Alguns têm a tarefa de trazer o desconforto, a angústia, e em doses bastante consideráveis. Talvez seja o caso dos filmes de Frederico Machado, que neste AS ÓRBITAS DA ÁGUA (2020) conta uma história em tons trágicos, embora a história acabe sendo menos importante do que a atmosfera da obra, que conta com muitos simbolismos e poucos diálogos. É quase um filme mudo com uma trilha sonora um tanto solene. A busca de prazer sensual é mais de desespero, uma forma de atenuar a dor, em especial quando o filme aprofunda o personagem do pescador. Gosto de como a sensação de calor é tão presente nos quadros, de como o filme é quente, mas também de quando a brisa da noite chega para trazer um pouco de alento.

ONTEM HAVIA COISAS ESTRANHAS NO CÉU

É preciso coragem para fazer cinema de um orçamento praticamente zero e colocar o seu primeiro longa-metragem no ar com todas as dificuldades. Além disso, expor a família, como faz Bruno Risas neste ONTEM HAVIA COISAS ESTRANHAS NO CÉU (2020), por mais que muito do que é mostrado não necessariamente tenha saído da realidade, mas a impressão que fica é que o lado documentário se apresenta bem mais forte que seu lado ficção. Acho que o filme se beneficiaria de uma meia hora a menos, mas é bom ver uma personagem se revelando cada vez melhor ao longo da narrativa, caso da mãe do cineasta. O filme está disponível agora na Netflix.

KING KONG EN ASUNCIÓN

É um filme arriscado este KING KONG EN ASUNCIÓN (2020), novo trabalho de Camilo Cavalcante. Afinal, é um pouco difícil simpatizar com o velho matador de aluguel. Além do mais, há um andamento tão lento que por vezes passa a impressão de buscar inspiração em PARIS, TEXAS, mas ao mesmo tempo, é como se o cineasta estivesse ganhando tempo para somar a duração de um longa-metragem. Depois, ao vermos cenas muito boas do protagonista conversando com outras pessoas, esse tipo de impressão é deixado de lado (sem falar no poderoso flashback). Camilo Cavalcante é mesmo um diretor de talento e, embora o filme passe a impressão de ser irregular, há uma série de cenas muito especiais. A solidão e a angústia de viver do personagem aos poucos nos convencem. Quanto à voz de uma mulher em guarani, é uma voz poderosa e a língua parece saída de algum país do leste europeu. Talvez pelo tom sombrio.

POR QUE VOCÊ NÃO CHORA?

Acho que POR QUE VOCÊ NÃO CHORA? (2020), de Cibele Amaral, ganha força com a química entre as duas atrizes, quando Bárbara Paz surge como a mulher problemática que será tratada/estudada pela jovem estudante de Psicologia, vivida por Carolina Monte Rosa. Quando elas estão separadas, o filme fica mais problemático e um tanto arrastado. E funciona quando vemos essa tentativa de equilíbrio entre uma pessoa muito introspectiva e essa mulher imprevisível e explosiva. O filme se complica ao tentar abarcar temas tão densos e complexos como a depressão e o suicídio, mas diria que tem o seu charme.

TODOS OS MORTOS


Dos filmes dirigidos por Marco Dutra talvez este TODOS OS MORTOS (2020) seja o que mais se distancia do horror, ainda que o território do sobrenatural continue forte. O que temos neste trabalho em parceria com Caetano Gotardo é mais uma história de forte cunho social sobre a nossa sociedade escravocrata. Misturar um pouco a sociedade contemporânea com aquela de 120 anos atrás ajuda a mostrar que pouca coisa mudou. Mas é bom ver que desta vez os diretores tiveram uma preocupação em mostrar os negros falando um português de igual pra igual com os brancos. Há vários momentos de destaque, como aquela fala da matriarca sobre o quão brilhante será o século XX ou aquela outra sobre a Europa ser o território de onde tudo que é importante veio. Como é um filme coral, há muito mais a se destacar, personagens bem interessantes, como a irmã freira, por exemplo, e o menino que se aproxima da família.

UM ANIMAL AMARELO

Depois que passei pela primeira experiência com o cinema de Felipe Bragança (A ALEGRIA, 2010) e percebi, principalmente agora, com seu novo e mais ambicioso trabalho até o momento, que ele persegue mesmo suas obsessões, então ficou mais fácil não apenas respeitá-lo como autor que é, mas também apreciar o seu filme, que ainda traz monstros convivendo com histórias de frustração humana. Talvez frustrações do próprio Bragança, já que o protagonista é um cineasta. Senti necessidade de rever UM ANIMAL AMARELO (2020) no cinema, e não sei se será possível (futuro ainda muito nebuloso), porque em vários momentos eu me peguei perdido e sem entender aquele universo misterioso que também abraça a cultura portuguesa, mas sem nunca esquecer do Brasil, de nossas falhas como nação e da esperança que ainda resta.

BREVE MIRAGEM DE SOL

Segundo longa de ficção de Eryk Rocha, depois do ótimo TRANSEUNTE (2010). Ambos os filmes têm um quê de realidade sofrida que remete ao trabalho de documentarista do diretor. Em BREVE MIRAGEM DO SOL (2019), temos dois atores profissionais, Fabrício Boliveira e Bárbara Colen, muito bons, e também muito convincentes em seus papéis de taxista e enfermeira, passando por dificuldades. Principalmente o personagem de Boliveira, que sente tanto a solidão quanto a falta do filho, que agora vive com a mãe. As cenas noturnas têm uma intensidade admirável, desde a primeira e tensa corrida de taxi até as cenas do relacionamento que surge com a personagem de Colen - muito bonita a cena da praia.

SERTÂNIA

Quando o olho da gente bate e percebe que está diante de uma obra de grandeza fora do comum é difícil não ficar empolgado. SERTÂNIA (2018), de Geraldo Sarno, é um deslumbre. Retorna ao sertão de onde ficou famoso, com VIRAMUNDO(1965), e faz uma espécie de western metafísico em que acompanhamos a agonia e também flashbacks fora de ordem do protagonista, Antão Gavião (Vertin Moura), pertencente ao bando de cangaceiros de Jesuíno. Os jogos metalinguísticos nos deixam desconcertados, mas ao mesmo tempo não tiram a verdade e a força da interpretação do protagonista e nem o impacto das imagens em preto e branco da paisagem seca do interior da Bahia. Ainda estou desnorteado. Preciso voltar ao filme outra hora. E já sonhando com a possibilidade de vê-lo na gloriosa telona.

sexta-feira, novembro 13, 2020

BOCA DE OURO



Um mundo muito estranho este da pandemia. Sair de casa, como diz uma canção do Los Hermanos, já é uma grande aventura. E ir ao cinema, que é uma atividade que a maioria dos meus amigos cinéfilos deixou de fazer, por conta do perigo de contato com o vírus, pra mim ainda é uma tentação, por mais que tenha diminuído bastante as idas. Mesmo assim, lá fui eu ver como anda a situação no Cineteatro São Luiz, que anda exibindo uma série de filmes brasileiros que não estão no cardápio das demais salas. Um filme como BOCA DE OURO (2019), por exemplo, com um elenco estelar, tempos atrás teria ótimas chances de conseguir uma boa bilheteria.

Assim, estacionei onde costumo e gosto de estacionar quando vou ao Centro, tentei vender uns quadrinhos no sebo de HQs (sem sucesso), comprei o ingresso, contemplei a Praça do Ferreira, que contava com um homem evangélico pregando, entrei no Café Santa Clara, que fica na esquina do Edifício São Luiz, cumprimentei as duas moças que trabalhavam no café do Dragão, antes de fecharem por causa da pandemia, e tomei um café, enquanto olhava a praça, a minha favorita da cidade. O que mais me deixou triste, antes e durante a sessão, foi o aumento absurdo de pedintes nas ruas. De fato, estamos vivendo uma tragédia nacional sem precedentes.

No cinema, o esquema de distanciamento é semelhante ao das salas do Cinema do Dragão, com lugares impossibilitados de sentar e uma pessoa para nos guiar, além de checagem de temperatura. Quando cheguei na sala, havia só mais duas pessoas dentro daquele cinema enorme. Quando saí da sessão (já que costumo me sentar lá na frente), vi que havia um número um pouco maior de espectadores.

O meu interesse por BOCA DE OURO vem por diversos motivos. Há o texto de Nelson Rodrigues, que é um autor que costuma garantir o sucesso de vários filmes adaptados de suas peças e contos; há a volta de Daniel Filho na direção, depois de um hiato longo - seu trabalho anterior é o divertido SORRIA, VOCÊ ESTÁ SENDO FILMADO (2014); e há um elenco muito atraente (a volta de Malu Mader e a presença de nomes como Marcos Palmeira no papel-título, Guilherme Fontes, Fernanda Vasconcellos, Anselmo Vasconcelos, além do próprio Daniel Filho). Mas quem se destaca mais no filme é mesmo a jovem Lorena Comparato, no papel de Celeste, a mulher casada que cai nas graças do gângster de dentes de ouro. Outro ator jovem, mais conhecido pelas telenovelas, Thiago Rodrigues, faz o papel de seu marido, Leleco, que na versão de Nelson Pereira dos Santos (1963) havia sido feita pelo próprio Daniel Filho - já nem lembrava disso.  

