sexta-feira, agosto 28, 2009

A PADEIRA DO BAIRRO (La Boulangère de Monceau)



Ontem foi um daqueles dias em que tudo deu errado pra mim. Sentia como se o meu coração pesasse uma tonelada. Hoje, apesar de ter fechado um ciclo de forma não tão positiva, levando em consideração os meus desejos, sinto que estou pronto para seguir em frente. Uma coisa que eu aprendi com a vida é que não adianta muito a gente espernear e querer que as coisas aconteçam do jeito que a gente quer. É o destino que trata de cumprir. E muitas vezes não nos resta nada a fazer a não ser aceitar, descarregar a raiva e as frustrações de uma maneira que não vá prejudicar ninguém, levantar a cabeça e seguir. E são nesses momentos que esses filmes aparentemente leves mas cheios de profundidade filosófica e existencial dirigidos por Eric Rohmer servem como consolo. Pelo menos, acalma um pouco o espírito ver pessoas também passando por situações mais ou menos parecidas com a minha. E o mais importante: tratados com sensibilidade.

A PADEIRA DO BAIRRO (1963), primeiro título do ciclo "Seis Contos Morais", é um delicioso curta-metragem de pouco mais de vinte minutos que conta a história de um rapaz, interpretado pelo jovem e futuro cineasta Barbert Schroeder, que tem obsessão por uma jovem de nome Sylvie. Ele sempre cruza com ela pela rua e os dois trocam olhares, mas ele acredita que ela não é uma garota que vá se deixar ser abordada na rua. Ele espera então pelo momento ideal. Que acaba acontecendo um dia. Ele aproveita a oportunidade de ouro para convidá-la para um café. Ela diz que naquele momento não pode, mas que eles poderiam combinar para um outro dia, já que eles estavam sempre se vendo na rua. O rapaz, obviamente, fica muito feliz. Mas passam-se dias e dias e a garota simplesmente desaparece. Angustiado, ele caminha pelas ruas e inicia o hábito de comprar doces numa padaria do bairro. E é lá que ele encontra a personagem-título. A moça começa a achar que ele está interessado nela e ele tem sentimentos conflitantes em relação a isso, já que o interesse dele por ela é meramente para jogar um charme e meio que se vingar da sumida Sylvie.

O barato dos filmes de Rohmer é que seus personagens têm uma densidade próxima da vida real. Inclusive, na maneira às vezes contraditória de agir. Em certa altura do filme, o protagonista se mostra cínico e racional em relação à jovem padeira. O fato de ele não estar apaixonado por ela facilita e muito a aproximação, já que ele pode agir friamente e exercitar a sua capacidade de conquistar uma garota para massagear o ego e dar tempero à vida. Além do mais, como ele próprio confidenciou em voz-off, sair com ela seria uma alternativa para fugir da solidão. E isso é perfeitamente natural e diria que acontece até mais vezes do que encontros baseados em paixão, esse sentimento tão desgastante. Em geral, as pessoas ficam juntas porque necessitam de estar com alguém, por pura carência afetiva. E às vezes há reciprocidade nesse sentimento, embora haja sempre o risco de que um dos dois gostará mais do outro. Esse tipo de relação não deixa de ser perigosa e de causar alguns danos no coração do outro, mas evitá-los seria um erro.

E o interessante do final do curta de Rohmer é que ele consegue ser, apesar do final feliz, bem realista. Diferente, por exemplo, do que ocorre em CONTO DE INVERNO (1992), que é quase um conto de fadas na maneira como lida com o tema da alma gêmea. O mesmo talvez possa ser dito de O RAIO VERDE (1986). Deixando claro que eu adoro ambos os filmes. O fato é que Rohmer, cada vez mais, está no topo dos meus mais queridos cineastas. Desses que falam ao nosso coração com uma sabedoria única.