sexta-feira, abril 30, 2010

A HORA DO PESADELO (A Nightmare on Elm Street)



Nunca fui muito fã de Freddy Krueger. A maioria de seus filmes eu vi na adolescência, na televisão, e tenho pouca lembrança deles. Costumava confundir os eventos do original com as continuações e não tenho certeza se cheguei a ver todos os filmes completos. Cheguei a ver dois da franquia no cinema: PESADELO FINAL: A MORTE DE FREDDY (1991), o sexto da série, com direito àqueles óculos 3D de papelão a serem usados em determinada cena; e o metalinguístico e inteligente O NOVO PESADELO (1994). Com a vinda do remake, programado para estrear em breve, senti vontade de rever o primeiro filme, A HORA DO PESADELO (1984), o maior sucesso comercial da carreira de Wes Craven, rendendo seis sequências e um crossover com o Jason Voorhees em 2003. E se SEXTA-FEIRA 13 já ganhou o seu (bem sucedido) remake, era inevitável que eu alguém quisesse trazer de volta o velho Freddy.

Rever o primeiro filme com outros olhos, com um maior distanciamento da época, fez com que eu analisasse o filme com certa frieza. E com frequência com admiração. Por mais que os diálogos sejam quase infantis e haja clichês em abundância, mesmo para a época, é uma obra que prima pela originalidade. A ideia de uma criatura monstruosa que perturba as pessoas através dos sonhos e que pode matar dentro do plano físico não deixa de ser ousada. E Wes Craven mostra que Freddy não está para brincadeira logo nos primeiros vinte e poucos minutos de filme. A morte da primeira vítima chega a ser impressionante, pela originalidade e pela sanguinolência. E também por lembrar alguns filmes de possessão demoníaca.

A partir de então, a jovem Nancy (Heather Langenkamp) sabe que não pode dormir, sob o risco de ser assassinada pelo maníaco dos sonhos. Incompreendida pelos adultos, que jamais acreditariam numa história tão absurda, ela logo depois descobre quem é o maníaco. Alguns momentos da aparição de Freddy são bem marcantes, como aquele em que ele aparece os braços esticados, ou quando sua língua lambe a orelha de Nancy através de um aparelho de telefone, ou quando suas garras de metal sobem pela banheira. A HORA DO PESADELO também marca uma das primeiras participações de Johnny Depp no cinema. Durante a apreciação, o que eu mais queria saber era como Nancy pegaria o Freddy. Não engoli direito a solução, mas para um filme que tem os sonhos como principal tema, não temos mesmo que buscar lógica em tudo.

P.S.: Chico Fireman publicou em seu blog um ranking dos 10 melhores filmes baseados em HQs. A votação foi feita a partir de convite pelo twitter e contou com dez votantes. Como fui um dos dez, seguem meus votos: 1. MARCAS DA VIOLÊNCIA, de David Cronenberg; 2. SUPERMAN - O FILME, de Richard Donner; 3. OLDBOY, de Chan-wook Park; 4. HULK, de Ang Lee; 5. ICHI - O ASSASSINO, de Takashi Miike; 6. BATMAN - O CAVALEIRO DAS TREVAS, de Christopher Nolan; 7. UZUMAKI, de Higuchinsky; 8. WATCHMEN, de Zack Snyder; 9. MUNDO CÃO, de Terry Zwigoff; 10. BATMAN - O RETORNO, de Tim Burton.

quinta-feira, abril 29, 2010

IWO JIMA - O PORTAL DA GLÓRIA (Sands of Iwo Jima)



Comecei a ver a minissérie THE PACIFIC, produção da Dreamworks para a HBO, e fiquei tão entusiasmado e curioso com o destaque da guerra no Pacífico que quis conferir algum filme a respeito. Só tinha visto sobre o tema, até então, os dois ótimos trabalhos que Clint Eastwood realizou (A CONQUISTA DA HONRA e CARTAS DE IWO JIMA). O filme que eu tinha à mão no momento era este IWO JIMA - O PORTAL DA GLÓRIA (1949), dirigido por um dos cineastas pioneiros de Hollywood, Allan Dwan. Abrindo um parênteses: acabei de checar que UM PUNHADO DE BRAVOS, de Raoul Walsh, também lida com o combate dos americanos com os japoneses no Pacífico. E eu tenho uma cópia dele!

Mas voltando a Dwan, engraçado que quando eu comprei o livro de entrevistas "Afinal, Quem Faz os Filmes", o seu nome era o único que eu não conhecia. Ficava me perguntando: quem será esse cara no meio de cineastas tão nobres? E acabei gostando muito da entrevista dele, que é uma viagem aos primórdios do cinema. Ele era contemporâneo de D.W. Griffith e o diretor predileto de Gloria Swanson e de Shirley Temple. E tem mais: foi graças a ele que surgiu a primeira tomada de grua - Griffith foi ao seu auxílio, quando queria fazer uma cena mais ousada tecnicamente em INTOLERÂNCIA. E quem quiser saber mais das várias contribuições de Dwan para o cinema que leia o prólogo de sete páginas que Bogdanovich dedicou a ele, antes de iniciar a entrevista. É uma aula de cinema das mais prazerosas.

Quanto a IWO JIMA - O PORTAL DA GLÓRIA, o filme parece uma versão menos inspirada dos grandes épicos de John Ford. Tem, inclusive, alguns momentos de humor à Ford que o tornam meio bobo. Talvez na época, aquelas gags envolvendo os dois irmãos que vivem brigando tivessem alguma graça. Não resisti a comparação com THE PACIFIC, que começa com dois episódios destacando a guerra em si, mostrando os personagens logo no cenário de tiros e morte, para só no terceiro episódio dar um tempo e nos apresentar com mais calma os personagens, quando eles dão uma pausa e descansam na Austrália.

No filme de Dwan, a aposta é no caminho inverso, o que já era comum nos demais filmes de guerra do período. Há, no início, uma apresentação dos personagens, para só mais tarde podermos vê-los no olho do furacão, a partir do desembarque na hoje famosa ilha. Nesse momento, já temos nos afeiçoado ao personagem de John Wayne, o sargento linha-dura que se mostra mais gente fina do que aparenta e que aos poucos vai ganhando o respeito e o carinho de seus soldados. O filme, inclusive, aposta mais na construção dos personagens do que na linha narrativa, o que eu vejo como um ponto positivo.

Vale notar a participação no filme dos três homens que ficaram famosos pela fotografia de hasteamento da bandeira quando os americanos finalmente conseguiram vencer os japoneses. São os três personagens de A CONQUISTA DA HONRA, de Clint Eastwood. Eles ficaram tão famosos que até cinema fizeram. Mas confesso que não soube identificá-los no filme. Na entrevista de Dwan, o diretor conta das bebedeiras de John Wayne e de como os atores ficaram putos quando eles os entregou a um sargento do exército para fazê-los ficarem mais parecidos com soldados. Isso, depois de uma noite de bebedeira e com uma ressaca braba. No fim das contas, temos um bom filme com cenas boas de combate e algumas imagens verdadeiras do conflito enxertadas para dar um ar de cinema-verdade.

quarta-feira, abril 28, 2010

UTOPIA E BARBÁRIE



"Não se pode confiar no imperialismo, nem um tantinho assim. (...) Porque a natureza do imperialismo é o que bestializa os homens."
(Che Guevara)


Tenho uma amiga que ainda acredita na utopia, é fã dos líderes revolucionários, ainda crê no socialismo e é extremamente engajada socialmente. E tenho um colega no curso de especialização que diz que Che Guevara era um assassino, que Karl Marx fez um mal terrível à humanidade e que os movimentos de luta armada contra a ditadura militar no Brasil eram feitos por assaltantes de bancos e assassinos. E ainda culpa a Teologia da Libertação como uma das causadoras da queda da popularidade da Igreja Católica no Brasil. Com certeza, esse senhor, fã do american way of life, tem opiniões bem controversas.

Acho que estou em cima do muro, pois além de não ser assim tão entusiasta de política, acredito que depois da queda do muro de Berlim, do fim dos governos comunistas, e com as inúmeras denúncias de atrocidades cometidas durante os governos chineses e soviéticos, fica dificil acreditar em sistemas políticos. Mas uma coisa é preciso ter: esperança. Apesar das desilusões, ainda é possível ver bons exemplos de progresso na política. Incusive no Brasil. E isso nos ajuda a seguir em frente e acreditar que o futuro pode não ser assim tão sombrio quanto se imagina.

UTOPIA E BARBÁRIE (2010) é o documentário que Silvio Tendler passou quase vinte anos para finalizar. Desde 1990, com a chegada ao poder do primeiro presidente brasileiro eleito pelo voto popular (Collor de Mello) e com a queda do muro de Berlim, Tendler, meio desiludido, tentou juntar os pedaços daquilo que ele acreditava e começou esse projeto ambicioso de traçar um painel gigante dos caminhos da esquerda no mundo a partir do fim da Segunda Guerra Mundial. Por isso que um título alternativo dado ao filme é "Histórias de nossas vidas ou ter 18 anos em 68". Tendler faz parte dessa geração, que acreditava no Socialismo como alternativa viável para o Brasil. Inclusive, seu trabalho mais famoso e que foi sucesso de bilheteria no país é o documentário JANGO (1984), que trazia no cartaz: "como, quando e porque se depõe um Presidente da República".

E vendo a história de João Goulart, difícil não ficar indignado, ainda que existam aqueles que ainda crêem que a ditadura militar foi um mal necessário. Mas um dos aspectos positivos do documentário é que, mesmo sendo um filme de esquerda, Tendler dá voz também àqueles que discutiam as soluções encontradas para lutar contra a ditadura no Brasil. O melhor exemplo é o poeta Ferreira Gullar, que achava um absurdo a ideia de pegar em armas sem ter experiência e lutar contra o exército, a marinha e a aeronáutica. "Aqui não é Cuba, aqui é um continente", diz ele a certa altura. Pareceu-me um dos depoimentos mais lúcidos. O documentário também não nega as atrocidades cometidas em governos comunistas, como a China e a União Soviética.