A estrutura é igual à do filme de Nelson Pereira dos Santos, uma espécie de RASHOMON, com a personagem de Malu Mader contando três histórias diferentes, ao mesmo tempo contraditórias e complementares sobre o temido Boca de Ouro, bicheiro que acabou de ser encontrado morto. A dupla de repórteres que entra na casa de Guigui (Mader) para colher depoimentos, acaba por ouvir essas três histórias, mudadas de acordo com o humor ou a vontade da narradora. As histórias se equilibram em momentos muito bons e outros menos interessantes, mas todas elas são atraentes e poderosas no uso da violência rodrigueana e que agora pode ser vista de maneira mais explícita.

Daniel Filho segue um caminho de sangue e nudez, que já era um caminho trilhado pelos melhores especialistas em adaptações de Nelson Rodrigues, Neville D'Almeida e Braz Chediak. Mas aqui ela é mais gráfica, mais derivada do cinema de horror, e mais bonita plasticamente. E é uma violência que vai além do visual, já que Boca de Ouro é um personagem extremamente perturbador, seja quando procura estuprar a mulher e matar o marido; seja quando faz concurso de seios mais bonitos; seja quando planeja a execução de uma mulher em sua casa. Assim, há espaço para fazer bombear fortemente o coração do espectador diversas vezes, com os atos cruéis desse fascinante personagem da literatura brasileira.

quinta-feira, novembro 12, 2020

QUATRO FILMES CLÁSSICOS DE HORROR



Mais um dia sem tempo para escrever para o blog. Vontade de escrever não falta, mas tem que administrar tempo e energia para isso. Então, vamos de textinhos sobre filmes que já vi já faz algum tempo. Alguns eu gostaria muito de tecer considerações mais aprofundadas e refletir sobre eles no calor do momento mas também com ajuda de pesquisa. Como isso está mais complicado e a fila de filmes vistos tem crescido, o que posso fazer é deixar esses textos escritos de maneira rápida e às vezes atrapalhada no meu Letterboxd/Facebook.

O CORVO (The Raven)

Um filme de uma hora de duração me parece atraente. Ainda mais sendo um exemplar da era de ouro dos monstros da Universal, por mais que este aqui já pareça ser menor do que os mais importantes trabalhos realizados por Lugosi e por Karloff. O CORVO (1935), de Lew Landers, é o segundo filme que os dois fizeram juntos, depois do ótimo O GATO PRETO. Este aqui não tem uma história baseada no poema "The Raven", mas utiliza referências soltas e principalmente inspirações de contos de Poe que lidam com a tortura, uma fixação do personagem de Lugosi, o médico louco que desfigura com alegria o rosto do criminoso procurado pela polícia vivido por Karloff. É um filme divertido, mas em alguns momentos do clímax parece mais um movimentado filme da era do cinema mudo, só que com uso de som. Mas tem o seu charme, com certeza.

SINTOMAS (Symptoms)

Sinto que havia no espírito do cinema de horror dos anos 1970 uma espécie de contato maior com a natureza. Até o nosso Khouri fez exemplares do gênero ambientados em casas interioranas. SINTOMAS (1974), de José Ramón Larraz, foi realizado pouco antes de AS FILHAS DE DRÁCULA (1974) e tem uma preocupação muito pequena com plot e bastante com atmosfera. Tanto que a parte mais movimentada do filme demora bastante a acontecer. Antes disso há muito tempo para curtir o som dos pássaros pela manhã, o som da chuva à noite, mas também o medo dos barulhos que se ouvem quando as luzes se apagam e o clima hostil que vai se formando ainda que sutilmente para a personagem Anne. Melhor ver sem saber nada a respeito.

KAIRO (Pulse)

O senso de desorientação da primeira vez que vi KAIRO (2001) persiste na revisão, mas agora me conectei muito mais com o filme, com seu sentimento de solidão imenso. Destacar que a morte é a exponenciação da solidão na terra é perturbador. E o filme lida com isso misturando o horror sobrenatural com um melodrama lindo, auxiliado por uma trilha sonora inspirada. Destaque também para os fantasmas, muitas vezes aterrorizantes (há uma mulher fantasma que me impressionou de fato) e a maneira original de conectar o horror (e a solidão) com uma incipiente internet. A fotografia opaca e os cenários sujos também contribuem para esse clima de desesperança com o mundo. Até fiquei fazendo (novamente) conexões com o cinema de Lynch (CIDADE DOS SONHOS, que é do mesmo ano, principalmente), mas talvez esse tipo de conexão se deva mais pelo fato de eu ter poucas referências orientais, me faltando background. Mas tenho interesse em conhecer mais o cinema do Kiyoshi Kurosawa.

UM GRITO DE PAVOR (Scream of Fear / Taste of Fear)

Ah, os filmes de 80 minutos de duração! Atualmente eles andam mais queridos do que nunca. E este UM GRITO DE PAVOR (1961), de Seth Holt, é redondinho, uma delícia de ver em sua construção de suspense e terror. É um exemplar do quanto PSICOSE se tornou uma referência, já que há aqui também uma trama que não deve ser contada para não estragar as surpresas, como diz em um dos cartazes originais. Na trama, jovem cadeirante volta para a casa do pai na Riviera Francesa depois da morte de sua melhor amiga e passa a ser assombrada por imagens do pai morto. Acho que tem algum furo na história, mas é tão gostoso de ver que, mesmo que tenha, está mais do que perdoado. Pra encerrar: já falei que o filme é uma delícia?

terça-feira, novembro 10, 2020

SÓ A MULHER PECA (Clash by Night)



Eis um dos mais belos e poderosos trabalhos de Fritz Lang. O bom e velho cineasta austríaco fez um filme para destroçar nossos corações. Um melodrama com uma pitada de veneno em um drama familiar que ganha contornos bem dramáticos a partir de um triângulo amoroso. Barbara Stanwyck está em um de seus melhores papéis, como a mulher desencantada com a vida que volta para casa em uma pequena cidade pesqueira a fim de reconstruir a vida. As dores e as contradições de sua personagem nos contaminam, assim como também é doloroso ver um homem tão bondoso quanto o personagem de Paul Douglas sofrer no processo.

SÓ A MULHER PECA (1952) traz muito pano para manga para discussão sobre traição, o papel da mulher na família ontem e hoje, violência e possessividade masculina etc. E ainda tem a Marilyn Monroe em um papel pequeno, mas já apontando para a glória que ela alcançaria já no ano seguinte.

Este é um filme em que Lang privilegia os exteriores, o que não era muito comum, a não ser em trabalhos mais atípicos, como foi o caso de GUERRILHEIROS DAS FILIPINAS (1950), que pode ser visto como uma obra à parte em sua filmografia. Aqui até mesmo ele obteve comparação com Rossellini e o neorrealismo italiano, na sequência inicial, que mostra a rotina do trabalho de pesca da vila onde se passa a história, filmada em Monterey. A introdução do filme mostra as ondas, as gaivotas, os barcos, o empacotamento das sardinhas na fábrica. Isso não era muito comum no cinema americano da época. Tanto que o próprio Lang conta que viu uma versão de seu filme na televisão sem essa sequência "documental" introdutória.

Acho que foi o filme que mais me fez admirar a grandeza de Stanwyck como intérprete. Ela está brilhante. E também especialmente gentil, já que havia uma tensão por causa da presença de Marilyn Monroe no set, já que ela chegava atrasada e esquecia as falas, e, como ela era uma artista em ascensão, muitos jornalistas iam visitar o set só para entrevistá-la, não queriam falar com Stanwyck ou Lang. Paul Douglas odiava Marilyn. Já o produtor sabia da estrela que ela carregava e queria dar destaque a ela. SÓ A MULHER PECA foi seu primeiro grande filme, ainda que em um papel de coadjuvante.

No entanto, o papel dela e o de Keith Andes, um jovem casal de namorados, é bastante representativo do tipo de relação de poder e resistência entre homens e mulheres que se apresentava na sociedade americana daquele período . O rapaz está sempre destacando seu machismo, enquanto ela fica um tanto contrariada, mas, como gosta dele, releva algumas coisas. Interessante que é com os dois que Lang faz a cena mais virtuosa do filme, com um plano-sequência que mostra os dois saindo da praia e chegando até o restaurante, sob o olhar do personagem de Robert Ryan, que, sozinho, procurava assediar tanto a jovem quanto a namorada/esposa de seu (supostamente) melhor amigo.

O final do filme é de uma força incrível. E Lang fez muito certo ao mudar o final original da peça de Clifford Odets. Por acreditar que a violência só leva à desgraça e achar absurdo o crime passional, Lang trouxe um destino lindamente agridoce para seus protagonistas, depois do inferno pelo que passaram. Filmar uma explosão emocional causada por traição e dor dentro de um lar não é fácil. Mas quando alguns cineastas acertam no ponto, é impressionante como isso mexe comigo.

