quinta-feira, fevereiro 20, 2014

A FLORESTA DE JONATHAS



Uma pena que muitos filmes brasileiros não estejam encontrando uma boa acolhida nem mesmo no circuito alternativo. A FLORESTA DE JONATHAS (2012), belo trabalho de Sérgio Andrade, só fica até esta quinta-feira em Fortaleza, com apenas uma sessão diária, no Dragão do Mar. Mesmo um espaço que prestigia mais filmes fora do circuitão não segurou mais do que uma semana este trabalho singular em nossa cinematografia.

A FLORESTA DE JONATHAS, além de nos apresentar um universo novo e misterioso, desperta sentimentos e sensações difíceis de descrever. Muitas dessas sensações são causadas pela grandeza assustadora e perturbadora da floresta amazônica, que também é explorada através do excelente trabalho de som. Daí a importância de vê-lo no cinema, para que nos sintamos tão perdidos na Floresta Amazônica quanto o protagonista. Quem já teve a sensação de ter se perdido alguma vez e não saber como encontrar a saída certamente vai comungar com a angústia de Jonathas (Begê Muniz).

Mas posso até estar antecipando bastante o terceiro ato do filme, embora não haja palavras que substituam a experiência de ver (e ouvir) este misterioso filme. Aliás, em tempos de exibição de QUANDO EU ERA VIVO e de diversos flertes de cineastas brasileiros com o fantástico, A FLORESTA DE JONATHAS vem engrossar as fileiras desse território que, principalmente na Amazônia, pode ser muito rico para exploração.

Na trama, Jonathas e seu pai (Francisco Mendes) são quem mais dão duro para colher frutas e vendê-las no pequeno quiosque em frente à humilde casa deles, na beira da estrada. O irmão de Jonathas, Juliano (Ítalo Castro), costuma desobedecer o pai e prefere se divertir, saindo com os vários turistas que visitam a região. Entre esses turistas está Milly, vivida pela bela Viktoria Vinyarska, objeto de desejo de Jonathas. Aliás, as cenas entre os dois são tão boas que Sérgio Andrade faria, sem problema algum, uma história de amor a partir do relacionamento deles.

Mas o diretor prefere ousar e adentrar um território não apenas do fantástico, mas do estranhamento na mudança do registro realista para um registro diferente, com personagens olhando para a câmera em determinado momento, além de termos a chance de entrar em contato com crenças indígenas. Aliás, filmes que abordam o misticismo dos índios funcionam também nos Estados Unidos. Quem não lembra do mistério em torno de Jim Morrison e um índio xamã em THE DOORS, de Oliver Stone?

E o Brasil oferece ainda mais mistério, já que é um terreno muito pouco explorado por nossos cineastas. Quem ousa filmar no território amazônico acaba enfrentando muitos problemas, como foi o caso de Hector Babenco, com o seu maravilhoso BRINCANDO NOS CAMPOS DO SENHOR. Sérgio Andrade teve essa ousadia e, se não teve apoio do grande público, o que é comum em se tratando de produções brasileiras fora das mãos da Rede Globo, deixou um belo trabalho para ser apreciado.

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