Como os dois títulos brasileiros são menos conhecidos do que o original, tratemos CORAÇÃO DE APACHE (1934), como, ao que parece foi o título que originalmente o filme recebeu quando lançado nos cinemas brasileiros - CORAÇÃO VADIO, talvez em um lançamento posterior, não sei dizer onde ou em que bitola - como LILIOM, o título original, mais famoso e nome do personagem principal, aqui interpretado por Charles Boyer, que em Hollywood ficou famoso quando fez DUAS VIDAS, de Leo McCarey, e À MEIA LUZ, de George Cukor, entre outros.
Sobre LILIOM, o célebre filme francês de Fritz Lang, chamado de interlúdio, pois foi rodado entre a primeira fase alemã e a fase americana do cineasta, confesso que tive meus problemas, embora goste de muitos aspectos do filme. O que mais me incomodou foi a questão da violência doméstica. Sei que Lang é um humanista, mas, como costumam dizer que ele é um cineasta misógino, em LILIOM tem-se um prato cheio, já que o protagonista agride a esposa, uma esposa amorosa e cuidadosa. E isso me incomodou um bocado.
Principalmente quando vi as cenas finais, com a filha perguntando à mãe: "Há tapas que não doem, mãe?", e a mãe responde que sim, lembrando do marido morto. Claro que não é tão simples assim e o filme explora um pouco da psicologia mais complexa de Liliom, de certa forma. Mas sobram momentos de malandragem do personagem e faltam mais momentos de carinho por parte dele. Assim, todo o amor, toda a entrega na relação, parece vir sempre de Julie (Madeleine Ozeray), que se recusa a deixar um marido que não quer trabalhar.
Aliás, não deixa de ser curioso ver tanto ela quanto a outra mulher, a Madame Muscat, dizerem que Liliom era um artista, que merecia tratamento diferente da sociedade. E entramos aí em outra questão interessante: a de como a sociedade é injusta para as pessoas mais pobres. Assim na Terra como no céu, inclusive. Mesmo no céu, Deus não está disponível para um homem pobre como ele; o céu como espelho da justiça da Terra.
Outro aspecto positivo de Liliom se manifesta no momento em que ele recebe uma espécie de ultimato de sua patroa/namorada e prefere largar o emprego sem nenhum tostão e ir embora com as duas moças, um tanto tocado pelo doce olhar de Julie. Além do mais, ele não deseja ser considerado propriedade de ninguém. É um posicionamento nobre. Ainda mais para um perigoso sedutor de mulheres, como afirmou o policial na cena do banco de praça. É lá que Julie diz: "Quando eu amo alguém, eu não tenho medo de nada."
LILIOM é adaptação de uma peça de Ferenc Molnár, e que já recebeu algumas tantas adaptações para o cinema e para a televisão. Para cinema, as mais famosas são esta do Lang, uma anterior, de 1930, dirigida por Frank Borzage, e uma chamada CARROSSEL, de Henry King, lançada em 1956. Não sei se essas outras versões entregam (ou não) logo no início que o filme trará momentos que sairão do território do realismo.
Como produção para cinema, percebe-se que se trata de uma obra de orçamento pequeno. Do parque de diversões do início, por exemplo, é mostrado muito pouco. Só o carrossel, a bilheteria e um ou outro brinquedo. Mas isso faz parte da magia do cinema. No entanto, isso acaba por impedir um momento de virtuosismo de Lang no uso da câmera, algo que já podíamos presenciar em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933), para citar uma obra imediatamente anterior.
Para não dizer que não elogiei o filme (na verdade, enquanto eu escrevo sobre ele, mais eu gosto), preciso lembrar do momento mais bonito: a morte de Liliom. Um dia desses, aliás, estava vendo outro filme (um brasileiro, chamado ILHA) e um homem pergunta ao outro como ele desejaria morrer. E eu fiquei pensando: morrer nos braços da mulher amada seria uma morte doce. E é o que ganha Liliom, nesta cena belíssima que destaca mais uma vez o amor gigantesco de Julie.
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O MEDO DEVORA A ALMA (Angst Essen Seele Auf)
Nada como um cineasta gay para tratar da questão do preconceito com tanta propriedade. Se aqui não temos o preconceito da relação entre duas pessoas do mesmo sexo, há um casal talvez ainda mais controverso: o de um homem muçulmano com uma senhora alemã vinte anos mais velha que ele. Rainer Werner Fassbinder reconstrói o melodrama sirkiano do jeito dele, com um jeito mais seco, com quase ausência de música e um trabalho visual lindo (fotografia, direção de arte). Talvez tenha faltado a mim mais empatia para me colocar no lugar dos personagens. Tanto que, quando o sujeito vai até o apartamento da loira, até acho que ele está tomando a decisão certa, já que chega um momento em que a relação entre o casal parece não evoluir para algo de cunho mais romântico ou sexual. Mas o diretor sabe lidar com todos esses problemas complexos. Ano: 1974.
O DIA MAIS FELIZ DA VIDA DE OLLIE MÄAKI (Hymyilevä Mies)
Uma das coisas mais belas deste filme é o amor do boxeador Olie Mäaki pela namorada. Tudo o mais, inclusive o boxe, fica em segundo plano. Em tempos em que o amor romântico vem sendo problematizado e subvalorizado eu ainda gosto de filmes assim. Direção: Juho Kuosmanen. Ano: 2016.
ELON NÃO ACREDITA NA MORTE
Filme admirável tecnicamente. Lembra um pouco alguns trabalhos dos irmãos Dardenne com a aproximação da câmera. A atuação de Rômulo Braga é espetacular. Mas falta alguma coisa para o filme alcançar a excelência. Direção: Ricardo Alves Jr. Ano: 2016.
quinta-feira, junho 18, 2020
quarta-feira, junho 17, 2020
NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS
2020 tem sido um ano único. Ficará na história como aquele ano que todo mundo lembrará, de uma forma ou de outra. E um ano com poucos lançamentos no cinema. Por isso julgo importante trazer à tona um filme visto há algumas semanas, e que me impactou muito, mas que acabei não escrevendo nada a respeito de imediato. E é um lançamento deste ano, exibido no Festival de Berlim, o único dos três grandes festivais internacionais a conseguir acontecer no ano da pandemia, em fevereiro. NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS (2020) foi vencedor do Grande Prêmio do Júri, também conhecido como Urso de Prata - o Urso de Ouro foi para THERE IS NO EVIL, do diretor iraniano Mohammad Rasoulof.
Neste ano, estamos vendo muitos temas caros a pessoas de linha mais progressista ganhando força. Entre esses temas está a legalização do aborto, muito polêmico por questões de ordem religiosa ainda. O terceiro longa-metragem de Eliza Hittman, então conhecida apenas em festivais e no circuito indie, se não é tão impactante quanto o romeno 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, ao abordar o tema, é certamente um dos mais significativo e mais tocantes.
É um filme que se torna grande através de pequenos momentos, concentrando tanto na relação de afeto entre as duas garotas, as primas Autumn (Sidney Flanigan) e Skylar (Talia Ryder), quanto em situações em que uma delas não consegue expressar a real dor que sente. Até porque o motivo de ela estar grávida, a identidade do pai da criança, todos esses pormenores, tudo isso conta pontos para que haja essa trava. E por mais que o filme também não nos diga diretamente, isso fica implícito à medida que vemos detalhes do cotidiano de Autumn, e também na sequência mais marcante: quando a garota precisa responder um questionário a respeito de sua vida sexual.
Na trama, Autumn descobre que está grávida, e sua prima Skylar, com quem trabalha no mesmo supermercado, fica sabendo e se oferece para ajudá-la. Na cidade onde moram, no interior da Pensilvânia, não é possível interromper a gestação com um aborto em uma clínica sem o consentimento dos pais, tendo menos de 18 anos (ela tem 17). Então, a saída de Autumn é partir para Nova York, onde isso é possível, pelas leis do estado. E, nesse sentido, o filme se torna também uma espécie de road movie sem carro e acontecendo em um intervalo de tempo muito pequeno, dois dias. As meninas, como não têm dinheiro para pagar um hotel, passam a noite nas ruas da cidade que nunca dorme.
NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS tem uma delicadeza admirável. Não trata apenas da dificuldade por que passa Autumn, mas também da relação de amizade entre ela e a prima, ainda que em algum momento possa existir algum atrito na relação. Em determinada cena, também marcante, as duas vão a um karokê, e Autumn canta. A canção é "Don’t Let the Sun Catch You Crying", de Gerry and the Pacemakers, e a letra traz um pouco de alento para a jovem: “The night’s the time for all your tears, / Your heart may be broken tonight, / But tomorrow in the morning light, / Don’t let the sun catch you cryin’".
+ TRÊS FILMES
AS HERDEIRAS (Las Herederas)
Baita estreia deste diretor paraguaio em longa-metragem. O cara, além de saber lidar com um elenco de mulheres veteranas muito bem, trabalha o psicológico da protagonista de modo que entendamos a mudança pelo que ela vem passando e uma possibilidade excitante de nova vida, mesmo com quase tudo acenando para o pior. Vencedor em Gramado e a atriz, Ana Brum, foi vencedora no Festival de Berlim. Direção: Marcelo Martinessi. Ano: 2018.
DE VOLTA PARA CASA (Home Again)
Mais um veículo leve para Reese Witherspoon. Há ainda um público que prestigia os filmes que ela faz. E DE VOLTA PARA CASA não é ruim. Tem os seus méritos. É simpático, tem uma trama um pouco diferente dos padrões. Achei engraçado eu ter me incomodado com a presença dos três rapazes na casa. Direção: Hallie Meyers-Shyer. Ano: 2017.
PENDULAR
Saí do cinema ainda ruminando o filme, para saber o quanto gostei dele. Acho que o que provocou um bocado o meu distanciamento foi o tipo de ação dos personagens (seus trabalhos). Mas há também a interessante opção de Júlia Murat em não abraçar sentimentalismos e lidar com a questão do corpo de maneira bem particular. Quanto às cenas de sexo, elas justificam a classificação 18 anos? Achei o grafismo (se é que há) tão sutil... Ano: 2017.
Neste ano, estamos vendo muitos temas caros a pessoas de linha mais progressista ganhando força. Entre esses temas está a legalização do aborto, muito polêmico por questões de ordem religiosa ainda. O terceiro longa-metragem de Eliza Hittman, então conhecida apenas em festivais e no circuito indie, se não é tão impactante quanto o romeno 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS, ao abordar o tema, é certamente um dos mais significativo e mais tocantes.
É um filme que se torna grande através de pequenos momentos, concentrando tanto na relação de afeto entre as duas garotas, as primas Autumn (Sidney Flanigan) e Skylar (Talia Ryder), quanto em situações em que uma delas não consegue expressar a real dor que sente. Até porque o motivo de ela estar grávida, a identidade do pai da criança, todos esses pormenores, tudo isso conta pontos para que haja essa trava. E por mais que o filme também não nos diga diretamente, isso fica implícito à medida que vemos detalhes do cotidiano de Autumn, e também na sequência mais marcante: quando a garota precisa responder um questionário a respeito de sua vida sexual.
Na trama, Autumn descobre que está grávida, e sua prima Skylar, com quem trabalha no mesmo supermercado, fica sabendo e se oferece para ajudá-la. Na cidade onde moram, no interior da Pensilvânia, não é possível interromper a gestação com um aborto em uma clínica sem o consentimento dos pais, tendo menos de 18 anos (ela tem 17). Então, a saída de Autumn é partir para Nova York, onde isso é possível, pelas leis do estado. E, nesse sentido, o filme se torna também uma espécie de road movie sem carro e acontecendo em um intervalo de tempo muito pequeno, dois dias. As meninas, como não têm dinheiro para pagar um hotel, passam a noite nas ruas da cidade que nunca dorme.
NEVER RARELY SOMETIMES ALWAYS tem uma delicadeza admirável. Não trata apenas da dificuldade por que passa Autumn, mas também da relação de amizade entre ela e a prima, ainda que em algum momento possa existir algum atrito na relação. Em determinada cena, também marcante, as duas vão a um karokê, e Autumn canta. A canção é "Don’t Let the Sun Catch You Crying", de Gerry and the Pacemakers, e a letra traz um pouco de alento para a jovem: “The night’s the time for all your tears, / Your heart may be broken tonight, / But tomorrow in the morning light, / Don’t let the sun catch you cryin’".
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AS HERDEIRAS (Las Herederas)
Baita estreia deste diretor paraguaio em longa-metragem. O cara, além de saber lidar com um elenco de mulheres veteranas muito bem, trabalha o psicológico da protagonista de modo que entendamos a mudança pelo que ela vem passando e uma possibilidade excitante de nova vida, mesmo com quase tudo acenando para o pior. Vencedor em Gramado e a atriz, Ana Brum, foi vencedora no Festival de Berlim. Direção: Marcelo Martinessi. Ano: 2018.
DE VOLTA PARA CASA (Home Again)
Mais um veículo leve para Reese Witherspoon. Há ainda um público que prestigia os filmes que ela faz. E DE VOLTA PARA CASA não é ruim. Tem os seus méritos. É simpático, tem uma trama um pouco diferente dos padrões. Achei engraçado eu ter me incomodado com a presença dos três rapazes na casa. Direção: Hallie Meyers-Shyer. Ano: 2017.
PENDULAR
Saí do cinema ainda ruminando o filme, para saber o quanto gostei dele. Acho que o que provocou um bocado o meu distanciamento foi o tipo de ação dos personagens (seus trabalhos). Mas há também a interessante opção de Júlia Murat em não abraçar sentimentalismos e lidar com a questão do corpo de maneira bem particular. Quanto às cenas de sexo, elas justificam a classificação 18 anos? Achei o grafismo (se é que há) tão sutil... Ano: 2017.
segunda-feira, junho 15, 2020
O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (Das Testament des Dr. Mabuse)
"É preciso destruir a crença que o cidadão normal tem nos poderes que elegeu. E quando tudo estiver destruído - é sobre isso que construiremos o reino do crime."
(Frase de um dos criminosos em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE)
A fala acima nos parece muito familiar nos dias de hoje, com a ascensão de um novo nazi-fascismo tomando conta de muitos países do mundo. Infelizmente o Brasil é um desses. Na época da Alemanha de Hitler, massas de desempregados encontraram no führer a esperança para a realização dos sonhos de recuperar aquilo que perderam (além de verem agora um inimigo, um responsável por aquilo por que eles estavam passando). Inclusive, há um dos personagens importantes do filme que sai do desemprego para a criminalidade.
O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933) foi realizado como uma preocupação política de Fritz Lang ao ver isso acontecendo e já prevendo que as consequências seriam terríveis. Seu trabalho nesta sua segunda experiência em um longa-metragem falado foge às expectativas, principalmente quando se pensa no primeiro filme estrelado pelo poderosíssimo vilão, DR. MABUSE, O JOGADOR (1922). Se o primeiro era um filme de aventura para grandes audiências, a sequência tem essa consciência de ser uma obra com um objetivo político claro.
Aqui estamos em um outro momento do cinema e Lang já havia mostrado um pleno e admirável domínio do som em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931). Além do mais, engana-se quem pensa que encontraremos câmeras estáticas, algo bastante comum naqueles primeiros anos de cinema falado. A movimentação da câmera já começa com a primeira cena, com um uso notável do som, no galpão onde se falsifica dinheiro.
Na referida cena, ouvimos o som atordoante das máquinas e depois o tenso e preocupado ex-detetive Hofmeister investigando o negócio de falsificação de dinheiro. Quando dois gângsteres chegam para pegar novas folhas para preparar notas falsas, um deles vê o pé do investigador. Em seguida, se seguem cenas de ação e suspense que ajudam a dar o tom do filme, mas não totalmente. Logo somos apresentados ao protagonista, o rotundo Inspetor Lohmann.
A principal surpresa para mim foi a diminuição de cenas com o Dr. Mabuse, que não está mais em sua gloriosa fase de manipulação, agora internado em um manicômio e visto como um intrigante objeto de estudos por um professor psiquiatra, o Professor Baum. Na verdade, a presença de Mabuse é mais de natureza espiritual, como sendo o principal responsável pela presença crescente de forças do mal. O Dr. Mabuse seria uma espécie de alegoria do sistema criminoso que estava se instalando na Alemanha.
Embora não tão cheio de sequências fascinantes como o primeiro filme (até por ter menos da metade de sua duração), há várias cenas impressionantes em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE, como a perseguição de carros perto do final. Enquanto via aquela admirável sequência, fiquei pensando no quanto Lang, muitos anos antes de David Lynch, já misturava o sobrenatural com o filme policial, o cinema de horror com a história de detetive.
Para a tal cena de perseguição, em que o Professor Baum corre em seu carro, hipnotizado pelo Dr. Mabuse, Lang cortou árvores e as substituiu por outras, criando uma floresta artificial junto com árvores de verdade, modelando o tamanho que ele achava ideal para elas. Não é impressionante? Outro momento de destaque acontece poucos minutos antes, em uma perseguição pela floresta, com um trabalho de movimento de câmera impressionante, nos colocando dentro da ação, no meio dos arbustos.
Enfim, há muito o que louvar no filme, inclusive a montagem que é brilhante, com Lang fazendo associações que se tornariam comuns posteriormente, como no momento em que Kent bate no tijolo tentando fugir com sua namorada, seguida de um corte para a cena de um gângster batendo na casca do ovo cozido em seu apartamento luxuoso. Há várias outras situações, inclusive com uso de voz sobreposta entre duas cenas.
E é uma maravilha que esse filme não tenha sido perdido. Por sorte, o produtor do filme, um judeu, Seymour Nebenzal, conseguiu levar para a França cópias, tanto em francês quanto em alemão, de modo a salvá-lo de eventual destruição pelo regime nazista. Nebenzal, como judeu, foi forçado a deixar a Alemanha semanas antes. Lang fugiria para a França também, na noite em que esteve com Goebbels e foi convidado para ser ministro de propaganda do regime de Hitler. O líder nazista havia ficado apaixonado por METRÓPOLIS (1927) e via em Lang a figura ideal para a empreitada. Foi o fim de uma fase na carreira de Lang, que faria um filme na França e em seguida vários outros nos Estados Unidos, onde passou a morar por mais de duas décadas.
+ TRÊS FILMES
CIDADÃO KANE (Citizen Kane)
Minha relação com CIDADÃO KANE não é de tanto amor assim. Quarta vez que assisto e acredito que foi a vez que mais apreciei, especialmente na primeira meia hora. Mais ainda no início, que é formalmente admirável. Uma ousadia feita por um jovem artista. Os aspectos técnicos e ambiciosos do filme saltam aos olhos logo de cara, mas há algo que me dá um pouco de dor de cabeça, sempre que assisto. Não sei se é a fotografia com muito contraste - se bem que, dessa vez, o barroquismo me lembrou muito a obra de Josef von Sternberg. Pode ter sido uma influência. De todo modo, vou estudar mais o filme e aprender e continuar respeitando o seu legado e sua importância. Direção: Orson Welles. Ano: 1941.
O PREÇO DA SOLIDÃO (The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds)
Embora Paul Newman tenha feito adaptações de romances também, acredito que seus filmes mais aclamados foram adaptações de peças de teatro. Ele parecia seguir numa direção diferente do que normalmente fazia em Hollywood como ator. Como um filme de ator, há uma valorização enorme da atuação, tanto de sua esposa Joanne Woodward, sua musa e presença forte na maioria desses filmes. Curiosamente, a personagem de que mais gostei foi da filha mais nova da protagonista, a mãe que cuida sozinha e sem dinheiro das duas filhas e tenta conseguir arranjar uns trocados fazendo o que dá. A filha mais nova é a interessada nos estudos, muito reservada e tímida, ao contrário da outra, que era capaz de magoar a própria mãe e sair de casa sorrindo. É um belo filme que trata de relações humanas, especialmente dentro de casa. A maior parte das cenas ocorre na humilde casa delas. A peça de Paul Zindel, adaptada por Newman, ganhou o Pullitzer. Ano: 1972.
