quinta-feira, abril 01, 2010

A CAIXA (The Box)



Richard Kelly se tornou um cineasta cultuado já a partir de seu primeiro trabalho, DONNIE DARKO (2001), lançado no Brasil direto em vídeo. O trabalho seguinte, SOUTHLAND TALES (2006), teve o mesmo fim, mas dizem ser uma confusão dos diabos e tem poucos defensores. A CAIXA (2009) é a chance que temos de finalmente ver um filme de Kelly nos cinemas. E a experiência é mais do que válida. Na sessão que eu estava, havia um grupo de bagunceiros sem-noção que aparentemente estragariam a sessão. Mas logo todos no cinema estavam de olhos arregalados e caladinhos, diante daquela trama de horror e tragédia.

A trama de A CAIXA já foi contada num episódio de ALÉM DA IMAGINAÇÃO da década de 1980, mas provavelmente muito foi modificado para a construção do longa-metragem. Inicialmente somos apresentados a uma família próspera e feliz. Um casal jovem e bem sucedido financeiramente (Cameron Diaz e James Marsden) vive uma vida tranquila ao lado do único filho adolescente. A cena de Dias deixando o filho na parada do ônibus escolar não é gratuita, nos ajuda a ver o amor que aquela mãe sente pelo filho e a harmonia familiar. Logo, porém, começamos a ver pequenas rachaduras nessa aparente felicidade. Afinal, todos temos dores. Diaz é professora e como ela costuma mancar, um de seus alunos pede para que ela mostre o seu pé. Ela retira as longas botas e a meia e mostra o pé mutilado, sem os dedos, devido a um acidente, enquanto o tal aluno ri de satisfação. Um riso diabólico, que veremos novamente ao longo do filme.

Problemas financeiros começam a surgir e isso é uma preparação para o início da trama principal. Um dia, a esposa recebe a visita de um homem misterioso (Frank Langella), um homem de rosto desfigurado. Ele deixa uma caixa com um botão vermelho. Explica a ela que se ela quiser apertar o botão, ganhará uma mala contendo um milhão de dólares, mas o preço para isso será a morte de alguém que ela não conhece, em qualquer lugar do mundo. Ela discute com o marido as possibilidades e num misto de tentação de Adão e Eva e questões éticas, o filme constrói o seu pesadelo lynchiano, onde o espectador se vê engolfinhado numa trama que vai se tornando cada vez mais complicada.

São vários os acertos do filme. Desde a bela reconstituição dos Estados Unidos do ano de 1976, com direito a uma fotografia que emula os tons amarelados e suaves da época, até o fato de nos fazer íntimos do casal e cúmplices dos seus atos e de suas tragédias. Tudo isso faz a diferença no impacto que a dramática conclusão nos reserva.

Destaque também para o memorável monólogo de Frank Langella, onde ele fala sobre a caixa como elemento presente na vida do homem, desde o seu nascimento até a sua morte. Claro que ainda falta um longo caminho para Kelly chegar à categoria de um David Lynch, mas a tendência é ele, cada vez mais, demonstrar um estilo próprio. Poucos filmes têm conseguido envolver a audiência de tal maneira com uma trama assim tão próxima do absurdo. E sem deixar tudo explicadinho. O próprio personagem de Langella diz em certa ocasião algo como: "eu gosto do mistério". Isso meio que justifica muitas escolhas.

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