O principal erro do filme é tentar abarcar tanta coisa em apenas duas horas. Se ele se centrasse só no Brasil, talvez não tivesse tanto esse problema, mas Tendler tem a pretenção de falar do mundo todo. Ainda assim, acho que o filme, até por ter pressa em contar tanta coisa, tem um ritmo que não cansa, e ainda traz imagens históricas que a minha geração vivenciou e guarda fortes lembranças, como o dia do Impeachment de Collor. Eu lembro de onde eu estava nesse dia. E de como as pessoas pareciam estar comemorando um final de Copa do Mundo. Na verdade, aquilo era muito mais importante que um final de Copa.

Mas a década mais destacada no documentário é justamente a década de 60. Principalmente o ano de 1968, o ano mais convulsivo do século. Todo o mundo parecia estar num estado de ebulição. Jovens dos Estados Unidos se recusavam a se alistar; no Brasil, jovens peitando a polícia nas ruas; o mesmo ocorrendo na França, entre outros movimentos político-sociais que eclodiram. Assim, assunto não falta. E não faltam também ótimos depoimentos, numa relação tão extensa que prefiro não citar. Mas vale destacar Dilma Rousseff, atual candidata do governo para a Presidência da República. Até por ela estar em evidência, sua participação no filme pode até causar certo transtorno, ainda que não tanto quanto o filme LULA, O FILHO DO BRASIL. Retirar o depoimento de Dilma tornaria o filme menos rico, pois ela participou da luta armada e chegou a ser presa e torturada durante os anos de chumbo.

O que eu também gostei no fime foram das eventuais citações, narradas por Amir Haddad, Chico Diaz, Letícia Spiller. Algumas delas, poesias principalmente, dão vontade de copiar. Talvez o que poderia ser cortado para o bem do filme fosse a parte final, quando Tendler mostra a questão do Estado de Israel, que talvez ficasse melhor num filme à parte. Essas cenas, inclusive, destoam um pouco do tom geral do filme, parecendo enxertos.

Para os cinéfilos, a presença de cineastas como Amos Gitai, Gillo Pontecorvo (BATALHA DE ARGEL é muito citado), Cacá Diegues e Denys Arcand tornam o documentário ainda mais simpático. As cenas de AS INVASÕES BÁRBARAS, de Arcand, inclusive, servem para resumir um pouco como se sentia a geração que viveu sua juventude na década de 60, era mais politizada, acompanhou os vários ismos e viu com certo desencanto como o mundo ficou no início do novo século.

Enfim, há tanto o que se falar. Concordo que seria um ótimo filme para ser apresentado em escolas e outras instituições, pois além de ter o seu aspecto didático, é também emocionante. Inclusive, não me lembro de nenhum outro filme onde o público reagiu com palmas ao final da sessão. A última vez que eu vi isso acontecer foi com SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS, há vinte anos. Tudo bem que foram palmas tímidas, mas não deixa de ser uma reação surpreendente para os dias de hoje.

P.S.: Está sendo distribuída no Espaço Unibanco uma revista interessante sobre o filme, contendo ótimos artigos e entrevista com Sendler.

terça-feira, abril 27, 2010

O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (El Secreto de Sus Ojos)



Um pouco de polêmica não faz mal a ninguém, como diria um dos meus cineastas favoritos. Assim, aqui vou eu nadar contra a corrente, ou seja, contra a maioria dos espectadores que viram O SEGREDO DOS SEUS OLHOS (2009) e adoraram. Eu fui um dos que saíram do cinema insatisfeitos e sem entender o que causou tanta admiração pelo filme de Juan José Campanella, ganhador do Oscar de melhor filme em língua estrangeira este ano. Antes de mais nada, uma das coisas que mais me irritou no filme foi o personagem bocó de Ricardo Darín. O ator, um dos melhores e mais famosos da Argentina, merecia coisa melhor. Tive que aturar, entre um cochilo e outro, um personagem que ama a sua chefe, mas que se recusa a aceitar esse amor durante muito tempo. Poderia até ser algo bonito de ver num melodrama sobre as barreiras invisíveis que as pessoas criam para se autossabotarem, mas não na forma que Campanella apresenta.

Ainda que uma cena patética como a da estação de trem possa ser avaliada pelos próprios personagens como uma armadilha gerada pela memória, e por isso propositalmente patética, aquilo não sai da minha cabeça como mais um exemplo da incômoda estupidez do protagonista. Mas mais ainda do filme, que tenta ser algo mais do que uma história de crime e algo mais do que uma história de amor e falha em ambas as tentativas.

O momento mais comentado do filme é o do falso plano-sequência, que acontece num estádio de futebol lotado. Não deixa de ser admirável tecnicamente, mas não ajuda muito a tornar a obra mais consistente. A trama lida com um policial aposentado que resolve escrever um livro sobre um caso ocorrido em 1974. Assim, o filme vai e vem no tempo, mostrando as relações do protagonista com a persongem de Soledad Villamil e uma intricanda trama envolvendo o assassinato de uma jovem. O funcionário aposentado, tentando reviver o caso, acaba por investigar novamente o que parecia assunto encerrado. Com as idas e vindas no tempo, temos a oportunidade de ver uma reconstituição de um tempo em que a Argentina vivia sob rígida ditadura. E o assassinato, inclusive, pode estar ligado a questões políticas.

O sucesso comercial do filme é tanto que, além de ter ganhado o Oscar, está no top 250 do IMDB, e é uma das maiores arrecadações de bilheteria da história do cinema argentino, sendo o mais visto nos últimos 35 anos no país. Junto com o sucesso de O FILHO DA NOIVA (2001), Campanella crava o seu nome como um dos cineastas mais prestigiados da América Latina. Isso porque poucos parecem perceber as falhas de um filme capenga. Ou vai ver sou eu que precisa rever o filme. Eu e minha laringite alérgica que parece funcionar principalmente em filmes chatos. Mas não tenho a mínima vontade de rever. Pelo menos, não por enquanto.

segunda-feira, abril 26, 2010

A ESTRADA (The Road)



Talvez nunca se tenha visto tanto cinza antes no cinema. O que contrasta o cinza reinante daquele mundo sem vida - até a lata de Coca-Cola encontrada na máquina aparece impregnada de pó - são os flashbacks que se misturam com os sonhos do protagonista, um Viggo Mortensen quase esquelético. A ESTRADA (2009) é mais um filme pós-apocalíptico, que a exemplo de O LIVRO DE ELI, mostra o mundo habitado apenas por alguns poucos sobreviventes. Mas ao contrário do tom mais esperançoso e das cenas de ação da obra dos irmãos Hughes, o diretor autraliano John Hillcoat opta por uma atmosfera de decadência e depressão intensa e constante. No mundo do filme, a maioria das pessoas que sobreviveram optaram pelo suicídio. E o tirar a própria vida está sempre presente como uma opção compreensível e aceitável, diante das circunstâncias. Numa cena, o pai (Mortensen) ensina ao filho como dar um tiro corretamente na própria boca, a fim de aproveitarem as únicas duas balas que lhes restam.

A primeira imagem do filme é o rosto de Charlize Theron. Naquele momento, ela está grávida e ouve algo vindo do lado de fora da casa, onde só se vê escuridão. O marido acorda desse sonho, que se confunde com as memórias. Sonhos e memórias são da mesma família, afinal. O que é mais doloroso? Ver a rotina de luta por sobrevivência de pai e filho sozinhos em busca de comida e rumando para o litoral sul, onde talvez ainda haja alguma vida, ou ver os poucos momentos de angústia intensos onde aparece Charlize Theron? Enquanto isso, pai e filho precisam lidar com homens hostis, alguns deles adeptos do canibalismo, prática comum em tempos desesperadores, de falta de comida. O interessante é que em momento algum o filme conta como foi que se deu a destruição do planeta. O que, de certa forma, contribui para o filme, dando-lhe um ar misterioso e instigante.

O silêncio muitas vezes predomina, assim como em outra grande obra adaptada de Cormac McCarthy (ONDE OS FRACOS NÃO TÊM VEZ), mas há também a trilha sonora melancólica de Nick Cave e Warren Ellis, que torna o drama dos personagens ainda mais angustiante. O personagem de Mortensen impressiona pela obstinação, pela busca pela sobrevivência a qualquer custo, por mais que a fome doa até a alma e o corpo fragilizado por uma doença seja mais um empecilho. As imagens do passado que teimam em voltar são mais um tormento do que um alento. Uma cena, por exemplo, como a que mostra ele tocando as pernas de Charlize num teatro são um exemplo de um momento especial que a vida um dia pôde proporcionar. Por isso, quando o garoto diz que gostaria de estar com a mãe, ele fala que o menino não deveria ficar pensando nessas coisas. É seguir em frente, esquecer o passado e olhar para o futuro. Ele, muito mais do que o garoto, sabe o que perdeu.

domingo, abril 25, 2010

O CORTE NO TEMPO: A MAGIA DA EDIÇÃO DE FILMES (The Cutting Edge: The Magic of Movie Editing)



Quando Ana Maria Bahiana esteve aqui em Fortaleza para ministrar o curso "Como Ver um Filme", uma das ferramentas que ela usou foi o documentário THE CUTTING EDGE, cujos trechos eram apresentados com legendas em inglês mesmo. Nos Estados Unidos, o documentário saiu num único DVD. Aqui no Brasil, ele foi incluído numa edição especial dupla de BULLIT, de Peter Yates. Que, aliás, também conta com um outro ótimo documentário, sobre Steve McQueen.

O CORTE NO TEMPO: A MAGIA DA EDIÇÃO DE FILMES (2004), de Wendy Apple, é uma aula de edição. E apesar de já começar mostrando uma cena de um dos filmes da franquia MATRIX, começa pra valer mesmo mostrando a evolução das técnicas de edição desde a aurora do cinema. Acredita-se que o primeiro cineasta a usar da montagem para fins narrativos - e por isso é considerado o "pai da montagem" - seja Edgar S. Potter, diretor de THE GREAT TRAIN ROBBERY, produção lá do comecinho do século XX. E, se Potter foi o pai da montagem, Griffith foi o pai do cinema clássico, modernizando e aperfeiçoando as técnicas. Em pouco tempo, todo mundo já estava familiarizado com os close-ups, as ações paralelas e os flashbacks.