O PÃO NOSSO (Our Daily Bread)
Que filme lindo! Mais do que bem-vindo neste momento em que estamos precisando nos unir para atravessar um período difícil. E talvez estejamos vivendo um momento de transição, já que precisamos mais de união do que de concorrência, de um ajudar o outro, de cada pessoa usar o que sabe fazer melhor para formar uma comunidade. Interessante que é um filme que até pode ter feito bastante sucesso nos países comunistas, talvez até King Vidor tenha sido acusado de comunista na época. Mas nada disso importaria se não fosse também um exemplar de grande cinema. Um cinema feito ainda em um período difícil da economia dos EUA pós-depressão. Há um momento em que o filme lembra bastante AURORA, do Murnau, e que contribui ainda mais para uma explosão de emoções. Ano: 1934.
(Frase de um dos criminosos em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE)
A fala acima nos parece muito familiar nos dias de hoje, com a ascensão de um novo nazi-fascismo tomando conta de muitos países do mundo. Infelizmente o Brasil é um desses. Na época da Alemanha de Hitler, massas de desempregados encontraram no führer a esperança para a realização dos sonhos de recuperar aquilo que perderam (além de verem agora um inimigo, um responsável por aquilo por que eles estavam passando). Inclusive, há um dos personagens importantes do filme que sai do desemprego para a criminalidade.
O TESTAMENTO DO DR. MABUSE (1933) foi realizado como uma preocupação política de Fritz Lang ao ver isso acontecendo e já prevendo que as consequências seriam terríveis. Seu trabalho nesta sua segunda experiência em um longa-metragem falado foge às expectativas, principalmente quando se pensa no primeiro filme estrelado pelo poderosíssimo vilão, DR. MABUSE, O JOGADOR (1922). Se o primeiro era um filme de aventura para grandes audiências, a sequência tem essa consciência de ser uma obra com um objetivo político claro.
Aqui estamos em um outro momento do cinema e Lang já havia mostrado um pleno e admirável domínio do som em M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931). Além do mais, engana-se quem pensa que encontraremos câmeras estáticas, algo bastante comum naqueles primeiros anos de cinema falado. A movimentação da câmera já começa com a primeira cena, com um uso notável do som, no galpão onde se falsifica dinheiro.
Na referida cena, ouvimos o som atordoante das máquinas e depois o tenso e preocupado ex-detetive Hofmeister investigando o negócio de falsificação de dinheiro. Quando dois gângsteres chegam para pegar novas folhas para preparar notas falsas, um deles vê o pé do investigador. Em seguida, se seguem cenas de ação e suspense que ajudam a dar o tom do filme, mas não totalmente. Logo somos apresentados ao protagonista, o rotundo Inspetor Lohmann.
A principal surpresa para mim foi a diminuição de cenas com o Dr. Mabuse, que não está mais em sua gloriosa fase de manipulação, agora internado em um manicômio e visto como um intrigante objeto de estudos por um professor psiquiatra, o Professor Baum. Na verdade, a presença de Mabuse é mais de natureza espiritual, como sendo o principal responsável pela presença crescente de forças do mal. O Dr. Mabuse seria uma espécie de alegoria do sistema criminoso que estava se instalando na Alemanha.
Embora não tão cheio de sequências fascinantes como o primeiro filme (até por ter menos da metade de sua duração), há várias cenas impressionantes em O TESTAMENTO DO DR. MABUSE, como a perseguição de carros perto do final. Enquanto via aquela admirável sequência, fiquei pensando no quanto Lang, muitos anos antes de David Lynch, já misturava o sobrenatural com o filme policial, o cinema de horror com a história de detetive.
Para a tal cena de perseguição, em que o Professor Baum corre em seu carro, hipnotizado pelo Dr. Mabuse, Lang cortou árvores e as substituiu por outras, criando uma floresta artificial junto com árvores de verdade, modelando o tamanho que ele achava ideal para elas. Não é impressionante? Outro momento de destaque acontece poucos minutos antes, em uma perseguição pela floresta, com um trabalho de movimento de câmera impressionante, nos colocando dentro da ação, no meio dos arbustos.
Enfim, há muito o que louvar no filme, inclusive a montagem que é brilhante, com Lang fazendo associações que se tornariam comuns posteriormente, como no momento em que Kent bate no tijolo tentando fugir com sua namorada, seguida de um corte para a cena de um gângster batendo na casca do ovo cozido em seu apartamento luxuoso. Há várias outras situações, inclusive com uso de voz sobreposta entre duas cenas.
E é uma maravilha que esse filme não tenha sido perdido. Por sorte, o produtor do filme, um judeu, Seymour Nebenzal, conseguiu levar para a França cópias, tanto em francês quanto em alemão, de modo a salvá-lo de eventual destruição pelo regime nazista. Nebenzal, como judeu, foi forçado a deixar a Alemanha semanas antes. Lang fugiria para a França também, na noite em que esteve com Goebbels e foi convidado para ser ministro de propaganda do regime de Hitler. O líder nazista havia ficado apaixonado por METRÓPOLIS (1927) e via em Lang a figura ideal para a empreitada. Foi o fim de uma fase na carreira de Lang, que faria um filme na França e em seguida vários outros nos Estados Unidos, onde passou a morar por mais de duas décadas.
+ TRÊS FILMES
CIDADÃO KANE (Citizen Kane)
Minha relação com CIDADÃO KANE não é de tanto amor assim. Quarta vez que assisto e acredito que foi a vez que mais apreciei, especialmente na primeira meia hora. Mais ainda no início, que é formalmente admirável. Uma ousadia feita por um jovem artista. Os aspectos técnicos e ambiciosos do filme saltam aos olhos logo de cara, mas há algo que me dá um pouco de dor de cabeça, sempre que assisto. Não sei se é a fotografia com muito contraste - se bem que, dessa vez, o barroquismo me lembrou muito a obra de Josef von Sternberg. Pode ter sido uma influência. De todo modo, vou estudar mais o filme e aprender e continuar respeitando o seu legado e sua importância. Direção: Orson Welles. Ano: 1941.
O PREÇO DA SOLIDÃO (The Effect of Gamma Rays on Man-in-the-Moon Marigolds)
Embora Paul Newman tenha feito adaptações de romances também, acredito que seus filmes mais aclamados foram adaptações de peças de teatro. Ele parecia seguir numa direção diferente do que normalmente fazia em Hollywood como ator. Como um filme de ator, há uma valorização enorme da atuação, tanto de sua esposa Joanne Woodward, sua musa e presença forte na maioria desses filmes. Curiosamente, a personagem de que mais gostei foi da filha mais nova da protagonista, a mãe que cuida sozinha e sem dinheiro das duas filhas e tenta conseguir arranjar uns trocados fazendo o que dá. A filha mais nova é a interessada nos estudos, muito reservada e tímida, ao contrário da outra, que era capaz de magoar a própria mãe e sair de casa sorrindo. É um belo filme que trata de relações humanas, especialmente dentro de casa. A maior parte das cenas ocorre na humilde casa delas. A peça de Paul Zindel, adaptada por Newman, ganhou o Pullitzer. Ano: 1972.
O PÃO NOSSO (Our Daily Bread)
Que filme lindo! Mais do que bem-vindo neste momento em que estamos precisando nos unir para atravessar um período difícil. E talvez estejamos vivendo um momento de transição, já que precisamos mais de união do que de concorrência, de um ajudar o outro, de cada pessoa usar o que sabe fazer melhor para formar uma comunidade. Interessante que é um filme que até pode ter feito bastante sucesso nos países comunistas, talvez até King Vidor tenha sido acusado de comunista na época. Mas nada disso importaria se não fosse também um exemplar de grande cinema. Um cinema feito ainda em um período difícil da economia dos EUA pós-depressão. Há um momento em que o filme lembra bastante AURORA, do Murnau, e que contribui ainda mais para uma explosão de emoções. Ano: 1934.
domingo, junho 14, 2020
HIGH ART - RETRATOS SUBLIMES (High Art)
É curioso como o encontro com certos filmes chega por caminhos tortuosos. Desconhecia este HIGH ART - RETRATOS SUBLIMES (1998) e o vi figurar em um ranking de 200 melhores filmes eróticos do site Rotten Tomatoes. É importante observar que o ranking não leva em conta o grau de intensidade do erotismo, mas sim o percentual de aceitação dos filmes considerados eróticos pelos críticos. Tanto é que o primeiro lugar é a obra-prima A BELA INTRIGANTE, de Jacques Rivette. HIGH ART aparece na 73ª posição, com 73% de aprovação dos críticos.
Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a presença de Radha Mitchell, uma atriz de que eu gosto muito e cuja beleza me encanta. E ela faz par romântico com Ally Sheedy, que vi recentemente em CLUBE DOS CINCO, uma atriz cuja popularidade foi bem forte na década de 1980. Já Radha estava despontando, ainda era jovem, tão jovem que é citada pela personagem de Patricia Clarke como "a adolescente", sendo que ela já tinha 25 anos na época do lançamento do filme.
Até a beleza ainda aparecia em estado bruto, talvez porque a intenção da diretora Lisa Cholodenko não fosse mostrá-la como uma modelo ou alguém perfeita. Em alguns momentos, ela parece estar sem maquiagem, inclusive. De todo modo, Radha é o caso de atriz que teve o auge de sua beleza nos anos 2000, mas que, dois anos depois deste filme, já chamou a atenção no circuito independente com uma ótima interpretação em GRITOS NA NOITE, de Mar Forster. E foi parar em um filme de Woody Allen em 2004, MELINDA E MELINDA.
O que faz de HIGH ART uma obra digna de nota, embora seja de fato um filme pequeno, é que temos cenas de intimidade entre as duas protagonistas que figuram entre as mais sensíveis, delicadas e ao mesmo tempo intensas no campo dos sentimentos entre pessoas do mesmo sexo. No quesito explosão sexual + sentimentos entre duas mulheres amando até temos exemplares melhores, claro, como CIDADE DOS SONHOS ou AZUL É A COR MAIS QUENTE. Mas Cholodenko faz questão de acentuar a paixão, a lágrima rolando nos olhos da jovem Radha quando ela vai pra cama pela primeira vez com a mulher por quem está apaixonada, por quem está desistindo de uma relação estável com um namorado/companheiro.
Talvez o fato de ser dirigido por uma mulher faça com que as cenas fujam de algo destinado a realizações de fantasias heterossexuais, como vistos em tantos outros filmes, inclusive pornôs. Aqui o que conta mais é o sentimento, acima de tudo. Em determinado momento, no carro, a personagem de Radha diz para a mulher que ama que não quer que a relação das duas esteja associada às drogas - a primeira vez que elas se beijam é depois de uma carreira de heroína.
E as drogas desempenham um importante papel na história, pois a casa da fotógrafa Lucy (Ally Sheedy) e sua companheira, a atriz Greta (Patricia Clarkson), é um lugar de encontro de amigos para usar drogas e relaxar. As duas, aliás, são artistas de territórios distintos que meio que desistiram de seus rumos; estão, na verdade, sem rumo. Tanto por causa da própria relação quanto pelos efeitos das drogas em suas vidas.
É quando surge Syd (Radha Mitchell), a moça que mora no andar de baixo do prédio, e logo se apaixona por Lucy. Syd trabalha na redação de uma revista de fotografia e trazer a fotógrafa rebelde e cultuada de volta depois de anos de ausência seria também uma forma de ascensão na carreira profissional. Ela acaba se tornando tanto sua modelo, quanto pessoa mais importante na vida de Lucy, quanto sua editora.
E uma das coisas bonitas do filme é a valorização dos momentos presentes e a consciência de que esses momentos são valiosos e são facilmente fáceis de se evaporar. É um filme que também se destaca por ser uma produção feita basicamente com artistas e técnicas mulheres. Direção, produção, roteiro, fotografia, montagem, casting, figurino, maquiagem, entre outros tantos técnicos. É o caso de realização que até nos dias de hoje não parece tão comum.
Outro motivo para chamar a atenção do filme é que se trata de uma obra de uma diretora que valoriza temas relacionados ao lesbianismo, já que faria posteriormente MINHAS MÃES E MEU PAI (2010). Atualmente está escalada para dirigir o remake americano de TONI ERDMANN, que está parado por causa da desistência de Jack Nicholson.
+ TRÊS FILMES
ROCKETMAN
Um dos grandes acertos de ROCKETMAN foi optar pelo musical tradicional, podendo, assim, sintetizar muitas informações que eram importantes na trajetória de Elton John, mas que podiam ficar rasas em alguma cena não-cantada, como no momento em que o filme dá a entender o universo de orgias; ou a ascensão meteórica já com os primeiros discos etc. Melhor cena: "Your song". Talvez segunda melhor: o abraço. Direção: Dexter Fletcher. Ano: 2019.
É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste la Fin du Monde)
Um puta elenco desperdiçado num filme chato e personagens insuportáveis. Mas o puta elenco muitas vezes faz a diferença e não consigo desgostar de todo deste filme de Xavier Dolan. Um filme que tem a Marion Cotillard e a Léa Seydoux juntas não dá pra reclamar muito. Ano: 2016.
VIVE L'AMOUR (Ai Qing Wan Sui)
Acho que não sou bem um fã de Tsai Ming-liang. Vi poucos dele e simpatizo com suas duas experiências mais recentes e mais extremas, no sentido de estender o plano ao nível do desconforto. Aqui já tem isso, mas em menor quantidade. Ainda assim, fiquei impaciente com os cinco minutos de close da mulher chorando. Mas há muita coisa que fica forte na memória, pequenos detalhes do cotidiano dos três personagens. E o que é essa obsessão dele por melancia, hein? Ano: 1994.
Mas o que me chamou mesmo a atenção foi a presença de Radha Mitchell, uma atriz de que eu gosto muito e cuja beleza me encanta. E ela faz par romântico com Ally Sheedy, que vi recentemente em CLUBE DOS CINCO, uma atriz cuja popularidade foi bem forte na década de 1980. Já Radha estava despontando, ainda era jovem, tão jovem que é citada pela personagem de Patricia Clarke como "a adolescente", sendo que ela já tinha 25 anos na época do lançamento do filme.
Até a beleza ainda aparecia em estado bruto, talvez porque a intenção da diretora Lisa Cholodenko não fosse mostrá-la como uma modelo ou alguém perfeita. Em alguns momentos, ela parece estar sem maquiagem, inclusive. De todo modo, Radha é o caso de atriz que teve o auge de sua beleza nos anos 2000, mas que, dois anos depois deste filme, já chamou a atenção no circuito independente com uma ótima interpretação em GRITOS NA NOITE, de Mar Forster. E foi parar em um filme de Woody Allen em 2004, MELINDA E MELINDA.
O que faz de HIGH ART uma obra digna de nota, embora seja de fato um filme pequeno, é que temos cenas de intimidade entre as duas protagonistas que figuram entre as mais sensíveis, delicadas e ao mesmo tempo intensas no campo dos sentimentos entre pessoas do mesmo sexo. No quesito explosão sexual + sentimentos entre duas mulheres amando até temos exemplares melhores, claro, como CIDADE DOS SONHOS ou AZUL É A COR MAIS QUENTE. Mas Cholodenko faz questão de acentuar a paixão, a lágrima rolando nos olhos da jovem Radha quando ela vai pra cama pela primeira vez com a mulher por quem está apaixonada, por quem está desistindo de uma relação estável com um namorado/companheiro.
Talvez o fato de ser dirigido por uma mulher faça com que as cenas fujam de algo destinado a realizações de fantasias heterossexuais, como vistos em tantos outros filmes, inclusive pornôs. Aqui o que conta mais é o sentimento, acima de tudo. Em determinado momento, no carro, a personagem de Radha diz para a mulher que ama que não quer que a relação das duas esteja associada às drogas - a primeira vez que elas se beijam é depois de uma carreira de heroína.
E as drogas desempenham um importante papel na história, pois a casa da fotógrafa Lucy (Ally Sheedy) e sua companheira, a atriz Greta (Patricia Clarkson), é um lugar de encontro de amigos para usar drogas e relaxar. As duas, aliás, são artistas de territórios distintos que meio que desistiram de seus rumos; estão, na verdade, sem rumo. Tanto por causa da própria relação quanto pelos efeitos das drogas em suas vidas.
É quando surge Syd (Radha Mitchell), a moça que mora no andar de baixo do prédio, e logo se apaixona por Lucy. Syd trabalha na redação de uma revista de fotografia e trazer a fotógrafa rebelde e cultuada de volta depois de anos de ausência seria também uma forma de ascensão na carreira profissional. Ela acaba se tornando tanto sua modelo, quanto pessoa mais importante na vida de Lucy, quanto sua editora.
E uma das coisas bonitas do filme é a valorização dos momentos presentes e a consciência de que esses momentos são valiosos e são facilmente fáceis de se evaporar. É um filme que também se destaca por ser uma produção feita basicamente com artistas e técnicas mulheres. Direção, produção, roteiro, fotografia, montagem, casting, figurino, maquiagem, entre outros tantos técnicos. É o caso de realização que até nos dias de hoje não parece tão comum.
Outro motivo para chamar a atenção do filme é que se trata de uma obra de uma diretora que valoriza temas relacionados ao lesbianismo, já que faria posteriormente MINHAS MÃES E MEU PAI (2010). Atualmente está escalada para dirigir o remake americano de TONI ERDMANN, que está parado por causa da desistência de Jack Nicholson.
+ TRÊS FILMES
ROCKETMAN
Um dos grandes acertos de ROCKETMAN foi optar pelo musical tradicional, podendo, assim, sintetizar muitas informações que eram importantes na trajetória de Elton John, mas que podiam ficar rasas em alguma cena não-cantada, como no momento em que o filme dá a entender o universo de orgias; ou a ascensão meteórica já com os primeiros discos etc. Melhor cena: "Your song". Talvez segunda melhor: o abraço. Direção: Dexter Fletcher. Ano: 2019.
É APENAS O FIM DO MUNDO (Juste la Fin du Monde)
Um puta elenco desperdiçado num filme chato e personagens insuportáveis. Mas o puta elenco muitas vezes faz a diferença e não consigo desgostar de todo deste filme de Xavier Dolan. Um filme que tem a Marion Cotillard e a Léa Seydoux juntas não dá pra reclamar muito. Ano: 2016.
VIVE L'AMOUR (Ai Qing Wan Sui)
Acho que não sou bem um fã de Tsai Ming-liang. Vi poucos dele e simpatizo com suas duas experiências mais recentes e mais extremas, no sentido de estender o plano ao nível do desconforto. Aqui já tem isso, mas em menor quantidade. Ainda assim, fiquei impaciente com os cinco minutos de close da mulher chorando. Mas há muita coisa que fica forte na memória, pequenos detalhes do cotidiano dos três personagens. E o que é essa obsessão dele por melancia, hein? Ano: 1994.
sábado, junho 13, 2020
DESTACAMENTO BLOOD (Da 5 Bloods)
Atualmente certas mensagens e certos filmes que precisam passar mensagens, especialmente políticas, precisam ser bastante claros. Didáticos, até. A fim de expressar sem sombra de dúvida aquilo que se deseja dizer. Em tempos de ascensão de uma extrema direita com claros vínculos com o fascismo, uma extrema direita que tem jogado com mensagens cifradas para confundir, isso se torna ainda mais necessário. E se DESTACAMENTO BLOOD (2020) já foi pensado como um filme anti-Trump e naturalmente anti-racista, até por ser dirigido por um dos cineastas mais ativistas dos últimos 30 anos, agora, então, é que tudo se torna ainda mais urgente, a partir da morte de George Floyd e das manifestações anti-racistas que isso desencadeou não apenas nos Estados Unidos, mas em muitos países do mundo.
O novo filme de Spike Lee, que seria o presidente do júri do Festival de Cannes 2020, cancelado por conta da pandemia, estava previsto para estrear mundialmente, fora de concorrência, no festival. Mesmo sendo uma produção da Netflix, em outras circunstâncias poderia ter sessões especiais nos cinemas, como ocorreu com ROMA, com O IRLANDÊS, com OS MISERÁVEIS e com ATLANTIQUE, por exemplo. De todo modo, ter a visibilidade que a Netflix é capaz de trazer acaba sendo positivo para que uma quantidade enorme de pessoas possa acessar o filme.
