domingo, agosto 25, 2013

SEM DOR, SEM GANHO (Pain & Gain)



A primeira coisa que pode ser dita sobre SEM DOR, SEM GANHO (2013) é o fato de ser o primeiro filme de Michael Bay digno de ser chamado de ótimo, embora essa afirmativa seja questionável. Como toda afirmativa assim tão incisiva o é. Mas, enfim, o que vale destacar é o fato de sair da sessão de um filme desse diretor entusiasmado e satisfeito. As principais referências são os trabalhos de Oliver Stone e Quentin Tarantino, nos anos 1990.

A fotografia emula o colorido da época, com a história se passando na ensolarada Flórida. A história, baseada em fatos reais, é também carregada de humor, o que torna um pouco mais leves sequências bem violentas. É mais ou menos como a cena do tiro que sai por acidente dentro de um carro em PULP FICTION, de Tarantino. Você sabe que aquilo ali é muito sangrento e violento, mas não consegue parar de rir. Em SEM DOR, SEM GANHO, o elemento mais representativo desse humor negro é a cena do churrasco.

A trama envolve um grupo de fisiculturistas que articulam o sequestro de um milionário e acabam por complicar as suas vidas. Mas antes disso, o filme faz uma bela crítica ao American way of life, à necessidade de ser forte (ou exageradamente forte, a ponto de prejudicar até mesmo a potência sexual) e de ser rico naquele país das oportunidades. Porém, para Daniel Lugo (Mark Wahlberg), alguma coisa está errada quando um latino-americano está muito rico e ele mal consegue pagar as contas, mesmo sendo um dos melhores personal trainers da cidade.

A cena da palestra do sujeito que diz que o mundo é dividido em pessoas realizadoras e pessoas acomodadas ainda é bem atual, se pensarmos nos inúmeros cursos de coaching e liderança que crescem a cada dia no mercado. Além do mais, é fácil se identificar, ter aquela vontade de vencer do protagonista. Pelo menos até determinado momento, já que, para atingir aquilo que almeja, ele resolve partir para o crime. E com isso se junta a dois outros colegas da musculação, vividos por Dwayne Johnson e Anthony Mackie. O primeiro é um ex-presidiário cristão e um tanto ingênuo, o segundo é um cara que também não tem muita inteligência e que adora mulheres mais gordinhas.

E é justamente por causa da falta de uma maior inteligência do grupo que algumas cenas do filme ficam engraçadas, apesar da violência e das tragédias e do fato, claro, de sabermos que aquilo ali é baseado em uma história real, acontecida entre os anos de 1994 e 1995. E em certo momento do filme, de forma espirituosa, o narrador onisciente faz questão de dizer que ainda se trata de uma história real. Afinal, há coisas ali difíceis de acreditar.

E entre essas coisas difíceis de acreditar está a excelente direção de Michael Bay. Há uma sequência em especial que se destaca: a câmera simula um plano-sequência, adentrando duas ou três vezes um buraco na parede para vermos a ação transcorrendo e voltando pelo outro lado. Trata-se de algo que chega a lembrar o trabalho de David Fincher, mais especificamente uma cena de O QUARTO DO PÂNICO, embora dê para lembrar a violência grotesca e o senso de humor de O CLUBE DA LUTA também.

Há também um uso de voice-overs, do ponto de vista de vários personagens, que pode até cansar a alguns, mas que, especialmente no cinema, cai muito bem e ajuda a engrandecer o filme. Lembremos que trabalhos maravilhosos de Martin Scorsese, como OS BONS COMPANHEIROS e CASSINO, também são recheados de voice-overs, além de também lidarem com crimes, violência e suas consequências na vida dos personagens.

Com isso, essa mais do que bem-vinda opção de Bay por uma produção de menor orçamento e de mais "tutano" acaba por mostrar o quão habilidoso o cineasta pode ser. Pena que já vem um quarto TRANSFORMERS por aí. :/

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