Acredito que hoje o filme seja visto de uma maneira bem diferente da época de sua realização. Alguns o consideram machista. Não creio que seja, mas acredito que não sou eu a pessoa mais certa para julgar. Só acho que Lang fez um retrato até que bem progressista da mulher daquela época, uma mulher disposta a enfrentar o seu próprio destino, nem que seja para ficar sozinha ou com má fama.

E o fato de não vermos o início do momento do adultério propriamente dito, mas acompanharmos apenas o ponto de vista de Jerry (Douglas), contribui para que soframos um pouco com ele. Depende do espectador julgar ou não os personagens. Por isso que muitos consideram este um dos filmes de Lang que mais admite diferentes interpretações. O fato é que eu acabei de ver um dos melhores filmes do cinema americano já feitos. E estou muito feliz com isso.

segunda-feira, novembro 09, 2020

TENET



Que loucura este 2020, hein. E como tudo foi afetado pela pandemia, claro que o cinema não poderia deixar de ser. Na verdade, o cinema foi um dos setores mais prejudicados. A escolha de Christopher Nolan e da Warner de colocar TENET (2020) nos cinemas mesmo com os índices de contaminação ainda altos e com muito do público temeroso de pisar os pés em uma sala de cinema foi arriscada. Com isso, o filme de Nolan acaba sendo o único blockbuster deste segundo semestre, já que houve uma rejeição a OS NOVOS MUTANTES, um filme bem simpático e que mereceria um pouco mais de consideração.

Começar o texto falando de loucura e abordar TENET até que tem um pouco a ver. Mas só um pouco, já que Nolan é um diretor cerebral. Se tem alguém que fica com os neurônios pegando fogo durante a projeção de seus filmes é o público. E mesmo assim eles gostam, levando em consideração o bom número de pagantes para o filme, que de fato tem suas qualidades de produção valorizadas na sala IMAX. Se as pessoas acharam INTERESTELAR (2014) complicado, TENET leva essa complexidade a uma outra escala. Quando a gente pensa que está começando a entender a trama, eis que ele traz novas cenas que nos deixam perdidos novamente.

Mas há que se respeitar um cineasta que é capaz de fazer um filme caro como este, sem nenhum grande astro no cartaz (o nome de Robert Pattinson não aparece em destaque), de difícil compreensão, e ainda atrair um número considerável de espectadores em plena pandemia. Minha reação ao filme foi variando ao longo da metragem. Comecei me irritando com explicações sobre as balas reversas, depois fui achando fascinante a história de um mundo reverso, e ficando bastante impressionado com as cenas de ação, e em especial com o som, com a qualidade de som do filme, que numa sala IMAX é estrondoso de bom. A trilha sonora, a cargo do sueco Ludwig Göransson, lembra o som de algumas bandas de rock industrial, como o Ministry, e isso também me agradou.

Comecei, com este filme, a achar aceitável o estilo de Nolan: um diretor com uma absoluta fascinação pelo tempo e que vem brincando com isso de maneira cerebral ao longo de sua filmografia, talvez desde a sua obra de estreia. Lembremos que em Nolan até o sonho é racionalizado, vide A ORIGEM (2010). Não é algo que vai me agradar plenamente, claro, mas estou começando a dar novas chances ao diretor. Até porque uma coisa que percebemos vendo TENET é que estamos diante de um dos cineastas mais dispostos a trazer a ficção científica para o cinema da maneira mais séria possível. Ou seja, trazendo conceitos de física e química que lhe auxiliam na construção de uma trama complexa.

O problema (ou seria a solução?) é que ele não quis apenas fazer um filme de ficção científica, mas também uma espécie de thriller de espionagem à James Bond, com o mérito de trazer um protagonista negro e cheio de brilho e carisma. John David Washington é uma aposta , já que seu papel de maior destaque até então era o de INFILTRADO NA KLAN, de Spike Lee, um filme mais direcionado ao circuito alternativo. Aqui ele incorpora um James Bond meio perdido, mas que nunca abandona a elegância. Sempre com um terno chique, mesmo quando está às voltas com lutas braçais com criaturas vindo do futuro.

O fato de o protagonista (ele não tem um nome no filme) estar tão perdido quanto o espectador não deixa de ser um alento. Aliás, é curioso que, na época da divulgação do filme, contou-se que nem o elenco entendeu a história de TENET. Então, quando vemos os personagens dialogando sobre esses assuntos complicados e de uma maneira até um tanto robótica, fiquei pensando em um cineasta mais ou menos ditatorial, que não se importa com o que o ator está sentindo ou deve sentir para a cena. É o caso de ver o ator como gado, como Alfred Hitchcock tempos atrás.

As cenas que mais se aproximam de uma sensação mais dramática ou minimamente sentimental vem da personagem de Elizabeth Debicki, que interpreta a esposa de um homem que tem em suas mãos o destino do universo, vivido por Kenneth Branagh. Uma das cenas mais empolgantes do filme, inclusive, é uma em que os dois coadjuvantes estão em um barco. Por outro lado, as cenas de ação mais ambiciosas, como a dos caminhões pressionando uma camionete, parecem um pouco engessadas. Mas ainda assim funcionam como um alívio para o cérebro nas duas horas e meia de duração que, acredite se quiser, passam voando.

domingo, novembro 08, 2020

VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (Sea of Love)



Mais um filme da safra "nostalgia", este VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO (1989), de Harold Becker, vi na data de sua estreia no Brasil (creio que em 89 mesmo), no Cine São Luiz, numa daquelas sessões noturnas que eu fazia, na grande maioria das vezes sozinho, depois do expediente. Na época eu ainda era estagiário do Banco do Nordeste e devia ter 17 anos. Não lembro se a classificação indicativa foi 14 ou 16 anos. De todo modo, até hoje o filme tem fama de trazer uma das melhores cenas de sexo em filmes americanos mainstream. E sem dúvida a cena, com uma Ellen Barkin fabulosa, foi o que mais ficou grudado em minha memória.

É interessante quando é necessário um pouco mais de tempo para que certos filmes se tornem pequenos clássicos. No caso deste aqui, que trouxe de volta Al Pacino para os cinemas depois de alguns anos longe das telas, a revisão aumentou muito mais a minha apreciação inicial. Além do mais, é importante notar o quanto VÍTIMAS DE UMA PAIXÃO antecipou INSTINTO SELVAGEM, de Paul Verhoeven, tanto pela junção de thriller de crime com erotismo, quanto na história de um policial que se envolve com (e se apaixona por ) uma suspeita de ser a assassina serial procurada. 

Se aqui não temos um grande diretor, temos uma série de circunstâncias que tornaram o filme especial e delicioso de ver. E ainda temos a sempre simpática presença de John Goodman, como o parceiro de Al Pacino na busca pelo responsável pelos assassinatos. Quanto a Pacino, ele está mais uma vez excelente como um policial separado da esposa e com um fraco pela bebida. O atual marido da esposa é um colega de trabalho dele (Richard Jenkins).

Assim, o caso da mulher que anda matando caras com um tiro na cabeça, nus e em suas camas, caiu como uma bênção para o Detetive Frank Keller (Pacino). A ideia que ele teve para caçar o assassino ou assassina foi marcar encontros com mulheres que respondem a anúncios em forma de versos em uma revista. Tanto as cenas de preparação para o plano quanto as cenas dos encontros rápidos com as diversas mulheres nos trazem um sorriso no rosto. Até que surge uma mulher diferente, Helen Cruger, vivida por Ellen Barkin. Quando eles se veem novamente, por acaso, bate uma atração forte e instantânea.  

A comparação que se pode fazer deste filme com INSTINTO SELVAGEM faz todo o sentido na cena em que Pacino vai para o quarto com a mulher e descobre que ela tem uma arma na bolsa. Ou seja, o misto de tensão com tesão se intensifica, ainda que de maneira bastante diversa.

O clima neo noir é outro atrativo do filme, que destaca as ruas de Nova York ao som de um saxofone, mas principalmente quando enfatizam a força da femme fatale loira de Barkin. 

Há quem veja como problemático o final, mas eu vejo um acerto, no sentido de que foge de ser um whodunit tradicional e burocrático e destaca que o que menos importa no final é saber a identidade do assassino e muito mais a relação que se estabelece entre o casal.

Agradecimentos à Paula, por topar ver este filme comigo em esquema de distanciamento social. 

sábado, novembro 07, 2020

SIBÉRIA (Siberia)



“I want to see if we can really film dreams - our fears, our regrets, our nostalgia.”
Abel Ferrara


Para quem costuma reclamar dos filmes do Abel Ferrara produzidos no novo milênio e tem saudade dos trabalhos gloriosos do cineasta na década de 1990, SIBÉRIA (2020) vai trazer de maneira ainda mais forte essa sensação. Afinal, o diretor, por mais que aparentemente tenha deixado as drogas, aqui opta por uma experiência muito parecida com uma bad trip ou algo parecido. Estamos em um território onde o espaço e o tempo são confusos como em um pesadelo ou um sonho desconfortável. O filme é inspirado no Livro Vermelho, de Carl Jung, e certamente será melhor compreendido por quem estudou psicologia, estudou Jung.  