DESTACAMENTO BLOOD é claramente um produto de nosso momento, mas totalmente interligado a várias outras décadas, em especial aos tempos da Guerra do Vietnã, mas Lee faz sempre questão de aproveitar o seu espaço para enaltecer pessoas negras. Não apenas Muhammad Ali e Malcolm X, que aparecem em imagens de arquivo, mas trazer à tona a estupidez que era, por exemplo, ter um herói como o Rambo tentando fazer com que os Estados Unidos desfizessem o fracasso que foi para eles a Guerra do Vietnã, quando poderiam ter dado destaque, por exemplo, ao primeiro jovem negro morto em combate durante o conflito, como exemplo de herói.
E falando em herói, chega a ser simbólico ter o ator Chadwick Boseman, o intérprete do Pantera Negra, da Marvel, como uma figura mítica, pelo menos entre os seus amigos e parceiros do chamado Da 5 Bloods. Ele é um exemplo de alguém que tinha a sabedoria de entender a situação dos negros diante de um mundo desigual e a melhor maneira de procurar travar uma luta. Como um deles diz: Norman era "nosso Malcolm e o nosso Martin".
Assim, como acontece em boa parte dos filmes de Spike Lee, enaltecer o valor do homem negro, em especial o americano, continua sendo necessário. Tanto que boa parte das canções apresentadas no filme são de Marvin Gaye. Referências aos atletas Tommy Smith e John Carlos, à ativista Angela Davis, ao ano de 1619, quando foram trazidos os primeiros africanos escravizados em solo americano, entre outras pessoas e momentos marcantes, são outros exemplos.
O filme nos apresenta a quatro veteranos da Guerra do Vietnã que voltam ao país para cumprirem uma nova missão. Ou duas. Uma delas tem a ver com uma mala cheia de barras de ouro encontrada nos anos 1970, quando estavam em ação, e enterrada em algum lugar da batalha. A outra tem a ver com o corpo do companheiro Stormin' Norman (Boseman). Cada um desses quatro homens lidam com o presente de maneira muito particular. Um deles se destaca, que é o personagem de Delroy Lindo, o único que, para vergonha dos demais, votou em Donald Trump e até usa um boné com o lema "Make America Great Again".
Na missão de procurar e encontrar o ouro, como é de se esperar, ocorre um conflito de interesses e a ambição, pelo menos de parte do grupo, passa a mover e a envenenar o espírito deles. A referência ao clássico O TESOURO DE SIERRA MADRE, de John Huston, é clara, inclusive nas entrevistas de Lee, em que ele afirma ser o filme um de seus favoritos.
Muito interessante a utilização de três diferentes formatos de tela, o início em scope, as cenas no passado em formato 4:3, e em seguida a proporção 1,85:1, quando se inicia a missão. E mais uma vez acertada a brincadeira com as cores na fotografia, assim como a escolha curiosa e feliz de colocar os homens já envelhecidos nos flashbacks, junto com o jovem Boseman, como para demonstrar o sentimento de que, mesmo já sessentões, eles ainda teriam fôlego e coragem para enfrentar uma missão mortal.
E de fato a missão que eles empreendem é muito mais perigosa do que imaginam, já que ainda há minas, há pessoas especializadas em localizar e desativar essas minas, como a bem-vinda personagem de Mélanie Thierry, atriz que brilhou recentemente no drama de guerra MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel. Aqui ela é uma jovem francesa que faz parte desse grupo e que tem contato inicialmente com o filho do personagem de Lindo. Seu nome é Hedy, em homenagem à estrela hollywoodiana Hedy Lammar, outra das inúmeras referências cinematográficas do filme, assim como é também a inclusão da "Cavalgada das Valquírias", que ficou marcante em APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola. No filme de Lee, a inclusão da música de Richard Wagner ganha um ar de deboche.
Um drama bem pessoal de um dos personagens acentua a questão do racismo, dessa vez no Vietnã. O personagem de Clarke Peters reencontra um amor do passado, uma mulher vietnamita. E descobre que tem uma filha com ela, e fica sabendo, com dor, do quanto a garota foi maltratada pela sociedade, por causa de sua cor. Ou seja, a violência do racismo se amplia no cinema de Spike Lee, não apenas nos Estados Unidos, mas aparecendo também em um país do outro lado do mundo. Nada mais justo ampliar esse debate para o mundo. E é isso que está acontecendo. Esperemos que seja para nossa evolução como seres humanos e para o surgimento de uma sociedade mais igualitária e fraterna.
+ TRÊS FILMES
120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements par Minute)
Baita filme-pancada este. Gostei de tudo. Das discussões nas reuniões da Act Up, das ações, das cenas de namoro dos dois rapazes, da dor com que é mostrada na evolução da doença e do que vem a seguir. Não esperava gostar tanto. E de fato se um filme como esse fosse feito e lançado lá em meados dos anos 1990 seria como uma bomba. Mas, mesmo lançado agora, 20 anos depois que foram encontrados melhores tratamentos para a AIDS, não tira a sua força não. Até por enfatizar a união dos gays, coisa que está cada vez mais atual, nesse mundo de polaridades e de retrocessos de conquistas humanas. Direção: Robin Campillo. Ano: 2017.
EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake)
Caso de filme que arrancou aplausos da audiência, além de choro, mas que não me pegou não. Não funciona como melodrama e a tentativa de torná-lo seco (existe uma trilha sonora?), como o trabalho anterior dos Dardenne, também não diminui a sua cara de novela barata. Ainda assim é um filme bom de ver. Direção: Ken Loach. Ano: 2016.
NERUDA
Mais um filme de Pablo Larraín que não me desce. E pior: me fez ter saudade de O CLUBE (2015). Até tem coisas em NERUDA que me agradam, mas no geral é um filme que parece travar sempre em sua vontade de ser inteligente e bem humorado. E falha também no modo como mostra o poeta e sua arte. Mas o debate em torno da igualdade e de ser coadjuvante é interessante. Ano: 2016.
O novo filme de Spike Lee, que seria o presidente do júri do Festival de Cannes 2020, cancelado por conta da pandemia, estava previsto para estrear mundialmente, fora de concorrência, no festival. Mesmo sendo uma produção da Netflix, em outras circunstâncias poderia ter sessões especiais nos cinemas, como ocorreu com ROMA, com O IRLANDÊS, com OS MISERÁVEIS e com ATLANTIQUE, por exemplo. De todo modo, ter a visibilidade que a Netflix é capaz de trazer acaba sendo positivo para que uma quantidade enorme de pessoas possa acessar o filme.
DESTACAMENTO BLOOD é claramente um produto de nosso momento, mas totalmente interligado a várias outras décadas, em especial aos tempos da Guerra do Vietnã, mas Lee faz sempre questão de aproveitar o seu espaço para enaltecer pessoas negras. Não apenas Muhammad Ali e Malcolm X, que aparecem em imagens de arquivo, mas trazer à tona a estupidez que era, por exemplo, ter um herói como o Rambo tentando fazer com que os Estados Unidos desfizessem o fracasso que foi para eles a Guerra do Vietnã, quando poderiam ter dado destaque, por exemplo, ao primeiro jovem negro morto em combate durante o conflito, como exemplo de herói.
E falando em herói, chega a ser simbólico ter o ator Chadwick Boseman, o intérprete do Pantera Negra, da Marvel, como uma figura mítica, pelo menos entre os seus amigos e parceiros do chamado Da 5 Bloods. Ele é um exemplo de alguém que tinha a sabedoria de entender a situação dos negros diante de um mundo desigual e a melhor maneira de procurar travar uma luta. Como um deles diz: Norman era "nosso Malcolm e o nosso Martin".
Assim, como acontece em boa parte dos filmes de Spike Lee, enaltecer o valor do homem negro, em especial o americano, continua sendo necessário. Tanto que boa parte das canções apresentadas no filme são de Marvin Gaye. Referências aos atletas Tommy Smith e John Carlos, à ativista Angela Davis, ao ano de 1619, quando foram trazidos os primeiros africanos escravizados em solo americano, entre outras pessoas e momentos marcantes, são outros exemplos.
O filme nos apresenta a quatro veteranos da Guerra do Vietnã que voltam ao país para cumprirem uma nova missão. Ou duas. Uma delas tem a ver com uma mala cheia de barras de ouro encontrada nos anos 1970, quando estavam em ação, e enterrada em algum lugar da batalha. A outra tem a ver com o corpo do companheiro Stormin' Norman (Boseman). Cada um desses quatro homens lidam com o presente de maneira muito particular. Um deles se destaca, que é o personagem de Delroy Lindo, o único que, para vergonha dos demais, votou em Donald Trump e até usa um boné com o lema "Make America Great Again".
Na missão de procurar e encontrar o ouro, como é de se esperar, ocorre um conflito de interesses e a ambição, pelo menos de parte do grupo, passa a mover e a envenenar o espírito deles. A referência ao clássico O TESOURO DE SIERRA MADRE, de John Huston, é clara, inclusive nas entrevistas de Lee, em que ele afirma ser o filme um de seus favoritos.
Muito interessante a utilização de três diferentes formatos de tela, o início em scope, as cenas no passado em formato 4:3, e em seguida a proporção 1,85:1, quando se inicia a missão. E mais uma vez acertada a brincadeira com as cores na fotografia, assim como a escolha curiosa e feliz de colocar os homens já envelhecidos nos flashbacks, junto com o jovem Boseman, como para demonstrar o sentimento de que, mesmo já sessentões, eles ainda teriam fôlego e coragem para enfrentar uma missão mortal.
E de fato a missão que eles empreendem é muito mais perigosa do que imaginam, já que ainda há minas, há pessoas especializadas em localizar e desativar essas minas, como a bem-vinda personagem de Mélanie Thierry, atriz que brilhou recentemente no drama de guerra MEMÓRIAS DA DOR, de Emmanuel Finkiel. Aqui ela é uma jovem francesa que faz parte desse grupo e que tem contato inicialmente com o filho do personagem de Lindo. Seu nome é Hedy, em homenagem à estrela hollywoodiana Hedy Lammar, outra das inúmeras referências cinematográficas do filme, assim como é também a inclusão da "Cavalgada das Valquírias", que ficou marcante em APOCALYPSE NOW, de Francis Ford Coppola. No filme de Lee, a inclusão da música de Richard Wagner ganha um ar de deboche.
Um drama bem pessoal de um dos personagens acentua a questão do racismo, dessa vez no Vietnã. O personagem de Clarke Peters reencontra um amor do passado, uma mulher vietnamita. E descobre que tem uma filha com ela, e fica sabendo, com dor, do quanto a garota foi maltratada pela sociedade, por causa de sua cor. Ou seja, a violência do racismo se amplia no cinema de Spike Lee, não apenas nos Estados Unidos, mas aparecendo também em um país do outro lado do mundo. Nada mais justo ampliar esse debate para o mundo. E é isso que está acontecendo. Esperemos que seja para nossa evolução como seres humanos e para o surgimento de uma sociedade mais igualitária e fraterna.
+ TRÊS FILMES
120 BATIMENTOS POR MINUTO (120 Battements par Minute)
Baita filme-pancada este. Gostei de tudo. Das discussões nas reuniões da Act Up, das ações, das cenas de namoro dos dois rapazes, da dor com que é mostrada na evolução da doença e do que vem a seguir. Não esperava gostar tanto. E de fato se um filme como esse fosse feito e lançado lá em meados dos anos 1990 seria como uma bomba. Mas, mesmo lançado agora, 20 anos depois que foram encontrados melhores tratamentos para a AIDS, não tira a sua força não. Até por enfatizar a união dos gays, coisa que está cada vez mais atual, nesse mundo de polaridades e de retrocessos de conquistas humanas. Direção: Robin Campillo. Ano: 2017.
EU, DANIEL BLAKE (I, Daniel Blake)
Caso de filme que arrancou aplausos da audiência, além de choro, mas que não me pegou não. Não funciona como melodrama e a tentativa de torná-lo seco (existe uma trilha sonora?), como o trabalho anterior dos Dardenne, também não diminui a sua cara de novela barata. Ainda assim é um filme bom de ver. Direção: Ken Loach. Ano: 2016.
NERUDA
Mais um filme de Pablo Larraín que não me desce. E pior: me fez ter saudade de O CLUBE (2015). Até tem coisas em NERUDA que me agradam, mas no geral é um filme que parece travar sempre em sua vontade de ser inteligente e bem humorado. E falha também no modo como mostra o poeta e sua arte. Mas o debate em torno da igualdade e de ser coadjuvante é interessante. Ano: 2016.
sexta-feira, junho 12, 2020
DR. MABUSE, O JOGADOR (Dr. Mabuse, der Spieler)
Possivelmente o maior dos filmes mudos de Fritz Lang, DR. MABUSE, O JOGADOR (1922) foi um desafio para mim, já que ultimamente ando dando preferência a filmes de menor duração, por causa dos problemas de ansiedade provocados pelo isolamento social. No entanto, ainda que eu tenha visto o filme "em fascículos" durante dois dias (são cerca de quatro horas e meia de metragem), confesso que o prazer superou a dor, a inquietude e o cansaço. Na verdade, é um filme feito como obra de entretenimento para as massas, embora sua sofisticação e a maestria na condução narrativa de Fritz Lang façam toda a diferença. Mas é um filme herdeiro das novelas pulp da época, que tinham um apelo popular muito forte na Alemanha.
O desafio maior nem é do espectador de hoje, que encara um filme silencioso de quase cem anos de idade, mas de Lang, de trazer algo da literatura para uma forma de arte que ainda estava em processo de formação. No entanto, este já era o nono filme dirigido por Lang e já o colocava como o grande cineasta da república de Weimar, ao lado de F.W. Murnau. Mas, embora ele brinque com relação ao Expressionismo Alemão no próprio filme, ao colocar na boca do Dr. Mabuse a fala de que se trata de uma mera brincadeira, a comparação entre o Dr. Mabuse e o Dr. Caligari do filme de Robert Wiene são mais do que apropriadas. Inclusive, há uma cena em comum entre os dois filmes: a do sequestro do corpo de uma pessoa pelo megavilão. No caso de DR. MABUSE, O JOGADOR, a cena do rapto da Condessa Dusy Told.
O filme foi dividido em duas partes, sendo a primeira, "O Jogador", maior em duração, mas bem mais ágil, enquanto a segunda, "O Inferno do Crime", de duração menor, é um pouco mais lenta, talvez pela diminuição do número de personagens importantes presentes na história. Inclusive, isso é um detalhe importante, essa morte massiva de personagens importantes, o que acaba por aumentar o sentimento de quase onipotência do Dr. Mabuse, que além de ser muito sagaz possui também a capacidade de hipnotizar as pessoas, de penetrar em suas mentes e torná-las seus escravos.
É assim que ele consegue sugar muito dinheiro do simpático playboy Edgar Hull, que a princípio parecia ser o principal antagonista do Dr. Mabuse, até a chegada do procurador von Wenk, que ganha protagonismo a partir de sua primeira aparição, com cerca de meia hora de filme.
Um dos recursos mais louvados deste primeiro filme do Dr. Mabuse é sua hábil montagem paralela, que permite o desenvolvimento de múltiplas e simultâneas narrativas. Isso já era uma montagem preferencial das novelas pulp, aliás, e Lang soube transpor para o cinema de maneira brilhante, principalmente levando em consideração a quantidade considerável de personagens da trama.
Outro trunfo do filme está no modo como ele materializa a modernidade da cidade grande, em especial da vida noturna, com as luzes artificiais, os carros, os trens, tudo que enaltecia o progresso urbano. Há, inclusive, várias cenas de perseguição e velocidade envolvendo automóveis que acontecem à noite. Muito do mérito é também do fotógrafo Carl Hoffman, considerado o mágico da luz na república de Weimar.
O jogo de gato e rato da história é bem prazeroso, sendo que se torna muito difícil para o procurador von Wenk, principalmente porque, durante, na maior parte da trama, ele enfrenta um inimigo cuja identidade desconhece. O que o coloca em situação de desvantagem quase sempre. Por isso é tão empolgante o momento do cerco da polícia e do exército à casa do Dr. Mabuse, a cena das escadarias e o resgate da Condessa.
Quanto ao final, ainda que eu tenha ficado um tanto insatisfeito e achado brusco no modo como torna o Dr. Mabuse de um ser quase onipotente a alguém despido de consciência, há uma relação interessante e simbólica de sua nova condição com o fato de estar perto de um grupo de cegos, os cegos que contam seu dinheiro falso. Mas o que mais me chamou a atenção foi o aparecimento dos fantasmas das pessoas que ele matou para lhe atormentar, muito semelhante ao que acontece com o Zé do Caixão em À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, de José Mojica Marins, como se Mojica tivesse sido influenciado por Lang, o que pode ter acontecido, já que ele via muitos filmes, mas certamente é mais provável que isso tenha sido influência dos quadrinhos de horror que ele consumia bastante.
+ TRÊS FILMES
O DESTINO DE UMA NAÇÃO (Darkest Hour)
É legal o início de ano, com os filmes do Oscar mudando um pouco os hábitos dos consumidores dos cinemas de shopping. Ou vai ver é outro público, pois a sala estava lotada e todo mundo caladinho e bem educado vendo um filme não exatamente centrado em ação física. Gary Oldman está gigante, de fato. Oscar merecido. Direção: Joe Wright. Ano: 2017.
LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA (Logan Lucky)
Ninguém estava engolindo mesmo a história de aposentadoria de Steven Soderbergh. Mas ainda bem que ele voltou ao cinema. E com um de seus melhores trabalhos. Um muito divertido filme de assalto perpetrado por caipiras. Bem bonitas as referências a John Denver, e bem inventiva a trama. Adam Driver está excelente mais uma vez. Ano: 2017.
SOB CONTROLE (Surveillance)
Na falta de um David Lynch, vamos de Jennifer Lynch, sua filha. E não é que esse filme é uma beleza, mesmo? Um exercício de tensão e de surpresas incrível. A gente pensa que a brincadeira vai ser em torno do que é mostrado e o que é contado, mas a coisa vai mudando de rumo. Há algo de VELUDO AZUL em certo momento. Ano: 2008.
O desafio maior nem é do espectador de hoje, que encara um filme silencioso de quase cem anos de idade, mas de Lang, de trazer algo da literatura para uma forma de arte que ainda estava em processo de formação. No entanto, este já era o nono filme dirigido por Lang e já o colocava como o grande cineasta da república de Weimar, ao lado de F.W. Murnau. Mas, embora ele brinque com relação ao Expressionismo Alemão no próprio filme, ao colocar na boca do Dr. Mabuse a fala de que se trata de uma mera brincadeira, a comparação entre o Dr. Mabuse e o Dr. Caligari do filme de Robert Wiene são mais do que apropriadas. Inclusive, há uma cena em comum entre os dois filmes: a do sequestro do corpo de uma pessoa pelo megavilão. No caso de DR. MABUSE, O JOGADOR, a cena do rapto da Condessa Dusy Told.
O filme foi dividido em duas partes, sendo a primeira, "O Jogador", maior em duração, mas bem mais ágil, enquanto a segunda, "O Inferno do Crime", de duração menor, é um pouco mais lenta, talvez pela diminuição do número de personagens importantes presentes na história. Inclusive, isso é um detalhe importante, essa morte massiva de personagens importantes, o que acaba por aumentar o sentimento de quase onipotência do Dr. Mabuse, que além de ser muito sagaz possui também a capacidade de hipnotizar as pessoas, de penetrar em suas mentes e torná-las seus escravos.
É assim que ele consegue sugar muito dinheiro do simpático playboy Edgar Hull, que a princípio parecia ser o principal antagonista do Dr. Mabuse, até a chegada do procurador von Wenk, que ganha protagonismo a partir de sua primeira aparição, com cerca de meia hora de filme.
