sexta-feira, agosto 14, 2009

LA JETÉE



A fim de manter o blog atualizado, com frequência recorro a filmes curtos. Se não fosse por isso, talvez não tivesse priorizado a apreciação de LA JETÉE (1962), o curta-metragem vanguardista de Chris Marker. Que eu acho que vi num momento não muito adequado. Estava inquieto e disperso demais ontem. Ainda bem que o filme é curto e quando percebi que estava me perdendo, voltei e comecei a ver do começo. Aliás, rever LA JETÉE é fundamental para melhor compreensão e apreciação. Não apenas porque o filme trata de viagens no tempo, que mexem com o lado mais racional do nosso cérebro, mas também porque o filme de Marker tem uma poesia toda própria. E merece ser visto com um estado de espírito próprio de quem lê (ou vê) poesia.

O fato de eu ser fã de VINIL VERDE, de Kléber Mendonça Filho, foi um dos motivos para eu ter me interessado pela cultuada obra de Marker. Ambos os filmes utilizam fotografias para contar uma história. E ambos também se utilizam de uma voz-off com frequentes pausas para que os silêncios auxiliem na construção de uma atmosfera de mistério. O silêncio também pode ser visto como um meio de respiração do filme. Embora não seja mencionado em nenhum texto que li a respeito, LA JETÉE também me lembrou os dois primeiros trabalhos de David Cronenberg, STEREO e CRIMES OF THE FUTURE. Não ficaria surpreso se Cronenberg, de alguma maneira, tivesse sofrido influência do filme de Marker para elaboração de seus trabalhos mais experimentais.

Outros dois filmes que se conectam no passado e no futuro com LA JETÉE são UM CORPO QUE CAI, de Alfred Hitchcock, e OS 12 MACACOS, de Terry Gilliam. A obra-prima de Hitchcock foi o catalizador para a criação do filme de Marker. Já o filme de Gilliam buscou inspiração na trama do sujeito que vem do futuro pós-apocalíptico para o passado (ou presente). E conexão com passado e futuro é o eixo do filme. Na trama, depois de o planeta ser devastado por uma bomba nuclear, alguns sobreviventes moram nos subterrâneos das cidades. Entre eles, cientistas que usam prisioneiros de guerra como cobaias de experimentos de viagem no tempo. A salvação não podia estar em nenhum lugar do espaço. O tempo era a única saída. Depois de ter matado uns e enlouquecido outros, os cientistas são bem sucedidos ao conseguir enviar um homem para o passado. Lá, ele se apaixona por uma mulher e experimenta a beleza da natureza, da vida, dos animais, dos museus e do amor.

O final do filme deixa a gente sem chão, sem saber direito o que pensar. A vantagem de se ver em DVD e não em cinema é poder rever o quanto se quiser, mas imagino o quanto deve ser rica a apreciação na telona. É o tipo de filme que também cresce com o tempo na memória. E, curiosamente, boa parte de minha memória também é construída de fotografias. Tenho algumas delas guardadas com carinho. Coisas que o cérebro é capaz de fazer quando a emoção está em jogo para tornar aquele evento especial.

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