sexta-feira, fevereiro 07, 2014

ALÉM DAS MONTANHAS (Dupa Dealuri)



Depois de deixar muitos espectadores com falta de ar com o excepcional 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS (2007), até que demorou bastante para surgir um novo trabalho do diretor romeno Cristian Mungiu. E se ALÉM DAS MONTANHAS (2012) não alcança (por pouco) a mesma força de seu antecessor, trata-se de um filme muito mais ambicioso na construção de outros elementos do cinema, como a direção de arte e a fotografia, por exemplo. Mas o elemento humano é novamente o "x" da questão.

Se em 4 MESES, 3 SEMANAS E 2 DIAS acompanhamos o tormento de duas amigas para conseguir um aborto na Romênia da década de 1980, em ALÉM DAS MONTANHAS também vemos duas amigas em situações perturbadoras. O alvo aqui é o fundamentalismo religioso.

O filme se passa em uma aldeia da Romênia afastada da civilização onde funciona uma espécie de convento da Igreja Cristã Ortodoxa, que consegue ser bem mais rigorosa que a Ocidental, aproximando-se do fundamentalismo de algumas seitas islamitas. O cinema poderia muito bem ser utilizado como um bonito tratado de fé, como acontece, por exemplo, com A PALAVRA, de Carl T. Dreyer, mas esse é um caso bem excepcional.

A Igreja aqui carrega uma culpa enorme, não somente pela ignorância e a alienação em que vivem as mulheres de lá, como, principalmente, tem suas mãos sujas do sangue de uma inocente. Ou pelo menos inocente do ponto de vista legal, já que a fé e a ideia de pecado ficam a critério de cada espectador. Mas, obviamente, a balança pende contra a Igreja.

Assim, é até compreensível ficar do lado da garota que aparece para visitar a amiga que vive no convento e que no passado tiveram uma relação mais íntima. Sua intenção é levar a amiga de volta com ela, para morarem juntas. Acontece que a moça está convertida à religião e rejeita tentativas de aproximação da "estrangeira", que não é muito bem-vinda naquele lugar. Porém, nota-se que ela ainda nutre um sentimento pela amiga. Apenas acredita que fazer o que faziam quando eram mais jovens é pecado.

Em pleno século XXI, vemos um lugar que parece situado na Idade Média, o que só aumenta o clima de repressão, chegando um momento quase inacreditável, em que a garota que perturba a rotina daquele lugar é tida como endemoniada e necessita de um exorcismo.

Trata-se de um filme e tanto, mas ainda fica a impressão de que toda essa situação absurda que se forma em curva ascendente poderia ter causado uma catarse maior. Como acontece, por exemplo, no trabalho anterior de Mungiu. Teria sido uma pequena falha do diretor ou ele optou por um registro mais seco, de propósito? De todo modo, é desses filmes para não perder em hipótese alguma. Seja pelas suas qualidades fílmicas admiráveis, seja pela discussão que promove.

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