Há algo de Browning (ou de Lynch) na jovem anã na cadeira de rodas ou na anciã sangrando na cama. Há um excesso de simbolismos que faz do filme um prato cheio para a psicanálise. Nunca a presença do parceiro de roteiro de Ferrrara, Christ Zoist, pareceu tão explícita. Zoist tem colaborado com o diretor ítalo-americano desde ENIGMA DO PODER (1998), justamente o filme que representa a transferência de cetro de Christopher Walken para Willem Dafoe, os dois maiores atores-fetiche e/ou alter-egos do cineasta. Com SIBÉRIA, Dafoe e Ferrara firmam parceria pela sexta vez. 

Muitas vezes este novo filme passa a impressão de ser a obra mais pessoal do diretor, principalmente por mostrar sua relação com os pais e com o irmão, sua infância e também mostrar um casamento que não deu certo, e no quanto há de remorsos a ser trabalhados nesse auto-exílio.

A ânsia pela espiritualidade aparece de maneira torta, como é comum nos filmes do realizador - aqui o protagonista busca aprender práticas de magia negra. Quanto às imagens, poucos filmes do realizador trazem imagens tão belas. A experiência deve crescer bastante na telona. Eu, que vi e revi quase todos os filmes de Ferrara em casa neste tão singular 2020, nunca senti uma necessidade tão grande da telona como neste trabalho. Então, fica uma vontade grande de rever no cinema, até como uma nova oportunidade de penetrar na obra.

Na trama, Dafoe é Clint, um homem torturado pelo passado e que trabalha em um bar remoto em um local gelado. Ele não sabe falar a língua da grande maioria das pessoas que aparecem no bar: vemos esquimós, russos e há uma cena que se destaca entre clientes. Trata-se da cena com uma senhora idosa chegando no bar com sua filha bastante grávida, vivida pela bela Cristina Chiriac, atual esposa de Ferrara, e coprotagonista de TOMMASO (2019), seu filme anterior, ainda não visto por mim. A filha dos dois, aliás, a pequena Anna, também aparece no filme, o que só aumenta ainda mais a impressão de se tratar de uma obra muito pessoal do realizador. 

Vale destacar que a tal cena com a mulher grávida talvez seja a mais sensual e bonita já filmada por Ferrara, por mais que a concorrência seja difícil, se lembrarmos de Asia Argento no já citado ENIGMA DO PODER, as cenas do metrô no segmento "Love on the A Train" (1997) ou o striptease de Melanie Griffith em CIDADE DO MEDO (1984).

Ainda assim, dos dois filmes do diretor exibidos na Mostra, o menos ambicioso e mais jazzístico SPORTIN' LIFE (2020) me ganhou muito mais facilmente. Mas, nada que uma revisão não possa mudar essa impressão.

sexta-feira, novembro 06, 2020

MAR DE DENTRO



Muito feliz por ver a Monica Iozzi em um projeto de cinema tão digno e exercitando o seu talento dramático tão bem. Embora seja um filme sobre maternidade, eu diria que MAR DE DENTRO (2020) é até mais recomendado para os homens assistirem do que para as mulheres. Até para termos um pouco o gostinho das dificuldades de ser mãe, seja durante ou após o período de nove meses. Em apresentação do filme especialmente para a Mostra, a diretora Dainara Toffoli falou justamente que um amigo homem que viu o filme afirmou isso e eu senti a mesma sensação.

O filme ganha bastante no momento da solidão da personagem, da angústia de ter que dar conta sozinha de um recém-nascido, das dores nos seios, das noites de sono perdidas, da dificuldade de conciliar a maternidade com a profissão, após o fim da licença. E tudo isso é muito bem desenvolvido. Acho que a cena do consultório foi a que mais me comoveu, mas toda a narrativa está impregnada de sensibilidade feminina, seja de amor, seja de cansaço ou mesmo de irritabilidade.

Ter filmes como esse, que ajudam a trazer mais realismo para a maternidade, desmitificá-la um pouco, é muito importante. De certa forma, lembrei-me de TULLY, de Jason Reitman, que apesar de ser dirigido por um homem, tem um roteiro forte de uma mulher, Diablo Cody, e é o filme sobre maternidade - não só sobre isso, na verdade - que mais me impactou.

Em MAR DE DENTRO, temos uma diretora mulher que, inspirada na própria experiência, gestou ao longo de vários anos esta obra tão sensível. E é também um filme que dialoga com certas produções contemporâneas do circuito de arte. Ao ver, por exemplo, a personagem de Monica Iozzi cuidando do bebê, trocando a fralda, alimentando-o, lembrei da experiência que foi ver DIAS, de Tsai Ming-liang. Mas claro que aqui a proposta está longe de ser tão radical. No entanto, eu diria que temos sim um filme menos interessado em contar uma história do que em nos fazer mergulhar no turbilhão emocional vivido pela protagonista. A comparação com o mar não é gratuita. E nesse sentido eu diria que Toffoli foi muito bem-sucedida. Tanto é que o filme cresce muito quando a personagem precisa lidar com sua solidão (auto-imposta, de certa forma). 

Perto do final, quando Manuela, a personagem de Iozzi, dá carona a uma de suas babás, o filme alcança tal grau de excelência dentro da simplicidade que a cena imediatamente posterior, que encerra o filme, traz uma espécie de felicidade meio amarga que chega a aquecer nossos corações.

Espero uma carreira de sucesso no circuito comercial para MAR DE DENTRO, pois na Mostra ele acabou não tendo tanta repercussão. De todo modo, ainda dá tempo de pegá-lo na repescagem. 

quarta-feira, novembro 04, 2020

DIAS (Rizi)



Creio que sou muito dependente das palavras, muito amante delas. Não à toa, meu filme favorito da Mostra é MALMKROG, de Cristi Puiu, cheio de diálogos. A palavra me fascina, embora tenha escolhido o cinema como a arte mais apaixonante, superando até a música, a literatura e os quadrinhos, não necessariamente nesta ordem, que também são minhas paixões. Dito isso, quando comecei a ver DIAS (2020), de Tsai Ming-liang, e vi que o filme não tinha diálogos, que não haveria inclusão de legendas (há poucas falas, de fato não são necessárias), por opção do diretor, até me deu um pouco de desânimo.

De fato temos um filme difícil. Já havia visto JORNADA AO OESTE (2014), uma experiência impressionante e radical com um monge andando muito leeentameente pelas ruas de Marselha. Trata-se de uma produção de Taiwan com a França. Como também é, DIAS, que se passa em Bangkok, na Tailândia. É até difícil falar de locação, embora as ruas da cidade sejam sim importantes, assim como parece ser desnecessário falar de história, já que o fio de trama aqui é tão pequeno.

O que mais tem de sobra são os planos estáticos de personagens, principalmente em interiores. Para mim, foi um tanto difícil. Estava com o espírito inquieto na segunda-feira. Saía do sofá e ia pra cama; saía da cama e voltava para o sofá. Dava pausa no filme para respirar de vez em quando. Mas imagino que ver DIAS com um espírito "zen" muda tudo, se torna uma experiência quase mística. A mim, o que me veio foi uma inquietação tão grande que as dores do personagem de Lee Kang-sheng pareciam ter passado para mim.

O ator, muso do cineasta, e presente em todos os seus filmes, sofre de dores constantes no pescoço, algo que é parte fundamental da trama e do sentimento de O RIO (1997), e que aqui novamente surge, inclusive quando vemos uma terapia que ele usa para tratar da dor, chamada moxabustão, uma espécie de acupuntura térmica. Não parece tão relaxante assim, pois em alguns momentos queima a pele do paciente.

No mais, não é todo dia que temos a chance de ver um filme com alguém lavando as verduras com tanto carinho, depois descascando, fazendo a comida e se alimentando. Trata-se do segundo personagem do filme, o estreante Anong Houngheuangsy, do Laos. Ele trabalha como massagista/garoto de programa. Mas talvez dizer isso seja um spoiler. Será? Ainda mais em um filme que não se preocupa com um enredo? No mais, há a cena da massagem, também mostrada de maneira muito lenta, sem pressa e com um movimento suava de câmera que valoriza o que está dentro e o que está fora do plano.

