domingo, novembro 10, 2013

EU NASCI, MAS/EU NASCI, PORÉM/MENINOS DE TÓQUIO (Otona no Miru Ehon - Umarete wa Mita Keredo)



Muito interessante a classificação que o historiador de cinema Mark Cousins faz dos estilos utilizados por diversos cineastas ou cinematografias. Ele questiona, por exemplo, chamarem de "clássico" o cinema que se fazia em Hollywood no período anterior ao advento da contracultura. Segundo ele, nada daquilo é clássico, no sentido equilibrado do termo. Ao invés disso, ele prefere chamar de "realismo romântico fechado". Clássico, para ele, é o cinema de Yasujiro Ozu. Esse sim é um exemplo perfeito do termo. Por esse e por outros motivos o cineasta japonês recebe um número generoso de páginas do livro História do Cinema.

No referido livro, EU NASCI, MAS (1932), ou qualquer dos três títulos que o filme possui aqui no Brasil, é considerado o primeiro grande filme de Ozu, seu primeiro sucesso de bilheteria e seu ponto de partida para um estilo e uma temática que ele seguiria a partir de então. Um dos detalhes curiosos sobre Ozu é o fato de ele nunca ter casado e, no entanto, ter uma preferência por adotar temas sobre famílias, relacionamentos entre pais e filhos etc. Pelo menos é o que eu já li a respeito, já que EU NASCI, MAS foi o primeiro trabalho de Ozu a que tive contato. Eu e minha resistência besta aos filmes japoneses...

Em EU NASCI, MAS, dois garotos mudam de escola e têm de lidar com o bullying dos outros meninos metidos a valentões. Por causa disso, eles têm medo de ir até a escola, já que os garotos são muitos e andam em gangue. Assim, nos primeiros dias eles faltam à escola, e até inventam um trabalho de caligrafia para enganar os pais. O pai, inclusive, é o exemplo de pessoa extremamente respeitosa para esses meninos. E, de fato, a imagem que o pai passa no filme é de um homem honrado casado com uma esposa também honrada, ambos cheios de uma serenidade que pouco ou nada se vê no cinema ocidental.

O que justamente quebra essa serenidade no lar é o comportamento dos garotos quando descobrem que o pai é subserviente ao pai de um de seus colegas, isto é, ao seu patrão. Para eles, ver o pai sério desempenhar papel de palhaço em filmes projetados é extremamente desapontador. Daí a entenderem o que é ser uma pessoa importante, a necessidade do dinheiro para o sustento do lar etc., isso demora um pouco. Mas são justamente esses momentos finais que reservam as cenas mais tocantes do filme. E por mais que Ozu seja contido nos sentimentos, esses momentos de reconciliação são capazes de nos deixar com os olhos marejados.

Vale destacar também a beleza da narrativa do filme, que poderia ser falado, mas naquela época a indústria cinematográfica japonesa rejeitou o quanto pôde os filmes falados. Mas por isso mesmo havia um domínio narrativo de dar gosto no trabalho dos melhores cineastas. E com um diferencial de destaque no cinema de Ozu: o uso da câmera na altura do umbigo. Não se trata aqui do ponto de vista das crianças, como nos desenhos de Charlie Brown, já que mesmo quando as crianças estão numa posição mais alta, a câmera os mostra de baixo pra cima. Enfim, é um detalhe importante que, para Cousins, é comparável ao Estudo de Proporções, de Leonardo Da Vinci. Provavelmente escreva mais sobre essa característica do cinema de Ozu na apreciação de demais filmes do mestre.

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