domingo, abril 28, 2013

JUBIABÁ



Depois de um filme lindo como MEMÓRIAS DO CÁRCERE (1984), a expectativa em torno de um novo trabalho de Nelson Pereira dos Santos era grande. Talvez por isso até foi fácil conseguir mais uma vez coprodução com os franceses para a sua segunda adaptação de um romance de Jorge Amado, JUBIABÁ (1987). O filme, inclusive, chegou a ser exibido no Festival de Veneza, e só não passou na mostra competitiva porque Nelson estava no júri. Quer dizer, NPS estava com a bola toda, mas não por causa de JUBIABÁ, mas ainda pelo seu passado glorioso e pelo impacto ainda sentido por MEMÓRIAS DO CÁRCERE.

Isso porque JUBIABÁ é desses filmes que quase estragam a filmografia de um diretor, que, no caso de NPS, já é um tanto irregular. É uma obra que até começa bem, mesmo prometendo uma história de amor aos moldes tradicionais: a história de um menino negro e pobre que é recebido na casa de burgueses brancos e que se apaixona pela garotinha branca de sua idade que mora na casa. Ele já não é bem visto pela empregada da casa, uma espécie de segunda mãe para a jovem Lindinalva. E é a empregada a principal responsável para que o garoto abandone a casa e passe por várias experiências na vida, de mendigo a lutador de boxe.

O filme tem um elenco de rostos conhecidos de nós brasileiros, mas boa parte dos papéis é de atores franceses. Dentre os rostos conhecidos, temos os de Ruth de Souza, Betty Faria, Zezé Motta, Jofre Soares e Grande Otelo, como o personagem-título Jubiabá, um pai de santo que dá suporte ao jovem Bauduíno, o herói do filme. O curioso é que, apesar do título, a participação de Jubiabá é mínima no filme, o que sugere que a adaptação deve ter retirado algo de importante em relação ao personagem, já que a impressão que fica é que ele não ajuda coisa nenhuma quando o rapaz está passando por dificuldades.

Mas ter Grande Otelo ali dá um ar de ligação com a obra de NPS, já que remete diretamente a um de seus primeiros trabalhos, RIO, ZONA NORTE (1957). Inclusive, há uma cena de um sambista cantando um samba melancólico que pode ser vista como uma alusão à bela obra que uniu Nelson e Grande Otelo. Outra coisa que o filme se liga é com o candomblé, que já foi mostrado de maneira até bem mais forte e enfática em filmes como O AMULETO DE OGUM (1975) e TENDA DOS MILAGRES (1977).

Mas, em vez de se concentrar nas questões sociais e políticas, como em TENDA DOS MILAGRES, Nelson preferiu deixar de lado esse elemento, que é fortemente presente no romance de Jorge Amado, para se concentrar na história de amor de Bauduíno e Lindinalva. Seria uma escolha boa se a história não desandasse tão cedo. Impressionante como um dos nossos maiores cineastas também consegue ser tão fraco com frequência.

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