Seria DIAS uma espécie de cinema do corpo mas visando fazer um questionamento ou reflexão sobre o estado da alma a partir das dores? Pensei nisso enquanto via a cena da massagem. Mas também há que se destacar a solidão como um elemento fundamental para se aproximar mais dos sentimentos e menos das sensações. Da solidão eu entendo, mas confesso que gostaria de ter me conectado mais com o filme. Até me incomodei um pouco com a música de LUZES DA RIBALTA. Quem sabe eu me preparo melhor psicologicamente na próxima experiência com Tsai Ming-liang. De preferência no cinema.

terça-feira, novembro 03, 2020

SETE FILMES VISTOS NA 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO



A Mostra se aproxima do filme e eu, ainda que esteja muito longe dos números de amigos cinéfilos mais vorazes, os meus heróis, já estou de ressaca. Já sinto falta de filmes mais clássicos, os quais gosto de alternar com essas obras de caráter mais alternativo ou às vezes mais experimental. Ainda assim, rememorar alguns desses filmes é ver que são todos títulos que valeram a pena as horas de apreciação. Há outros que ainda estou guardando para escrever textos mais aprofundados no futuro breve.

LA PLANTA

Que saudade de um filme de ficção de Beto Brant (o último foi em 2011!!!). Enquanto isso não é possível, o cineasta nos presenteia com um outro documentário (desta vez em média-metragem) muito relevante. Na verdade, urgente, por mais que fiquemos um tanto desanimados com este atual governo obscurantista. Ainda assim, ver este filme sobre os benefícios medicinais imensos da cannabis acende uma chama de esperança de um futuro melhor, com menos dor, menos doenças e mais equilíbrio e harmonia com a natureza, coisas que fomos perdendo com um modo de vida que foi nos deixando mais e mais doentes e muito conformados com nossa condição. O filme foi rodado no Uruguai, país que legalizou o uso da maconha há alguns anos e que tem feito um progresso imenso em pesquisa e em auxílio a pessoas com câncer, epilepsia, Parkinson, fibromialgia, autismo, esclerose múltipla, dores crônicas, transtorno de ansiedade etc. E é como um dos cientistas diz: isso é só o começo, há muito a ser descoberto sobre os benefícios da cannabis. Ano: 2020.

SHIRLEY

Um dos poucos, se não o único, filmes presentes na Mostra a ter gerado algum burburinho para indicações futuras do Oscar. No caso, para Elisabeth Moss, sempre ótima na construção de suas personagens. Aqui ela interpreta a escritora de ficção de horror Shirley Jackson (de A Maldição da Residência Hill) e sua relação com uma jovem grávida que chega com o marido para passar uns dias em sua casa. Trata-se de um filme cuja chave para compreendê-lo talvez esteja na sensibilidade dos problemas e nos dramas das personagens femininas. Há uma ótima metáfora da escrita como um parto, e o processo criativo é também um dos pontos de ênfase do filme. Direção: Josephine Decker. Ano: 2020.

ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO (This Is Not a Burial, It's a Resurrection)

Histórias de pessoas que se recusam a sair do lugar por imposição superior já são bastante conhecidas, inclusive no Brasil. Basta lembrar de AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho. E também histórias sobre cidades que são inundadas para a construção de uma barragem também não são raras. O tom deste filme de um país que eu nem sabia que existia (Lesoto) é que é bastante trágico, com uma velha senhora ainda de luto pela morte do filho e já tendo que encarar esta mudança. Para ela, a morte parece uma solução muito mais interessante. Talvez tenha me faltado estar no clima para penetrar na atmosfera do filme, que tem qualidades admiráveis. Em certo momento, o diretor usa a natureza para compor uma espécie de pintura, dando ao céu e à planície uma dimensão muito maior do que a de seus personagens. É também muito interessante a narração, em tom de tragédia grega (quase como um coro), por um homem. Direção: Lemohang Jeremiah Mosese. Ano: 2019.

O NARIZ OU A CONSPIRAÇÃO DOS DISSIDENTES (Nos Ili Zagovor Netakikh)

Não é um filme fácil, especialmente para quem não tem bagagem cultural suficiente para acompanhar pelo menos boa parte das referências da história política russa do século XX, em especial os danos causados por Josef Stalin durante seu comando da União Soviética. O filme até termina em tom mais sério e solene, o que é bom em respeito aos mortos pelo regime autoritário, mas durante a maior parte de sua metragem o tom de escárnio predomina. Há uma transição de narrativas que me deixou confuso. A primeira parte é uma adaptação da novela O Nariz, de Nikolai Gogol, com a história surreal do sujeito que perdeu o nariz e sai à procura dele. E há a adaptação da adaptação para a ópera, feita nos anos 1920. Do ponto de vista da beleza plástica e das técnicas de animação, achei um primor, mas a cantoria pouco atraente me cansou, juntamente com minha ignorância no assunto. Direção: Andrey Khrzhanovskiy. Ano: 2020.

NADANDO ATÉ O MAR SE TORNAR AZUL (Yi Zhi You Dao Hai Shui Bian Lan)

Certamente é um trabalho mais modesto este documentário que Jia Zhangke fez sobre a história de vida de escritores da região onde ele nasceu. O problema do filme é a irregularidade. Depende muito do entrevistado. Alguns contam histórias interessantes e são entusiasmados, como a do sujeito que ficava frustrado com os livros censurados (com páginas arrancadas) pelo governo chinês e ele não conseguia ler o final e ficava imaginando. Creio que eu me interessaria mais pelo filme se ele focasse mais nesses detalhes mais específicos dos escritores do que na vida familiar, como acontece quando vemos o depoimento de uma escritora muito emocionada quando lembra da mãe. A primeira parte do filme é um tanto desanimadora, mas gosto do desenvolvimento. Pelo menos em algumas partes. Ano: 2020.

PAI (Otac)

Herdeiro do neorrealismo italiano e de outros derivados, como exemplares do cinema iraniano e do cinema chinês, este filme não se importa em colocar seu herói em situações cada vez mais tristes em sua jornada em busca da recuperação dos filhos, tirados dele pelo serviço social. É o caso clássico de um homem contra um sistema, mas sem querer se aventurar pelo banditismo, uma saída bastante compreensível em se tratando de sua situação. Espécie de road movie a pé, a estrutura narrativa fica no meio do caminho entre o clássico e o alternativo. Isso pode causar alguma insatisfação, mas achei bem digno. Direção: Srdan Golubovic. Ano: 2020.

O LIVRO DOS PRAZERES

Bem interessante esta adaptação do romance de Clarice Lispector. O filme traz Simone Spoladore como a mulher que vive insatisfeita, estando sozinha ou estando acompanhada. O sexo com estranhos funciona como busca de prazer para esconder a dor. A angústia da personagem é sentida do lado de cá da tela, assim como uma sensação de bem-estar surgida em alguns momentos-chave do final (o pássaro, a praia). Interessantes as cenas da escola. A personagem é professora de crianças (e estudante de filosofia) e leva seu existencialismo para as aulas, o que deixa os alunos um pouco confusos. O romance com o personagem do ator argentino Javier Drolas nem sempre funciona, até pelo fato de o personagem (ou o ator?) não ser muito carismático. Direção: Marcela Lordy. Ano: 2020.

domingo, novembro 01, 2020

O DIABO FEITO MULHER (Rancho Notorious)



Vamos de Fritz Lang mais uma vez para dar uma pausa nos filmes da Mostra, pelo menos aqui no blog. Fico com saudade dos filmes antigos, embora esteja vendo muita coisa boa dos novos e inéditos. O DIABO FEITO MULHER (1952) era um dos filmes de Lang que eu mais ansiava ver, justamente por ter gostado muito dos outros dois westerns que ele realizou, A VOLTA DE FRANK JAMES (1940) e OS CONQUISTADORES (1941). São tão deliciosos que eu fiquei me perguntando o motivo de o cineasta austríaco não ter realizado mais filmes do gênero. De todo modo, sua especialidade no que hoje chamam de film noir foi um presente para fãs de cinema.

O retorno ao western é com este filme que traz uma das maiores musas europeias a se estabelecer em Hollywood e que já havia passado de seu auge físico - ela já passava da casa dos 50. Marlene Dietrich teve sua década de glória nos anos 1930, especialmente com a série de filmes dirigidos por Josef von Sternberg. Fritz Lang gostava dela, sempre quis trabalhar com ela. Surgiu finalmente esta oportunidade.

Diferente dos outros dois westerns de Lang, este aqui é menos romântico e mais amargo. Já começa com um choque: a namorada de Vern Haskell, um criador de gado da pequena Wyoming, é estuprada durante um assalto e logo em seguida assassinada. Como em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931), não vemos nada do estupro. Vern, sem conseguir ajuda do xerife da cidade nem de outros habitantes, que temem atravessar a reserva dos índios, segue sozinho nessa tarefa de encontrar o criminoso, sem nada saber sobre ele.

A chave do filme gira quando, no meio do caminho, em uma barbearia, ele houve falar de uma mulher chamada Altar Keane (Marlene Dietrich) e fica um tanto fascinado com a descrição que lhe é dada, a história de quando ela literalmente cavalgava os homens em torneios em que os sujeitos eram cavalos e as mulheres, do tipo livre, eram as jóqueis. 