Um dos recursos mais louvados deste primeiro filme do Dr. Mabuse é sua hábil montagem paralela, que permite o desenvolvimento de múltiplas e simultâneas narrativas. Isso já era uma montagem preferencial das novelas pulp, aliás, e Lang soube transpor para o cinema de maneira brilhante, principalmente levando em consideração a quantidade considerável de personagens da trama.
Outro trunfo do filme está no modo como ele materializa a modernidade da cidade grande, em especial da vida noturna, com as luzes artificiais, os carros, os trens, tudo que enaltecia o progresso urbano. Há, inclusive, várias cenas de perseguição e velocidade envolvendo automóveis que acontecem à noite. Muito do mérito é também do fotógrafo Carl Hoffman, considerado o mágico da luz na república de Weimar.
O jogo de gato e rato da história é bem prazeroso, sendo que se torna muito difícil para o procurador von Wenk, principalmente porque, durante, na maior parte da trama, ele enfrenta um inimigo cuja identidade desconhece. O que o coloca em situação de desvantagem quase sempre. Por isso é tão empolgante o momento do cerco da polícia e do exército à casa do Dr. Mabuse, a cena das escadarias e o resgate da Condessa.
Quanto ao final, ainda que eu tenha ficado um tanto insatisfeito e achado brusco no modo como torna o Dr. Mabuse de um ser quase onipotente a alguém despido de consciência, há uma relação interessante e simbólica de sua nova condição com o fato de estar perto de um grupo de cegos, os cegos que contam seu dinheiro falso. Mas o que mais me chamou a atenção foi o aparecimento dos fantasmas das pessoas que ele matou para lhe atormentar, muito semelhante ao que acontece com o Zé do Caixão em À MEIA-NOITE LEVAREI SUA ALMA, de José Mojica Marins, como se Mojica tivesse sido influenciado por Lang, o que pode ter acontecido, já que ele via muitos filmes, mas certamente é mais provável que isso tenha sido influência dos quadrinhos de horror que ele consumia bastante.
+ TRÊS FILMES
O DESTINO DE UMA NAÇÃO (Darkest Hour)
É legal o início de ano, com os filmes do Oscar mudando um pouco os hábitos dos consumidores dos cinemas de shopping. Ou vai ver é outro público, pois a sala estava lotada e todo mundo caladinho e bem educado vendo um filme não exatamente centrado em ação física. Gary Oldman está gigante, de fato. Oscar merecido. Direção: Joe Wright. Ano: 2017.
LOGAN LUCKY - ROUBO EM FAMÍLIA (Logan Lucky)
Ninguém estava engolindo mesmo a história de aposentadoria de Steven Soderbergh. Mas ainda bem que ele voltou ao cinema. E com um de seus melhores trabalhos. Um muito divertido filme de assalto perpetrado por caipiras. Bem bonitas as referências a John Denver, e bem inventiva a trama. Adam Driver está excelente mais uma vez. Ano: 2017.
SOB CONTROLE (Surveillance)
Na falta de um David Lynch, vamos de Jennifer Lynch, sua filha. E não é que esse filme é uma beleza, mesmo? Um exercício de tensão e de surpresas incrível. A gente pensa que a brincadeira vai ser em torno do que é mostrado e o que é contado, mas a coisa vai mudando de rumo. Há algo de VELUDO AZUL em certo momento. Ano: 2008.
quinta-feira, junho 11, 2020
A ASSISTENTE (The Assistant)
Em tempos de isolamento social, filmes que lidam com situações de isolamento dentro de circunstâncias normais, por assim dizer, também são bem-vindos, como elementos de identificação e empatia. É o caso de A ASSISTENTE (2019), primeira experiência na ficção da então diretora australiana de documentários Kitty Green. Como seu filme é um trabalho claramente feminista e de denúncia do clima de machismo e agressividade masculina a jovens mulheres em ambiente de trabalho, é bom destacar que Green é militante na causa, sendo que um de seus documentários, UKRAINE IS NOT A BROTHEL (2013), foca no movimento ucraniano feminista Femen.
Por mais que o movimento #MeToo esteja forte e popular, o que vemos em A ASSISTENTE (cuja ação se passa antes do movimento, é verdade) é um sentimento de certo ceticismo em relação aos resultados dessas lutas. Há, claramente, um tom de melancolia que perpassa tanto as cores um tanto frias da fotografia, quanto as expressões no rosto de Julia Garner, no papel de Jane, funcionária de uma produtora cinematográfica sediada em Nova York, que sofre assédios morais e escárnios por parte de seus colegas de trabalho, por mais que tudo isso possa ser encarado de maneira até sutil.
Como Jane tem enorme dificuldade de verbalizar as coisas que lhe incomodam, inclusive para seus familiares, com quem conversa às vezes por telefone, o momento que ela resolve contar a um executivo da empresa sobre algo que ela acredita estar muito errado na relação chefe e subordinado lhe demanda muito esforço. E poder acompanhar a frustração e a resposta que ela recebe é muito duro também, já que isso acontece após uma boa metragem do filme, quando já estamos próximos da personagem e de seu ambiente de trabalho.
Diferente de um filme como O ESCÂNDALO, de Jay Roach, que claramente lida de maneira menos sofisticada e apontando o bom e o mau, A ASSISTENTE é uma obra que trabalha essas questões de maneira mais complexa. Green, em entrevista à revista britânica Sight & Sound, afirmou que não se trata apenas de se livrar de homens como Harvey Weinstein. O problema é estrutural, para usar uma palavra que está na moda. Ela também disse que "todos nós temos o dever de examinar o que deu errado e por quê".
E o filme não trata apenas dessa questão, embora ela seja parte fundamental, mas do quanto Jane se torna alguém totalmente dedicada ao seu trabalho, sendo a primeira a chegar e a última a sair, se encarregando de responder as ligações mais complicadas e recebendo bronca tanto de patrão quanto de mulher de patrão, esquece o aniversário de seu pai por causa do trabalho, e seus colegas não são nada simpáticos a ela, o que acentua sua solidão. Tanto que uma das poucas cenas externas do filme é quase que um choro contido sendo mais ou menos desencarcerado. É, de certa forma, um filme de horror, mas um horror real, da vida cotidiana.
+ TRÊS FILMES
MINHA VIDA EM MARTE
Filme divertidíssimo. Desses de rir do começo ao fim. Timing ótimo da diretora, do Paulo Gustavo, da Mônica Martelli. Um feito e tanto isso, levando em consideração que o plot é muito simples. Mas o roteiro é muito bom e as situações são muito bem boladas. Tem cara de ser o grande hit brasileiro do ano. Direção: Susana Garcia. Ano: 2018.
UM DIA (Egy Nap)
Aqui não é filme para sentir prazer. É para incomodar mesmo. Câmera na mão, uma rotina de vida infernal na vida de uma mulher comum, que cuida de três filhos pequenos e um marido traidor. Aprendi a admirar ainda mais as mães e as pessoas que cuidam de seus filhos de maneira que quase se veem obrigados a esquecerem de si mesmos, de suas próprias vidas. Direção: Zsófia Szilágyi. Ano: 2018.
MINHA FILHA (Figlia Mia)
O nome de Alba Rohrwacher (no elenco) faz todo sentido neste filme que também usa muita câmera na mão e um cenário fora das grandes cidades, como em AS MARAVILHAS, filme de sua irmã, Alice Rohrwacher. Neste aqui temos uma tocante história sobre maternidade. Direção: Laura Bispuri. Ano: 2018.
Por mais que o movimento #MeToo esteja forte e popular, o que vemos em A ASSISTENTE (cuja ação se passa antes do movimento, é verdade) é um sentimento de certo ceticismo em relação aos resultados dessas lutas. Há, claramente, um tom de melancolia que perpassa tanto as cores um tanto frias da fotografia, quanto as expressões no rosto de Julia Garner, no papel de Jane, funcionária de uma produtora cinematográfica sediada em Nova York, que sofre assédios morais e escárnios por parte de seus colegas de trabalho, por mais que tudo isso possa ser encarado de maneira até sutil.
Como Jane tem enorme dificuldade de verbalizar as coisas que lhe incomodam, inclusive para seus familiares, com quem conversa às vezes por telefone, o momento que ela resolve contar a um executivo da empresa sobre algo que ela acredita estar muito errado na relação chefe e subordinado lhe demanda muito esforço. E poder acompanhar a frustração e a resposta que ela recebe é muito duro também, já que isso acontece após uma boa metragem do filme, quando já estamos próximos da personagem e de seu ambiente de trabalho.
Diferente de um filme como O ESCÂNDALO, de Jay Roach, que claramente lida de maneira menos sofisticada e apontando o bom e o mau, A ASSISTENTE é uma obra que trabalha essas questões de maneira mais complexa. Green, em entrevista à revista britânica Sight & Sound, afirmou que não se trata apenas de se livrar de homens como Harvey Weinstein. O problema é estrutural, para usar uma palavra que está na moda. Ela também disse que "todos nós temos o dever de examinar o que deu errado e por quê".
E o filme não trata apenas dessa questão, embora ela seja parte fundamental, mas do quanto Jane se torna alguém totalmente dedicada ao seu trabalho, sendo a primeira a chegar e a última a sair, se encarregando de responder as ligações mais complicadas e recebendo bronca tanto de patrão quanto de mulher de patrão, esquece o aniversário de seu pai por causa do trabalho, e seus colegas não são nada simpáticos a ela, o que acentua sua solidão. Tanto que uma das poucas cenas externas do filme é quase que um choro contido sendo mais ou menos desencarcerado. É, de certa forma, um filme de horror, mas um horror real, da vida cotidiana.
+ TRÊS FILMES
MINHA VIDA EM MARTE
Filme divertidíssimo. Desses de rir do começo ao fim. Timing ótimo da diretora, do Paulo Gustavo, da Mônica Martelli. Um feito e tanto isso, levando em consideração que o plot é muito simples. Mas o roteiro é muito bom e as situações são muito bem boladas. Tem cara de ser o grande hit brasileiro do ano. Direção: Susana Garcia. Ano: 2018.
UM DIA (Egy Nap)
Aqui não é filme para sentir prazer. É para incomodar mesmo. Câmera na mão, uma rotina de vida infernal na vida de uma mulher comum, que cuida de três filhos pequenos e um marido traidor. Aprendi a admirar ainda mais as mães e as pessoas que cuidam de seus filhos de maneira que quase se veem obrigados a esquecerem de si mesmos, de suas próprias vidas. Direção: Zsófia Szilágyi. Ano: 2018.
MINHA FILHA (Figlia Mia)
O nome de Alba Rohrwacher (no elenco) faz todo sentido neste filme que também usa muita câmera na mão e um cenário fora das grandes cidades, como em AS MARAVILHAS, filme de sua irmã, Alice Rohrwacher. Neste aqui temos uma tocante história sobre maternidade. Direção: Laura Bispuri. Ano: 2018.
quarta-feira, junho 10, 2020
OS IMORAIS
Na época da realização de OS IMORAIS (1979), havia uma necessidade de os títulos fossem apelativos, a fim de que chamassem a atenção de um público maior, principalmente as produções paulistanas. Assim, o título deste filme de Geraldo Vietri, não representa exatamente o espírito da obra. Em parte, se justifica, se levarmos em consideração a família do personagem Mário (João Francisco Garcia). Sua mãe (Elizabeth Hartmann) transa com seu motorista particular e seu pai (Chico Martins) também transa com seu chofer, escondendo sua homossexualidade da sociedade, embora as más línguas já proclamassem essa fama da família em salões de beleza e outros lugares.
É em um salão de beleza que trabalha o personagem mais importante de OS IMORAIS, Gustavo (Paulo Castelli), jovem gay que trabalha como cabeleireiro e que costuma atender uma mulher burguesa elegante, Glória, vivida por Sandra Bréa. Passando pelo salão, Mário fica bem interessado em Glória, mas também se torna objeto de desejo de Gustavo, que passa a sonhar com o rapaz e usa de uma estratégia interessante para levá-lo para seu quitinete: para ficar sozinho com Mário, Gustavo prepara uma comemoração de seu aniversário avisando que Glória estaria também presente. Seria a chance de não só conhecê-la, mas até de transar com ela no apartamento.
Uma das coisas mais bonitas de OS IMORAIS é tratar com muito carinho seus dois personagens masculinos, um rapaz gay que sofre até um bocado de humilhação para se aproximar de seu amor; e um outro que é um poço de homofobia. Mas é justamente a tentativa de amizade dos dois, e a intenção de Mário de "converter" Gustavo à heterossexualidade que faz com que aconteça uma virada na vida dos dois, e no modo como eles passam a se ver.
A trilha sonora no piano é até um pouco cafona e parece herdeira de certos melodramas italianos, mas funciona muito bem para dar ao filme um tom de melancolia e de seriedade e respeito com aqueles personagens e suas situações. E eu vejo isso como um aspecto positivo.
Aliás, é vendo filmes como OS IMORAIS que a gente vai, cada vez mais, se convencendo da quantidade enorme de joias esquecidas em nossa cinematografia, do quanto o cinema brasileiro ainda é invisível para muitos, especialmente para quem não se permite ir além dos filmes recentes ou mesmo dos cânones, em geral representados pelo pessoal do cinema novo. Sugiro a ampliação dos horizontes.
+ TRÊS FILMES
BENZINHO
Belo filme sobre família, planos para o futuro e principalmente amor de mãe. Queria ter me envolvido mais emocionalmente, mas ainda assim reconheço que é uma obra admirável. Sem querer comprar briga com o pessoal que desgosta de CANASTRA SUJA, prefiro o filme mais "desgraça pouca é bobagem" do que este, para citar dois filmes lançados este ano, com família no meio e ambos com a presença de Adriana Esteves. Aliás, não consegui comprar a Esteves como pobre neste filme, ao contrário do outro. Direção: Gustavo Pizzi. Ano: 2018.
PELA JANELA
Na falta de Sergio Leone, vamos de Caroline Leone. :) Gosto muito do modo como a diretora constrói sua narrativa parecendo tudo tão real e documental, mas com o gosto também das boas ficções. Fiquei curioso para saber o processo de realização. Ano: 2017.
GOSTO SE DISCUTE
Comédia simpática e pouco comum no Brasil. Um dos poucos filmes brasileiros sobre os bastidores de uma cozinha de restaurante chique. No mais, gostei da Kéfera Buchmann, que eu nem sei direito quem é, mas só em estar disposta a fazer cinema no Brasil já me ganhou o respeito. E esse filme é decente, ela é bonita e o Cassio Gabus Mendes manda bem nos papéis, por mais que não seja versátil. Direção: André Pellentz. Ano: 2017.
É em um salão de beleza que trabalha o personagem mais importante de OS IMORAIS, Gustavo (Paulo Castelli), jovem gay que trabalha como cabeleireiro e que costuma atender uma mulher burguesa elegante, Glória, vivida por Sandra Bréa. Passando pelo salão, Mário fica bem interessado em Glória, mas também se torna objeto de desejo de Gustavo, que passa a sonhar com o rapaz e usa de uma estratégia interessante para levá-lo para seu quitinete: para ficar sozinho com Mário, Gustavo prepara uma comemoração de seu aniversário avisando que Glória estaria também presente. Seria a chance de não só conhecê-la, mas até de transar com ela no apartamento.
Uma das coisas mais bonitas de OS IMORAIS é tratar com muito carinho seus dois personagens masculinos, um rapaz gay que sofre até um bocado de humilhação para se aproximar de seu amor; e um outro que é um poço de homofobia. Mas é justamente a tentativa de amizade dos dois, e a intenção de Mário de "converter" Gustavo à heterossexualidade que faz com que aconteça uma virada na vida dos dois, e no modo como eles passam a se ver.
A trilha sonora no piano é até um pouco cafona e parece herdeira de certos melodramas italianos, mas funciona muito bem para dar ao filme um tom de melancolia e de seriedade e respeito com aqueles personagens e suas situações. E eu vejo isso como um aspecto positivo.
Aliás, é vendo filmes como OS IMORAIS que a gente vai, cada vez mais, se convencendo da quantidade enorme de joias esquecidas em nossa cinematografia, do quanto o cinema brasileiro ainda é invisível para muitos, especialmente para quem não se permite ir além dos filmes recentes ou mesmo dos cânones, em geral representados pelo pessoal do cinema novo. Sugiro a ampliação dos horizontes.
+ TRÊS FILMES
BENZINHO
Belo filme sobre família, planos para o futuro e principalmente amor de mãe. Queria ter me envolvido mais emocionalmente, mas ainda assim reconheço que é uma obra admirável. Sem querer comprar briga com o pessoal que desgosta de CANASTRA SUJA, prefiro o filme mais "desgraça pouca é bobagem" do que este, para citar dois filmes lançados este ano, com família no meio e ambos com a presença de Adriana Esteves. Aliás, não consegui comprar a Esteves como pobre neste filme, ao contrário do outro. Direção: Gustavo Pizzi. Ano: 2018.
PELA JANELA
Na falta de Sergio Leone, vamos de Caroline Leone. :) Gosto muito do modo como a diretora constrói sua narrativa parecendo tudo tão real e documental, mas com o gosto também das boas ficções. Fiquei curioso para saber o processo de realização. Ano: 2017.
GOSTO SE DISCUTE
Comédia simpática e pouco comum no Brasil. Um dos poucos filmes brasileiros sobre os bastidores de uma cozinha de restaurante chique. No mais, gostei da Kéfera Buchmann, que eu nem sei direito quem é, mas só em estar disposta a fazer cinema no Brasil já me ganhou o respeito. E esse filme é decente, ela é bonita e o Cassio Gabus Mendes manda bem nos papéis, por mais que não seja versátil. Direção: André Pellentz. Ano: 2017.
terça-feira, junho 09, 2020
DOIS DOCUMENTÁRIOS DE ABEL FERRARA
Encerrando a minha peregrinação pelo cinema de Abel Ferrara com estes dois documentários um tanto escondidos do cineasta. O primeiro nem mesmo no IMDB aparece; o segundo consta como extra de DVD. Como meu ouvido não é muito bom, deixei para outra oportunidade a chance de ver/rever telefilmes como O GLADIADOR (1986) e THE LONER (1988) e os documentários CHELSEA ON THE ROCKS (2008), ALIVE IN FRANCE (2017) e PIAZZA VITTORIO (2017). Como o homem não para, é esperar pelo lançamento de três novos trabalhos dele, THE PROJECTIONIST (2019), TOMMASO (2019) e SIBERIA (2020). Qualquer dia desses, essas produções se tornam acessíveis. De todo modo, foi um prazer poder conhecer melhor, nesta quarentena, a obra de um dos cineastas mais importantes e mais queridos e ao mesmo tempo malditos da contemporaneidade.
SEARCHING FOR PADRE PIO
Documentário feito para a televisão italiana para um programa jornalístico de nome BOATS, SEARCHING FOR PADRE PIO (2015) é uma obra que dialoga com a filmografia de Ferrara não apenas pelo Catolicismo e por sua maior aproximação mais recente com o cinema italiano, mas também pelo fato de que o objeto de estudo, o Padre Pio, é um personagem bastante controverso. Mal comparando, ele faz lembrar o Padre Cícero, que tem uma história envolta em milagres e supostos escândalos políticos. No caso de Padre Pio, que foi canonizado pelo Vaticano, interessa a Ferrara tanto aquilo que mais chama a atenção dos fiéis do padre, que é a fé em seus milagres, o que se diz sobre a estigmata (seria verdade ou uma farsa?), sobre um momento de transfiguração comentado por outro padre, sobre as intermináveis horas que o padre passava ouvindo as centenas de fiéis que vinham se confessar e receber milagres, quanto a negociação com líderes fascistas da época de Mussolini para conseguir dinheiro para montar um grande hospital. O documentário traz imagens de arquivo que apresentam essa movimentação intensa da população da pequena cidade de Pietrelcina para pegar o melhor lugar na missa. Como vi o filme com legendas em inglês e o áudio é em italiano, fiquei um pouco atrapalhado para acompanhar com clareza o filme e certamente deixei passar algumas informações importantes.