Para os irmãos Lumière, no entanto, o cinema era uma invenção sem futuro, pois quem continuaria pagando para ver trens chegando em estação e coisas do tipo se elas poderiam ver a mesma coisa ao vivo? Mas aí vieram caras como Potter, D.W. Griffith e Georges Méliès – que, se eu não me engano, não é citado no documentário – e provaram o contrário.

Até a época do cinema mudo, a função de edição era praticamente das mulheres. Para os técnicos do cinema, a edição era como costurar. A coisa mudou um pouco a partir do cinema falado, mas ainda assim é possível destacar inúmeras montadoras de renome, como Thelma Schoonmaker, a parceira de Martin Scorsese, e a recém-falecida Dede Alen, mais conhecida por seu trabalho revolucionário em BONNY & CLYDE – UMA RAJADA DE BALAS, de Arthur Penn. Que, inclusive, tem cenas destacadas no documentário, que servem para ilustrar as inovações do cinema que a geração "Easy Rider" estava trazendo para os Estados Unidos, influenciada pelo cinema europeu. Na Europa, a Nouvelle Vague veio para quebrar as regras. E ACOSSADO, de Jean-Luc Godard, revirou a cabeça de muita gente.

Havia uma diferença que saltava aos olhos entre a edição feita nos Estados Unidos, a chamada "montagem invisível", e a realizada na Europa. Sergei Eisenstein foi um dos primeiros a trazer um novo estilo de montagem. Se os americanos queriam que o espectador esquecesse que estava vendo um filme, Eisenstein fazia questão de lembrá-lo. OUTUBRO e O ENCORAÇADO POTENKIN são dois exemplos fortes. Havia uma manipulação das emoções de uma maneira bem distinta. Tarantino, com aquele jeitão entusiasmado, diz que Eisenstein foi o primeiro "cineasta de verdade".

E já que o cinema podia trabalhar de maneira forte com as emoções do espectador, em épocas de guerra, principalmente, havia os filmes de propaganda. O mais famoso deles é O TRIUNFO DA VONTADE, de Leni Riefenstahl, que enaltecia a figura e o governo de Adolf Hitler. Brincando com essa coisa de "Que legal! Vamos morrer na guerra!", Paul Verhoeven, que chegou a ver filmes de propaganda nazista quando jovem na época da ocupação alemã na Holanda, fez o genial TROPAS ESTELARES, que usa de maneira bem sarcástica o filme de propaganda que convida as pessoas a se alistarem. Inclusive, Verhoeven também faz questão de mostrar cenas absurdamente sangrentas das lutas dos humanos com os insetos gigantes.

O documentário trata de mostrar também a complexidade de se editar o som em cenas aparentemente simples, de campo-contracampo. O exemplo em O ENCANTADOR DE CAVALOS foi bem interessante e ilustra bem essa dificuldade. Há também uma espécie de separação entre montagens em diferentes gêneros. Montar uma perseguição de carros, por exemplo, não é tarefa fácil. Mas há também destaque para a montagem de cenas eróticas. Os bons exemplos que servem para ilustrar isso estão em CORPOS ARDENTES, de Lawrence Kasdan, e IRRESISTÍVEL PAIXÃO, de Steven Soderbergh. Há sempre uma preocupação em não exagerar, afinal, isso ficaria a cargo do cinema pornográfico. Em IRRESISTÍVEL PAIXÃO há, inclusive, umas pausas bem interessantes durante as cenas entre George Clooney e Jennifer Lopez. Assistindo em um DVD player, o espectador pode até achar que é alguma falha no disco ou no aparelho.

Enfim, o texto está maior do que eu imaginava que sairia. Isso acontece quando eu tomo notas enquanto vejo um filme, prática que só costumo fazer quando vejo documentários ou comentários em áudio em DVDs. Ou filmes do Godard. :)

Agradecimentos especiais ao amigo Renato Doho pela cópia.

sexta-feira, abril 23, 2010

A GAROTA DE TRIESTE (La Ragazza di Trieste)



Nos anos 80, Ornella Muti era uma das mulheres mais belas do mundo. E isso pode ser comprovado em inúmeros trabalhos que ela realizou na época. A GAROTA DE TRIESTE (1982), de Pasquale Festa Campanile, é um deles. O filme repete a parceria que a atriz fez com Ben Gazzara em CRÔNICA DE UM AMOR LOUCO, de Marco Ferreri. E se no filme de Ferreri, o sujeito é que era o doidão (afinal, era um filme baseado em Bukowski), os papéis se invertem na obra de Campanile. Tenho lembranças da capa do vhs estampada nas páginas de propaganda da revista SET, na época do lançamento do filme em vídeo no Brasil por uma distribuidora pequena. A capa mostrava Ornella Mutti com a cabeça raspada, de costas, só com a parte de baixo do biquíni e se dirigindo ao mar. Mas não lembro de ter visto o vídeo em nenhuma locadora. Ou vai ver eu não me esforcei um pouco mais para procurar. Surgiu a chance agora, graças às boas almas compartilhadoras de bons filmes na internet.

A GAROTA DE TRIESTE aproveita bastante a figura de Ornella. A beleza dessa pisciana vai além dos belos olhos verdes como o mar e de seu rosto e corpo perfeitos. Seu encanto está presente em cada momento de espontaneidade e graça em que ela usa de seus atributos. Sua personagem, a princípio, é uma mulher misteriosa que tenta fingir um afogamento. Um grupo de homens consegue salvá-la. O personagem de Ben Gazzara, um desenhista especializado em formas femininas, lhe oferece o seu cobertor. Enrolada no cobertor, ela trata de tirar o maiô, o que deixa os olhos dos rapazes da praia esbugalhados. Em seguida, ela vai parar na casa do desenhista usando apenas o cobertor. Imagina só: você está em casa, quando chega a Ornella Muti praticamente nua e doida para ir pra cama com você! É ou não é um sonho? Mas as coisas não são um mar de rosas e a bela mulher tem segredos e complicações.

É uma boa história de amor narrada de maneira convencional, mas pena que não conseguem desenvolver uma conclusão satisfatória. Mas não dá pra reclamar muito. Ainda mais se compararmos com o cinema italiano atual, que mal tem sabido explorar as belezas naturais da "terra da bota". E é interessante notar também o quanto mudou a figura do galã dos filmes europeus e brasileiros daquela época para cá. Havia uma valorização maior da figura do homem mais maduro. Basta lembrar que aqui no Brasil os grandes galãs eram caras como Tarcísio Meira e Francisco Cuoco. E Walter Hugo Khouri usava sempre homens maduros para representar o seu alter-ego. Hoje em dia, Hugh Grant fala em se aposentar por se achar velho. Tempos cruéis os de hoje.

quinta-feira, abril 22, 2010

APROXIMAÇÃO (Disengagement)



APROXIMAÇÃO (2007) gerou em mim certa estranheza por uma série de motivos. Um deles foi o total desconhecimento dos eventos relativos à dramática retirada dos colonos israelenses da Faixa de Gaza. Ordem do próprio Ariel Sharon. Nada como uma boa pesquisada depois da sessão para dirimir um pouco a minha ignorância. A outra estranheza que o filme provoca provém do comportamento da personagem de Juliette Binoche. Antes de mais nada, a morte do pai parece uma festa para ela. Ela fica feliz da vida depois que o velho morre. Depois, com a visita de seu meio-irmão, ela começa a se insinuar sensualmente para o rapaz. No começo, de maneira um pouco mais sutil, depois de forma bastante explícita - que é uma festa para quem quer apreciar a nudez de Binoche. Mas sabe que esse tipo de estranheza faz muito bem para a saúde do filme e para deixar o espectador intrigado? Pelo menos funcionou bastante comigo.

Além do mais, eu sou fã da Juliette Binoche. Basta ter a sua foto no cartaz de um filme para que eu saque a carteira e compre o ingresso. Sem falar que ela quase sempre tem trabalhado com cineastas de renome, com grandes autores de diversas nacionalidades. Quanto ao cineasta israelense Amos Gitai, conheço muito pouco a sua obra - só havia visto FREE ZONE (2005), do qual gostei bastante. Mas do pouco que conheci já pude entender a sua importância dentro da cinematografia mundial, principalmente em um cinema que pretende discutir questões políticas fundamentais. E ele é esperto o suficiente para trazer um personagem estrangeiro para adentrar conosco um ambiente estranho, no caso a Faixa de Gaza, onde a personagem de Binoche terá que entrar para resolver uma "pendência", sem falar nada de hebraico.

O filme começa com um interessante plano-sequência, onde o irmão da personagem de Binoche, um soldado israelita, tem uma conversa com uma alemã de origem palestina e são abordados pelo segurança do trem, que acha estranho o fato de membros dessas duas etnias conversarem como amigos ou amantes. O prólogo serve para mostrar o quanto é absurda essa inimizade que já dura séculos. O filme é falado em várias línguas: inglês, hebraico, francês, italiano e árabe e vai adotando uma montagem mais recortada a partir do momento que Binoche chega no Oriente Médio.

quarta-feira, abril 21, 2010

A CASA DA NOITE ETERNA (The Legend of Hell House)



Há quem diga que não é a gente que vai atrás dos filmes, mas os filmes que vão ao nosso encontro. Num intervalo de tempo muito pequeno, duas obras de John Hough vieram ao meu encontro. Estava apenas na dúvida sobre qual dos dois escolher para ver numa dessas madrugadas chuvosas que estão se tornando comuns ultimamente em Fortaleza. Afinal, uma das coisas mais agradáveis para quem curte filmes de horror é poder ver um bom exemplar do gênero na calada da noite. Entre A CASA DA NOITE ETERNA (1973) e INCUBUS (1981), escolhi o primeiro, levando em consideração mais o aspecto cronológico da realização do que o fato de ser uma obra mais respeitada, de ser o filme cujo diretor é mais lembrado.

Na verdade, o nome de John Hough ainda é pouco conhecido pela grande maioria do público. Eu mesmo não tinha visto nenhum de seus filmes, embora vontade de ver um deles não faltasse. Não é um cineasta tão cultuado, mas é um dos diretores que mais se dedicaram ao horror desde a década de 1970. Quase sempre realizando filmes em seu país natal, a Inglaterra, Hough fez um trabalho bem diferente das produções americanas. Com o tempero inglês e boa dose de criatividade, uma obra como A CASA DA NOITE ETERNA traz vida nova para a já velha história de casas mal-assombradas.

