segunda-feira, maio 27, 2013

ELENA



A presença e a ausência. Ou a ausência da presença. São os elementos que não só integram o filme, como também são a justificativa para que a diretora Petra Costa resolva fazer um longa-metragem muito pessoal sobre a perda de sua irmã Elena, que cometeu suicídio na década de 1990. Assim, como uma forma de exorcizar o passado, a dor, a saudade, Petra resolve seguir os passos que Elena seguiu quando esteve em Nova York para tentar ser atriz de cinema. Mas há também algo que parece depor contra a cineasta, que é usar a morte da irmã para fins bem pessoais. Mas dizer isso é também complicado e talvez injusto, embora seja algo que possa passar pela cabeça de muitos. Mais ou menos o que se falou quando João Moreira Salles dirigiu SANTIAGO, sobre o antigo mordomo da família.

De todo modo, a arte está aí para ser não só apreciada, como também discutida. E essa discussão pode entrar entre as diversas questões que o filme promove. De qualquer maneira, a morte da irmã, bem como a sua dor, a sua depressão, também fazem parte da dor da própria Petra e da dor de sua mãe, presença forte no filme, já que é a pessoa que mais esteve presente e que mais tem lembranças de Elena, já que Petra ainda era criança.

O grande trunfo de ELENA (2012) está nas imagens de arquivo. As imagens de arquivo funcionam como poderoso meio de nos apresentar à própria Elena usando os recursos do cinema. Na literatura, não veríamos seu rosto, suas expressões. Tais imagens normalmente só interessariam aos familiares, mas que dentro do registro do filme ajudam a compor uma a narrativa de maneira gradual, guardando uma sequência mais forte para o momento da morte. Há documentários muito mais fortes nesse sentido (penso em DEAR ZACHARY – UM CASO CHOCANTE e em O HOMEM-URSO), mas o que vemos em ELENA, quando surgem os detalhes da morte do ponto de vista dos médicos legistas, é uma intenção mista: tanto de causar impacto (vindo da artista Petra Costa) quanto de prestar homenagem à irmã, com o maior dos silêncios (vindo da irmã de Elena).

ELENA é um filme corajoso. Com cheiro de morte, já que tanto a própria mãe pensou em se matar, quanto a pequena Petra. A dor da mãe e da irmã, no entanto, parecem atenuadas nas imagens atuais, quando elas falam ou apresentam imagens de Elena ou de Petra no passado. Uma sequência que chama a atenção é quando a mãe, ao falar sobre um prédio onde Elena supostamente esteve, atenta para a beleza de uma árvore. A câmera sobe para verificar as belas folhas da árvore. Como se a mãe, naquele momento, quisesse espantar a tristeza e atentar para a beleza da vida e do mundo material.

ELENA cresce à medida que pensamos nele. Alguns momentos não saem fácil da memória, como o desespero do amigo americano, o total silêncio do pai de Elena (que me deixou com um nó na garganta), a lua brincando, a própria Petra adulta interpretando Elena nas esquinas de Nova York, sentindo-se fria e abandonada. Além disso, há o registro oral de Petra endereçando-se a Elena e os registros de Elena, através de fitas cassete deixadas como um diário de sua viagem a Nova York, com palavras que no começo mostram-se cheias de esperança, para depois apresentá-la triste e sem rumo. É sem dúvida um filme em que há muito o que se pensar ou falar. Difícil de se esgotar. 

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