domingo, novembro 03, 2013

UMA NOITE DE CRIME (The Purge)



Procurando pelo histórico do diretor James DeMonaco no IMDB não deixa de ser uma surpresa e ao mesmo tempo algo lógico o fato de ele ter sido roteirista dos filmes A NEGOCIAÇÃO (1998) e ASSALTO À 13ª D.P. (2005), dois filmes que se caracterizam pela tensão, ainda que em perspectivas diferentes. Mas em ambos há sempre alguém do lado de fora forçando uma situação com alguém que está no interior.

Não chega a ser algo novo. Pode ser visto no terceiro ato de ONDE COMEÇA O INFERNO, de Howard Hawks, e repercutir em outros dois filmes do próprio Hawks e em trabalhos de John Carpenter, como a primeira versão de ASSALTO À 13ª D.P. ou mesmo FANTASMAS DE MARTE. Mas o filme que mais encontra paralelo com UMA NOITE DE CRIME (2013), de DeMonaco, é mesmo SOB O DOMÍNIO DO MEDO. Pensemos na versão de Sam Peckinpah, e não no remake fajuto e que passou batido até.

É possível ver UMA NOITE DE CRIME como uma espécie de variação de SOB O DOMÍNIO DO MEDO, mas que parte de uma premissa diferente e interessante: a de que, no futuro, o Governo dos Estados Unidos, a fim de conter os crimes cada vez mais alarmantes, resolve deixar uma noite em que todo e qualquer crime é permitido, das 7 da noite até as 7 da manhã. Assim, fica a critério da população sair às ruas para matar ou roubar ou ficar trancafiado em sua casa a fim de sobreviver àquela noite.

"Purge", no título original, significa "expurgo", "limpeza". Assim, o ato de matar aquela pessoa que você odeia e alimentou o ódio durante o ano inteiro é uma maneira de expurgar aquele sentimento. O curioso é que a noção de pecado ou de moral fica totalmente deixada pra trás, uma vez que a lei permite aquela abominação. Nos noticiários, a noite é tida como algo bem-sucedido e um bem para a sociedade, já que coisas como essa ficam restritas apenas àquela noite especificamente.

Na trama, James Sandin, o personagem de Ethan Hawke, é um pai de família que construiu um sistema de segurança tão bom que acabou sendo adquirido por toda a vizinhança. Lena Headey (a Cersei de GAME OF THRONES, cada vez mais presente em produções cinematográficas) é sua esposa. E na casa há dois filhos adolescentes. Um deles, o garoto, com seu cabelo comprido, tem uma aparência quase andrógina. Esse detalhe pode não ser gratuito, já que no final do filme podemos inferir que esse mundo cheio de ódio e guerra foi construído pelos homens, com as mulheres tentando trazer a paz, não aceitando a crueldade e a frieza imposta pelas leis. Isso pode soar um tanto simplista e até sexista, mas é algo a se pensar.

Falando no garoto adolescente, é dele a resolução de colocar para dentro de casa um rapaz sem teto que está sendo perseguido por um grupo de "expurgadores". Assim, é a partir desse sentimento de solidariedade perante a vida do outro que a trama de UMA NOITE DE CRIME toma forma. Pena que o filme deixe um pouco a desejar na construção de uma atmosfera de suspense. A turma de jovens que fica do lado de fora da casa exigindo a devolução do rapaz negro não é tão ameaçadora assim.

Provavelmente isso se deve à pouca capacidade do diretor em saber construir esse tipo de tensão, mesmo com algumas surpresas que acontecem com o desenrolar da trama. É só pensar em SOB O DOMÍNIO DO MEDO, do Peckinpah, e das duas versões de ASSALTO À 13ª D.P. para ver que muito melhor já foi feito para deixar o espectador com os nervos à flor da pele. O que DeMonaco fez foi pouco nesse sentido. O que há de interessante é justamente a discussão sobre moral que o filme traz.

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