Na trama, a "casa do inferno" do título original é uma casa que tem um passado bem assustador. Da história trágica que ela carrega, só há um sobrevivente (Roddy McDowell). Um psiquiatra (Clive Revill) é contratado por um milionário para passar uns dias na casa com o objetivo de descobrir a existência de vida após a morte. Ele leva consigo sua esposa e uma médium (Pamela Franklin) e mais o tal sobrevivente. Os quatro são assombrados de diferentes maneiras. No aspecto visual, destaque vai para a paleta de cores do quarto vermelho da personagem de Pamela Franklin. Os melhores momentos do filme mostram o seu contato com um espírito hostil de Daniel Belasco e é em seu quarto que a direção de arte se destaca mais. Pena que o filme caia um pouco no andamento em sua segunda metade, mas a primeira parte é irretocável.

terça-feira, abril 20, 2010

CORAÇÃO LOUCO (Crazy Heart)



A má qualidade das projeções digitais já virou um lenga-lenga sem fim. Vi que o problema não está apenas nas salas daqui de Fortaleza, mas muita gente de São Paulo e de outras cidades tem reclamado também. Mas qual não foi a minha surpresa quando, em Sampa, tive o prazer de conferir a melhor projeção digital até o momento. Tão boa que parecia película! E era um filme em scope. Pra quem quer saber em que sala foi, não lembro exatamente o número, mas foi numa das salas do Espaço Unibanco da Rua Augusta. O filme abençoado foi CORAÇÃO LOUCO (2009), de Scott Cooper. Aquele que deu o Oscar a Jeff Bridges.

E ele realmente está ótimo. Quem leu o meu post sobre ONDE VIVEM OS MONSTROS deve ter reparado quando eu falei que estava me identificando mais com filmes de velhos em fim de carreira do que com filmes sobre crianças. Isso porque eu ainda estava com CORAÇÃO LOUCO na cabeça. E no desempenho maravilhoso do "Dude" Jeff Bridges, que faz o papel de um cantor de música country que tem sérios problemas com alcoolismo e está com a saúde bastante debilitada. Lembra bastante o personagem de Clint Eastwood em HONKYTONK MAN. Mas os rumos dos filmes são bem distintos.

A vida do velho Bad Blake – é esse o seu nome artístico – ganha novo sopro quando ele conhece uma bela jornalista que tem interesse em sua obra, vivida pela sempre adorável Maggie Gyllenhaal. Eu adoro a entrega de Maggie aos seus personagens. Há uma cena de sexo muito bonita no filme onde podemos ver uma expressão de prazer no rosto da atriz, que excita mais do que qualquer cena de nudez. Porque lida também com sentimentos. Mas o filme não enfoca o sexo, embora tenha sido importante, fundamental até, ter mostrado.

O enfoque é no quanto aquela bela e doce mulher é boa demais para aquele velho bêbado, que não compõe mais novas canções, vivendo dos hits de outrora em barzinhos de cidades do interior. E como seguimos o ponto de vista de Bad Blake, meio que nos fundimos a ele na vontade de estar com aquela mulher, de refazer a vida. De repente, a felicidade ainda é possível. Mas a vida (e o cinema) é uma caixinha de surpresas. O final que nos aguarda é agridoce, melancólico e realista. E o interessante desse tipo de filme é nos deixar ao mesmo tempo tristes, com um sentimento de perda vindo da empatia com o personagem, e também felizes, por estarmos vivenciando emoções, digamos, legítimas. De bônus, a bela trilha sonora de canções country.

segunda-feira, abril 19, 2010

O LIVRO DE ELI (The Book of Eli)



A expressão "nunca julgue o livro pela capa" já é bem popularizada, mas talvez a "não julgue o filme pelo trailer" deva ser mais difundida. Pra que exemplo melhor do que o de O LIVRO DE ELI (2010), filme que está em cartaz há cerca de um mês e que eu só fui ver agora, depois de comentários elogiosos dos amigos Renato Doho e Zezão? Sorte que o filme ainda permaneceu em cartaz um bom tempo, esperando o dia de eu vê-lo. E esse dia foi hoje. Queria muito ter podido escrever sobre o filme assim que terminei de vê-lo, no calor do entusiasmo, mas o dever me chamou e só agora estou podendo tecer algumas linhas a respeito.

Antes de mais nada, o que me incomodava tanto no trailer? Pra começar, a própria premissa. A ideia de um homem que sai perambulando por um mundo pós-apocalíptico com uma Bíblia debaixo do braço e sendo perseguido por sujeitos que querem o livro não me pareceu muito boa. Sem falar no jeitão Mad Max com fotografia à Tony Scott. Mas o que eu encontrei no trabalho dos irmãos Albert e Allen Hughes, sem dirigir desde DO INFERNO (2001), foi um elogio à fé, com uma coragem e uma beleza que eu não via há muito tempo. Falar sobre fé no cinema é um negócio sempre complicado e arriscado. E os irmãos, meio que para exorcizarem o título infernal da fraca adaptação da obra-prima de Alan Moore, apelam para o Cristianismo. Mas fazem isso de maneira tão bonita e respeitosa que só os mais cínicos talvez odeiem o filme.

Denzel Washington está perfeito numa caracterização meio que de super-herói. O cara enfrenta uma dezena de sujeitos armados e dá cabo dos caras sem fazer muito esforço. Se você começa a ver o filme e curte esse tipo de cena, vai fundo que o melhor está por vir. Aos poucos vamos sabendo o que aconteceu com o planeta, devastado e cujos poucos sobreviventes são assassinos ou mercenários, prontos para pegar qualquer coisa que possa ter algum valor. O personagem de Denzel segue numa missão de ir até o oeste, como fizeram os antigos colonizadores americanos, quando enfrentavam índios e a natureza selvagem para a expansão do território. Por isso, o filme também tem um aspecto de western.

Gary Oldman, continuando em forma fazendo papel de vilão, é o homem que quer usar o tal livro secreto para interesses próprios. Segundo ele, uma vez que ele estiver de posse do livro, logo ele se tornará muito poderoso. Não deixa de ser um aspecto paradoxal do filme, isso de enfocar o quanto os homens dominaram outros através das palavras da Bíblia. Para o bem e para o mal. Mas o filme não pretende fazer insinuações anticristãs. Tanto que a cena mais bonita é quando a personagem de Mila Kunis pergunta para o andarilho como era o mundo de antes. Ele diz que naquela época, as pessoas esbanjavam demais, não davam o devido valor às coisas. Outro momento bonito é quando ele pega as mãos dela para fazer uma oração de agradecimento pela comida. Os meus momentos favoritos são esses, mais intimistas, mas as cenas de ação também empolgam, o que faz com que o filme seja a melhor surpresa que eu já tive nos cinemas neste ano até o momento. Agradeçamos, então.

domingo, abril 18, 2010

AS MELHORES COISAS DO MUNDO



Que satisfação que é sair da sessão de AS MELHORES COISAS DO MUNDO (2010). São poucos os filmes brasileiros que lidam com os assuntos da adolescência com tanta propriedade e sensibilidade. Isso porque a diretora Laís Bodanzky e sua equipe tiveram o cuidado de pesquisar e entrevistar vários jovens da faixa de quinze anos, estudantes de escolas particulares e de classe média. Assim, ela conseguiu uma aproximação maior com o seu objeto de estudo. Afinal, falar de sua própria geração é fácil; procurar entender uma nova geração é que geralmente é difícil. Há em geral um abismo entre elas.

Há no filme o rapaz virgem e tímido que quer ficar com a menina mais popular da escola; a garota que se apaixona pelo professor; o menino que usa até de plágio para conquistar as meninas na cara de pau; o rapaz deprimido depois que leva um fora da namorada; a blogueira fofoqueira da escola. Todos eles mostrados com muito carinho pela diretora. Inclusive, os personagens mais críveis do filme são justamente os adolescentes. Os adultos em geral parecem um pouco deslocados do quadro geral. (Se bem que um dos momentos mais emocionantes do filme é a cena dos ovos na cozinha, com Denise Fraga.) Por mais que Paulo Vilhena e Caio Blat até sejam simpáticos e importantes na figura de professores inspiradores, com a bela intenção de dignificar a figura do professor, hoje em dia tão desvalorizada, o filme se torna mais verdadeiro mesmo quando mostra os feitos dos personagens mais jovens.

O mais importante da turma e eixo principal do filme é Mano (o estreante Francisco Miguez). Ele é o rapaz que logo no começo do filme não quer tirar a sua virgindade com uma prostituta. Ele pergunta ao irmão mais velho como é que foi a primeira vez dele. O problema para os dois irmãos vai começar de verdade com a separação dos pais e com a surpresa que ainda virá. Embora em alguns momentos sejam mostradas cenas de Pedro (Fiuk), irmão de Mano, digitando em seu blog quando está deprimido, o ponto de vista do filme, inclusive com direito a narração, é quase sempre de Mano. E Miguez está tão expressivo que quando ele fica feliz, nós ficamos também. Como na cena em que ele exibe um sorriso de felicidade em sua bicicleta, por um motivo que qualquer um ficaria.

Com relação ao desenvolvimento dos personagens, o mais fraco é Pedro, mas mesmo ele tem os seus bons momentos. Quem ganha a cena sempre que aparece é a garotinha que é a melhor amiga de Mano (a encantadora Gabriela Rocha). Os momentos dela com Mano estão entre os pontos altos e por mais que no final a gente já imagine um pouco o destino dos dois - meio clichê de filme de jovens americano - isso pouco importa. Pois em questão de minutos Laís Bodanzky já nos conquistou com seus personagens. O grau de afetividade que criamos com eles é semelhante ao que acontece com uma boa série de televisão. E a diretora consegue isso em bem menos tempo. Palmas para ela. E vamos ver se com a propaganda boca-a-boca o filme fica mais tempo em cartaz. Ele merece.