TALKING WITH THE VAMPIRES
Trata-se de um documentário que mais interessa a quem viu O VÍCIO (1995), ou pelo menos a quem conhece os entrevistados: Lily Taylor, a protagonista, que se vê como mais sábia ao longo dos mais de 20 anos passados da realização do filme; Christopher Walken, que tem uma visão mais amarga da vida, em especial da velhice, falando de como ele não se aposenta: a indústria é que o aposenta, deixando de convidá-lo para projetos por causa da idade; e o compositor Joe Delia, que trabalhou com Ferrara em vários outros filmes - interessante ele dizer que se inspirou em uma composição de tema mórbido de Bach para piano, e no quanto isso combina para a atmosfera do filme. Curioso como Ferrara curtiu essa coisa de fazer documentários centrados em conversas. Pode parecer preguiçoso de sua parte, mas certamente pode resultar em algo muito enriquecedor. Que o diga o nosso Eduardo Coutinho. TALKING WITH THE VAMPIRES (2018) aparece como extra no box Vampiros no Cinema 3, da Versátil.
+ TRÊS FILMES
MUITO ROMÂNTICO
Difícil embarcar na viagem desse filme, mas também é difícil falar mal sem ter compreendido direito a proposta e o que os diretores/atores queriam dizer. Não embarquei e acabei não curtindo muito. Direção: Melissa Dullius e Gustavo Jahn. Ano: 2016.
O AUGE DO HUMANO (El Auge del Humano)
Acho que a cópia ruim (tenho impressão que não era DCP) tenha contribuído pelo meu problema com esse filme. Mas também não é só isso. Trata-se de um trabalho bem difícil, embora as mudanças de ambiente seja inventivas. Mas passada a raiva é um filme a se pensar com um pouco mais de carinho. Direção: Eduardo Williams. Ano: 2016.
ANIMAL POLÍTICO
Ainda falta eu ruminar (sem trocadilho com a vaquinha protagonista) um pouco o filme, já que é um trabalho existencialista e cheio de simbolismos. Adorei a garota caucasiana. Onde que a gente assina pra ter um longa só com ela? Direção: Tião. Ano: 2016.
SEARCHING FOR PADRE PIO
Documentário feito para a televisão italiana para um programa jornalístico de nome BOATS, SEARCHING FOR PADRE PIO (2015) é uma obra que dialoga com a filmografia de Ferrara não apenas pelo Catolicismo e por sua maior aproximação mais recente com o cinema italiano, mas também pelo fato de que o objeto de estudo, o Padre Pio, é um personagem bastante controverso. Mal comparando, ele faz lembrar o Padre Cícero, que tem uma história envolta em milagres e supostos escândalos políticos. No caso de Padre Pio, que foi canonizado pelo Vaticano, interessa a Ferrara tanto aquilo que mais chama a atenção dos fiéis do padre, que é a fé em seus milagres, o que se diz sobre a estigmata (seria verdade ou uma farsa?), sobre um momento de transfiguração comentado por outro padre, sobre as intermináveis horas que o padre passava ouvindo as centenas de fiéis que vinham se confessar e receber milagres, quanto a negociação com líderes fascistas da época de Mussolini para conseguir dinheiro para montar um grande hospital. O documentário traz imagens de arquivo que apresentam essa movimentação intensa da população da pequena cidade de Pietrelcina para pegar o melhor lugar na missa. Como vi o filme com legendas em inglês e o áudio é em italiano, fiquei um pouco atrapalhado para acompanhar com clareza o filme e certamente deixei passar algumas informações importantes.
TALKING WITH THE VAMPIRES
Trata-se de um documentário que mais interessa a quem viu O VÍCIO (1995), ou pelo menos a quem conhece os entrevistados: Lily Taylor, a protagonista, que se vê como mais sábia ao longo dos mais de 20 anos passados da realização do filme; Christopher Walken, que tem uma visão mais amarga da vida, em especial da velhice, falando de como ele não se aposenta: a indústria é que o aposenta, deixando de convidá-lo para projetos por causa da idade; e o compositor Joe Delia, que trabalhou com Ferrara em vários outros filmes - interessante ele dizer que se inspirou em uma composição de tema mórbido de Bach para piano, e no quanto isso combina para a atmosfera do filme. Curioso como Ferrara curtiu essa coisa de fazer documentários centrados em conversas. Pode parecer preguiçoso de sua parte, mas certamente pode resultar em algo muito enriquecedor. Que o diga o nosso Eduardo Coutinho. TALKING WITH THE VAMPIRES (2018) aparece como extra no box Vampiros no Cinema 3, da Versátil.
+ TRÊS FILMES
MUITO ROMÂNTICO
Difícil embarcar na viagem desse filme, mas também é difícil falar mal sem ter compreendido direito a proposta e o que os diretores/atores queriam dizer. Não embarquei e acabei não curtindo muito. Direção: Melissa Dullius e Gustavo Jahn. Ano: 2016.
O AUGE DO HUMANO (El Auge del Humano)
Acho que a cópia ruim (tenho impressão que não era DCP) tenha contribuído pelo meu problema com esse filme. Mas também não é só isso. Trata-se de um trabalho bem difícil, embora as mudanças de ambiente seja inventivas. Mas passada a raiva é um filme a se pensar com um pouco mais de carinho. Direção: Eduardo Williams. Ano: 2016.
ANIMAL POLÍTICO
Ainda falta eu ruminar (sem trocadilho com a vaquinha protagonista) um pouco o filme, já que é um trabalho existencialista e cheio de simbolismos. Adorei a garota caucasiana. Onde que a gente assina pra ter um longa só com ela? Direção: Tião. Ano: 2016.
segunda-feira, junho 08, 2020
LEONARD COHEN - I'M YOUR MAN
As lembranças de minha relação e de meu interesse pela obra de Leonard Cohen remontam aos anos 1990. Acredito que o ano de 1994 foi fundamental nesse sentindo, pois foi neste ano que eu comprei o primeiro disco do cantor e compositor, Cohen Live, que teve críticas ótimas da revista Bizz, que na época era a minha bússola na hora de comprar discos. Nessa época não existia internet para pessoas normais, nem esse tipo de canção tocava nas rádios e nem havia ainda MTV. Foi nesse ano também que vi no cinema (ou no ano seguinte, não sei ao certo) EXÓTICA, de Atom Egoyan, que trazia "Everybody knows" na trilha sonora. Lembro que isso foi tão ou mais marcante para mim do que as cenas de nudez e sensualidade que o filme trazia.
Em 1994 também foi o ano que foi lançado nos cinemas ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, que trazia duas canções mais sombrias do cantor: "The future" e "Waiting for the miracle". Cheguei a ouvir a trilha sonora, gravada em uma fitinha cassete durante muito tempo. Bela seleção de canções. No mesmo ano, um colega de faculdade me emprestou o álbum I'm Your Man (1988). Já conhecia a canção-título em sua versão ao vivo. Ou seja, até posso dizer que este 1994 foi especial não apenas por ser o ano de minha entrada na faculdade, mas também por ter conhecido um monte de coisas fascinantes, entre elas, Leonard Cohen.
Na época do lançamento mundial do documentário LEONARD COHEN - I'M YOUR MAN (2005), de Lian Lunson, eu cheguei a baixar a trilha sonora e ouvia bastante no carro. Nem sei se chegou a ser lançada em CD no Brasil. E até chequei em meu blog se por acaso eu já não tinha visto o filme, mas não tinha não. Foi falha minha. Por outro lado, foi muito gostoso voltar a ouvir aquelas versões lindas das canções clássicas de Cohen, nas vozes de gente como Nick Cave, Rufus Wainwright, Martha Wainwright, Beth Orton, Jarvis Cocker, entre outros. Há também, no final, o U2 servindo como banda de apoio de luxo para o próprio Cohen cantar "Tower of song".
A relação de Cohen com o cinema é tanta que, ao buscar em meu blog pelo seu nome, inúmeros filmes surgem, e eu sempre destaco o momento em que uma de suas canções aparece em meus textos. É tão marcante que eu nunca fico indiferente; vejo como, no mínimo, um dos pontos altos dos filmes. Podemos destacar, principalmente, a trilha sonora de ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS, de Robert Altman, que foi escrita por ele. Coisa linda demais. Na época, início dos anos 1970, seu tipo de música era mais próxima de um lirismo hippie ou algo do tipo. "Sisters of Mercy" faz parte da trilha do filme de Altman. E é cantada no doc por Beth Orton.
No documentário, entre uma e outra canção do grupo escolhido para a apresentação, ouvimos depoimentos do próprio Cohen e também de outros artistas. E é impressionante como, quando ele fala, ouvimos suas palavras como se estivéssemos ouvindo um guru. E de fato ele tem mesmo uma relação forte com a espiritualidade. Praticou zen-budismo com um mestre que aparece no filme, e cita um trecho do Bhagavad Gita. E tanto Bono quanto The Edge o vêem como uma espécie de pessoa elevada.
O próprio Nick Cave afirma que sua principal influência é o cantor canadense. Cave conta que, quando morava em uma remota cidade do interior da Austrália, descobriu o álbum Songs of Love and Hate (1971). Ele diz que se sentiu a pessoa mais cool do mundo, separada de tudo e todos de que detestava.
Engraçado Cohen falar de sua reputação de pegador de mulheres, do quanto isso é uma farsa. Em suas palavras: "My reputation as a ladies' man was a joke. It caused me to laugh bitterly the 10,000 nights I spent alone." Há um fato que ele conta, de quando conheceu Janis Joplin em uma festa em Nova York, e do fato de ter divulgado que escreveu uma canção em sua homenagem. Trata-se de "Chelsea Hotel No. 2", que no espetáculo é cantada lindamente por Rufus Wainwright, um dos cantores mais elogiados pelo próprio Cohen no documentário.
Há um cantor que eu não conhecia, mas que contribui com um dos melhores momentos do show: ele se chama Antony, e a canção escolhida foi a magnífica "If it be your will", poesia romântica em forma de música de arrepiar.
A desvantagem de escrever sobre música é a minha incapacidade de tecer comentários mais profundos e mais necessários não apenas sobre o artista, mas sobre cada canção extraordinária que eleva nosso espírito. Por isso, deixo apenas registrada a minha gratidão pela sua existência e pelos inúmeros presentes recebidos, Mr. Cohen.
+ TRÊS DOCUMENTÁRIOS
JERRY SEINFELD: 23 HOURS TO KILL
Achei tão estranho ver este stand up show de Jerry Seinfeld nesses tempos de pandemia... É como se certas situações que ele fala, como a ida a restaurantes e lanchonetes etc. fossem algo remoto. É um tanto triste. Mas consegui dar umas boas gargalhadas em alguns momentos, especialmente quando ele fala sobre celulares. Até porque, na época da série SEINFELD (1989-1998), não havia telefones celulares, eles não faziam parte da nossa sociedade. É legal vê-lo comentando a respeito e chegando a questionar a própria necessidade de ver um rosto humano falando nos dias de hoje. Já a parte final, em que ele fala da vida de casado é bem novidade pra mim, já que ele só casou aos 45 anos e as piadas que lembramos da série eram de pessoas solteiras. Como não sou casado, não me identifiquei, nem ri das piadas desse "bloco". Ano: 2020.
O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT (L'Enfer d'Henri-Georges Clouzot)
Um dos filmes mais ambiciosos de todos os tempos não chegou a ser terminado. Clouzot estava obcecado e tinha um monte de ideias. O filme foi cancelado de vez quando ele teve uma parada cardíaca. Curiosamente foi no meio da cena de beijo entre Romy Schneider com outra mulher. Aliás, que maravilha que é Romy, hein? Falo tanto da beleza física quanto da versatilidade, do modo como podia expressar diferentes pessoas. Muito bom a parte com Bérénice Bejo e Jacques Gamblin interpretando um texto que não chegou a sair do roteiro. Provavelmente foi aproveitado por Chabrol em seu filme. Direção: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Ano: 2009.
VISAGES VILLAGES
Acho que o fato de eu ser muito apegado à palavra faz com que eu não me sinta tão envolvido nesses filmes que tratam sobre outras artes. No caso aqui é sobre a fotografia de JR. Que é interessante, mas o melhor do filme está em Agnès, em sua generosidade, sua consciência da própria finitude e uma certa cena envolvendo um diretor famoso. Direção: Agnès Varda e JR. Ano: 2017.
Em 1994 também foi o ano que foi lançado nos cinemas ASSASSINOS POR NATUREZA, de Oliver Stone, que trazia duas canções mais sombrias do cantor: "The future" e "Waiting for the miracle". Cheguei a ouvir a trilha sonora, gravada em uma fitinha cassete durante muito tempo. Bela seleção de canções. No mesmo ano, um colega de faculdade me emprestou o álbum I'm Your Man (1988). Já conhecia a canção-título em sua versão ao vivo. Ou seja, até posso dizer que este 1994 foi especial não apenas por ser o ano de minha entrada na faculdade, mas também por ter conhecido um monte de coisas fascinantes, entre elas, Leonard Cohen.
Na época do lançamento mundial do documentário LEONARD COHEN - I'M YOUR MAN (2005), de Lian Lunson, eu cheguei a baixar a trilha sonora e ouvia bastante no carro. Nem sei se chegou a ser lançada em CD no Brasil. E até chequei em meu blog se por acaso eu já não tinha visto o filme, mas não tinha não. Foi falha minha. Por outro lado, foi muito gostoso voltar a ouvir aquelas versões lindas das canções clássicas de Cohen, nas vozes de gente como Nick Cave, Rufus Wainwright, Martha Wainwright, Beth Orton, Jarvis Cocker, entre outros. Há também, no final, o U2 servindo como banda de apoio de luxo para o próprio Cohen cantar "Tower of song".
A relação de Cohen com o cinema é tanta que, ao buscar em meu blog pelo seu nome, inúmeros filmes surgem, e eu sempre destaco o momento em que uma de suas canções aparece em meus textos. É tão marcante que eu nunca fico indiferente; vejo como, no mínimo, um dos pontos altos dos filmes. Podemos destacar, principalmente, a trilha sonora de ONDE OS HOMENS SÃO HOMENS, de Robert Altman, que foi escrita por ele. Coisa linda demais. Na época, início dos anos 1970, seu tipo de música era mais próxima de um lirismo hippie ou algo do tipo. "Sisters of Mercy" faz parte da trilha do filme de Altman. E é cantada no doc por Beth Orton.
No documentário, entre uma e outra canção do grupo escolhido para a apresentação, ouvimos depoimentos do próprio Cohen e também de outros artistas. E é impressionante como, quando ele fala, ouvimos suas palavras como se estivéssemos ouvindo um guru. E de fato ele tem mesmo uma relação forte com a espiritualidade. Praticou zen-budismo com um mestre que aparece no filme, e cita um trecho do Bhagavad Gita. E tanto Bono quanto The Edge o vêem como uma espécie de pessoa elevada.
O próprio Nick Cave afirma que sua principal influência é o cantor canadense. Cave conta que, quando morava em uma remota cidade do interior da Austrália, descobriu o álbum Songs of Love and Hate (1971). Ele diz que se sentiu a pessoa mais cool do mundo, separada de tudo e todos de que detestava.
Engraçado Cohen falar de sua reputação de pegador de mulheres, do quanto isso é uma farsa. Em suas palavras: "My reputation as a ladies' man was a joke. It caused me to laugh bitterly the 10,000 nights I spent alone." Há um fato que ele conta, de quando conheceu Janis Joplin em uma festa em Nova York, e do fato de ter divulgado que escreveu uma canção em sua homenagem. Trata-se de "Chelsea Hotel No. 2", que no espetáculo é cantada lindamente por Rufus Wainwright, um dos cantores mais elogiados pelo próprio Cohen no documentário.
Há um cantor que eu não conhecia, mas que contribui com um dos melhores momentos do show: ele se chama Antony, e a canção escolhida foi a magnífica "If it be your will", poesia romântica em forma de música de arrepiar.
A desvantagem de escrever sobre música é a minha incapacidade de tecer comentários mais profundos e mais necessários não apenas sobre o artista, mas sobre cada canção extraordinária que eleva nosso espírito. Por isso, deixo apenas registrada a minha gratidão pela sua existência e pelos inúmeros presentes recebidos, Mr. Cohen.
+ TRÊS DOCUMENTÁRIOS
JERRY SEINFELD: 23 HOURS TO KILL
Achei tão estranho ver este stand up show de Jerry Seinfeld nesses tempos de pandemia... É como se certas situações que ele fala, como a ida a restaurantes e lanchonetes etc. fossem algo remoto. É um tanto triste. Mas consegui dar umas boas gargalhadas em alguns momentos, especialmente quando ele fala sobre celulares. Até porque, na época da série SEINFELD (1989-1998), não havia telefones celulares, eles não faziam parte da nossa sociedade. É legal vê-lo comentando a respeito e chegando a questionar a própria necessidade de ver um rosto humano falando nos dias de hoje. Já a parte final, em que ele fala da vida de casado é bem novidade pra mim, já que ele só casou aos 45 anos e as piadas que lembramos da série eram de pessoas solteiras. Como não sou casado, não me identifiquei, nem ri das piadas desse "bloco". Ano: 2020.
O INFERNO DE HENRI-GEORGES CLOUZOT (L'Enfer d'Henri-Georges Clouzot)
Um dos filmes mais ambiciosos de todos os tempos não chegou a ser terminado. Clouzot estava obcecado e tinha um monte de ideias. O filme foi cancelado de vez quando ele teve uma parada cardíaca. Curiosamente foi no meio da cena de beijo entre Romy Schneider com outra mulher. Aliás, que maravilha que é Romy, hein? Falo tanto da beleza física quanto da versatilidade, do modo como podia expressar diferentes pessoas. Muito bom a parte com Bérénice Bejo e Jacques Gamblin interpretando um texto que não chegou a sair do roteiro. Provavelmente foi aproveitado por Chabrol em seu filme. Direção: Serge Bromberg e Ruxandra Medrea. Ano: 2009.
VISAGES VILLAGES
Acho que o fato de eu ser muito apegado à palavra faz com que eu não me sinta tão envolvido nesses filmes que tratam sobre outras artes. No caso aqui é sobre a fotografia de JR. Que é interessante, mas o melhor do filme está em Agnès, em sua generosidade, sua consciência da própria finitude e uma certa cena envolvendo um diretor famoso. Direção: Agnès Varda e JR. Ano: 2017.
domingo, junho 07, 2020
O MALDITO (M)
O meu ensaio para uma peregrinação por Fritz Lang me levou a uma revisão de M - O VAMPIRO DE DUSSELDORF (1931) e o amigo Chico Fireman me lembrou deste remake que Joseph Losey realizou duas décadas depois nos Estados Unidos. O curioso é que, enquanto eu via O MALDITO (1951), a refilmagem de Losey, eu ficava imaginando um motivo para a realização deste filme. Até lembrei do PSICOSE dirigido por Gus Van Sant como uma obra muito mais pulsante e interessante, por mais que possa ser considerado uma heresia pelos fãs de Hitchcock, do que este trabalho de Losey, que também faz uma espécie de recriação quadro a quadro em determinados momentos.
Então, o que eu percebi, enquanto via o filme, e sabendo que ele é apreciado por muitas pessoas, em especial os fãs de Losey, é que me falta conhecimento da poética do cineasta americano, por mais que ache interessante tanto a questão envolvendo a caça às bruxas vigente em Hollywood na época, quanto a inclusão da trama naquele universo do filme noir americano. Se bem que, no que se refere a isso, nem é preciso muito esforço. O filme noir já estava entranhado no próprio espírito da época (anos 40 e início dos anos 50).
Uma coisa que me incomodou muito foi o quanto a refilmagem perde para o original em simplesmente todos os aspectos. Até mesmo no sonoro. E olha que Lang realizou o seu filme quando o som ainda estava engatinhando no cinema. A princípio, me incomodou a representação do assassino, vivido por David Wayne, que não tem um pingo da força do trabalho monstruoso de Peter Lorre na obra-prima de Lang. O próprio líder da máfia no filme de Losey não tem nada do charme daquele grande vilão de luvas pretas do filme de Lang. Enfim, esse tipo de comparação nem parece ser sábia.
