quarta-feira, abril 01, 2009

A MULHER DO FAZENDEIRO (The Farmer's Wife)



Teria sido Lillian Hall-Davies a primeira atriz por quem Alfred Hitchcock se apaixonou depois de casado? Assim que fiquei sabendo do assédio sexual do diretor à Tippi Hedren durante as filmagens de MARNIE – CONFISSÕES DE UMA LADRA (1964) e de outras histórias envolvendo outras atrizes, como Grace Kelly, por quem guardava uma forte obsessão, deixei de ver Hitchcock como aquele diretor pacato que guardava para si os seus desejos pelas atrizes e se contentava em ir para casa e se masturbar pensando nelas. Seu desejo era provavelmente potencializado graças a um casamento celibatário com Alma Reville. Fiz esse questionamento sobre Lillian Hall-Davies por dois motivos. Primeiro, pelo fato de ela ter feito o segundo trabalho seguido com o diretor – depois do sucesso de O RINGUE (1927) -; segundo, porque ela tem um sex appeal notável. E Hitchcock adorava atrizes que exalavam sensualidade. Em A MULHER DO FAZENDEIRO (1928), Hall-Davies tem um papel menor e mais inocente, mas nem por isso seus olhos deixam de guardar um sutil apelo erótico.

A MULHER DO FAZENDEIRO foi encarado por Hitchcock como um desafio: adaptar uma peça de teatro de grande sucesso na Inglaterra e transformá-la em cinema, utilizando pouquíssimos letreiros. E ele conseguiu. François Truffaut, inclusive, achou que a fotografia do filme lembrava a dos filmes expressionistas alemães, especialmente Murnau. A trama gira em torno de um fazendeiro que fica viúvo e resolve casar novamente. Junto a sua fiel e sempre atenciosa empregada doméstica, ele prepara uma lista de quatro possíveis pretendentes. Ele acaba escolhendo mulheres pouco atraentes, devido à escassez de mulheres bonitas disponíveis. Curiosamente, uma delas é lésbica e se veste como homem. E é justamente a primeira que lhe dá um fora. Outras duas, uma viúva e uma solteirona, também recusam sua proposta. O drama do fazendeiro começa a se espalhar pela cidade e alguns homens começam a ficar revoltados com ele, que fica fazendo papel de palhaço, ao se submeter a tais humilhações.

Um dos melhores momentos do filme envolve uma festa na qual o capataz do fazendeiro, vestido de garçom, com uma roupa bem acima do seu tamanho, segura as calças enquanto atende os convidados. Lembra as comédias físicas americanas, como as realizadas por Charles Chaplin e Buster Keaton. Mas ainda bem que Hitchcock não resolveu ser um diretor de comédias. Diria que um filme como A MULHER DO FAZENDEIRO, por mais interessante que seja, teria caído no esquecimento se não fosse o nome do diretor nos créditos. Como, aliás, a maioria dos filmes da fase muda de Hitch. O filme apresenta poucos pontos de contato com as temáticas hitchcockianas. É provavelmente o menos hitchcockiano dos filmes do diretor que vi até o momento. A melhor cena do filme fica para o final, quando o fazendeiro finalmente abre os olhos e vê que a mulher de sua vida estava perto dele o tempo todo e ele ainda não havia se dado conta. Tocante e romântica essa sequência.

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