P.S.: Hoje foi o terceiro e último encontro com Ana Maria Bahiana em seu curso de apreciação fílmica em Fortaleza. Uma delícia, especialmente quando ela aborda a direção de câmera e a montagem. Sem falar na oportunidade que eu tive de conhecer pessoalmente alguém de quem sou leitor há cerca de vinte anos e que é uma simpatia.

sexta-feira, abril 16, 2010

OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE



Sei lá. Acho que não gostei muito do filme a partir do título. Que eu teimava em esquecer. Perguntavam o que eu tinha visto e eu não lembrava direito. De todo modo, não deixa de ser um filme que tem o seu interesse. Até por ser um objeto estranho na cinematografia nacional. Estranho também o fato de o filme entrar em cartaz, ainda que em circuito bastante restrito e visto por uns gatos pingados. Nem no circuito alternativo paulista o filme durou, tendo saído de cartaz hoje, pelo que eu ouvi falar. Uma produção independente com um elenco desconhecido e recebido com pouco entusiasmo pelo público e pela crítica não poderia ter outro destino mesmo.

OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE (2010) tem os seus momentos interessantes, mas me passou uma sensação de curta-metragem esticado. Esmir Filho, o diretor estreante em longa, já tem um belo currículo de curtas premiados que podem ser conferidos no Porta Curtas. A trama do longa é um pouco confusa e requer um pouco mais de disposição por parte do espectador. Até porque a intenção do diretor era mesmo fazer uma obra mais desligada do mundo material e mais próxima dos sonhos ou de viagens com drogas. Achei interessantes as sequências da ponte, que tem uma misteriosa força de atração que leva as pessoas ao suicídio. Mas senti falta de mais vitalidade, embora isso talvez seja proposital, para acentuar a melancolia e a falta de rumo dos personagens.

O protagonista é fã de Bob Dylan e usa "Mr. Tambourine Man" como nickname no MSN. Conversa com uma garota que usa o nick "Jingle Jangle". A propósito, é impressão minha ou a geração atual anda carente de ídolos contemporâneos da música? Dia desses, vendo o trailer de AS MELHORES COISAS DO MUNDO, vi que a canção de destaque é cantada por Arnaldo Antunes, meio que um ícone dos ano 80 e 90. No caso de OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE, há a identificação com Bob Dylan. Lembrando também que uma das jovens cantoras que mais apareceram na mídia nos últimos anos se destacou inicialmente pelo fato de gostar de Dylan e Johnny Cash. E eu que achava que a minha geração que era sem rumo.

quinta-feira, abril 15, 2010

CONTOS DE NOVA YORK (New York Stories)



Não estava nos meus planos rever CONTOS DE NOVA YORK (1989) tão cedo. Mas durante a agradável conversa lá na casa do Marcelo V., eu entrei com um comentário a respeito de "A Whiter Shade of Pale", o clássico da banda britânica Procol Harum. Aí o Vébis lembrou que a canção estava presente no segmento de Martin Scorsese do filme. E eu logo falei da minha vontade repentina de rever o filme. E acabou sendo o primeiro que vi em casa depois da viagem. Durante a revisão, continuei achando o segmento de Martin Scorsese espetacular, o de Francis Ford Coppola bem fraco e o do Woody Allen bem simpático. Não mudou muito o quanto eu gostava de cada um dos filmes, mas muda a forma de ver, já que eu fui conhecendo um pouco mais de cada cineasta. Aliás, por mais que esse tipo de projeto coletivo tenha sempre um resultado irregular, bem que poderiam fazer mais do tipo.

"Lições de Vida", o segmento de Martin Scorsese, continua maravilhoso. A canção-tema ajuda bastante a imprimir o grau de obsessão, paixão e entrega do personagem de Nick Nolte pela assistente vivida por Rosana Arquette. Quem já foi apaixonado por alguém e não foi correspondido não tem como não se identificar ao menos um pouco com a situação, por mais que incomode o fato de o pintor se sujeitar demais às vontades daquela garota que se sente dona da situação. Visto hoje, vejo "Lições de Vida" como mais um belo trabalho sobre obsessão e loucura que se tornou mais explícito em filmes recentes do cineasta, como O AVIADOR (2004) e ILHA DO MEDO (2010). E, por que não?, também em NO DIRECTION HOME – BOB DYLAN (2005). Aliás, tanto Bob Dylan quanto Rolling Stones comparecem na trilha sonora, quando Nolte pinta seus quadros de maneira frenética, quase vomitando a sua angústia, enquanto ouve suas canções favoritas com o som no talo. Alguns momentos são particularmente dolorosos, como quando, usando recursos da época do cinema mudo, Scorsese mostra o detalhe do belo pé de Rosana, ou quando o pintor olha para suas calcinhas. Eis um filme dilacerante.

"A Vida sem Zoe" é um dos trabalhos mais fracos da carreira de Coppola, mas que tem a sua cara. A valorização da família está em toda parte, desde os créditos, com roteiro coescrito por sua filha Sofia Coppola, trilha sonora do papai Carmine Coppola e participação de sua irmã Talia Shire, até o próprio enredo. O filme foi realizado meio que às pressas, enquanto o cineasta preparava O PODEROSO CHEFÃO – PARTE III (1990). A trama é meio bobinha, envolvendo uma garotinha rica, sua rotina de festas e sua relação com os pais separados. Há quem diga que é um filme subestimado.

"Édipo Arrasado" é um autêntico Woody Allen. Se ele já havia mostrado uma preferência por uma vida bem discreta e certo constrangimento quando sua vida é mostrada ao público – lembram da cena da banca de revistas em BANANAS (1971)? -, imagine quando toda a população de Nova York fica sabendo disso quando a cabeça de sua mãe desaparecida aparece no céu da cidade contando detalhes de sua vida e de sua infância, além de ficar o tempo todo dizendo o quanto não gosta da noiva do filho (Mia Farrow). Dá para notar o gosto de Allen por espetáculos de mágica, pois lembrei de filmes recentes como O ESCORPIÃO DE JADE (2001) e SCOOP – O GRANDE FURO (2006). A grande surpresa para mim foi ver Larry David numa participação pequena no filme. Acho que ele jamais preveria que seria protagonista de um filme de Allen – no novo TUDO PODE DAR CERTO (2009).

quarta-feira, abril 14, 2010

UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date Night)



Como pode pegarem Steve Carell e Tina Fey e fazerem uma comédia totalmente destituída de graça? Os astros de duas das séries cômicas mais populares, queridas e duradouras da televisão americana atual (THE OFFICE e 30 ROCK) se meteram num filminho vagabundo que fica atrás do episódio mais bobo de THE OFFICE. E olha que eles tinham até uma boa premissa, ainda que não exatamente original. SEINFELD, por exemplo, trabalhou com premissa parecida, no antológico episódio no qual Jerry e George se fazem passar por outras pessoas e vão parar numa limusine.

Em UMA NOITE FORA DE SÉRIE (2010), de Shawn Levy, Carrell e Fey são um casal vivendo um momento um pouco difícil porém bastante comum em qualquer relacionamento: o momento em que o tédio chega e quebra o encanto que antes havia. Até mesmo o esforço dos dois para saírem sempre uma vez por semana para jantar se transforma numa obrigação. Por isso o personagem de Carrell aproveita para fazer algo que jamais faria: pegar a vaga de um casal que não veio em um restaurante grã-fino e mega-concorrido em Manhattan, fazendo-se passar por eles. A confusão começa quando os dois são abordados por dois sujeitos que querem informações que eles não têm e estão envolvidos diretamente com a máfia.

Lembrei do quanto OS NORMAIS 2 – A NOITE MAIS MALUCA DE TODAS consegue ser muito mais engraçado sem fazer muito esforço. Isso porque estou nivelando por baixo, comparando com uma comédia meia-boca. Quer dizer, nem era preciso muita grana para fazer um filme minimamente engraçado, capaz de provocar pelo menos umas duas gargalhadas no espectador e fazê-lo voltar para casa um pouco mais leve. É o caso clássico de dinheiro não comprar tudo. Pode comprar a presença de dois astros fortes da comédia americana atual e ainda trazer coadjuvantes de luxo (Mark Wahlberg, Ray Liotta, James Franco), mas não pode enganar a mais ingênua das plateias. No final, nem os tradicionais erros de gravação, que às vezes costumam ser engraçados, despertam interesse. O negócio é sair de fininho e o mais rápido possível da sala de cinema, para não passar vergonha com as luzes acesas.

terça-feira, abril 13, 2010

ONDE VIVEM OS MONSTROS (Where the Wild Things Are)



Gostar ou não gostar de um filme depende de uma série de fatores. Pode ser o melhor western ou o melhor filme de kung fu, mas se o sujeito não gosta nenhum pouco desse tipo de filme, fica complicado. Não que seja impossível ele encontrar um exemplar que vá finalmente abrir os seus olhos para a beleza desses gêneros. Eu, ultimamente, não tenho gostado muito de filmes de fantasia. Acho que os últimos que vi e gostei foram os da trilogia O SENHOR DOS ANÉIS. Em geral, esses filmes me causam sono e desinteresse. Outra coisa: não sei se é a idade, mas tenho gostado mais de filmes de homens velhos em fim de carreira do que de crianças levadas.

Já dei dois motivos que meio que justificam o fato de eu não ter gostado tanto assim de ONDE VIVEM OS MONSTROS (2009), de Spike Jonze. Deixo claro, porém, que não nego as qualidades do filme, sua abordagem fora do convencional, suas belas imagens e sua sensibilidade no trato com a psicologia infantil. O filme mostra a necessidade de atenção da criança e o quanto ela se sente desprezada quando vê que os outros não ligam para ela. Até porque todo mundo tem o seu próprio mundo e os seus próprios problemas. Mas ter filho é saber que dar atenção à criança é uma obrigação que ela carregará por vários anos. No mínimo. Isso vale tanto para a mãe quanto para o pai.

Na trama, o garotinho Max (Max Records), indignado por não receber a devida atenção da mãe (Catherine Keener), dá uma de bad boy e acaba sendo perseguido por ela para levar uma surra. Num acesso de negação da realidade, que já se mostrava em seu mundo de faz de conta, ele pega um barco e vai parar numa ilha habitada por monstros. Mas monstros de filmes de criança ou como naqueles de desfile de blocos de carnaval. Chegando lá, ele tenta convencer os ingênuos monstros que ele já foi um rei e que tem superpoderes. Assim ele evita ser devorado por eles. Aos poucos, as máscaras vão caindo e é quando o filme vai ficando mais interessante e emocionante até.

