sábado, fevereiro 22, 2014

ROBOCOP



Dentre os vários remakes que foram produzidos em Hollywood nos últimos anos, poucos tiveram tanta resistência por parte da audiência quanto ROBOCOP (2014), de José Padilha. Isso se deve, obviamente, ao fato de o original de Paul Verhoeven ser tão cultuado e possuir uma quantidade de fãs bem considerável. A violência por imposição dos produtores também é outro elemento importante nessa rejeição por antecipação. Verhoeven adora violência e nudez em seus filmes e essa é uma das razões de ele ser tão amado por uma parcela da cinefilia. Assim, é bastante comum ler ou ouvir de pessoas que sobre um boicote a esta nova versão da história do policial Alex Murphy, que tem seu corpo mutilado e é colocado em uma máquina. Uma máquina a serviço das autoridades.

Acontece que já conhecemos José Padilha e sabemos o seu interesse por questões políticas e sociais e o seu filme pode ser visto como uma alegoria da sociedade. Viver no Brasil pode tornar uma pessoa mais pessimista com relação ao futuro da humanidade. Se para os americanos o excesso de violência e criminalidade pode representar uma distopia, para nós, brasileiros, é uma realidade. Assim, não precisamos chegar ao ano de 2028 para ver esse tipo de situação, assim como já estamos bem acostumados a apresentadores de noticiários sensacionalistas que ganham dinheiro e fama com seus comentários nada imparciais e bem próximos do fascismo sobre a questão da violência.

O novo ROBOCOP, apesar de tão malhado por boa parte da crítica e da audiência, embora tenha também alguns ilustres admiradores, é bem eficiente como diversão, embora alguém vá achar que há muitos jogos políticos e pouca ação. Mas é por isso mesmo que ele é interessante, diferenciando-se dos thrillers de ação convencionais e ainda empolgando nas poucas cenas de ação.

A ênfase que Padilha dá em seu ROBOCOP é na questão homem-máquina, no humanismo que quer ser roubado de Murphy (Joel Kinnaman), policial que acorda sem o seu corpo para ser usado como fantoche nas mãos de uma organização privada de segurança que está tendo dificuldade em colocar robôs nas ruas dos Estados Unidos, porque a população não confia em quem não pensa. Daí vem a ideia de colocar o homem no corpo de uma máquina e construir um homem-robô. E Michael Keaton representa muito bem o homem manipulador que se aproveita da inteligência do médico e cientista vivido por Gary Oldman (como sempre excelente).

Talvez o que falte em ROBOCOP seja justamente mais humanidade. É como se o filme sofresse também dos distúrbios de seu protagonista. Ora Murphy consegue seguir com suas próprias pernas e sair à cata de quem planejou a sua morte, ora ele tem sua liberdade podada pelos cientistas. E esse problema de se ter (ou não) liberdade num filme 100 milhões de dólares já era bastante esperado.

Daniel Rezende, montador de TROPA DE ELITE (2007) e TROPA DE ELITE 2 – O INIMIGO AGORA É OUTRO (2010), aqui trabalha ao lado de outro técnico, que provavelmente interfere para que haja um dinamismo na ação que não canse a audiência, uma preocupação que remonta à aurora do cinema hollywoodiano, mas que pode, muitas vezes, tornar aquilo que seria uma obra relevante em mera diversão escapista. E é assim, trôpego, tentando se equilibrar entre essas duas necessidades – de entreter como um blockbuster lucrativo e de honrar o trabalho e a reputação de seu diretor – que o ROBOCOP de Padilha quase chega a ser um grande filme.

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