Percebe-se que temos ao mesmo tempo um filme de vingança com um história de investigação com grandes chances de se tornar uma história complicada de amor. Ou algo parecido. O caminho para chegar a Altar Keane e ao famoso refúgio dos bandidos faz com que ele entre em contato com o namorado de Altar, um pistoleiro de meia idade chamado Frenchy Fermont (Mel Ferrer). Frenchy e Vern se tornam amigos e vão parar no tal abrigo, onde ele vê pessoalmente Altar e vários bandidos residentes. Um deles deve ser o criminoso que violou e matou sua namorada. O filme ganha novos contornos a partir da presença de Marlene finalmente fora dos flashbacks. Ela agora é dona deste lugar e recebe um percentual dos lucros dos assaltos em troca de abrigo e segurança para esses homens.

Um dos destaques de O DIABO FEITO MULHER é a canção-tema, algo inédito até então em um western. A canção-tema dá um ar de mitologia ao enredo e Lang se antecipou em um ano ao tema musical de MATAR OU MORRER, de Fred Zinnemann.

E outro diferencial do filme é o amadurecimento da figura da femme fatale, que aqui surge não como uma mulher que arruína a vida de um homem, mas que a salva. Quanto à violência como meio de vingança, desde FÚRIA (1936) que Lang já denunciava a vaidade do ato.

sábado, outubro 31, 2020

O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS



Em O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS (2020) vemos algo parecido com uma boneca russa em se tratando de criadores. Há o filme de João Botelho, que é baseado no romance de José Saramago, que conta a história envolvendo o poeta Fernando Pessoa, que por sua vez criou o heterônimo Ricardo Reis, o poeta das odes, de estilo clássico, e ganhou uma data de nascimento, mas não ganhou uma data de morte, como Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, seus outros dois heterônimos mais famosos. E Saramago, dono de ideias geniais, teve a feliz ideia de contar a história deste homem, médico e simpatizante da monarquia, que fugiu para o Brasil quando se instalou a república em Portugal.

O Ano da Morte de Ricardo Reis, romance lançado em 1984, foi um dos livros que li na virada do ano passado para este, muito devagarinho, finalizando finalmente já no período inicial da pandemia. Não achei o livro dos mais fáceis de Saramago. Está na categoria dos mais áridos, ao lado de História do Cerco de Lisboa (1989). O autor se permite cada vez mais se deixar levar por abstrações, entrando na mente de seu protagonista e viajando em seu fluxo de consciência, ao mesmo tempo que também nos oferece um panorama do cenário político que se apresentava naquele ano de 1936, com a ascensão do nazismo e do facismo.

O recurso do fluxo de consciência é um pouco mais complicado para se fazer na adaptação para o cinema, especialmente quando não se adota uma narração em voice-over. João Botelho opta por contar tudo com imagens e com os diálogos de seus personagens. E que imagens! O diretor de fotografia João Ribeiro é colaborador de Botelho em outros trabalhos. E aqui ele obtém resultados esplendorosos no uso de luz e sombra com o preto e branco luminoso adotado. É talvez o elemento que mais nos seduz neste filme. 

A história se inicia com o retorno de Ricardo Reis a Portugal, após um período de 16 anos morando e trabalhando no Brasil. Quando ele chega, fica sabendo da notícia da morte de Fernando Pessoa, seu amigo e grande poeta, ainda que menos popular do que se tornaria com o passar dos anos. Como os encontros de Ricardo com o fantasma de Fernando estão entre os pontos altos do livro, o filme procura destacar esse elemento como o mais importante. Talvez traia um pouco a obra, desequilibrando-a, mas oferece um olhar mais existencialista sobre a vida e a morte. O tom fantasmagórico fica mais acentuado. 

Por outro lado, um dos momentos mais empolgantes do romance, que é a viagem de Ricardo Reis a Fátima para talvez encontrar o seu amor, a menina Marcenda (Victoria Guerra), é filmado de maneira rápida e desinteressante. O que é uma pena. Os relacionamentos de Ricardo Reis com as duas mulheres que conhece no hotel em que se hospeda recebem destaque mas carecem um pouco de força dramática. De todo modo, de maneira racional percebemos o embate entre o amor romântico e quase platônico por Marcenda e o amor mais carnal por Lídia, interpretada por Catarina Wallenstein, que brilha com seu sex appeal - ela pôde ser vista recentemente em UM ANIMAL AMARELO, de Felipe Bragança, integrante da mostra competitiva do Festival de Gramado.

E quase esqueço de mencionar Chico Diaz, uma escolha audaciosa do diretor para viver Ricardo Reis. A princípio, fiquei achando que ele não combinava muito com a imagem de um português, mas depois vemos o quanto o ator brasileiro se sai bem. Além do mais, o próprio Fernando Pessoa, vivido por Luís Lima Barreto, tem um tipo físico bem distinto da magreza do poeta português. Ou seja, o diretor não tinha a intenção de se aproximar da realidade física.

Não foi a primeira vez que João Botelho trouxe para o cinema Fernando Pessoa e seus heterônimos. Em FILME DO DESASSOSSEGO (2010), ele adapta a prosa poética de Bernardo Soares, o que deve ser uma tarefa ainda mais difícil do que a de adaptar um romance. Por outro lado, deve ser mais livre, pois o trabalho maior é de adaptar as ideias, os pensamentos e os sentimentos. Em O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS é diferente: há a preocupação de se contar uma história, uma linha narrativa, por mais que o caminho para contá-la dependa da criatividade do diretor e roteirista.

sexta-feira, outubro 30, 2020

MALMKROG



De vez em quando surge um filme que funde a nossa cabeça. Mas de maneira boa, eu diria. MALMKROG (2020), do romeno Cristi Puiu, não tem pena de seus espectadores. Em suas três horas e vinte minutos de duração mal temos tempo de respirar diante de tantas discussões acerca de vários assuntos, analisados de maneira profunda, na maior parte das vezes, ou de maneira que irá denunciar a perversidade de seu locutor, como é o caso de um deles quando diz que se for preciso que a Europa tenha que massacrar os africanos para a manutenção de suas riquezas, que assim o faça.

MALMKROG, se não for o melhor filme da Mostra, é certamente um dos. O problema é que é um filme de difícil penetração, pela quantidade absurda de cultura, filosofia, teologia e História que é discutida entre cinco pessoas ricas na Rússia do século XIX, mais especificamente na Transilvânia, que na época fazia parte da Rússia. A região tem um longo histórico de invasão de povos (romanos, búlgaros, húngaros, entre outros) e de mudança de fronteiras. Hoje faz parte da Romênia.

Questões fascinantes são discutidas em língua francesa (as outras línguas são usadas para eles falarem entre si ou com os criados). Diria que se fosse um livro seria aquele livro que a gente pintaria com pincéis marcadores inúmeras passagens, mesmo aqueles trechos que representariam uma opinião absurda e preconceituosa, justamente como exemplo do pensamento das elites. Mas como é cinema, também precisamos prestar atenção no que está no quadro e até no que não está, nas escolhas do diretor daquilo que devemos ou não ver. E é impressionante o modo como ele coloca em cena cada personagem, com obsessivo cuidado, como se fossem peças de um jogo de xadrez. Puiu afirmou que usa pinturas como referência e não filmes. Isso justifica o lindo desenho de produção.

Na longa e lenta, mas não desagradável (longe disso!), metragem do filme, somos convidados a refletir sobre a guerra, a morte, Deus, o Cristianismo, o bem e o mal e, no final, até sobre o Anticristo. Por mais que seja uma experiência atordoante acompanhar esse jogo de retórica, não deixa de ser espantoso. Lembrei-me da experiência de ver WAKING LIFE, de Richard Linklater, em que o diretor americano nos joga montes de discussões filosóficas em um só pacote. E discussões que fazem o coração bater mais forte e a mente procurar se afiar para dar conta das informações e ao mesmo tempo refletir um pouco. Por isso, MALKROG é um filme que se beneficiaria bastante de uma revisão. De preferência na telona.

O filme é baseado nos escritos de um dos maiores filósofos da Rússia, Vladimir Sloviov. Sua obra se chama “Os Três Diálogos e o Relato do Anticristo” (não sei dizer se é inédita no Brasil). E Puiu prefere mostrar as discussões presentes nesses escritos na boca de seus cinco personagens principais: dois homens (Nikolai, um rico senhorio e ex-seminarista, e Edouard, um homem de negócios) e três mulheres (Olga, a mais jovem do grupo e que tem opiniões mais cheias de amor e considerada ingênua pelos demais; Ingrida, a esposa de um general russo e ardente defensora da guerra; e Madeleine, uma intelectual fria.) Cada um deles dá nome a um capítulo do filme. O outro capítulo, menor, recebe o nome do mordomo da casa.