Não pra mim, pra ser sincero. Mas assisti o filme junto com um grupo de amigos e uma de minhas amigas tem um filho adolescente que está morando longe dela. Foi inevitável ela não se identificar com a situação, sentir uma profunda saudade do filho – que estaria aniversariando em poucos dias -, e sabe-se lá o que mais passava pela sua cabeça. E ela chorou copiosamente. Quer dizer, no final, eu me emocionei com as emoções dela, com o mundo real, pois o filme não me pegou diretamente. O que me levou mais uma vez a pensar no quanto a identificação é importante – ainda que não essencial - para que se entenda uma obra de arte. Ou pelo menos, entenda-se por uma ótica própria. Afinal, apreciar um filme (ou qualquer outra manifestação artística) é uma experiência totalmente distinta para cada um de nós.

segunda-feira, abril 12, 2010

SAMPA 2010



Visão de Sampa do Apê do Michel, no momento em que cheguei; "jogo, mulher e bebida" (a bela japinha é a aniversariante, amiga do Michel); eu em frente à Pinacoteca.



Eu e Aguilar posando pra uma estátua "economizando figurinos"; a "vênus de milo" da Pinacoteca.



A intenção foi tirar foto da famosa Rua do Triunfo, da Boca do Lixo, mas a foto acabou ficando bem positiva (triunfo e vitória!); eu e Alê; eu, Alê e Michel num dos cafés mais agradáveis que eu já conheci.



Com Alê no restaurante vegetariano; no dia do encontro dos blogueiros cinéfilos: Alê, Michel e Chico; eu, Bruno e David.



Do outro lado da mesa: com Laura, Leandro e Aguilar; na foto do meio um grupo já conhecido; foto de Michel e Alê conversando no karaokê bar em momento de descontração.



Ainda no karaokê bar. Destaque para as performances de Michel e Ailton. Faltou eu tirar uma foto do Chico e do Gustavo cantando. :/



Mais duas fotos do karaokê bar: o rapaz da foto do meio, de branco, é o Gustavo, amigo do Chico; esse todo animado da terceira foto é o finlandês Saku. Gente fina. A do meio é a Estela, uma amigona do Michel.



Foto do pub irlandês tirada às cegas e com resultado interessante; a família sagrada do Aguilar (não ficou linda a foto?); com a honra e o privilégio de estar novamente ao lado do Carlão e perto do Vébis.


A decisão de ir a São Paulo depois de passados quase quatro anos sem pisar lá foi momentânea e fruto de uma vontade de fazer algo pra mim, de tirar umas férias que não fossem pra estudar ou ficar vendo poeira em reforma de quarto. Assim, eu meio que me forcei a ir a São Paulo. E como a ideia foi se tornando cada vez mais interessante, eu comecei a ficar cada dia mais animado. Era a chance que eu tinha de tornar as minhas férias memoráveis no sentido bom do termo, já que elas não começaram muito bem. Mas isso são águas passadas. O que eu vivencei durante essa semana que passou está entre os melhores dias da minha vida. E eu estou falando de coisas aparentemente simples, como encontrar amigos com afinidades. Na verdade, a viagem acabou se tornando uma jornada para ver e rever amigos queridos. Infelizmente não deu pra ver todos, por uma razão ou outra, mas outras oportunidades virão. O importante é que agora nossos laços estão mais estreitos. Passamos do espiritual para o físico e espiritual. E isso é importante, já que ainda estamos vivos! Um pequeno relato do que rolou durante os dias.

Terça-feira

O dia começou com atraso no voo. Era pra eu sair às cinco da matina e o avião quebrou ou algo assim e fui transferido para um voo das dez horas. Fiquei cansado de esperar e perambulava feito um zumbi por aquele aeroporto, mas no final deu tudo certo. Fiquei hospedado no apartamento do Michel, um amigão que eu considero um irmão que eu nunca tive. Sabe essas amizades que são para a vida toda? Pois é. Dei sorte de o Michel sair mais cedo do trabalho e aí fomos logo dar uma passeada. Estava bem frio e eu tratei de comprar pelo menos uma blusa para me aquecer num shopping. Depois, fomos para o aniversário de uma amiga dele no Itaim, onde eu experimentei o pior suco de tomate da minha vida. :) Mas era o primeiro dia ainda. O segundo dia é que começaria de verdade.

Quarta-feira

Acordei bem mais animado. A programação do dia era aproveitar a disponibilidade do chapa Eduardo Aguilar para que ele me apresentasse um pouco a cidade. Rolou uma programação cultural na Pinacoteca, que na parte ao lado trazia também uma mostra do Andy Warhol. Bem bacana. Claro que melhor do que o passeio era o papo com o Edu, que é sempre muito agradável. Eis um sujeito incrível e que está vivendo uma fase especialmente importante. Parece estar em estado de graça por causa de sua filhinha pequena. E ele passa essa alegria e paz de viver, que é muito importante e que ajuda a manter aquela vibe sempre positiva. Ah, uma coisa que eu não posso reclamar de São Paulo é do transporte público. Não fiquei mais de três minutos esperando ônibus e quando se chega no metrô, então, aí é que a coisa é rápida mesmo. O almoço do dia foi bem diferente pra mim: comida vegetariana. Gostei. Ficamos vendo no jornal qual filme poderíamos ver e o Aguilar ficou interessado no argentino que ganhou o Oscar de filme estrangeiro, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS, de Juan José Campanella. Eu estava interessado também, mas acabei gostando menos do filme do que esperava. O dia ainda reservava um encontro com Alê Marucci, uma garota que eu conheço há menos tempo do que dá a impressão. É como se nos conhecêssemos há muito tempo, tal a afinidade. Aguilar ficou matando tempo comigo até a hora de a Alê chegar, voltando do trabalho. Eu estava bem entusiasmado em vê-la pela primeira vez. E fomos comemorar isso num café super-aconchegante ali por perto da Paulista. Depois o Michel chega e o papo continua até perto da meia-noite.

Quinta-feira

Que bom que a Alê topa almoçar comigo. Aliás, a ideia até foi dela. Maravilha. De novo, comida vegetariana. Como o tempo era curto, não deu tempo de a gente conversar tanto, pois ela teria que voltar para o trabalho. Fiz uma sessão dupla com o brasileiro OS FAMOSOS E OS DUENDES DA MORTE, que me deu muito sono, e o oscarizado CORAÇAO LOUCO, que me levou às lágrimas. E chovia em Sampa. Mas isso não impediu que o grande encontro acontecesse. Na quinta estava marcado o maior encontro de cinéfilos blogueiros que eu já tive o prazer de encontrar. Além de Michel e Alê, compareceram: Aguilar (que abandonou a vida de blogueiro há um tempão, na verdade), o grande Leandro Caraça, a doutoura Laura Cánepa, o presidente da Liga dos Blogues, o simpatissíssimo Chico Fireman (ele existe mesmo! :)), Bruno Amato e o sumido David Medeiros. Aliás, não fui o único a pedir para que o David voltasse a escrever seus brilhantes textos. Também compareceu, mas teve que ir embora logo o Diego Maia. Me senti como um aniversariante, pulando de um lado para o outro da mesa para dar um pouco mais de atenção a cada um da turma, que pelo tamanho, seria difícil não ficar dividida nas conversas. Ah, e consegui uma cópia de AS FILHAS DO FOGO, do Khouri, com a Laura! Impressionante como o mundo é pequeno, já que ela é de Porto Alegre, conhece o Thomaz, o Milton e aquela turma toda, como também a minha amiga de Fortaleza, a Bia. A maior parte da turma, eu estava vendo ao vivo pela primeira vez. Claro que o papo principal era cinema, hein? A festa durou até perto da meia-noite também, mas algo ficou marcado para a noite de sexta.

Sexta-feira

O dia começou um pouco mais modorrento. A chuva estava deixando o clima um pouco melancólico. E eu estava mal acostumado, almoçando acompanhado todo dia. Foi o único dia em que eu almocei sozinho. Depois do almoço, outra sessão dupla: APROXIMAÇÃO, de Amos Gitai, e CASO 39, um horror genérico já comentado no blog. A animação da noite ficou por conta do karaokê organizado pelo Chico. Fomos eu, Michel, Alê, Chico e um amigo dele, Gustavo. E é de longe o karaokê mais legal que eu já vi. Chico já estava bem à vontade cantando em público. Michel também. Eu tive de vencer a timidez. Fiz feio com "New Year's Day", do U2 (foda imitar a voz do Bono, hein!), melhorei um pouco mais com "Let me kiss you" (Morrissey!!!!) e mandei bem melhor com "The KKK took my babe away", dos Ramones. Quase baixou o espírito do Joey na hora! :) E uma injeção de adrenalina me fez sentir como se eu estivesse com vinte anos novamente. Interessante que nesse karaokê rola pouca música brasileira. As mais tocadas são canções em inglês, depois em japonês, em seguida as brasileiras. Isso porque fica no bairro da Liberdade, reduto dos japoneses. Terminamos a noitada saboreando uma deliciosa fatia de pizza no Pedaço da Pizza, na Augusta. O dia já estava perto de amanhecer.

Sábado

Depois de acordar quase três da tarde (!), fui a um aniversário de um amigo do Michel (êta cara pra ter amigo aniversariando, hein!). Entrei quase de penetra na festa, mas o povo é muito legal. Tive a oportunidade de conhecer duas amigonas do Michel. E ainda treinei meu inglês conversando com um rapaz finlandês super-gente fina. À noite, pub irlandês. Tinha encontro com os queridos Marcelo V. e Ana Paul. Infelizmente, o Vébis não pôde comparecer. O lugar é legal, mas a banda que estava tocando era muito fraquinha e só tocava canções manjadas. Mas o lugar é cheio de menininhas lindas. Que obviamente não dariam bola pra mim. Como estava muito cheio, saímos e fomos pra um lugar mais tranquilo: tomar um sorvete no McDonalds. Nice!

