quarta-feira, novembro 20, 2013

TATUAGEM

 

Uma das coisas que mais fazem falta no cinema brasileiro contemporâneo é a ousadia, a capacidade de causar incômodo ao público mais conservador. Que nem era assim tão conservador nas décadas de 1970 e 1980. Felizmente ainda temos Julio Bressane, remanescente do Cinema Marginal e que ainda utiliza o sexo e a sensualidade em seus filmes sem medo de ser feliz, como fez em CLEÓPATRA e A ERVA DO RATO. Mesmo obras que tratam do assunto, como BRUNA SURFISTINHA, são bem comportadas, utilizando o sexo apenas como necessidade para a narrativa.

A exceção vem de Pernambuco, com o trabalho de Cláudio Assis, embora em seus filmes o sexo seja na maior parte das vezes sujo e perturbador. Mas é bom destacar que AMARELO MANGA (2002), BAIXIO DAS BESTAS (2006) e A FEBRE DO RATO (2011), todos de Assis, foram roteirizados por Hilton Lacerda, que agora estreia na direção de longas-metragens de ficção com o premiado TATUAGEM (2013), filme tão atrevido quanto os trabalhos de Assis, mas com menos violência e mais amor.

Amor é uma das palavras de ordem deste filme que trata sobre um relacionamento homoafetivo na década de 1970, durante o regime militar. TATUAGEM acompanha um grupo de artistas itinerantes que se apresentam de maneira ousada, boa parte deles travestidos e formados por gays. O líder do grupo denominado "Chão de Estrelas" é Clécio, vivido por Irandhir Santos.

Em meio àquele mundo estranho para os olhos da grande maioria, surge um jovem soldado que se torna a menina dos olhos de Clécio, Fininha, vivido por Jesuíta Barbosa. Os dois se apaixonam mas têm de lidar com o fato de que Fininha, por ser militar, pode ser considerado um espião por parte do grupo. Vale destacar também a família de Clécio: ele tem um filho com uma mulher e ambos continuam sendo bons amigos, além de o garoto gostar de frequentar o Chão de Estrelas.

As cenas de sexo são ousadas, remetendo a A LEI DO DESEJO, de Pedro Almodóvar. Pode até não ter sido intenção de Lacerda emular Almodóvar, mas é o que mais se aproxima de seu cinema em se tratando de filmes que chegam a um público maior. Tanto que, já neste primeiro trabalho, assim como o cineasta espanhol, Lacerda consegue fugir do gueto de "filme gay", ampliando o tema do seu filme, que trata, acima de tudo, de liberdade.

O momento de maior graça do filme, e provavelmente sua sequência mais memorável, é a cena da "Polka do Cu", que elege esta parte do corpo humano que todo mundo tem como instrumento libertário, de provocação e transgressão. Mas a música está presente também de maneira mais romântica, por exemplo, em "Volta", cantada por Johnny Hooker; a versão de "Esse cara", de Caetano Veloso, cantada por Irandhir; "A Noite de Meu Bem", de Dolores Duran, tocada na primeira dança do casal de protagonistas, entre outras canções selecionadas e/ou compostas por DJ Dolores.

Para finalizar, gostaria de destacar o fantástico desempenho de Irandhir Santos no papel de Clécio. Ator de primeira grandeza que já havia brilhado como o ativista político de TROPA DE ELITE 2, de José Padilha; o poeta febril de A FEBRE DO RATO, de Cláudio Assis; e o enigmático vigilante de rua de O SOM AO REDOR, de Kleber Mendonça Filho; em TATUAGEM ele imprime uma atuação tão intensa que, se por acaso há uma distância de excelência entre ele e os demais atores, é porque Irandhir chegou a um momento de sua carreira que fica difícil até superar a si mesmo.

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