segunda-feira, agosto 05, 2013

PIETA



O principal problema de PIETA (2012), de Kim Ki-duk, vencedor do Leão de Ouro no Festival de Veneza do ano passado, é a sua incrível superficialidade. Já havia visto vários amigos cinéfilos falando cobras e lagartos de outros trabalhos do diretor sul-coreano, mas, se em outros trabalhos ele pode esconder a fragilidade de sua mensagem, neste filme, que tenta chamar a atenção com o uso da violência, essa falta de profundidade é explicitada. Perguntas como "O que é o dinheiro?" ou "O que é a morte?" parecem incrivelmente tolas ao longo do filme, que pelo menos tem o mérito de manter o interesse do espectador até o fim, ainda que não necessariamente o agradando.

Se CASA VAZIA (2004) é um cartão de visitas bem decente para o cinema de Kim Ki-duk (não vi os demais filmes do cineasta), PIETA é aquele tipo de filme cujo principal questionamento é: o que deu no júri do Festival de Veneza para premiar justamente este filme? Nem razões políticas parece haver. Seriam, portanto, de ordem estética. Ou seria para mostrar que eles são progressistas o suficiente para premiar uma obra com cenas de violência? Mas aí esquecem que não basta ser violento: tem que ser muito bom em saber trabalhar a violência, além de aspectos ligados mais especificamente ao cinema, como direção, roteiro, fotografia etc.

PIETA destoa bastante do trabalho de outros diretores coreanos que lidam com a beleza da fotografia e dos enquadramentos. Aqui, até podemos entender que Ki-duk preferiu imagens cruas para buscar coerência com a crueldade das cenas e com a própria ambientação: as casas e as pessoas pobres do país. No caso, a maioria das pessoas são pobres diabos que pediram dinheiro emprestado a um sujeito que cobra juros exorbitantes e, caso o devedor não pague no dia, o cobrador o transformará em um aleijado, de modo a ganhar também o dinheiro do seguro por acidentes.

Assim, esse início de filme, com o violento cobrador Gang-do (Jeong-jim Lee) se mostrando extremamente cruel é até mais interessante, justamente pela violência quase gráfica. Mas depois aparece a mulher que diz ser sua mãe, Mi-son (Min-soo Jo). Como ele cresceu sem nunca ter conhecido a mãe, aos poucos, mesmo depois de tê-la ofendido, agredido e até estuprado, passa a criar um elo afetivo. Como é de se esperar, há uma surpresa na conclusão dessa relação, que até pode ser adivinhada pelo espectador, caso ele preste atenção no próprio prólogo do filme.

Um dos destaques da direção de Ki-duk é o uso de zooms e de empurrões bruscos na câmera em cenas que mostram perturbação mental de determinados personagens, o que não deixa de ser um recurso interessante. Mas o que incomoda mesmo é a explicação simplista dos motivos dos personagens, principalmente de Mi-son. Além do mais, as supostas ligações com os simbolismos cristãos padecem também de maior aproximação, o que seria algo de extrema importância, dado o título e a imagem do cartaz. Enfim, pura enganação este trabalho de Kim Ki-duk.

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