Domingo

And last but not least, o domingo reservou mais alguns momentos saborosos. Talvez até tenha sido o dia mais prazeroso de todos. Durante o dia, almoçamos com Aguilar, esposa e filhinha. Uma gracinha a menina e a esposa dele é uma simpatia. Comida japonesa. Depois, mais papo no apartamento do Aguilar. Cada papo interessante. Cinema, religião, educação e até futebol! :) Mais tarde, encontro na casa do Marcelo V. pra uma pizza e uma sessão fechada de A VOLTA DO REGRESSO, seu famoso e premiado curta. Ganhei uma cópia, inclusive! Aguardem mais sobre o filme aqui no blog em breve. E além da Ana Paul, estava presente também o Vébis! Finalmente conheci essa pessoa fabulosa e única. Foi ele quem armou a visita ao apartamento do Carlão Reichenbach! Que pra mim foi um presente. Carlão, eu costumo dizer, é o motivo de tudo isso ter acontecido. De eu ter conhecido tanta gente legal de 2001 pra cá. Sem o Carlão, eu não teria conhecido ninguém dessa turma. Minha vida talvez fosse diferente. Menos interessante, eu diria. Sem falar que eu tenho um carinho imenso por ele. E ele adora conversar. E fico muito feliz, pois sei que ele curtiu muito a nossa visita. Desejo muita saúde e recuperação pro meu amigo e muitos grandes filmes e realizações pela frente! Pro seu prazer e para o nosso também. Ele contou histórias fantásticas envolvendo seus encontros com Cronenberg, Wim Wenders e Miike em festivais internacionais. Depois, quando saimos de lá, todo mundo estava morrendo de fome. Sorte que a pizza chegou rapidinho! E o papo continuou no apê do Marcelo. Puxa, mas foram muito gostosos esses momentos. Tem certas coisas que o dinheiro não compra. E a amizade é uma delas. Eu realmente me senti um sujeito afortunado. Meus amigos, quero deixar o meu muito obrigado, pois vocês tornaram uma semana que seria talvez rotineira e sem graça em momentos especiais. Foi bom demais!

P.S.: Cliquem nas fotos para verem maiores.

domingo, abril 11, 2010

CASO 39 (Case 39)



Não seria o filme que estaria nos meus planos ver. Mas o horário, a localização, a chuva e o compromisso com os amigos em poucas horas fez com que eu encarasse este CASO 39 (2009) como uma opção viável. E como eu gosto de filme de horror, mesmo os mais vagabundos, um a mais não faria mal. O filme, dirigido pelo cineasta alemão responsável também pelo recente PANDORUM (2009), Christian Alvart, me fez lembrar, na premissa, o bem superior A ÓRFÃ, de Jaume Collet-Serra, que também mostrava uma garotinha aparentemente inocente sendo adotada por uma família e causando estragos brutais. A diferença é que Alvart não tem um décimo da elegância de Collet-Serra e conduz um filme banal e cheio de clichês manjados. O filme nem serve para apavorar famílias dispostas a adotar crianças.

Na trama, Renée Zellweger (aqui, menos irritante do que em seus filmes anteriores) é uma assistente social que cuida de casos de famílias problemáticas, onde as crianças são frequentemente vítimas da violência dos pais. Ela é uma mulher solteira que se dedica bastante ao trabalho e se envolve tanto com seu ofício que até deixa de lado um pouco a vida pessoal/sentimental. Na visita de rotina que faz à família do mais recente caso que ela recebe, fica apavorada com o comportamento bizarro dos pais diante daquela criança de olhar inocente. Depois de salvar a menina de ser morta pelos pais, ela acaba por adotá-la. O resto já se pode imaginar, ainda que algumas surpresas, não necessariamente boas, surjam no decorrer da trama.

Aos poucos, o filme vai se assumindo como filme de horror, mas à medida que isso acontece, mais o filme vai caindo num buraco e tudo o que eu queria era que aquilo acabasse logo. Aliás, ainda que não seja exatamente um filme que aborreça – até tem um bom andamento narrativo -, é tão manjado e ainda conta com momentos de sustos totalmente toscos (o que é aquele bicho correndo no meio da rua?) que a impressão que se tem é que ele tem mais de duas horas de duração. Ainda assim, pode ser encarado como diversão despretensiosa. Entre os melhores momentos, estão as cenas de Zellweger com os pais da garota no hospício e os ataques que as vítimas da garota sofrem, especialmente a sequência de Ian McShane com o cachorro preto.

quinta-feira, abril 08, 2010

MINHA VIDA (My Life)



Ok, vamos ver se eu consigo escrever alguma coisa com as pontas dos dedos quase congeladas. Antes de mais nada, aproveito pra dizer que estou adorando estes dias em São Paulo, a carinhosa acolhida dos amigos, a hospitalidade do Michel, o companheirismo do Aguilar. E eu adoro a própria cidade. Identifico-me pra caramba com isso aqui. Mas o relatório completo da viagem, com direito a fotos, fica pra segunda ou terça-feira. O que eu vou tentar agora é atualizar o blog pra que ele não fique tão parado durante a semana e pra vocês não enjoarem da foto da Valérie Kaprisky aí abaixo. :)

Ontem estava num papo super-agradável num café aconchegante com a Alê e o Michel e em certa hora conversamos sobre filmes que fazem chorar. Nem lembro qual filme iniciou essa discussão, mas eu mencionei dois que são recordistas em derramamento de lágrimas pra mim. Um é OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM, de Tim Robbins; o outro é este MINHA VIDA (1993), único filme dirigido por Bruce Joel Rubin, roteirista de GHOST – DO OUTRO LADO DA VIDA (1990) e ALUCINAÇÕES DO PASSADO (1990). E acabei de ver no IMDB que ele também fez o roteiro do recente TE AMAREI PARA SEMPRE (2009).

A Alê não estava lembrando muito bem qual era o filme em questão e eu fui contar mais ou menos como era o enredo. E só de começar a contar já bateu logo uma vontade de chorar. Antes de me ver numa situação constrangedora, interrompi logo o relato. Até porque ela já havia lembrado. A primeira vez que vi o filme foi na época do lançamento, acho que em 93 ou 94, no extinto Cine Diogo. Foi um negócio tão intenso que eu comecei a chorar logo do começo e o choro só aumentava à medida que o filme se aproximava do lindo e triste final. Devo ter saído desidratado, com tanta perda de líquidos. :)

Na trama, Michael Keaton é um sujeito que tem tudo na vida para ser feliz. Um bom emprego, uma vida estável, uma mulher linda e carinhosa (Nicole Kidman), que está grávida de um filho seu. O grande problema é que ele está com câncer em estágio muito avançado, sem chance de tratamento. E ele começa a gravar vídeos para deixar para o filho, que não conhecerá o pai. Diante de situação tão dramática, ele gostaria pelo menos de contrariar a previsão dos médicos e conseguir estar vivo para ver o seu filho nascer. Tenta, inclusive, visitar uma espécie de curandeiro chinês, mas isso só o ajuda em algumas coisas. Há também o difícil relacionamento com os pais, que é outra situação que contribui para momentos de muita emoção, lá perto do final.

Sei que muita gente considera esse filme um melodrama vagabundo e eu até temia pensar assim também na revisão, mas o fato é que mesmo com a cópia toscamente dublada e fora de sincronia que eu baixei, não consegui me conter. Conheço gente que odeia esses melodramas sobre doenças, mas eu já vejo como uma grande oportunidade para agradecermos por cada momento de nossa vida. Por podermos andar, conversar, comunicar, sorrir, abraçar os amigos queridos, entre tantas outras coisas que a vida nos proporciona. Diante da tristeza, podemos celebrar a vida. Isso não é fantástico?

segunda-feira, abril 05, 2010

A MULHER PÚBLICA (La Femme Publique)



Impressionante como apenas algumas fotos ou pequenos clipes de um filme são suficientes para me deixar interessado. No caso, o objeto de atração é a presença estonteante de Valérie Kaprisky, que eu nem me lembrava que era a francesinha cheia de sex appeal do ótimo A FORÇA DO AMOR, de Jim McBride, lançado um ano antes deste A MULHER PÚBLICA (1984), de Andrzej Zulawski. Só mesmo a presença quase sempre nua ou com pouca roupa de Valérie para fazer com que eu chegasse até o final deste filme sem pé nem cabeça.

E olha que eu gosto de filmes cabeçudos. Sou fã de Khouri, Lynch, Brialy. Todos eles apelam vez ou outra para as sublimes formas femininas e para o erotismo, mas eles vão muito além disso, chegando a tangenciar o erotismo com a metafísica. Não é o caso de Zulawski. Pelo menos, não deste A MULHER PÚBLICA, segundo trabalho que vejo do diretor - o primeiro havia sido POSSESSÃO (1981). Claro que há muitas coisas interessantes. As tomadas da câmera perseguindo Valérie estão entre os melhores momentos do filme. Depois, claro, das cenas da moça dançando nua, com uma desenvoltura e uma graciosidade impressionantes.

É como se Zulawski fizesse o filme para ela. Pouco importa a trama. Pouco importa se faz sentido para ele ou para nós. Mas o mínimo que eu queria do filme era sentir. Mesmo sem entender. Não apenas sentir tesão ou algo próximo disso por causa das cenas de sexo, mas entrar em sintonia com o que o cineasta supostamente queria dizer.

Até fazer uma sinopse do filme se torna uma tarefa hercúlea. Vemos uma moça aspirante a atriz que conhece um sujeito cretino que é um dos manda-chuvas da produção. Há uma mistura com a situação política da época, envolvendo a crise no Líbano e ataques terroristas e outras situações ainda mais difíceis de entender, envolvendo os personagens, os dois homens que se envolvem física e afetivamente com a protagonista. Mas de que adianta pensar na trama se o que eclipsa tudo é o corpo maravilhoso de Valérie Kaprisky? É a sua sexualidade que transborda a tela e mexe com os corações e outros músculos do nosso corpo? É Valérie a razão de ser de A MULHER PÚBLICA. Sorte do diretor.

domingo, abril 04, 2010

MOEDA FALSA (T-Men)



Um dos filmes citados no documentário de Martin Scorsese sobre o cinema americano, MOEDA FALSA (1947), de Anthony Mann, é um belo exemplar do film noir, gênero que proliferou nas décadas de 1940 e 1950. O filme, inclusive, conta com a direção de fotografia de um dos mais importantes técnicos da época, John Alton. Um dos momentos mais impressionantes é destacado no doc de Scorsese: a cena em que um dos homens infiltrados no grupo de mafiosos vê o próprio amigo ser executado sem poder fazer nada. E nesse momento, ele abaixa a cabeça e a sombra do chapéu acentua ainda mais o clima tenebroso daquela situação.

