sábado, novembro 02, 2013

DEPOIS DE MAIO (Après Mai)



Cineasta da globalização, do rock, da inquietude, Olivier Assayas retorna ao tema da juventude de sua época, iniciado em ÁGUA FRIA (1994). Inclusive, em DEPOIS DE MAIO (2012), Assayas apresenta sequências bem semelhantes às mostradas em seu filme-irmão, como as cenas de destruição juvenil em uma festa. Os jovens do novo filme são os continuadores daqueles que fizeram História em maio de 1968, em Paris, e estão antenados com o que está acontecendo no mundo, como pode se inferir com a cena em que Gilles, o protagonista, vivido por Clément Métayer, compra vários jornais em uma banca.

Gilles é pintor, apreciador de um bom rock (no filme ouvimos Soft Machine, Syd Barret, Nick Drake, entre outros), sabe criticar até mesmo escritores de prestígio e acaba por enveredar pela indústria do cinema, o que faz com que o tenhamos como um alter-ego de Assayas. Como ele, os outros jovens apresentados em DEPOIS DE MAIO não são muito diferentes de tantos outros com ideias anarquistas e/ou revolucionárias daquela época em que se debatiam alternativas para o sistema político vigente.

Providencial o filme estrear em um momento em que o Brasil e boa parte do mundo estão vivendo tensões políticas e sociais que contrariam a ideia de que vivemos o fim das utopias. Na verdade, elas renascem em diferentes gerações, a partir de uma vontade de mudanças. DEPOIS DE MAIO, porém, não é só um filme sobre jovens fugindo da polícia, pichando muros, respirando gás lacrimogêneo e distribuindo jornais militantes. Assayas também traz à tona discussões sobre o embate entre política e arte.

Outro tema em destaque é a angústia dos jovens, que vivem momentos decisivos em suas vidas. Aqui, no caso, é oferecida a eles uma pluralidade de opções, de profissões,de lugares para ir, no mundo globalizado do diretor. "Viver o presente ou se preparar para o futuro?" é uma pergunta que surge em uma conversa entre Gilles e um de seus interesses amorosos, Laure (Carole Combs).

Falando em personagens, curioso notar que alguns membros da turma de Gilles não despertam o mesmo interesse do espectador, como é o caso do amigo pintor e sua namorada, estudante de danças orientais. Mas esse é um problema natural em um filme que escolhe não se prender apenas a uma única história. Nesse sentido, Christine, a personagem de Lola Créton, é uma das mais interessantes.

DEPOIS DE MAIO oferece uma excitação, muitas vezes associada à trilha sonora rock e a seus agregados, como o sexo e as drogas, mas sem nunca deixar de ser um filme que provoca reflexões sobre a vida, a arte, a política, o amor e as escolhas.

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