segunda-feira, novembro 25, 2013

A CAÇA (Jagten)



A trajetória de Lucas, vivido com sensibilidade por Mads Mikkelsen, muito se parece com uma via-crúcis, já que sabemos de sua inocência. Em A CAÇA (2012), ele é um professor de jardim de infância que mora sozinho em uma pequena cidade, depois de ter se divorciado da mulher e tanto querer a guarda do filho, que prefere ficar com ele do que a com mãe. Ao mesmo tempo em que essa realidade passa a ser possível, ele começa um romance com uma das funcionárias da escolinha.

Porém, sua vida fica de pernas pro ar quando ele é acusado de pedofilia por causa da mentira de uma garotinha, que, tendo um sentimento confuso por aquele homem gentil, fica magoada quando ele lhe dá uma admoestação. Se tempos atrás uma acusação desse tipo não era tão considerada, nos dias de hoje, ser acusado de pedófilo é algo mais grave e doentio para a sociedade do que ser acusado de homicídio. O filme também leva em consideração a teoria de que crianças não mentem, principalmente no que concerne a esse tipo de assunto.

Uma das qualidades de A CAÇA é nos colocar nos sapatos de Lucas, fazer-nos ficar impotentes diante da situação, entender o seu momento de reclusão imposta pela sociedade e por ele mesmo, e torcer quando ele resolve ir à luta pelos seus direitos. A cena da briga no mercadinho é um dos momentos mais empolgantes do filme. Uma cena que é superada pela da igreja.

É neste momento que sentimos um pouco do Thomas Vinterberg de FESTA DE FAMÍLIA (1998), e vemos o quanto o diretor é bom em lidar com temas familiares, em especial os grandes e perturbadores atritos. Mas se em FESTA DE FAMÍLIA havia um olhar mais ácido para com aquela família, em A CAÇA, o que vemos é um carinho muito especial pelos personagens. Até mesmo pela garotinha, que até tenta voltar atrás com a história que mudou a vida daquele homem.

A figura de mártir de Mikkelsen certamente vai ficar guardada na memória dos espectadores ao saírem da sessão. E o ator que ficou famoso por viver alguns vilões do cinema e da televisão transforma-se em um homem bom, daqueles de quem gostaríamos de ser amigos. E como ele representa uma vítima do medo de nossa sociedade, podemos até nos sentir um pouco como culpados.

Como o Cristianismo, A CAÇA consegue dar um jeito de nos culpar pelo que aconteceu àquele homem bom, ao mesmo tempo em que nos passa sentimentos de solidariedade com sua dolorosa situação. Por isso não é nenhum exagero comparar o trabalho de Vinterberg a duas grandes obras de mártires de Mel Gibson: CORAÇÃO VALENTE e A PAIXÃO DE CRISTO. Embora a comparação deva guardar as devidas proporções.

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