Há quem se pergunte se o cinema é um meio apropriado para tratar de questões tão profundas e apresentar um filme desse tipo. Por que não seria? Se for de tão alto nível quanto é MALKROG, então, que oferece um deleite visual mesmo quando estamos perdidos na conversa, aí é que é bem-vindo mesmo. Há quem vá estranhar o quanto as discussões teológicas chegam a superar as discussões políticas, mas, certamente, isso faz parte da essência do texto de Sloviov.

quarta-feira, outubro 28, 2020

OS NOVOS MUTANTES (The New Mutants)



Um filme que já nasceu como um cachorro morto para o povo chutar. Ou para as pessoas não verem. A própria distribuidora o lançou no meio da pandemia, quando ninguém quer ir ao cinema. E chovem críticas negativas (34% de aprovação no site Rotten Tomatoes). Mas OS NOVOS MUTANTES (2020) é envolvente. Fico agradecido por ele existir e finalmente ter sido lançado após tanto tempo na geladeira, por mais que tenha sido mais arremessado do que exatamente lançado. É como se a Disney, mesmo tendo comprado a Fox, tratasse o material como concorrente e digno de ser execrado.

O filme de Josh Boone, diretor dos bons dramas de relacionamentos LIGADOS PELO AMOR (2012) e A CULPA É DAS ESTRELAS (2014), é sem dúvida superior aos dois filmes anteriores dos X-Men - lembrando: os horríveis X-MEN - APOCALIPSE e X-MEN - FÊNIX NEGRA. É claramente uma produção mais barata e mais humilde. Não há aquela megalomania dos outros filmes dos mutantes. E há um diferencial muito atraente: a pegada de filme de horror, que oferece uma experiência diferente ao subgênero de filmes de super-heróis.

Junte-se a isso as angústias dos adolescentes em lidar com seus poderes, que podem servir de metáfora para as explosões hormonais que surgem neste estágio da vida humana. Há um romance gay muito bonito entre duas personagens, inclusive, o que conta ainda mais pontos a favor do filme. Assim, nota-se que a escolha de Boone para a direção do filme teve mais a ver com seu sucesso popular com o melodrama teen A CULPA É DAS ESTRELAS do que com sua intimidade com filmes de ação ou horror. Na verdade, ele não tinha nenhuma. 

E isso infelizmente depõe contra o filme quando ele se aproxima de seu clímax e as cenas de ação merecem ter um cuidado maior. É quando OS NOVOS MUTANTES cai bastante. Os efeitos especiais do urso gigante também são outro problema, mas talvez isso possa ser relevado diante do projeto como um todo. Até porque há outros tantos aspectos positivos, como a presença brilhante de Anya Taylor-Joy como a provocadora e badass Ilyana Raspuntin. A atriz ficou muito bem, trazendo expressividade e charme para a personagem. Ilyana tem o poder de se teleportar para um limbo, tem uma espada mágica gigante e um dragãozinho demoníaco como companheiro.

Todos os demais atores e atrizes acabam ficando eclipsados pela presença de Taylor-Joy. Mas isso não quer dizer que a química não funcione. Rahne (Maisie Williams), a menina que se transforma em lobo; Dani (Blu Hunt), com poderes a ser descobertos; Sam (Charlie Heaton), uma espécie de míssil humano descontrolado; e Roberto (Henry Zaga, ator brasileiro), cujo corpo arde como um vulcão; todos estão bem. Aliás, temos dois intérpretes brasileiros no filme: além de Zaga, a nossa querida Alice Braga, no papel da médica responsável pelos novos mutantes naquela instalação que os aprisiona.

Quem leu as histórias clássicas do grupo, com roteiro de Chris Claremont e arte de Bill Sienkiewicz e Bob McLeod provavelmente vai ter ainda mais prazer vendo o filme. É uma pena que o filme morrerá neste único exemplar. Assim sendo, a abertura para o futuro na vida daqueles jovens em processo de autodescoberta ao final da narrativa traz um gostinho amargo de interrupção. Caso de obra que definitivamente teve má sorte em seu processo de produção, pós-produção e lançamento. 

Vi o filme numa sala IMAX gigante. Havia apenas seis pessoas na sala. Uma tristeza. Mas é totalmente compreensível nesses tempos de perigo invisível no ar.

segunda-feira, outubro 26, 2020

OITO FILMES VISTOS NA 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO



A mostra de São Paulo deste ano, com o formato quase que totalmente online, está possibilitando milhares de pessoas acessarem uma programação de filmes que não seria possível, a não ser gastando muito dinheiro - falo especificamente das pessoas que não moram em São Paulo, como eu. E está sendo muito gostoso ver os filmes em qualidade de imagem excelente - eles usam uma ótima plataforma. E ainda que eu não esteja tendo tanto tempo para me dedicar aos filmes como gostaria, os títulos vão se acumulando.  e Alguns dos filmes receberão mais atenção que outros em títulos futuros, mas, para não perder muito tempo, falemos rapidamente de alguns filmes vistos.

17 QUADRAS (17 Blocks)

Curioso como documentários, especialmente estes que tratam de dramas familiares ocorridos em um longo intervalo de tempo, também nos fazem criar elos de simpatia e antipatia com os personagens, como acontece em obras de ficção. Afinal, é o que ocorre na vida real. Essa relação espectador-obra se torna importante para que o drama apresentado seja não só aceito mas principalmente ganhe nossa solidariedade. Nesse sentido, por exemplo, a personagem da mãe Cheryl não me despertou tanto esse sentimento, mas fiquei especialmente tocado com as dificuldades de Smurf, o irmão mais novo dos três, e que carrega sentimentos de culpa pelo ocorrido com o irmão mais velho. É o tipo de documentário que não trata apenas de vícios e superações, mas de todo um sistema social falho. O fato de fazer menção à distância da casa onde tudo se inicia para o Capitólio deixa isso bem claro e abre espaço para várias discussões. Direção: Davy Rothbart. Ano: 2019.

KUBRICK POR KUBRICK (Kubrick by Kubrick)

A estrutura não é muito diferente da de vários outros documentários que tratam da obra de cineastas. No caso deste aqui, o que há de diferente são os trechos das entrevistas que Stanley Kubrick deu ao crítico Michel Ciment, talvez o único sujeito que teve a honra de ter acesso a entrevistas com o realizador. O problema é que as obras de Kubrick são tão densas que simplesmente passar por elas acaba tornando o tema um pouco raso. Só de 2001 - UMA ODISSEIA NO ESPAÇO (1968) caberia um filme de muitas e muitas horas. Senti falta de sequer mencionarem obras do início da carreira, como A MORTE PASSOU POR PERTO (1955) e O GRANDE GOLPE (1956). Mas gosto de ver as entrevistas com pessoas que trabalharam com Kubrick e algumas delas se mostraram bastante traumatizadas com a experiência. E olha que a Shelley Duvall foi bem boazinha e não contou nada de ruim dos bastidores de O ILUMINADO (1980). Por outro lado, Malcolm McDowell sofreu pra caramba nas filmagens de LARANJA MECÂNICA (1971). Fisicamente, inclusive. E disso eu não sabia. Direção: Gregory Monro. Ano: 2020.

LIMIAR (Threshold)

O filme começa com "Ave Maria" de Haendel, para dar aquele ar solene. O que me agrada, inclusive para ver um filme pela manhã. No entanto, o que a dupla de diretores faz é só filmar algumas regiões mais desertas da Armênia e vender o filme como um produto de arte, experimental, livre. Há também cenas que me parecem mais interessantes, como o contato com pessoas da região, para mostrar aspectos de sua cultura (culinária, música etc.), mas é como se tudo fosse em vão na tentativa de nos colocar em uma experiência quase mística. Não rolou pra mim de jeito nenhum. Direção: Rouzbeh Akhbari e Felix Kalmenson. Ano: 2020.

APENAS MORTAIS (Being Mortal)

O filme acompanha uma jovem solteira cujo pai sofre de Alzheimer e depois passa a apresentar outros problemas de saúde. O filme é centrado mais na reação e na luta da jovem diante das dificuldades do pai e também da mãe, do que no sofrimento do pai em si, em sua decadência física e mental, embora tudo seja quase explícito no que se refere à perda da própria dignidade quando a saúde falta. Durante o filme lembrei de A BALADA DE NARAYAMA, de Shohei Imamura, sobre um fim para os idosos. Aqui o diretor trata de uma realidade muito presente na atual China, que é a alta quantidade de idosos e também o alto de número de pessoas com demência/Alzheimer, além de alfinetar um pouco o sistema de saúde do país. Direção: Liu Ze. Ano: 2020.

NOVA ORDEM (Nuevo Orden)

Talvez o meu entusiasmo na primeira meia hora de filme tenha sido mais uma falha minha do que da obra de Michel Franco em si. Afinal, o que imaginamos ser um ataque rebelde vigoroso contra os ricos para a quebra de uma estrutura de poder cruel e desigual, acaba se revelando uma entrada em uma situação muito pior, com estupros, torturas, sequestros e assassinatos. Não vejo o filme como a obra polêmica que querem vendê-la. Pensava em Haneke e até em Noé como parâmetros, mas o cineasta mexicano não tem o mesmo talento de seus colegas provocadores. De todo modo, não deixa de ser um filme com uma cara parecida com este mundo distópico em que estamos vivendo. Ano: 2020.

