quinta-feira, fevereiro 13, 2014

SANGUE RUIM (Mauvais Sang)



O problema do cinema pós-moderno é que ele se utiliza de tantas referências que às vezes até pensamos que ele não consegue existir com as próprias pernas. Mas esse tipo de impressão se dissipa quando lembramos da grandiosidade de pós-modernos célebres, como Sergio Leone, na década de 1960, Brian De Palma, na década de 1970, e Quentin Tarantino, nos anos 1990. O amor pelo cinema está presente em cada enquadramento, em cada fotograma, em cada homenagem.

No caso de Leos Carax, que voltou a ser assunto de cinéfilos intelectuais depois do sensacional HOLY MOTORS (2012), sua obra tem sido reavaliada com o lançamento de alguns de seus primeiros trabalhos no cinema, sendo que SANGUE RUIM (1986) é um de seus filmes mais louvados. O filme ressurge em uma belíssima cópia restaurada em DCP, com as cores vermelho, azul e amarelo acentuadas em uma paleta que amplifica a sensação de artificialismo, ou de anti-naturalismo, já que é uma espécie de ficção científica que remete a ALPHAVILLE, de Jean-Luc Godard.

Os diálogos nos lembram o tempo inteiro de que estamos vendo um filme, o que pode interferir na identificação com os personagens, mas não interfere na apreciação estética. Difícil não ficar impressionado com a performance de Denis Lavant, que desde o primeiro filme de Carax (BOY MEETS GIRL, 1984) se mostrou um ator singular. A mais famosa cena dele em SANGUE RUIM é a corrida desesperada numa rua, ao som de "Modern Love", de David Bowie, que o recente FRANCES HA, de Noah Baumbach, tratou de homenagear.

A presença de duas beldades, que se tornariam duas atrizes de primeira grandeza do cinema francês e internacional, Juliette Binoche e Julie Delpy, é outro motivo para se querer ver o filme: vê-las ainda bem jovens, mas já belíssimas. Binoche já passava um ar mais aristocrático, clássico, enquanto Delpy já personificava, em sua simplicidade, aquela garota da vizinhança que mexia com os nossos corações.

Levant é Alex, um sujeito que está dividido entre esses dois amores. Embora um deles ele tenha deixado para trás. Agora seu interesse por Anna (Binoche) é, além de uma paixão genuína, uma vontade de enfrentar a autoridade do amante da moça, seu chefe, vivido por um já veterano Michel Piccoli.

O enredo do filme é, por si só, já carregado de poesia: uma doença está matando aqueles que fazem sexo sem amor. E Marc, personagem de Piccoli, sabe como conseguir um antídoto para a doença. Daí ele pede a ajuda de Alex e anda sempre com Anna. Trata-se de uma espécie de romantismo todo próprio de algumas gerações de cineastas franceses. No caso, Carax dialoga bem mais com a turma da Nouvelle Vague do que seus contemporâneos, que buscaram um caminho mais fácil e mais comercial. Carax teve a audácia de fazer filmes para si mesmo, antes de tudo.

Se SANGUE RUIM não é um filme de fácil degustação para muitos é porque ainda precisamos educar o nosso olhar para obras do tipo. Não se sai de uma sessão deste filme sem ficar com questionamentos e imagens na cabeça por muito tempo, talvez muitos anos. E ainda é um convite para entrar em contato com a obra completa de Carax, que é até bem curta para alguém que começou nos anos 1980.

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