terça-feira, novembro 03, 2020

SETE FILMES VISTOS NA 44ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA DE SÃO PAULO



A Mostra se aproxima do filme e eu, ainda que esteja muito longe dos números de amigos cinéfilos mais vorazes, os meus heróis, já estou de ressaca. Já sinto falta de filmes mais clássicos, os quais gosto de alternar com essas obras de caráter mais alternativo ou às vezes mais experimental. Ainda assim, rememorar alguns desses filmes é ver que são todos títulos que valeram a pena as horas de apreciação. Há outros que ainda estou guardando para escrever textos mais aprofundados no futuro breve.

LA PLANTA

Que saudade de um filme de ficção de Beto Brant (o último foi em 2011!!!). Enquanto isso não é possível, o cineasta nos presenteia com um outro documentário (desta vez em média-metragem) muito relevante. Na verdade, urgente, por mais que fiquemos um tanto desanimados com este atual governo obscurantista. Ainda assim, ver este filme sobre os benefícios medicinais imensos da cannabis acende uma chama de esperança de um futuro melhor, com menos dor, menos doenças e mais equilíbrio e harmonia com a natureza, coisas que fomos perdendo com um modo de vida que foi nos deixando mais e mais doentes e muito conformados com nossa condição. O filme foi rodado no Uruguai, país que legalizou o uso da maconha há alguns anos e que tem feito um progresso imenso em pesquisa e em auxílio a pessoas com câncer, epilepsia, Parkinson, fibromialgia, autismo, esclerose múltipla, dores crônicas, transtorno de ansiedade etc. E é como um dos cientistas diz: isso é só o começo, há muito a ser descoberto sobre os benefícios da cannabis. Ano: 2020.

SHIRLEY

Um dos poucos, se não o único, filmes presentes na Mostra a ter gerado algum burburinho para indicações futuras do Oscar. No caso, para Elisabeth Moss, sempre ótima na construção de suas personagens. Aqui ela interpreta a escritora de ficção de horror Shirley Jackson (de A Maldição da Residência Hill) e sua relação com uma jovem grávida que chega com o marido para passar uns dias em sua casa. Trata-se de um filme cuja chave para compreendê-lo talvez esteja na sensibilidade dos problemas e nos dramas das personagens femininas. Há uma ótima metáfora da escrita como um parto, e o processo criativo é também um dos pontos de ênfase do filme. Direção: Josephine Decker. Ano: 2020.

ISSO NÃO É UM ENTERRO, É UMA RESSURREIÇÃO (This Is Not a Burial, It's a Resurrection)

Histórias de pessoas que se recusam a sair do lugar por imposição superior já são bastante conhecidas, inclusive no Brasil. Basta lembrar de AQUARIUS, de Kleber Mendonça Filho. E também histórias sobre cidades que são inundadas para a construção de uma barragem também não são raras. O tom deste filme de um país que eu nem sabia que existia (Lesoto) é que é bastante trágico, com uma velha senhora ainda de luto pela morte do filho e já tendo que encarar esta mudança. Para ela, a morte parece uma solução muito mais interessante. Talvez tenha me faltado estar no clima para penetrar na atmosfera do filme, que tem qualidades admiráveis. Em certo momento, o diretor usa a natureza para compor uma espécie de pintura, dando ao céu e à planície uma dimensão muito maior do que a de seus personagens. É também muito interessante a narração, em tom de tragédia grega (quase como um coro), por um homem. Direção: Lemohang Jeremiah Mosese. Ano: 2019.

O NARIZ OU A CONSPIRAÇÃO DOS DISSIDENTES (Nos Ili Zagovor Netakikh)

Não é um filme fácil, especialmente para quem não tem bagagem cultural suficiente para acompanhar pelo menos boa parte das referências da história política russa do século XX, em especial os danos causados por Josef Stalin durante seu comando da União Soviética. O filme até termina em tom mais sério e solene, o que é bom em respeito aos mortos pelo regime autoritário, mas durante a maior parte de sua metragem o tom de escárnio predomina. Há uma transição de narrativas que me deixou confuso. A primeira parte é uma adaptação da novela O Nariz, de Nikolai Gogol, com a história surreal do sujeito que perdeu o nariz e sai à procura dele. E há a adaptação da adaptação para a ópera, feita nos anos 1920. Do ponto de vista da beleza plástica e das técnicas de animação, achei um primor, mas a cantoria pouco atraente me cansou, juntamente com minha ignorância no assunto. Direção: Andrey Khrzhanovskiy. Ano: 2020.

NADANDO ATÉ O MAR SE TORNAR AZUL (Yi Zhi You Dao Hai Shui Bian Lan)

Certamente é um trabalho mais modesto este documentário que Jia Zhangke fez sobre a história de vida de escritores da região onde ele nasceu. O problema do filme é a irregularidade. Depende muito do entrevistado. Alguns contam histórias interessantes e são entusiasmados, como a do sujeito que ficava frustrado com os livros censurados (com páginas arrancadas) pelo governo chinês e ele não conseguia ler o final e ficava imaginando. Creio que eu me interessaria mais pelo filme se ele focasse mais nesses detalhes mais específicos dos escritores do que na vida familiar, como acontece quando vemos o depoimento de uma escritora muito emocionada quando lembra da mãe. A primeira parte do filme é um tanto desanimadora, mas gosto do desenvolvimento. Pelo menos em algumas partes. Ano: 2020.

PAI (Otac)

Herdeiro do neorrealismo italiano e de outros derivados, como exemplares do cinema iraniano e do cinema chinês, este filme não se importa em colocar seu herói em situações cada vez mais tristes em sua jornada em busca da recuperação dos filhos, tirados dele pelo serviço social. É o caso clássico de um homem contra um sistema, mas sem querer se aventurar pelo banditismo, uma saída bastante compreensível em se tratando de sua situação. Espécie de road movie a pé, a estrutura narrativa fica no meio do caminho entre o clássico e o alternativo. Isso pode causar alguma insatisfação, mas achei bem digno. Direção: Srdan Golubovic. Ano: 2020.

O LIVRO DOS PRAZERES

Bem interessante esta adaptação do romance de Clarice Lispector. O filme traz Simone Spoladore como a mulher que vive insatisfeita, estando sozinha ou estando acompanhada. O sexo com estranhos funciona como busca de prazer para esconder a dor. A angústia da personagem é sentida do lado de cá da tela, assim como uma sensação de bem-estar surgida em alguns momentos-chave do final (o pássaro, a praia). Interessantes as cenas da escola. A personagem é professora de crianças (e estudante de filosofia) e leva seu existencialismo para as aulas, o que deixa os alunos um pouco confusos. O romance com o personagem do ator argentino Javier Drolas nem sempre funciona, até pelo fato de o personagem (ou o ator?) não ser muito carismático. Direção: Marcela Lordy. Ano: 2020.

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