quarta-feira, agosto 12, 2009

AMAR FOI MINHA RUÍNA (Leave her to Heaven)



Adoro estes títulos nacionais antigos. Mas nem sempre eles são felizes em resumir o tema principal do filme. AMAR FOI MINHA RUÍNA (1945), por exemplo, dá a entender que se trata de um filme de dor-de-cotovelo, desses bem carregados de dramaticidade, talvez com um protagonista que afoga as mágoas no álcool. Mas não é bem o caso. O clássico de John M. Stahl se aproxima mais do horror do que do melodrama em sua trama sobre uma mulher que tem um ciúme tão intenso que consome não só a si mesma e ao parceiro, mas a todos ao seu redor. Aliás, AMAR FOI MINHA RUÍNA é um dos filmes mais difíceis de se classificar, coisa que pode ser considerada um mérito. Se é uma história de amor, é uma daquelas bem tortas e bizarras. Do ponto de vista da mulher, é a história de um amor possessivo demais, intenso demais. Do ponto de vista do homem, é o horror de viver ao lado de alguém que é capaz de matar por ciúme.

Para os fãs de Vincent Price, o ator aparece jovem, bem diferente do que acostumamos a ver nos filmes de horror que ele protagonizou nos anos 60 e 70. Na cena do tribunal, porém, ele já apresenta aquela persona toda própria, quase um vilão no modo como tenta derrubar o réu. Mas quem brilha mesmo no filme é Gene Tierney, a atriz que já havia ganhado uma aura de mistério na obra-prima LAURA, de Otto Preminger. Aqui, a fotografia em technicolor destaca os seus olhos verdes, que acentuam o aspecto felino de seu rosto.

AMAR FOI MINHA RUÍNA tem início numa sequência no trem, quando a personagem de Gene Tierney conhece o jovem escritor vivido por Cornel Wilde e fica o encarando, achando-o parecido com o seu falecido pai. Como ambos desembarcam na mesma cidade e suas famílias já se conhecem, ele acaba por se hospedar na casa da família dela. A relação que se forma é tão intensa que logo eles se casam. Mas o sujeito não imaginava que estava entrando numa fria e o tempo começa a fechar mesmo quando o casal vai passar uma temporada num chalé distante da cidade e ele leva junto o jovem irmão paralítico. Não demora muito para ela querer se livrar do menino, numa das cenas mais impactantes do filme, num lago.

Aliás, a cena é destacada por Martin Scorsese no livro (e no filme) "Uma Viagem Pessoal pelo Cinema Americano". Acabei de receber o livro pelo correio e tem uma foto grande de duas páginas da Gene Tierney no barco, segurando os óculos escuros. Scorsese descreve Tierney no filme como uma mulher com "um rosto de anjo com o mais sombrio dos corações". E destaca o híbrido fascinante que é o do film noir em cores. A produção também é vista como um dos últimos representantes da era dos estúdios, com produção de David O. Selznick.

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