O que percebi, lendo alguns textos sobre Losey, é que se trata de um cineasta essencialmente humanista. Em O MALDITO, vemos que ele de fato humaniza tanto a figura do assassino de crianças, quanto o referido líder da máfia, que parece tão razoável quanto um policial honesto. Não que isso signifique passar a mão na cabeça do assassino, mas vê-lo como uma pessoa doente e atormentada, que precisa, antes de tudo, de tratamento psiquiátrico.
Como consegui uma cópia muito boa do filme, é possível notar o quanto há um cuidado com a fotografia, muito bonita, próxima do barroco em seu alto contraste entre luz e sombra. Estudos bem cuidados sobre o trabalho de Losey apontam também a excelência no uso da câmera, seja quando a coloca na altura das crianças, seja nos momentos de perseguição.
Assim, o melhor que tenho a fazer é me dedicar - um dia, já que provavelmente não será para breve - a estudar a obra completa de Joseph Losey, já que suas melhores obras, pelo que dizem, foram realizadas na Europa, durante o exílio. Então, fiquemos por aqui, deixando apenas registrado esse momento de incômodo advindo tanto do desconhecimento da obra do diretor, quanto de uma comparação com uma obra-prima revista muito recentemente.
+ TRÊS FILMES
SEQUESTRO RELÂMPAGO
Não sei se eu ando vendo política em todo lugar, mas acabei encarando este filme como uma alegoria sobre o Brasil sendo governado pela brutalidade e pela ignorância. Não sei se o filme tem intenção de mostrar os personagens dos sequestradores como pessoas assim tão humanizadas, embora sejam personagens bem representados pelos atores. E Tata Amaral volta a mostrar que manja de suspense e tensão, como já havia mostrado desde seu filme de estreia. Bom vê-la voltar ao suspense. Ano: 2018.
A JUSTICEIRA (Peppermint)
Mais um filme de criação de um vigilante a partir da ideia de vingança. Esse é bem genérico e ainda falta impacto nas cenas de ação e violência, que são bem atenuadas em seu grafismo. Tem os seus bons momentos, como a cena de Jennifer Garner entrando na casa de uma antiga amiga, quando abre um pouco mais para o humor, mas são poucas. Em certo momento acaba ficando um pouco aborrecido. Direção: Pierre Morel. Ano: 2018.
VERSÕES DE UM CRIME (The Whole Truth)
Não é um mau filme. Mantém o interesse até o fim, mas acaba sendo pouco e a surpresa que guardam para o final não chega a impactar. Lembrei de um filme de tribunal brasileiro que vi um dia desses, AMOR MALDITO, que é muito melhor. Direção: Courtney Hunt. Ano: 2016.
Então, o que eu percebi, enquanto via o filme, e sabendo que ele é apreciado por muitas pessoas, em especial os fãs de Losey, é que me falta conhecimento da poética do cineasta americano, por mais que ache interessante tanto a questão envolvendo a caça às bruxas vigente em Hollywood na época, quanto a inclusão da trama naquele universo do filme noir americano. Se bem que, no que se refere a isso, nem é preciso muito esforço. O filme noir já estava entranhado no próprio espírito da época (anos 40 e início dos anos 50).
Uma coisa que me incomodou muito foi o quanto a refilmagem perde para o original em simplesmente todos os aspectos. Até mesmo no sonoro. E olha que Lang realizou o seu filme quando o som ainda estava engatinhando no cinema. A princípio, me incomodou a representação do assassino, vivido por David Wayne, que não tem um pingo da força do trabalho monstruoso de Peter Lorre na obra-prima de Lang. O próprio líder da máfia no filme de Losey não tem nada do charme daquele grande vilão de luvas pretas do filme de Lang. Enfim, esse tipo de comparação nem parece ser sábia.
O que percebi, lendo alguns textos sobre Losey, é que se trata de um cineasta essencialmente humanista. Em O MALDITO, vemos que ele de fato humaniza tanto a figura do assassino de crianças, quanto o referido líder da máfia, que parece tão razoável quanto um policial honesto. Não que isso signifique passar a mão na cabeça do assassino, mas vê-lo como uma pessoa doente e atormentada, que precisa, antes de tudo, de tratamento psiquiátrico.
Como consegui uma cópia muito boa do filme, é possível notar o quanto há um cuidado com a fotografia, muito bonita, próxima do barroco em seu alto contraste entre luz e sombra. Estudos bem cuidados sobre o trabalho de Losey apontam também a excelência no uso da câmera, seja quando a coloca na altura das crianças, seja nos momentos de perseguição.
Assim, o melhor que tenho a fazer é me dedicar - um dia, já que provavelmente não será para breve - a estudar a obra completa de Joseph Losey, já que suas melhores obras, pelo que dizem, foram realizadas na Europa, durante o exílio. Então, fiquemos por aqui, deixando apenas registrado esse momento de incômodo advindo tanto do desconhecimento da obra do diretor, quanto de uma comparação com uma obra-prima revista muito recentemente.
+ TRÊS FILMES
SEQUESTRO RELÂMPAGO
Não sei se eu ando vendo política em todo lugar, mas acabei encarando este filme como uma alegoria sobre o Brasil sendo governado pela brutalidade e pela ignorância. Não sei se o filme tem intenção de mostrar os personagens dos sequestradores como pessoas assim tão humanizadas, embora sejam personagens bem representados pelos atores. E Tata Amaral volta a mostrar que manja de suspense e tensão, como já havia mostrado desde seu filme de estreia. Bom vê-la voltar ao suspense. Ano: 2018.
A JUSTICEIRA (Peppermint)
Mais um filme de criação de um vigilante a partir da ideia de vingança. Esse é bem genérico e ainda falta impacto nas cenas de ação e violência, que são bem atenuadas em seu grafismo. Tem os seus bons momentos, como a cena de Jennifer Garner entrando na casa de uma antiga amiga, quando abre um pouco mais para o humor, mas são poucas. Em certo momento acaba ficando um pouco aborrecido. Direção: Pierre Morel. Ano: 2018.
VERSÕES DE UM CRIME (The Whole Truth)
Não é um mau filme. Mantém o interesse até o fim, mas acaba sendo pouco e a surpresa que guardam para o final não chega a impactar. Lembrei de um filme de tribunal brasileiro que vi um dia desses, AMOR MALDITO, que é muito melhor. Direção: Courtney Hunt. Ano: 2016.
sábado, junho 06, 2020
MARTIN EDEN
A princípio, quando comecei a ver MARTIN EDEN (2019), lembrei-me bastante de SYNONYMES, de Nadav Lapid, filme do mesmo ano. A semelhança entre os dois se dá pelo fato de ambos os protagonistas serem figuras de certa forma ingênuas e muito dispostas a aprender. No entanto, as intenções do aprendizado de ambos é bastante distinta. Enquanto o israelense do filme de Lapid quer esquecer sua nacionalidade e se tornar um francês, Martin Eden, o protagonista do filme adaptado do romance homônimo de Jack London, se encanta com a educação de uma linda mulher, mas também se encanta com a alta literatura, a ponto de querer se tornar um escritor. Ele, que nem terminou o primário e conjuga verbos de forma errada. Ninguém acredita em Martin. Só ele.
O diretor Pietro Marcello já tem um currículo com 13 títulos, entre curtas e longas-metragens. É um cineasta que veio do documentário e MARTIN EDEN é seu segundo filme de ficção. Em entrevista à revista Cinema Scope, ele diz que o fato de ter vindo do documentário teve um efeito bastante particular na narrativa do filme. Diz que por isso não segue uma tradição tipicamente anglo-saxã de um roteiro bem-estruturado. Para o roteiro, ele contou com a parceria de Maurizio Braucci, que havia trabalhado com Abel Ferrara em NAPOLI, NAPOLI, NAPOLI (2009) e com Matteo Garrone em GOMORRA (2008). Curiosamente, são dois filmes que abordam a máfia napolitana.
A cidade de Nápoles é também cenário de MARTIN EDEN, um filme que causa estranheza por nunca se situar temporalmente. Ora parece anos 50, às vezes anos 70 ou 80, e outras vezes, no período anterior a uma das grandes guerras. A política também é fundamental para o aspecto complexo de Martin, um homem que se diz individualista, que faz críticas a um grupo de trabalhadores grevistas, mas que acaba por ser visto como um socialista pela família neoliberal da namorada. O filme me deixou confuso em diversos momentos, por causa desses aspectos.
Há duas mulheres importantes em cena. A primeira delas surge logo no início do filme. Margherita trabalha como garçonete e transa com Martin quando o conhece em uma festa. Porém, no dia seguinte, o protagonista conhece Elena, pertencente a uma família aristocrata. É Elena que trará sede de conhecimento para Martin, um homem bruto, mas bastante insatisfeito com o trabalho braçal a que precisa se submeter. Assim que bota na cabeça que quer ser escritor, essa insatisfação só aumenta.
O ator que interpreta Martin Eden, Luca Marinelli, confere ao personagem uma verdade admirável nos diversos momentos de sua vida. Seja na fase ingênua, passando pela crise financeira e tentativa hercúlea de conseguir espaço para seus textos em revistas, até o final, de riqueza financeira, mas de completa amargura, tudo isso é sentido com muita dor. O filme, inclusive, não dá muito espaço para que sintamos um pouco da alegria de amar durante os melhores momentos de Martin com Elena. Afinal, ele gosta de sair viajando, e se comunica com ela muitas vezes através de cartas.
Assim, o filme não é nem uma história de amor, nem uma história de superação ou uma narrativa sobre a história política italiana, embora possa ser um pouco disso tudo também. Pode ser um filme sobre o prazer do conhecimento e da cultura, e de como essa cultura acaba por não trazer ao protagonista a felicidade almejada, ou algum tipo maior de satisfação. Talvez pelo fim do relacionamento com Elena, mas também por causa do suicídio de um amigo, o tom de depressão e morte da alma antes da morte física se mostre tão presente.
MARTIN EDEN foi filmado em 16 mm, o que faz com que algumas das cores, especialmente o vermelho, fiquem estouradas, mesmo em uma televisão. Certamente, na tela do cinema o aspecto granulado da fotografia se torna ainda mais explícito. Pena que o filme estreou em fevereiro nos cinemas brasileiros e não chegou a entrar em cartaz em Fortaleza. Na segunda quinzena de março, os cinemas fecharam e agora só Deus sabe quando retornarão. Creio que a apreciação desse filme no cinema o tornaria ainda mais grandioso, com suas imagens, suas músicas e seu tom apaixonado.
+ TRÊS FILMES
A ODISSEIA DOS TONTOS (La Odisea de los Giles)
Terceira parceria de Ricardo Darín com o diretor de UM CONTO CHINÊS (2011). Para mim foi uma surpresa saber que o que ocorreu com o Brasil na época do Collor aconteceu dez anos depois na Argentina, e tendo consequências ainda mais devastadoras, já que o país estava na merda, com uma moeda nacional que não valia nada. É no meio desse cenário que acontece a trama do filme, quando um grupo de pessoas que junta dinheiro para formar uma cooperativa e depois vê o seu dinheiro roubado pelo banco/banqueiros/hijos de puta que já sabiam o que ia acontecer. Mas o foco do filme se concentra no que eles fazem para tentar recuperar os dólares perdidos. Roteiro redondinho, um grupo de atores afiados, há pouco do que reclamar. Direção: Sebastián Borensztein. Ano: 2019.
O OUTRO LADO DA ESPERANÇA (Toivon Tuolla Puolen)
Impressionante como um autor pode tornar a sua assinatura inconfundível. O filme é outra delícia do cineasta, em tons trágicos e cômicos, dessa vez abordando a questão dos refugiados da Síria. Mais uma vez lindo trabalho de direção de arte. Direção: Aki Kaurismäki. Ano: 2017.
AFTERIMAGE (Powidoki)
Conheço bem pouco da filmografia do Andrzej Wajda, mas o pouco que conheço dá pra perceber o quanto ele valoriza o humano em detrimento do governo. Aqui ele faz uma ode à arte em tempos em que os artistas dos países comunistas eram obrigados a seguir uma cartilha. Ano: 2016.
O diretor Pietro Marcello já tem um currículo com 13 títulos, entre curtas e longas-metragens. É um cineasta que veio do documentário e MARTIN EDEN é seu segundo filme de ficção. Em entrevista à revista Cinema Scope, ele diz que o fato de ter vindo do documentário teve um efeito bastante particular na narrativa do filme. Diz que por isso não segue uma tradição tipicamente anglo-saxã de um roteiro bem-estruturado. Para o roteiro, ele contou com a parceria de Maurizio Braucci, que havia trabalhado com Abel Ferrara em NAPOLI, NAPOLI, NAPOLI (2009) e com Matteo Garrone em GOMORRA (2008). Curiosamente, são dois filmes que abordam a máfia napolitana.
A cidade de Nápoles é também cenário de MARTIN EDEN, um filme que causa estranheza por nunca se situar temporalmente. Ora parece anos 50, às vezes anos 70 ou 80, e outras vezes, no período anterior a uma das grandes guerras. A política também é fundamental para o aspecto complexo de Martin, um homem que se diz individualista, que faz críticas a um grupo de trabalhadores grevistas, mas que acaba por ser visto como um socialista pela família neoliberal da namorada. O filme me deixou confuso em diversos momentos, por causa desses aspectos.
Há duas mulheres importantes em cena. A primeira delas surge logo no início do filme. Margherita trabalha como garçonete e transa com Martin quando o conhece em uma festa. Porém, no dia seguinte, o protagonista conhece Elena, pertencente a uma família aristocrata. É Elena que trará sede de conhecimento para Martin, um homem bruto, mas bastante insatisfeito com o trabalho braçal a que precisa se submeter. Assim que bota na cabeça que quer ser escritor, essa insatisfação só aumenta.
O ator que interpreta Martin Eden, Luca Marinelli, confere ao personagem uma verdade admirável nos diversos momentos de sua vida. Seja na fase ingênua, passando pela crise financeira e tentativa hercúlea de conseguir espaço para seus textos em revistas, até o final, de riqueza financeira, mas de completa amargura, tudo isso é sentido com muita dor. O filme, inclusive, não dá muito espaço para que sintamos um pouco da alegria de amar durante os melhores momentos de Martin com Elena. Afinal, ele gosta de sair viajando, e se comunica com ela muitas vezes através de cartas.
Assim, o filme não é nem uma história de amor, nem uma história de superação ou uma narrativa sobre a história política italiana, embora possa ser um pouco disso tudo também. Pode ser um filme sobre o prazer do conhecimento e da cultura, e de como essa cultura acaba por não trazer ao protagonista a felicidade almejada, ou algum tipo maior de satisfação. Talvez pelo fim do relacionamento com Elena, mas também por causa do suicídio de um amigo, o tom de depressão e morte da alma antes da morte física se mostre tão presente.
MARTIN EDEN foi filmado em 16 mm, o que faz com que algumas das cores, especialmente o vermelho, fiquem estouradas, mesmo em uma televisão. Certamente, na tela do cinema o aspecto granulado da fotografia se torna ainda mais explícito. Pena que o filme estreou em fevereiro nos cinemas brasileiros e não chegou a entrar em cartaz em Fortaleza. Na segunda quinzena de março, os cinemas fecharam e agora só Deus sabe quando retornarão. Creio que a apreciação desse filme no cinema o tornaria ainda mais grandioso, com suas imagens, suas músicas e seu tom apaixonado.
+ TRÊS FILMES
A ODISSEIA DOS TONTOS (La Odisea de los Giles)
Terceira parceria de Ricardo Darín com o diretor de UM CONTO CHINÊS (2011). Para mim foi uma surpresa saber que o que ocorreu com o Brasil na época do Collor aconteceu dez anos depois na Argentina, e tendo consequências ainda mais devastadoras, já que o país estava na merda, com uma moeda nacional que não valia nada. É no meio desse cenário que acontece a trama do filme, quando um grupo de pessoas que junta dinheiro para formar uma cooperativa e depois vê o seu dinheiro roubado pelo banco/banqueiros/hijos de puta que já sabiam o que ia acontecer. Mas o foco do filme se concentra no que eles fazem para tentar recuperar os dólares perdidos. Roteiro redondinho, um grupo de atores afiados, há pouco do que reclamar. Direção: Sebastián Borensztein. Ano: 2019.
O OUTRO LADO DA ESPERANÇA (Toivon Tuolla Puolen)
Impressionante como um autor pode tornar a sua assinatura inconfundível. O filme é outra delícia do cineasta, em tons trágicos e cômicos, dessa vez abordando a questão dos refugiados da Síria. Mais uma vez lindo trabalho de direção de arte. Direção: Aki Kaurismäki. Ano: 2017.
AFTERIMAGE (Powidoki)
Conheço bem pouco da filmografia do Andrzej Wajda, mas o pouco que conheço dá pra perceber o quanto ele valoriza o humano em detrimento do governo. Aqui ele faz uma ode à arte em tempos em que os artistas dos países comunistas eram obrigados a seguir uma cartilha. Ano: 2016.
sexta-feira, junho 05, 2020
FAÇA A COISA CERTA (Do the Right Thing)
A morte do ex-segurança negro George Floyd, que morreu asfixiado sob o joelho de um policial branco em 25 de maio, ocasionou uma série de manifestações de revolta em várias cidades dos Estados Unidos. Os manifestantes chegaram a cercar a Casa Branca e o Presidente Donald Trump teve que se refugiar em seu bunker. Quase cem cidades americanas fizeram manifestações em plena pandemia. Isso provocou reações em todo o mundo e o Brasil começou a se questionar do porquê não termos esse grau de revolta quando acontece esse tipo de coisa aqui. Muito provavelmente é porque no Brasil ocorreu uma espécie de normalização da agressão e do assassinato de pessoas negras.
Recentemente, o garoto João Pedro, de 14 anos, foi morto em sua casa, no Rio de Janeiro, por bala perdida, em operação das polícias federal e civil no Complexo do Salgueiro. Não faz muito tempo que tivemos o caso da menina Ágatha, de 8 anos, no Complexo do Alemão, que estava voltando para casa de Kombi com a mãe, quando foi baleada nas costas. Existem inúmeros casos, mas esses dois tiveram maior repercussão da mídia.
O que aconteceu nesta semana, porém, foi o que mais me abalou. Muito provavelmente por eu ter assistido o depoimento da mãe do menino Miguel, de 5 anos, que foi deixado aos cuidados, por alguns minutos da patroa da empregada doméstica Mirtes, enquanto ela levava a cadela para passear. A patroa não teve paciência com o menino, que foi parar no terraço de um prédio de luxo em Recife e caiu do nono andar.
Nem é preciso dizer que Mirtes e Miguel são negros e a patroa é rica e branca. Ela teve dinheiro para pagar a fiança, inclusive. É esposa de um prefeito de uma cidade do litoral pernambucano. Ver a mãe contando a história, de detalhes do ocorrido, e do quanto está sentindo a falta do pequeno filho me doeu tanto que pensei no quanto ainda é necessário para que nós também tenhamos o direito e a capacidade de nos indignarmos com o modelo de Casa Grande e Senzala que continua instaurado no país desde a época da fundação do país.
Chegamos, então, a FAÇA A COISA CERTA (1989), filme que fez 30 anos no ano passado, mas que continua ainda tristemente atual em pleno século XXI. Vi o filme devido aos acontecimentos envolvendo George Floyd, e sabendo da semelhança que envolve a morte de um personagem do filme com a de Floyd. O filme, por sua vez, foi feito inspirado na morte de outros dois negros americanos, um homem chamado Michael Griffith e uma mulher chamada Eleanor Bumpurs.
Na época que o filme foi exibido no Festival de Cannes não ganhou nenhum prêmio. O grande vencedor foi SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, de Steven Soderbergh. No ano passado, uma obra que tinha muito a ver com FAÇA A COISA CERTA chegou a ser premiada, ainda que não tenha levado a Palma de Ouro. O francês OS MISERÁVEIS, de Ladj Ly, está tanto em sintonia com o clássico de Lee, quanto com o momento de explosão de conflitos étnicos na França contemporânea.