O filme só não me agradou mais por ter personagens demais, o que às vezes me deixava confuso e com vontade de voltar a ver do começo, coisa que fiz a certa altura. E até que ajudou. Outra curiosidade é que MOEDA FALSA é uma espécie de filme de suspense disfarçado de filme de propaganda do governo, com o objetivo de exaltar o heroísmo daqueles que se sacrificam pelo país, ajudando também a manter a ordem, retirando de circulação as tais cédulas falsas. E com direito até àquelas marchas patrióticas.

O filme é claramente uma produção barata. Só na década seguinte que Anthony Mann se tornaria um cineasta de primeiro escalão, dirigindo filmes classe A com astros famosos - principalmente James Stewart. MOEDA FALSA foi o primeiro filme da fase anos 40 de Mann que eu vi. Não me entusiasmou o tanto que eu gostaria, mas talvez isso se deva ao fato de eu ter escolhido o filme errado para o momento. Portanto, não recomendo ver o filme quando se está com dificuldades de concentração e com o pensamento no mundo. O ideal é vê-lo com a mente afiada para prestar atenção em detalhes importantes e de natureza puramente cinematográfica. Que vão bem além da narração um tanto aborrecida que pontua o filme do início ao fim.

sábado, abril 03, 2010

CHICO XAVIER



Quando BEZERRA DE MENEZES estreou, de forma discreta, nos cinemas, mostrou que a temática espírita poderia ser uma nova galinha dos ovos de ouro. E se um filme apenas mediano e modesto como BEZERRA DE MENEZES conseguiu tal façanha, o que não faria uma produção dirigida pelo Midas do cinema brasileiro, Daniel Filho, e com um elenco gigante de figuras conhecidas que há tempos não se via nas telas? O resultado é CHICO XAVIER (2010), a cinebiografia do maior médium do Brasil, que estaria completando 100 anos se estivesse vivo. E como se já não bastassem as salas lotadas no primeiro final de semana de exibição, o trailer que abre o filme é o de uma adaptação de uma obra espírita psicografada por Chico Xavier, NOSSO LAR, que lida com a vida após a morte e deve levar muitos espíritas, simpatizantes e curiosos aos cinemas.

Quanto às qualidades artísticas de CHICO XAVIER, diria que é um bom trabalho, ainda que tenham faltado momentos realmente emocionantes. O próprio filme tenta explicar logo no início a impossibilidade de condensar uma vida inteira em apenas duas horas. Muito bom ter centrado a espinha dorsal do filme na histórica passagem de Chico Xavier por um programa da Tv Tupi, que pela primeira vez na história da televisão brasileira mostrou um médium psicografando. (Em certo momento, pareceu quase uma cópia da cena de Johnny Cash no Folson Prison no início de JOHNNY & JUNE.)

A escolha de Nelson Xavier para viver o médium na idade madura não poderia ser mais acertada. O ator que faz Chico criança (Matheus Costa) também está muito bem e Ângelo Antônio no papel dele jovem é o que mais tem momentos fracos. A cena do "Tome evangelho!" só pode ser encarada como alívio cômico. Ainda assim, não deixa de ser muito estranha e mal encenada.

O drama do casal Tony Ramos e Christiane Torloni, que segue em paralelo à trajetória da vida de Chico, é também interessante e tocante. Muito da força das cenas vêm do ótimo desempenho desses dois grandes intérpretes que incorporam a dor de um casal que perdeu um filho em um acidente envolvendo uma arma de fogo e que não consegue se conformar com o fato, mesmo já tendo recebido uma suposta carta do filho, psicografada por Chico Xavier.

O filme é fiel à maneira pacífica com que o médium tratava a todos, sempre com muito amor. Podiam muito bem atacar a igreja católica, por ser pouco tolerante com o cada vez maior número de pessoas que passaram a visitar Chico, em busca de conselhos espirituais ou comunicação com pessoas queridas falecidas. A infância de Chico está entre os melhores momentos do filme, seja mostrando a figura angelical da mãe (Letícia Sabatella), seja mostrando os maus tratos recebidos pela madrinha (Giulia Gam), que até furava o menino com garfos. Outra figura feminina adorável é a vivida por Giovanna Antonelli.

Nem sempre convencem as aparições do espírito-guia Emmanuel (André Dias), que parecem saídas de comédias americanas. O cinema brasileiro, em sua maioria, ainda não encontrou uma maneira de inserir o fantástico nas obras sem que pareça artificial ou até mesmo risível. De qualquer maneira, não chega a ser um problema assim tão grave. No geral, Daniel Filho tem o mérito de fazer um filme com cara de super-produção filmado em tempo relativamente curto e com resultados que vão além de uma mera novela transposta para as telas. Ainda assim, PRIMO BASÍLIO (2007) permanece sendo o seu melhor filme. E vem aí ROQUE SANTEIRO! Apesar da decepção nas bilheterias de LULA, O FILHO DO BRASIL, 2010 ainda promete ser o ano mais rentável para o cinema brasileiro em muito tempo.

sexta-feira, abril 02, 2010

THE SWEET SEX AND LOVE (Masitneun Sex Geurigo Sarang)



O cinema sul-coreano está cada vez mais sofisticado. O país tem produzido excelentes filmes de horror, policiais, comédias românticas e essas obras eróticas, mais ousadas, falando de sexo de maneira aberta. THE SWEET SEX AND LOVE (2003), de Bong Man-Dae, se enquadra nessa categoria. É um belo filme sobre uma história comum, de relacionamentos que começam bem, mas que eventualmente chegam ao seu fim. O diferencial está nos detalhes. Afinal, poucos filmes, principalmente os americanos, mais recatados, têm a coragem de expor detalhes da intimidade do casal, como a primeira experiência com sexo anal ou conversas mais íntimas envolvendo as zonas erógenas.

O filme conta com uma beleza plástica exemplar e é dividido em capítulos intitulados como "Desculpar-se com um pênis e perdoar com um orgasmo". E o bonito é que é um filme que romantiza o sexo como parte integrante do amor e não como algo separado e tabu. A última cena, por exemplo, dos dois no carro, na chuva, é belíssima. Ambos sabiam que aquela era a última vez, então fica um clima agridoce, uma dor no peito.

Mas antes disso é só festa. Sexo em lugares públicos, experimentações em casa, a experiência de morar junto, a necessidade de demonstrar afeto e mesmo algumas discussões acabam gerando uma boa química para um sexo ainda melhor, ligado às emoções. A moça (Kim Seo-hyeong) tem um belo corpo. Não tem aquele padrão de mulher gostosona do ocidente, com peitões e grandes quadris, mas o corpo é muito bem fotografado.

Apesar de bem liberal, o filme tem ainda algumas restrições, como não mostrar as genitálias, nem dele, nem dela. Na verdade, eu não sei se existe cinema pornô na Coréia do Sul. Mas dentro de suas restrições, eles são capazes de fazer trabalhos bem excitantes e ousados, como o memorável MENTIRAS, de Sun-Woo Jang, que lida com o complicado tema do sadomasoquismo.

quinta-feira, abril 01, 2010

A CAIXA (The Box)



Richard Kelly se tornou um cineasta cultuado já a partir de seu primeiro trabalho, DONNIE DARKO (2001), lançado no Brasil direto em vídeo. O trabalho seguinte, SOUTHLAND TALES (2006), teve o mesmo fim, mas dizem ser uma confusão dos diabos e tem poucos defensores. A CAIXA (2009) é a chance que temos de finalmente ver um filme de Kelly nos cinemas. E a experiência é mais do que válida. Na sessão que eu estava, havia um grupo de bagunceiros sem-noção que aparentemente estragariam a sessão. Mas logo todos no cinema estavam de olhos arregalados e caladinhos, diante daquela trama de horror e tragédia.

A trama de A CAIXA já foi contada num episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO da década de 1980, mas provavelmente muito foi modificado para a construção do longa-metragem. Inicialmente somos apresentados a uma família próspera e feliz. Um casal jovem e bem sucedido financeiramente (Cameron Diaz e James Marsden) vive uma vida tranquila ao lado do único filho adolescente. A cena de Dias deixando o filho na parada do ônibus escolar não é gratuita, nos ajuda a ver o amor que aquela mãe sente pelo filho e a harmonia familiar. Logo, porém, começamos a ver pequenas rachaduras nessa aparente felicidade. Afinal, todos temos dores. Diaz é professora e como ela costuma mancar, um de seus alunos pede para que ela mostre o seu pé. Ela retira as longas botas e a meia e mostra o pé mutilado, sem os dedos, devido a um acidente, enquanto o tal aluno ri de satisfação. Um riso diabólico, que veremos novamente ao longo do filme.

Problemas financeiros começam a surgir e isso é uma preparação para o início da trama principal. Um dia, a esposa recebe a visita de um homem misterioso (Frank Langella), um homem de rosto desfigurado. Ele deixa uma caixa com um botão vermelho. Explica a ela que se ela quiser apertar o botão, ganhará uma mala contendo um milhão de dólares, mas o preço para isso será a morte de alguém que ela não conhece, em qualquer lugar do mundo. Ela discute com o marido as possibilidades e num misto de tentação de Adão e Eva e questões éticas, o filme constrói o seu pesadelo lynchiano, onde o espectador se vê engolfinhado numa trama que vai se tornando cada vez mais complicada.

São vários os acertos do filme. Desde a bela reconstituição dos Estados Unidos do ano de 1976, com direito a uma fotografia que emula os tons amarelados e suaves da época, até o fato de nos fazer íntimos do casal e cúmplices dos seus atos e de suas tragédias. Tudo isso faz a diferença no impacto que a dramática conclusão nos reserva.

Destaque também para o memorável monólogo de Frank Langella, onde ele fala sobre a caixa como elemento presente na vida do homem, desde o seu nascimento até a sua morte. Claro que ainda falta um longo caminho para Kelly chegar à categoria de um David Lynch, mas a tendência é ele, cada vez mais, demonstrar um estilo próprio. Poucos filmes têm conseguido envolver a audiência de tal maneira com uma trama assim tão próxima do absurdo. E sem deixar tudo explicadinho. O próprio personagem de Langella diz em certa ocasião algo como: "eu gosto do mistério". Isso meio que justifica muitas escolhas.