quinta-feira, julho 02, 2009

AMOR, SUBLIME AMOR (West Side Story)



Bacana essa coleção Cinema Reserve que a Fox tem lançado, preservando o título original e com uma elegante luva. Dos DVDs duplos da coleção, não sei quais são inéditos e quais trazem os mesmos extras já lançados em outras edições. No caso de AMOR, SUBLIME AMOR (1961), parece que os extras são os mesmos da edição anteriormente lançada. O diferencial está mesmo no visual, mais bonito. Quanto ao filme, o fato de eu não tê-lo visto há mais tempo se deve à minha resistência aos musicais clássicos. São raros os que me emocionam. No caso da oscarizada produção de Robert Wise e Jerome Robbins (10 Oscar de 11 indicações!), o que me impulsionou a comprá-la foi a presença de Natalie Wood, a grande estrela do filme. Pena que o seu potencial sensual não é bem aproveitado e ela é mostrada ainda como uma moça ingênua num romance água com açúcar. Mas até que ela está bem no filme, caracterizada como uma porto-riquenha, mesmo exagerando um pouco no sotaque. Conta-se que ela estava muito nervosa e insegura durante a produção e não ficou muito feliz quando arrumaram uma dubladora para ela nas cenas cantadas, já que ela se esforçou muito e cantou de verdade em todas as cenas.

A ideia de se fazer uma versão musical de "Romeu e Julieta" se passando nas ruas, com uma disputa entre gangues de americanos contra porto-riquenhos, é até boa. E se deu certo na Broadway, deu mais ainda em Hollywood. Quer dizer, deu certo no sentido de que rendeu muita bilheteria, tornou-se popular e ganhou muitos Oscar. Porque, sinceramente, eu não gostei do resultado final. Aquele "Romeu", o Tony (Richard Beymer), é muito xarope. E chega uma hora que enche o saco quando o vemos pela enésima vez dizer "I'm in love", com aquela cara de babaca. E as cenas mais românticas, envolvendo Maria e Tony acabaram ficando menos interessantes do que as cenas muito mais elaboradas das gangues em coreografias ousadas, que devem agradar bastante aos apreciadores de dança – o que não é bem o meu caso. Conta-se que Jerome Robbins, o coreógrafo que, com toda razão, quis assumir a função de co-diretor do filme, ensaiava tanto em busca da perfeição que deixava os atores no seu limite. Um deles, inclusive, chegou a desmaiar durante os exaustivos ensaios e foi levado às pressas para um hospital. E como Robbins era muito perfeccionista, isso acabou esticando demais o tempo das filmagens. Tanto que, em certo momento, ele foi afastado da produção e Robert Wise assumiu a direção sozinho do que faltava.

Tudo isso é contado no bom documentário de quase uma hora presente nos extras, intitulado "Memórias de West Side". Eu, inclusive, diria que o doc é melhor do que o filme, que poucas vezes me agradou. Entre os melhores momentos, destaco "America", com um belo duelo cantado (e dançado) entre os homens e as mulheres porto-riquenhas. Os homens, falando das desvantagens de estar num país estrangeiro; elas, enaltecendo o país que os acolheu. A canção é provavelmente a mais conhecida do filme. Outra bem conhecida é "Somewhere", que ficou meio brega na versão do filme, mas trata-se de uma bela canção, com um arranjo instrumental lindo e que pode ser bem melhor apreciada na voz de Renato Russo, no disco STONEWALL CELEBRATION CONCERT. E as outras canções famosas do filme são "Tonight" e "Maria". Todas elas são de autoria de Leonard Bernstein e com letras de Stephen Sondheim. Aliás, as canções já eram conhecidas quando o filme chegou aos cinemas e foi um sucesso, pois durante o filme a plateia cantava junto, o que deve ter gerado sessões memoráveis na época.

E por mais que se diga que o musical foi inovador ao misturar dança com lutas de rua, eu diria que o filme ainda surgiu num momento em que Hollywood ainda não tinha abraçado a contracultura. A deixa de Nicholas Ray, com JUVENTUDE TRANSVIADA, não foi assimilada de imediato pela moribunda Hollywood da época. E o filme não consegue disfarçar sua caretice, mesmo com suas inovações. Mas talvez porque ainda não era o momento e preciso me lembrar que a primeira metade dos anos 60 ainda se caracterizava por uma certa inocência. A título de curiosidade, fazendo um paralelo entre AMOR, SUBLIME AMOR e ROMEU E JULIETA, de George Cukor, dá pra perceber que em ambas as gangues havia um gay. O Mercutio de John Barrymoore é bem afetado. Já no musical, há a personagem de uma jovem que se veste de homem e que quer ficar o tempo todo com os rapazes, ainda que fosse geralmente enxotada, principalmente nos momentos de perigo. Das duas gangues, a turma dos porto-riquenhos sai ganhando graças à performance de George Chakiris, o líder do grupo hispânico. Ele dança com uma leveza e uma elegância que chegou a ser comparado a Fred Astaire. Do lado dos porto-riquenhos também há Anita, a personagem mais forte do filme, interpretada por Rita Moreno. Ela é tão boa atriz que até destoa dos demais, inclusive de Natalie Wood.

Quanto aos demais extras, há uma montagem comparativa de storyboards com imagens do filme que ajuda a valorizar a bela construção visual de Robert Wise. Há também o tema que tocou durante o intervalo do filme na época da exibição nos cinemas e alguns trailers. Mas o que conta é mesmo o documentário.

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