FAÇA A COISA CERTA se inicia vibrante, com a sequência de dança de Rosie Perez, ao som de "Fight the Power", do Public Enemy. O estilo do filme se instala de imediato em suas cores quentes e na mensagem forte do hoje clássico rap. A canção, inclusive, se espalha por todo o filme, pelo rádio grande que o personagem Radio Raheem (Bill Nunn) carrega enquanto passeia pelo bairro de uma Nova York em seus dias mais quentes de verão.
O filme nos apresenta a uma série de personagens que vão ganhando a simpatia da audiência, à medida que nos aproximamos deles. Entre eles está o próprio Lee como Mookie, um entregador de pizza de uma pizzaria de ítalo-americanos. Na pizzaria, o dono é Sal, vivido por Danny Aiello. Um dos clientes de Sal questiona o fato de não haver nenhum negro entre as várias fotos expostas no estabelecimento. Sal avisa que ali é uma pizzaria italiana e só tem espaço para italianos e ítalo-americanos.
Ele tem lá sua razão, mas o descontentamento do rapaz também tem muita razão de ser. Afinal, com o negro tendo desempenhado um papel fundamental na construção da cultura americana, principalmente no campo das artes, é muito incômodo verificar tão falta de consideração, se não por Sal, mas por toda a sociedade branca americana. Há, inclusive, um diálogo muito interessante entre Mookie e o personagem de John Turturro, que afirma que certos negros americanos, como Magic Johnson, Eddie Murphy e Prince, já nem são considerados mais negros, como se eles transcendessem a raça. O que é absurdo, claro.
Do outro lado do quarteirão, por outro lado, o radialista vivido por um jovem Samuel L. Jackson, enumera uma lista de grandes nomes da música negra, como Ray Charles, Otis Redding, Anita Baker, James Brown, Tracy Chapman, Miles Davis, Janet Jackson, Louis Armstrong, Duke Ellington, Count Basie, Stevie Wonder, Sam Cooke, Ella Fitzgerald, Aretha Franklin, Bob Marley, Whitney Houston, Dionne Warwick, Little Richard, Quincy Jones, Marvin Gaye e tantos outros.
FAÇA A COISA CERTA chegou a ser indicado a dois Oscar: um de melhor roteiro para Lee e outro de ator para Danny Aiello. Não ganhou nenhum dos dois. Apenas 30 anos depois a Academia daria um Oscar para Spike Lee: por melhor roteiro adaptado pelo belíssimo INFILTRADO NA KLAN (2019), prêmio entregue por Samuel L. Jackson e com aquele abraço famoso e de alegria entre os amigos de longa data.
A força de FAÇA A COISA CERTA ressoou e ainda ressoa. Lembremos de um videoclipe de "Minha alma (a paz que não quero)", da banda O Rappa, dirigido por Kátia Lund, tão arrepiante na forma como também trata a tristeza e a revolta. Foi, certamente, uma obra audiovisual diretamente inspirada no filme de Lee.
Algo bastante simbólico no filme é o fato de o próprio personagem de Lee, sendo ele funcionário da pizzaria, iniciar o processo de destruição do lugar, e de começo da catarse coletiva. O cineasta se reconhecendo como um incendiário. O filme não apresenta soluções, mas traz perguntas, apresenta necessidades. É possível que entremos em um novo momento em breve. Sou otimista e quero acreditar que sim, que estas e as próximas revoltas sejam necessárias para a chegada desta nova era, de mais igualdade e fraternidade.
+ TRÊS FILMES
TEMPORADA
Muito bom ver que o cinema brasileiro encontrou este espaço de liberdade autoral em um filme que não é levado pelo plot, mas pelo registro de algo bem próximo à vida real, inclusive nos diálogos e nas interpretações. E também na escolha por personagens com os corpos longe dos modelos instituídos. Gosto de como nos faz sorrir com coisas simples. Direção: André Novais Oliveira. Ano: 2018.
O PROTETOR 2 (The Equalizer 2)
Um dos grandes méritos do filme é fazer a gente comprar a ideia de que o personagem de Denzel Washington é mesmo quase invencível. E isso o torna fascinante, principalmente quando o filme brinca com uns tons mais sombrios. Pena que Antoine Fuqua estrague no clímax, com aquela tempestade, com uma montagem picotada e qualquer nota. Ano: 2018.
BARONESA
Mais um da safra de filmes brasileiros que trilham o caminho que fica entre o documentário e a ficção. E que faz isso muito bem. Neste aqui, há que se ficar atento com as elipses, mas não é difícil de acompanhar, não. Só queria ter me envolvido mais. Direção: Juliana Antunes. Ano: 2017.
Recentemente, o garoto João Pedro, de 14 anos, foi morto em sua casa, no Rio de Janeiro, por bala perdida, em operação das polícias federal e civil no Complexo do Salgueiro. Não faz muito tempo que tivemos o caso da menina Ágatha, de 8 anos, no Complexo do Alemão, que estava voltando para casa de Kombi com a mãe, quando foi baleada nas costas. Existem inúmeros casos, mas esses dois tiveram maior repercussão da mídia.
O que aconteceu nesta semana, porém, foi o que mais me abalou. Muito provavelmente por eu ter assistido o depoimento da mãe do menino Miguel, de 5 anos, que foi deixado aos cuidados, por alguns minutos da patroa da empregada doméstica Mirtes, enquanto ela levava a cadela para passear. A patroa não teve paciência com o menino, que foi parar no terraço de um prédio de luxo em Recife e caiu do nono andar.
Nem é preciso dizer que Mirtes e Miguel são negros e a patroa é rica e branca. Ela teve dinheiro para pagar a fiança, inclusive. É esposa de um prefeito de uma cidade do litoral pernambucano. Ver a mãe contando a história, de detalhes do ocorrido, e do quanto está sentindo a falta do pequeno filho me doeu tanto que pensei no quanto ainda é necessário para que nós também tenhamos o direito e a capacidade de nos indignarmos com o modelo de Casa Grande e Senzala que continua instaurado no país desde a época da fundação do país.
Chegamos, então, a FAÇA A COISA CERTA (1989), filme que fez 30 anos no ano passado, mas que continua ainda tristemente atual em pleno século XXI. Vi o filme devido aos acontecimentos envolvendo George Floyd, e sabendo da semelhança que envolve a morte de um personagem do filme com a de Floyd. O filme, por sua vez, foi feito inspirado na morte de outros dois negros americanos, um homem chamado Michael Griffith e uma mulher chamada Eleanor Bumpurs.
Na época que o filme foi exibido no Festival de Cannes não ganhou nenhum prêmio. O grande vencedor foi SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE, de Steven Soderbergh. No ano passado, uma obra que tinha muito a ver com FAÇA A COISA CERTA chegou a ser premiada, ainda que não tenha levado a Palma de Ouro. O francês OS MISERÁVEIS, de Ladj Ly, está tanto em sintonia com o clássico de Lee, quanto com o momento de explosão de conflitos étnicos na França contemporânea.
FAÇA A COISA CERTA se inicia vibrante, com a sequência de dança de Rosie Perez, ao som de "Fight the Power", do Public Enemy. O estilo do filme se instala de imediato em suas cores quentes e na mensagem forte do hoje clássico rap. A canção, inclusive, se espalha por todo o filme, pelo rádio grande que o personagem Radio Raheem (Bill Nunn) carrega enquanto passeia pelo bairro de uma Nova York em seus dias mais quentes de verão.
O filme nos apresenta a uma série de personagens que vão ganhando a simpatia da audiência, à medida que nos aproximamos deles. Entre eles está o próprio Lee como Mookie, um entregador de pizza de uma pizzaria de ítalo-americanos. Na pizzaria, o dono é Sal, vivido por Danny Aiello. Um dos clientes de Sal questiona o fato de não haver nenhum negro entre as várias fotos expostas no estabelecimento. Sal avisa que ali é uma pizzaria italiana e só tem espaço para italianos e ítalo-americanos.
Ele tem lá sua razão, mas o descontentamento do rapaz também tem muita razão de ser. Afinal, com o negro tendo desempenhado um papel fundamental na construção da cultura americana, principalmente no campo das artes, é muito incômodo verificar tão falta de consideração, se não por Sal, mas por toda a sociedade branca americana. Há, inclusive, um diálogo muito interessante entre Mookie e o personagem de John Turturro, que afirma que certos negros americanos, como Magic Johnson, Eddie Murphy e Prince, já nem são considerados mais negros, como se eles transcendessem a raça. O que é absurdo, claro.
Do outro lado do quarteirão, por outro lado, o radialista vivido por um jovem Samuel L. Jackson, enumera uma lista de grandes nomes da música negra, como Ray Charles, Otis Redding, Anita Baker, James Brown, Tracy Chapman, Miles Davis, Janet Jackson, Louis Armstrong, Duke Ellington, Count Basie, Stevie Wonder, Sam Cooke, Ella Fitzgerald, Aretha Franklin, Bob Marley, Whitney Houston, Dionne Warwick, Little Richard, Quincy Jones, Marvin Gaye e tantos outros.
FAÇA A COISA CERTA chegou a ser indicado a dois Oscar: um de melhor roteiro para Lee e outro de ator para Danny Aiello. Não ganhou nenhum dos dois. Apenas 30 anos depois a Academia daria um Oscar para Spike Lee: por melhor roteiro adaptado pelo belíssimo INFILTRADO NA KLAN (2019), prêmio entregue por Samuel L. Jackson e com aquele abraço famoso e de alegria entre os amigos de longa data.
A força de FAÇA A COISA CERTA ressoou e ainda ressoa. Lembremos de um videoclipe de "Minha alma (a paz que não quero)", da banda O Rappa, dirigido por Kátia Lund, tão arrepiante na forma como também trata a tristeza e a revolta. Foi, certamente, uma obra audiovisual diretamente inspirada no filme de Lee.
Algo bastante simbólico no filme é o fato de o próprio personagem de Lee, sendo ele funcionário da pizzaria, iniciar o processo de destruição do lugar, e de começo da catarse coletiva. O cineasta se reconhecendo como um incendiário. O filme não apresenta soluções, mas traz perguntas, apresenta necessidades. É possível que entremos em um novo momento em breve. Sou otimista e quero acreditar que sim, que estas e as próximas revoltas sejam necessárias para a chegada desta nova era, de mais igualdade e fraternidade.
+ TRÊS FILMES
TEMPORADA
Muito bom ver que o cinema brasileiro encontrou este espaço de liberdade autoral em um filme que não é levado pelo plot, mas pelo registro de algo bem próximo à vida real, inclusive nos diálogos e nas interpretações. E também na escolha por personagens com os corpos longe dos modelos instituídos. Gosto de como nos faz sorrir com coisas simples. Direção: André Novais Oliveira. Ano: 2018.
O PROTETOR 2 (The Equalizer 2)
Um dos grandes méritos do filme é fazer a gente comprar a ideia de que o personagem de Denzel Washington é mesmo quase invencível. E isso o torna fascinante, principalmente quando o filme brinca com uns tons mais sombrios. Pena que Antoine Fuqua estrague no clímax, com aquela tempestade, com uma montagem picotada e qualquer nota. Ano: 2018.
BARONESA
Mais um da safra de filmes brasileiros que trilham o caminho que fica entre o documentário e a ficção. E que faz isso muito bem. Neste aqui, há que se ficar atento com as elipses, mas não é difícil de acompanhar, não. Só queria ter me envolvido mais. Direção: Juliana Antunes. Ano: 2017.
quinta-feira, junho 04, 2020
A VASTIDÃO DA NOITE (The Vast of Night)
Umas das estreias mais instigantes dos últimos anos é a do jovem Andrew Patterson, que dá o pontapé inicial na direção para cinema com este A VASTIDÃO DA NOITE (2019), um filme que tem explicitamente um carinho muito grande pelos filmes de ficção científica da década de 1950, bem como pelas séries de televisão de cunho fantástico, e que faz uma homenagem ao estilo, mas com uma embalagem bem mais moderna. Afinal, filmes daquela época não teriam explorado tanto a conversa. E é o que Patterson faz, tanto que ele próprio tem lembrado da influência da trilogia de Jesse e Celine, de Richard Linklater, em seu trabalho.
Mas nem tudo é conversa em A VASTIDÃO DA NOITE. O diretor se mostra muito preocupado com o aspecto visual. Tanto é que começamos o filme um tanto tontos com o que ele tem a oferecer. A princípio, senti uma falta imensa de uma tela grande de cinema, já que boa parte das cenas da primeira parte do filme são de planos gerais. As primeiras cenas se passam em um ginásio onde acontece um jogo de basquete. Mais tarde saberemos que praticamente toda a cidadezinha de Cayuga, Nova México (uma cidade fictícia), está naquele local.
E somos meio que jogados em cena, sem uma apresentação dos personagens. Esse tipo de recurso mais moderno não é exatamente novo, mas pode estranhar pelo fato de que o diretor parece querer incomodar os espectadores em muitos aspectos, inclusive com ruídos. Há os ruídos da bola batendo no chão e do arrastar dos tênis dos jogadores, enquanto a conversa rola de maneira descontraída e realista. Os dois personagens principais são dois jovens: um radialista chamado Everett (Jake Horowitz) e uma operadora de uma central telefônica chamada Fay (Sierra McCormick). Ela parece ter uma ligeira queda por ele, mas essa relação afetiva não chega a ser algo tão essencial para a trama.
Durante uma passagem dos dois pelos carros em volta do ginásio, um ruído é visto ao fundo. E uma câmera subjetiva nos faz lembrar das experiências de Sam Raimi em EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO. O uso da câmera é de fato um dos aspectos mais brilhantes do filme, embora seja mais alguma coisa que nos chame a atenção a ponto de atrapalhar a compreensão e a imersão na trama. E ainda há a escuridão. Deliberadamente, Patterson usa muitas cenas escuras. Uma vez que aceitamos e nos acostumamos, a experiência é muito boa. Falando no clássico de Sam Raimi, há outro momento em que a câmera vai passear pela cidade durante a noite de forma bastante impressionante que também lembra EVIL DEAD, .por mais que, mais adiante, possamos nos perguntar sobre a função dessa cena para o filme, de sua real necessidade para a narrativa.
Até porque a força de A VASTIDÃO DA NOITE acontece entre em interiores, e durante ligações entre os dois personagens, cada um em seu local de trabalho. O ponto de partida para que o filme amplifique a trama se dá quando Fay ouve estranhos ruídos pelo telefone. E resolve mostrar para seu amigo Everett aquilo que conseguiu captar. O jovem radialista, por sua vez, resolve mostrar esse ruído para sua audiência. Imediatamente, ele recebe uma ligação de um homem que diz saber o que é aquilo.
O interessante é que o ruído só ganha força e importância porque os personagens dão a ele importância. É o caso clássico de filme que brinca muito com as reações principalmente faciais de seus personagens e nos convida para entrar no jogo e ficar tão preocupado, tão interessado, tão intrigado e tão excitado quanto eles.
Em tempos pandêmicos, é uma alegria poder ver uma estreia (ainda que direto no streaming) que esteja provocando tantas reações positivas entre cinéfilos, críticos de cinema e apreciadores do gênero ficção científica.
+ TRÊS FILMES
ZOMBI CHILD
Cheguei a ver o trailer deste filme no cinema antes da pandemia. Infelizmente (ou felizmente, já que agora podemos vê-lo) foi lançado diretamente em streaming. O filme anterior de Bertrand Bonello (NOCTURAMA, 2016) também não teve muita sorte no circuito comercial e foi lançado só online. O que temos neste novo e instigante trabalho são duas histórias paralelas, uma que se passa décadas atrás, no Haiti, e que envolve a zumbificação de homens para trabalho escravo (ao que parece, isso ocorreu de verdade), e a outra história em uma escola luxuosa e destinada a meninas filhas de pessoas importantes para o governo francês. É lá que uma jovem apaixonada por um rapaz à distância faz amizade com uma moça haitiana. Confesso que alguns momentos do filme me provocaram bastante incômodo, quase gerando medo, mas no fim o que mais me incomodou foi o final. Tive até que voltar a "fita" para rever. Ano: 2019.
A TORRE NEGRA (The Dark Tower)
Pelamordedeus. Dá meia hora e a gente já fica doido pra que essa bosta acabe logo. Se eu fosse um diretor nórdico nem aceitaria proposta de Hollywood. Acho que todos que vão pra lá é só pra se queimarem. Stephen King não deve ter ficado satisfeito com essa adaptação. Direção: Nikolaj Arcel. Ano: 2017.
PASSAGEIROS (Passengers)
Muito melhor do que eu esperava e do que as críticas mornas andam dizendo por aí. Tudo bem que comparações com GRAVIDADE são inevitáveis e o filme sai perdendo se comparado, claro, mas achei uma delícia de ver. E há algumas cenas memoráveis. Acho que talvez eles não tivessem uma história bem delineada, e é possível perceber isso ao final, mas acho que a ideia era mesmo fazer uma aventura espacial intimista. E, nisso, creio que eles até que se saem bem. Claro que dá pra elencar um monte de problemas do filme, mas eu prefiro destacar o que mais funciona, principalmente pra grande audiência. Direção: Morten Tyldum. Ano: 2016.
Mas nem tudo é conversa em A VASTIDÃO DA NOITE. O diretor se mostra muito preocupado com o aspecto visual. Tanto é que começamos o filme um tanto tontos com o que ele tem a oferecer. A princípio, senti uma falta imensa de uma tela grande de cinema, já que boa parte das cenas da primeira parte do filme são de planos gerais. As primeiras cenas se passam em um ginásio onde acontece um jogo de basquete. Mais tarde saberemos que praticamente toda a cidadezinha de Cayuga, Nova México (uma cidade fictícia), está naquele local.
E somos meio que jogados em cena, sem uma apresentação dos personagens. Esse tipo de recurso mais moderno não é exatamente novo, mas pode estranhar pelo fato de que o diretor parece querer incomodar os espectadores em muitos aspectos, inclusive com ruídos. Há os ruídos da bola batendo no chão e do arrastar dos tênis dos jogadores, enquanto a conversa rola de maneira descontraída e realista. Os dois personagens principais são dois jovens: um radialista chamado Everett (Jake Horowitz) e uma operadora de uma central telefônica chamada Fay (Sierra McCormick). Ela parece ter uma ligeira queda por ele, mas essa relação afetiva não chega a ser algo tão essencial para a trama.
Durante uma passagem dos dois pelos carros em volta do ginásio, um ruído é visto ao fundo. E uma câmera subjetiva nos faz lembrar das experiências de Sam Raimi em EVIL DEAD - A MORTE DO DEMÔNIO. O uso da câmera é de fato um dos aspectos mais brilhantes do filme, embora seja mais alguma coisa que nos chame a atenção a ponto de atrapalhar a compreensão e a imersão na trama. E ainda há a escuridão. Deliberadamente, Patterson usa muitas cenas escuras. Uma vez que aceitamos e nos acostumamos, a experiência é muito boa. Falando no clássico de Sam Raimi, há outro momento em que a câmera vai passear pela cidade durante a noite de forma bastante impressionante que também lembra EVIL DEAD, .por mais que, mais adiante, possamos nos perguntar sobre a função dessa cena para o filme, de sua real necessidade para a narrativa.
Até porque a força de A VASTIDÃO DA NOITE acontece entre em interiores, e durante ligações entre os dois personagens, cada um em seu local de trabalho. O ponto de partida para que o filme amplifique a trama se dá quando Fay ouve estranhos ruídos pelo telefone. E resolve mostrar para seu amigo Everett aquilo que conseguiu captar. O jovem radialista, por sua vez, resolve mostrar esse ruído para sua audiência. Imediatamente, ele recebe uma ligação de um homem que diz saber o que é aquilo.
O interessante é que o ruído só ganha força e importância porque os personagens dão a ele importância. É o caso clássico de filme que brinca muito com as reações principalmente faciais de seus personagens e nos convida para entrar no jogo e ficar tão preocupado, tão interessado, tão intrigado e tão excitado quanto eles.
Em tempos pandêmicos, é uma alegria poder ver uma estreia (ainda que direto no streaming) que esteja provocando tantas reações positivas entre cinéfilos, críticos de cinema e apreciadores do gênero ficção científica.
