terça-feira, maio 28, 2013

BONITINHA, MAS ORDINÁRIA



Adaptar Nelson Rodrigues é quase certo sair um filme minimamente interessante. As várias produções, das décadas de 60 a 80, principalmente, tiveram êxito em sua maioria. E provocavam quase sempre uma espécie de catarse no espectador. No caso de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA (2013), infelizmente Moacyr Góes não conseguiu entrar no espírito do dramaturgo e as dificuldades em colocar finalmente o filme no circuito depois de cerca de quatro anos de sua finalização apontam que havia mesmo algo de errado.

Não bastou um ótimo ator como João Miguel, nem meninas lindas como Leandra Leal (que além de tudo já provou seu talento e entrega em outros filmes) e a pouco conhecida, mas nem por isso menos bela, Letícia Colin. Ela é Maria Cecília, a menina que supostamente foi estuprada por negões em uma favela durante um baile funk e cujo pai (Gracindo Júnior) procura dá-la como esposa para um operário de sua empresa. O operário é Edgard (João Miguel), apaixonado por Ritinha (Leandra Leal), a garota pobre do bairro, mas que acaba não resistindo à tentação de ficar rico, ao aceitar a proposta de casar com aquele Lolita, que além de tudo é linda.

O problema é que ele não sabe dos podres da família e da real personalidade de Maria Cecília e acaba se prejudicando. Mas o principal problema não é dos personagens, mas do filme e de sua recepção para o espectador. A tentativa de tornar a linguagem teatral de Nelson mais naturalista raramente é bem-sucedida. Funcionaria se o diretor e roteirista tivesse a intenção de modificar o texto de modo com que frases como a repetitiva "O mineiro só é solidário no câncer" fosse excluída. Mas seria complicado, já que é uma frase-chave do texto e que é repetida inúmeras vezes.

A comparação com a versão de Braz Chediak, BONITINHA MAS ORDINÁRIA OU OTTO LARA REZENDE (1981), estrelada por José Wilker, Vera Fisher e Lucélia Santos, que já ficou no imaginário popular, cheia de frases de efeito e diálogos muito bons, é quase uma covardia. Até porque a versão dos anos 80, principalmente por ser mais transgressiva e nunca negar o feio na constituição dos ambientes, nem nos palavrões ou nas cenas de sexo, tinha uma afinação maior com a obra rodriguiana. Além do senso de humor, claro.

No filme de Góes, até os palavrões perdem o impacto, como se passassem por um filtro que os limpasse para a nova tendência do cinema brasileiro. Até mesmo a cena do gang bang de Ana Cecília, que tinha potencial para render uma sequência pelo menos excitante e fetichista, é curta demais, como se os produtores tivessem medo de ir mais longe.

Além do mais, o anacronismo, que mistura o clima dos anos 50 com os anos 2000 nem sempre se ajusta. E a cena do Gracindo Júnior procurando mostrar o quanto é sujo e depravado ficou ruim, não por ser grotesca. O grotesco, aliás, seria bem-vindo nesse tipo de filme. Salvam-se as boas interpretações de João Miguel e Leandra Leal, mas que não são suficientes para tornar o novo BONITINHA, MAS ORDINÁRIA um filme minimamente ofensivo. Que é como deveria ser.

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