segunda-feira, fevereiro 03, 2014

BABILÔNIA 2000



Quando um artista que amamos muito morre, logo após a fase de indignação e negação, o máximo que podemos fazer, como amante de sua obra, é escrever umas linhas em sua homenagem, mostrando o quanto ele nos foi importante. A morte de Eduardo Coutinho marcou um doloroso domingo de luto para a cinefilia brasileira. Dizer que era/é o maior documentarista do Brasil de todos os tempos não é exagero, por mais que alguém possa questionar.

Então, como modo de homenageá-lo, resolvi ver um dos filmes dele que ainda não tinha visto ainda: BABILÔNIA 2000 (2000). É interessante notar as semelhanças do filme com seus demais trabalhos e e no quanto foi uma obra que antecipou outras, mas também é continuação de um trabalho que já vinha sendo feito desde os tempos que ele fazia Globo Repórter e que gerou uma pérola como TEODORICO, O IMPERADOR DO SERTÃO (1978).

E ver BABILÔNIA 2000 hoje, com o Brasil tendo passado por mudanças políticas e sociais nestes quase 14 anos, é bem diferente do que ter visto naquela época, quando se falava sobre as mudanças que o milênio traria para a humanidade. No discurso dos entrevistados, todos das comunidades de Chapéu Mangueira e Babilônia, no Rio de Janeiro, havia um tom de alegria, apesar da vida pobre, mas havia também um desacreditar no futuro do país. "O Brasil não vai melhorar nunca, só vai piorar" são palavras recorrentes.

Sem querer traçar um balanço do que melhorou ou piorou no Brasil, até porque não sou a pessoa mais adequada para fazer isso, prefiro me atentar naquilo que é mais recorrente na obra de Coutinho, que é a sua busca de aproximação com os entrevistados. A ideia de escolher o dia 31 de dezembro de 1999 para entrevistar essas pessoas e perguntá-las sobre suas vidas e sobre suas expectativas para o novo milênio parece mais uma desculpa para conversar com essas pessoas anônimas. Ou quase, já que há, da política, Benedita da Silva, e dois homens que participaram de pequenos papéis no cinema.

O que mais senti falta em BABILÔNIA 2000 foi o fato de que nem todos aqueles que prestaram seus depoimentos foram entrevistados por Coutinho. E isso faz alguma diferença sim. Nota-se que Coutinho tem uma habilidade muito maior de fazer com que aquelas pessoas se desnudem para a câmera, fazendo perguntas mais profundas, mas ao mesmo tempo simples, que possam ser entendidas por aquela gente simples. Quando o entrevistador é outro, de sua equipe, o resultado é menos impactante.

Dois entrevistados me chamaram mais a atenção particularmente: uma senhora que veio de Minas Gerais ainda jovem e se estabeleceu no Rio, tendo conhecido o Presidente Juscelino Kubitschek, mostra uma visão de mundo ligada ao passado; e uma mulher que fala da perda do irmão, morto a balas em uma situação já muito comum naquelas comunidades. Tanto é que esse não é o único caso relatado no documentário.

O gosto de Coutinho em ouvir os entrevistados cantando, como a ex-hippie e agora evangélica, aparece também em BABILÔNIA 2000. Ela canta duas canções da Janis Joplin. Isso seria repetido em EDIFÍCIO MASTER (2002), em JOGO DE CENA (2007) e principalmente em AS CANÇÕES (2011), seu derradeiro filme e o que mais me emocionou, embora não seja necessariamente seu melhor trabalho. O interesse pela religião, pelas crenças alheias também está presente, algo que já havia sido trabalhado com ênfase em SANTO FORTE (1999), seu trabalho anterior.

Creio que por ter me emocionado tanto com JOGO DE CENA e com AS CANÇÕES eu tenha criado uma ligação próxima do espiritual com seu cinema. E quando isso acontece, a morte do artista é muito sentida. Por mais que as circunstâncias de sua morte sejam trágicas e chocantes e notícia "quente" para cadernos policiais e programas sensacionalistas, o que mais dói é certamente a sua passagem para outro plano. Deixo aqui o meu muito obrigado.

Eduardo Coutinho estava finalizando um novo projeto intitulado PALAVRA, sobre jovens de escolas públicas. O trabalho será continuado por João Moreira Salles, seu parceiro da Videofilmes e um dos responsáveis pela retomada de seu cinema. Creio que está em boas mãos. 

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