O SÉCULO 20 (The Twentieth Century)

Alguns filmes têm um poder de me irritar impressionante. E embora eu tenha me atraído para esta obra não apenas por indicações, mas por ter algo de lynchiano (e de fato tem), a experiência não foi das mais agradáveis. Acredito que um pouco de conhecimento da História do Canadá ajudaria a curtir o filme no aspecto mais racional, mas mesmo dentro da razão demorei a apreciar o que há de singular no filme, que está basicamente em sua forma e em sua estranheza, vinda ou não do universo queer. O filme acompanha a trajetória de W.L. Mackenzie King em sua juventude. King foi Primeiro Ministro do Canadá por três vezes. O SÉCULO 20 usa imagem granulada, cores esmaecidas, cenário artificial e divisão por capítulos. Direção: Matthew Rankin. Ano: 2019.

CORONATION

A ideia me parece melhor do que o resultado neste documentário filmado remotamente e às escondidas do governo chinês, já que tece diversas críticas às ações da China para conter o vírus na sua fase inicial e o modo como algumas pessoas são tratadas quando chegam para receber as cinzas de seus entes queridos. Aliás, essa é a parte final do filme, que é a mais interessante. Acho também interessante a conversa com uma senhora bastante defensora do partido comunista chinês e muito crítica de quem sai do país para gastar dinheiro no exterior. Embora haja momentos bem dolorosos, não é um filme tão exploratório das desgraças do país durante a pandemia. Ele explora mais isso ao mostrar o lockdown em uma Wuhan congelada. Direção: Ai Weiwei. Ano: 2020.

OS NOMES DAS FLORES (Los Nombres de las Flores)

O tom de narrativa fabular que o filme dá a entender no início é até convidativo, atraente e simpático. A história de uma senhora que diz ter preparado uma sopa para Che Guevara no dia de sua execução e o lendário homem teria lhe oferecido um poema e uma flor. O filme vai se tornando desinteressante, não apenas pela narrativa um tanto arrastada, mas pela dificuldade que eu tive de me solidarizar com a senhora que teima em desobedecer as ordens dos militares que acreditam ser falsa a sua história. Há coisas interessantes do ponto de vista antropológico e também um visual deslumbrante da região rural da Bolívia, mas não consegui ver mais do que isto. Direção: Bahman Tavoosi. Ano: 2019.

domingo, outubro 25, 2020

MASTERS IN SHORT



Uma das melhores experiências da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é esta programação de cinco curtas dirigidos por realizadores consagrados de diferentes partes do mundo: o chinês Jia Zhangke, o canadense Guy Maddin (em parceria com Evan Johnson e Galen Johnson), o ucraniano Sergei Loznitsa e o iraniano Jafar Panahi. São obras totalmente distintas e muito bem-vindas.

A VISITA (Lai Fang)

Pequeno filme de quatro minutos do grande Jia Zhangke. É um trabalho despretensioso e leve, especialmente em tempos de pandemia. Ao final, há um momento de esperança no horizonte, inclusive com a mudança da fotografia: do preto e branco para as cores vivas. O amor pelo cinema também aparece quando os dois amigos (entre eles o próprio diretor) aparecem vendo um filme juntos, usando máscara, com um velho projetor em película. A arte como salvação e o bom humor como um elemento de cura para os males.

O ADIVINHADOR (Stump the Guesser!)

Meu primeiro contato com o cinema de Guy Maddin (ainda que ele divida aqui a direção com outros dois cineastas) foi com este curta que emula todo o estilo dos filmes mudos (com intertítulos e formato de tela da época), inclusive também trazendo a tradição do que divertia as plateias no início do século XX em parques e circos. Aqui vemos a história de um homem que ganha a vida como adivinhador. Seu dom se manifesta em casa também. Tudo muda quando seu alimento mágico é roubado e ele se apaixona por uma mulher desconhecida e o filme ganha toques lindamente dramáticos e românticos. Fiquei com uma boa impressão do trabalho de Maddin.

OS CAÇADORES DE COELHOS (The Rabbit Hunters)

O outro curta do trio Maddin, Johnson e Johnson traz uma presença ilustre: Isabella Rossellini no papel de Federico Fellini. O tom de estranheza é apropriado, já que o clima do filme é de sonho, com imagens que parecem colorizadas artificialmente em cima de um preto e branco de luz sem muita uniformidade. O filme foi feito por ocasião do centenário de Fellini e brinca com seu estilo. Só faltou conseguir imprimir a magia necessária para que a viagem funcionasse.

UMA NOITE NA ÓPERA (Une Nuit à l'Opéra)

É curioso começar a ver um filme sem ter a menor ideia do que se vai ver. Assim, fui surpreendido por imagens de uma noite de gala, com a aristocracia mundial fazendo parte de um evento que aos poucos se definirá. Surgem rostos conhecidos: Charles Chaplin, Brigitte Bardot, Grace Kelly, a Rainha da Inglaterra, o Príncipe de Mônaco e mais outros monarcas de outras partes do mundo, entre outros tantos cineastas, atores, atrizes. Todos  para ver Maria Callas. Há toda uma pompa no modo como vemos a chegada das pessoas, a preparação, o momento respeitoso de se ouvir a Marselhesa de pé, para então ouvir Callas em toda sua glória. Só depois soube que não se tratam de imagens de apenas uma noite, mas de várias, ocorridas no mesmo teatro, nas décadas de 1950 e 60. Grande restauração de imagens e de som. Um presente.

A ESCONDIDA (Hidden)

Lindo e comovente filme curto de Panahi, este sujeito que desafia as leis de seu país para continuar fazendo o que mais sabe, cinema. E um cinema tão cheio de humanismo e também de denúncia social e política que é sempre um soco no estômago, por mais que a violência esteja longe das intenções do cineasta. Aqui, ele, a filha e uma outra mulher seguem para a um vilarejo do Curdistão a fim de encontrar uma mulher que canta lindamente. Infelizmente, o fanatismo religioso e as regras machistas não deixam de se impor. Panahi fez este filme com apenas dois celulares e seu automóvel.

sexta-feira, outubro 23, 2020

SPORTIN' LIFE



Quando a pandemia começou e todos ficamos em nossos lares trabalhando em home office e apreensivos com o que estava ocorrendo no mundo, Abel Ferrara foi o cineasta que eu escolhi para fazer a minha primeira peregrinação do ano. Sempre foi um diretor de meu interesse, mas por algum motivo eu desconhecia várias de suas obras. E felizmente hoje em dia é muito mais fácil de se conseguir as mais diversas obras de cada diretor que queiramos estudar.

Por isso ver SPORTIN' LIFE (2020) foi tão poderoso pra mim, já que une as obsessões de Ferrara e o tom apocalíptico dos dias de hoje, com o advento do Corona Vírus. O filme conta com imagens do Festival de Berlim, em fevereiro deste ano, quando o diretor foi apresentar SIBÉRIA (2020), e já mostra o clima de apreensão que se instalava pela Europa. Aos poucos o filme vai mostrando cenas da tragédia de nosso tempo, além de também encerrar destacando os protestos ocorridos após a morte de George Floyd, como se apontando para um futuro ao mesmo tempo de muita luta e de busca por justiça.

Ferrara entrecorta esses momentos de 2020 com cenas de vários de seus filmes, vários que dialogam com o momento atual, seja por apresentar uma atmosfera sombria, seja por trazer falas que parecem feitas para este instante. O cineasta já havia feito um filme sobre o fim do mundo, 4:44 - O FIM DO MUNDO (2011), estrelado por Willem Dafoe, seu maior parceiro.

Aliás, Dafoe, que está morando na Itália há alguns anos, é quase um protagonista deste documentário. Está quase sempre com Ferrara durante as coletivas de imprensa. E é engraçado como o diretor deixa tudo muito informal nessas entrevistas, como quando ele passa a resposta para o diretor de fotografia Stefano Falivene, seu colaborador eventual desde MARIA (2005); ou quando ele pede para o entrevistador repetir a pergunta, de modo que ele possa filmá-lo com a câmera de seu celular. Há esse interesse pelas novas tecnologias. Isso, na verdade, já existia desde seu namoro com o vídeo, na década de 1990, em filmes como OLHOS DE SERPENTE (1993) e BLACKOUT (1997).

Ferrara também é o cineasta rebelde que traz o espírito rock'n'roll para seus filmes. No caso de seus documentários, ele aproveita para apresentar o trabalho de sua banda, suas composições, como havia feito em NAPOLI, NAPOLI, NAPOLI (2009). A diferença aqui é que tudo parece mais jazzístico na montagem. Inclusive, há quem vá achar tudo uma bagunça sem muito critério. O diretor diz que o que está fazendo é um documentário sobre fazer um documentário e não sobre seus filmes. De todo modo, essa liberdade é contagiante.

O filme talvez não desperte o mesmo entusiasmo em pessoas que não tem alguma intimidade com a obra do cineasta, já que há diversas referências, diversos hipertextos. Mas não duvido que alguém, por algum acidente do destino, seja apresentado ao diretor com este filme e então decida se aventurar pelo seu trabalho. Quem sabe?