+ TRÊS FILMES
ZOMBI CHILD
Cheguei a ver o trailer deste filme no cinema antes da pandemia. Infelizmente (ou felizmente, já que agora podemos vê-lo) foi lançado diretamente em streaming. O filme anterior de Bertrand Bonello (NOCTURAMA, 2016) também não teve muita sorte no circuito comercial e foi lançado só online. O que temos neste novo e instigante trabalho são duas histórias paralelas, uma que se passa décadas atrás, no Haiti, e que envolve a zumbificação de homens para trabalho escravo (ao que parece, isso ocorreu de verdade), e a outra história em uma escola luxuosa e destinada a meninas filhas de pessoas importantes para o governo francês. É lá que uma jovem apaixonada por um rapaz à distância faz amizade com uma moça haitiana. Confesso que alguns momentos do filme me provocaram bastante incômodo, quase gerando medo, mas no fim o que mais me incomodou foi o final. Tive até que voltar a "fita" para rever. Ano: 2019.
A TORRE NEGRA (The Dark Tower)
Pelamordedeus. Dá meia hora e a gente já fica doido pra que essa bosta acabe logo. Se eu fosse um diretor nórdico nem aceitaria proposta de Hollywood. Acho que todos que vão pra lá é só pra se queimarem. Stephen King não deve ter ficado satisfeito com essa adaptação. Direção: Nikolaj Arcel. Ano: 2017.
PASSAGEIROS (Passengers)
Muito melhor do que eu esperava e do que as críticas mornas andam dizendo por aí. Tudo bem que comparações com GRAVIDADE são inevitáveis e o filme sai perdendo se comparado, claro, mas achei uma delícia de ver. E há algumas cenas memoráveis. Acho que talvez eles não tivessem uma história bem delineada, e é possível perceber isso ao final, mas acho que a ideia era mesmo fazer uma aventura espacial intimista. E, nisso, creio que eles até que se saem bem. Claro que dá pra elencar um monte de problemas do filme, mas eu prefiro destacar o que mais funciona, principalmente pra grande audiência. Direção: Morten Tyldum. Ano: 2016.
quarta-feira, junho 03, 2020
PASOLINI
Confesso que, vendo estes trabalhos mais recentes de Abel Ferrara, tenho sentido muita saudade das obras-primas, das coisas mais malucas que ele fazia, muitas vezes sob influência de drogas, da década de 1990. Mas ao menos de uma coisa não posso me queixar: o cineasta continuou sempre fazendo um cinema muito instigante e provocativo e também muito coerente com seu trabalho. O interessante que ele faz em PASOLINI (2014) é que é um trabalho bastante arriscado, já que há a intenção de prestar tributo a um dos diretores mais importantes do cinema moderno italiano. E havia o risco também de abordar a morte dele, pesando a mão na violência.
Não que a violência não esteja presente, mas a situação que o cineasta fica, durante a agressão seguida de morte lembra mais o calvário de Jesus, trazendo para o personagem algo de cristão, que se mistura com o que havíamos visto antes, a sua persona mais mundana e vampírica, mais disposto a ir em busca da satisfação dos desejos que lhe falavam alto. Daí saía de carro à procura de rapazes que pudessem tanto saciar a vontade do sexo quanto diminuir um pouco a solidão. Ou seja, até então, já temos duas facetas de um mesmo personagem.
Antes disso, o filme também nos mostra o Pasolini pensador/filósofo, o Pasolini criador, o Pasolini apaixonado por cinema. Em determinado momento, o personagem afirma em uma entrevista que, mesmo que o mundo acabasse, ele continuaria fazendo filmes. Fazer filmes é o que mais lhe dá prazer. Não apenas isso: é uma necessidade do espírito. Essa necessidade intensa do fazer arte já havia sido mostrada na figura do cineasta que fica sozinho na sala de projeção em MARIA (2005) e na artista plástica que segue pintando no dia em que mundo vai acabar em 4:44 - O FIM DO MUNDO (2011).
Ferrara também nos mostra pelo menos dois projetos rascunhados pelo cineasta italiano. O primeiro deles parece um tanto deixado de lado, mas traz algumas cenas marcantes, como a da busca por sexo à noite com rapazes agressivos e a apreciação de uma palestra. O segundo projeto parece mais vivo e interessante, que é a dos dois homens que saem em busca da estrela de Belém. É um projeto que é mostrado com mais carinho por Ferrara, justamente por sua aproximação com o Catolicismo. Sem falar que é uma narrativa que se funde à cena da morte de Pasolini. Além do mais, que bom ver a cena do dia em que gays e lésbicas se juntam para fazer sexo entre si na cidade de Sodoma, na chamada "Festa da Fertilidade". Lembra bastante os filmes da trilogia da Vida de Pasolini.
Aspectos da vida familiar do diretor italiano também são explorados com carinho, em especial a figura da mãe, mas também a presença da adorável sobrinha e a amiga ligada ao cinema, vivida por Maria de Medeiros. Quanto a Willem Dafoe, no papel do diretor italiano, fica de vez em quando uma sensação de que seria melhor se um ator italiano mesmo fosse escolhido para o papel. Inclusive, Dafoe não se sentiu à vontade para falar italiano e por isso a maior parte de suas falas, e das falas em que ele conversa com as pessoas são em inglês. Relevando esse aspecto, isso deixa de ser um problema.
+ TRÊS FILMES
BOHEMIAN RHAPSODY
Uma alegria poder ver este filme no cinema e ainda mais na sala IMAX. Incomoda um pouco a confusão cronológica, mas ao que parece não foi por ignorância dos envolvidos, mas por opção mesmo. Ainda assim, para nós brasileiros, ver o show do Rock in Rio como se fosse nos anos 70 é bem nada a ver. Mas o filme é uma delícia mesmo assim, as canções são fodas, o elenco está bem representado e as cenas finais, no Live Aid, são arrepiantes. Direção: Bryan Singer. Ano: 2018.
ROMAN J. ISRAEL, ESQ.
Bem melhor do que eu previa e certamente uma das melhores interpretações de Denzel Washington. A história é envolvente e chega uma hora que bate uma angústia grande, quando o personagem passa a trair aquilo que acreditava. Vale muito ver. Direção: Dan Gilroy. Ano: 2017.
COM AMOR, VAN GOGH (Loving Vincent)
Uma espécie de CIDADÃO KANE sobre o mistério em torno da morte de Van Gogh. O projeto todo especial de animação é o que há de mais bonito no filme. Acho que por causa das dores no corpo a apreciação e o prazer do filme ficaram um pouco prejudicados. Aí saí com impressão de que há um problema de ritmo, não sei. Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Ano: 2017.
Não que a violência não esteja presente, mas a situação que o cineasta fica, durante a agressão seguida de morte lembra mais o calvário de Jesus, trazendo para o personagem algo de cristão, que se mistura com o que havíamos visto antes, a sua persona mais mundana e vampírica, mais disposto a ir em busca da satisfação dos desejos que lhe falavam alto. Daí saía de carro à procura de rapazes que pudessem tanto saciar a vontade do sexo quanto diminuir um pouco a solidão. Ou seja, até então, já temos duas facetas de um mesmo personagem.
Antes disso, o filme também nos mostra o Pasolini pensador/filósofo, o Pasolini criador, o Pasolini apaixonado por cinema. Em determinado momento, o personagem afirma em uma entrevista que, mesmo que o mundo acabasse, ele continuaria fazendo filmes. Fazer filmes é o que mais lhe dá prazer. Não apenas isso: é uma necessidade do espírito. Essa necessidade intensa do fazer arte já havia sido mostrada na figura do cineasta que fica sozinho na sala de projeção em MARIA (2005) e na artista plástica que segue pintando no dia em que mundo vai acabar em 4:44 - O FIM DO MUNDO (2011).
Ferrara também nos mostra pelo menos dois projetos rascunhados pelo cineasta italiano. O primeiro deles parece um tanto deixado de lado, mas traz algumas cenas marcantes, como a da busca por sexo à noite com rapazes agressivos e a apreciação de uma palestra. O segundo projeto parece mais vivo e interessante, que é a dos dois homens que saem em busca da estrela de Belém. É um projeto que é mostrado com mais carinho por Ferrara, justamente por sua aproximação com o Catolicismo. Sem falar que é uma narrativa que se funde à cena da morte de Pasolini. Além do mais, que bom ver a cena do dia em que gays e lésbicas se juntam para fazer sexo entre si na cidade de Sodoma, na chamada "Festa da Fertilidade". Lembra bastante os filmes da trilogia da Vida de Pasolini.
Aspectos da vida familiar do diretor italiano também são explorados com carinho, em especial a figura da mãe, mas também a presença da adorável sobrinha e a amiga ligada ao cinema, vivida por Maria de Medeiros. Quanto a Willem Dafoe, no papel do diretor italiano, fica de vez em quando uma sensação de que seria melhor se um ator italiano mesmo fosse escolhido para o papel. Inclusive, Dafoe não se sentiu à vontade para falar italiano e por isso a maior parte de suas falas, e das falas em que ele conversa com as pessoas são em inglês. Relevando esse aspecto, isso deixa de ser um problema.
+ TRÊS FILMES
BOHEMIAN RHAPSODY
Uma alegria poder ver este filme no cinema e ainda mais na sala IMAX. Incomoda um pouco a confusão cronológica, mas ao que parece não foi por ignorância dos envolvidos, mas por opção mesmo. Ainda assim, para nós brasileiros, ver o show do Rock in Rio como se fosse nos anos 70 é bem nada a ver. Mas o filme é uma delícia mesmo assim, as canções são fodas, o elenco está bem representado e as cenas finais, no Live Aid, são arrepiantes. Direção: Bryan Singer. Ano: 2018.
ROMAN J. ISRAEL, ESQ.
Bem melhor do que eu previa e certamente uma das melhores interpretações de Denzel Washington. A história é envolvente e chega uma hora que bate uma angústia grande, quando o personagem passa a trair aquilo que acreditava. Vale muito ver. Direção: Dan Gilroy. Ano: 2017.
COM AMOR, VAN GOGH (Loving Vincent)
Uma espécie de CIDADÃO KANE sobre o mistério em torno da morte de Van Gogh. O projeto todo especial de animação é o que há de mais bonito no filme. Acho que por causa das dores no corpo a apreciação e o prazer do filme ficaram um pouco prejudicados. Aí saí com impressão de que há um problema de ritmo, não sei. Direção: Dorota Kobiela e Hugh Welchman. Ano: 2017.
terça-feira, junho 02, 2020
PRA FRENTE BRASIL
No dia 7 de maio deste ano pudemos testemunhar uma das coisas mais tenebrosas que estes tempos obscurantistas foram capazes de produzir: a entrevista para a CNN Brasil da então secretária de cultura do governo Regina Duarte, que, além de ter desdenhado de nossos artistas, inclusive os que morreram recentemente, ainda cantou a canção-tema da época da Copa do Mundo de 1970, quando a seleção brasileira conseguiu o seu tricampeonato enquanto nos porões da ditadura pessoas eram brutalmente torturadas e tidas como desaparecidas.
É triste viver em um cenário que parece tão ou ainda mais terrível para a cultura, já que, na época da ditadura, a cultura brasileira, inclusive o cinema, viveram momentos férteis, apesar da censura. Agora, os atuais governantes procuram impedir a criação de novos filmes, fechando, politicamente, as portas para auxílio estatal para novos projetos.
Na época da realização de PRA FRENTE BRASIL (1983), o diretor Roberto Farias só conseguiu que este filme passasse pela censura graças a seu excelente trabalho à frente da Embrafilme, de 1974 a 1979. Assim, ele conseguiu prestígio frente aos militares. Além do mais, para que seu filme fosse aprovado, ele dizia em entrevistas que não se tratava de uma obra radical. Ajudou também o fato de que estávamos vivendo em um momento de abertura e expectativa para a redemocratização. De todo modo, é triste ver que o filme só conseguiu retratar os bastidores do Brasil de 1970 apenas 12-13 anos depois.
No filme, Reginaldo Farias é um homem que não tem qualquer vínculo com a política que é confundido com um militante de esquerda (Cláudio Marzo) e levado para confessar o que não fez e sofrer no pau-de-arara. Enquanto isso, sua família, o irmão vivido por Antônio Fagundes e sua mulher vivida por Natália do Vale, tentam procurar, desesperadamente, pelo homem desaparecido. Destaque para uma Elizabeth Savala linda e poderosa no papel de uma guerrilheira de esquerda que namora o personagem de Fagundes. Há uma cena de grande tensão envolvendo sua personagem.
É também um filme cheio de tristeza, que traz catarse, mas também traz uma sensação de impotência terrível. Para os dias de hoje, é importante perceber que o personagem de Faria era um homem apolítico que, mesmo assim, foi alvo da crueldade do sistema político autoritário vigente. Ou seja, há uma mensagem de que ser isento pode ser tão ruim quanto ser a favor do fascismo. É uma mensagem que se torna muito atual nos dias de hoje, especialmente após as eleições de 2018, que trouxeram a vitória de Jair Bolsonaro.
Antes de encerrar, há informações importantes que peguei da crítica escrita por Andrea Ormond para seu livro Ensaios de Cinema Brasileiro - Os Anos 1980 e 1990: Carlos Zara quase recusou o papel de torturador pelo fato de seu irmão ter sido preso e torturado em 1969. Imaginem o quanto deve ter sido doloroso para o ator fazer esse papel. Há outra informação muito curiosa, que envolve Celso Amorim, que na época era presidente da Embrafilme. Depois que o filme foi aprovado e liberado, Amorim, que seria futuramente ministro do governo Lula, foi afastado do cargo. E a Embrafilme começou uma curva de decadência que culminou com o seu fim, durante o governo Collor.
+ TRÊS FILMES
HOMEM LIVRE
Fiquei sem saber qual é a intenção do filme. Se é apenas para ser um suspense psicológico sobre um homem em busca de paz depois de ter cometido um crime e cumprido pena de 12 anos. Se for apenas isso, não há problema nenhum. O problema é que no final o filme não sabe dar uma conclusão satisfatória para sua trama e acaba se mostrando raso. Ainda assim, gosto bastante do personagem do pastor, vivido por Flávio Bauraqui. Direção: Alvaro Furloni. Ano: 2017.
CHACRINHA - O VELHO GUERREIRO
È um filme redondo e que diverte bastante, mas que deixa ao fim uma sensação de que é uma daquelas cinebiografias convencionais demais. Valeu por me apresentar a eventos que eu desconhecia totalmente, mas isso é algo que eu teria conseguido em outra fonte. De todo modo, é um trabalho que entretém e que acabou por se tornar uma minissérie na Rede Globo, como vem acontecendo com todas as cinebiografias feitas com ajuda da Globo Filmes. Direção: Andrucha Waddington. Ano: 2018.
O PROCESSO
Foi uma sessão histórica no Cineteatro São Luiz a deste tenso documentário sobre o processo de impeachment da Presidente Dilma. Passar por tudo de novo não é fácil, mas a edição faz valer a pena. Só a cena da Janaína Paschoal seguida da fala inspirada do José Eduardo Cardoso, aquilo ali é de lavar a alma. Ver tudo em perspectiva, ainda que com um tempo pequeno de distanciamento, tornou o golpe muito mais claro até para muitos que diziam que não era golpe. O filme escolhe seus personagens mais importantes, como Gleise, Cardoso e Lindbergh, mais até do que a Presidente. É um filme que dói ver, mas que é dos mais importantes da resistência dos últimos anos. Direção: Maria Augusta Ramos. Ano: 2018.
É triste viver em um cenário que parece tão ou ainda mais terrível para a cultura, já que, na época da ditadura, a cultura brasileira, inclusive o cinema, viveram momentos férteis, apesar da censura. Agora, os atuais governantes procuram impedir a criação de novos filmes, fechando, politicamente, as portas para auxílio estatal para novos projetos.
Na época da realização de PRA FRENTE BRASIL (1983), o diretor Roberto Farias só conseguiu que este filme passasse pela censura graças a seu excelente trabalho à frente da Embrafilme, de 1974 a 1979. Assim, ele conseguiu prestígio frente aos militares. Além do mais, para que seu filme fosse aprovado, ele dizia em entrevistas que não se tratava de uma obra radical. Ajudou também o fato de que estávamos vivendo em um momento de abertura e expectativa para a redemocratização. De todo modo, é triste ver que o filme só conseguiu retratar os bastidores do Brasil de 1970 apenas 12-13 anos depois.
No filme, Reginaldo Farias é um homem que não tem qualquer vínculo com a política que é confundido com um militante de esquerda (Cláudio Marzo) e levado para confessar o que não fez e sofrer no pau-de-arara. Enquanto isso, sua família, o irmão vivido por Antônio Fagundes e sua mulher vivida por Natália do Vale, tentam procurar, desesperadamente, pelo homem desaparecido. Destaque para uma Elizabeth Savala linda e poderosa no papel de uma guerrilheira de esquerda que namora o personagem de Fagundes. Há uma cena de grande tensão envolvendo sua personagem.
É também um filme cheio de tristeza, que traz catarse, mas também traz uma sensação de impotência terrível. Para os dias de hoje, é importante perceber que o personagem de Faria era um homem apolítico que, mesmo assim, foi alvo da crueldade do sistema político autoritário vigente. Ou seja, há uma mensagem de que ser isento pode ser tão ruim quanto ser a favor do fascismo. É uma mensagem que se torna muito atual nos dias de hoje, especialmente após as eleições de 2018, que trouxeram a vitória de Jair Bolsonaro.
Antes de encerrar, há informações importantes que peguei da crítica escrita por Andrea Ormond para seu livro Ensaios de Cinema Brasileiro - Os Anos 1980 e 1990: Carlos Zara quase recusou o papel de torturador pelo fato de seu irmão ter sido preso e torturado em 1969. Imaginem o quanto deve ter sido doloroso para o ator fazer esse papel. Há outra informação muito curiosa, que envolve Celso Amorim, que na época era presidente da Embrafilme. Depois que o filme foi aprovado e liberado, Amorim, que seria futuramente ministro do governo Lula, foi afastado do cargo. E a Embrafilme começou uma curva de decadência que culminou com o seu fim, durante o governo Collor.
+ TRÊS FILMES
HOMEM LIVRE
Fiquei sem saber qual é a intenção do filme. Se é apenas para ser um suspense psicológico sobre um homem em busca de paz depois de ter cometido um crime e cumprido pena de 12 anos. Se for apenas isso, não há problema nenhum. O problema é que no final o filme não sabe dar uma conclusão satisfatória para sua trama e acaba se mostrando raso. Ainda assim, gosto bastante do personagem do pastor, vivido por Flávio Bauraqui. Direção: Alvaro Furloni. Ano: 2017.
CHACRINHA - O VELHO GUERREIRO
È um filme redondo e que diverte bastante, mas que deixa ao fim uma sensação de que é uma daquelas cinebiografias convencionais demais. Valeu por me apresentar a eventos que eu desconhecia totalmente, mas isso é algo que eu teria conseguido em outra fonte. De todo modo, é um trabalho que entretém e que acabou por se tornar uma minissérie na Rede Globo, como vem acontecendo com todas as cinebiografias feitas com ajuda da Globo Filmes. Direção: Andrucha Waddington. Ano: 2018.
O PROCESSO
Foi uma sessão histórica no Cineteatro São Luiz a deste tenso documentário sobre o processo de impeachment da Presidente Dilma. Passar por tudo de novo não é fácil, mas a edição faz valer a pena. Só a cena da Janaína Paschoal seguida da fala inspirada do José Eduardo Cardoso, aquilo ali é de lavar a alma. Ver tudo em perspectiva, ainda que com um tempo pequeno de distanciamento, tornou o golpe muito mais claro até para muitos que diziam que não era golpe. O filme escolhe seus personagens mais importantes, como Gleise, Cardoso e Lindbergh, mais até do que a Presidente. É um filme que dói ver, mas que é dos mais importantes da resistência dos últimos anos. Direção: Maria Augusta Ramos. Ano: 2018.
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