segunda-feira, abril 06, 2009

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (Entre les Murs)



Os pestinhas de ENTRE OS MUROS DA ESCOLA (2008) conseguem ser piores que os meus piores alunos. Saí do cinema com dor de cabeça, provocada pelo barulho dos bagunceiros e pela câmera cambaleante. E com uma pergunta na cabeça: pra que eu fui me meter a ser professor mesmo? Se bem que hoje em dia, comparando os meus dois empregos, acho que o de professor é o que eu menos me sinto um peixe fora d'água. Pelo menos há da minha parte uma vontade de tornar aqueles momentos válidos e produtivos, embora eu saiba que o sentimento de frustração esteja ali me esperando no final. Mas gosto dos desafios. E um dos maiores méritos do filme de Laurent Cantent - de EM DIREÇÃO AO SUL (2005) - é justamente mostrar essa luta do professor em tentar não apenas passar o conteúdo, mas, dentro de um ambiente pouco favorável, conseguir atrair a atenção do grupo. A principal dificuldade está no quanto os alunos de escola pública são resistentes à disciplina, como se já nascessem com um sentimento de revolta contra o sistema. Costumo dizer que isso faz parte do espírito da época, que os adolescentes de hoje são muito mais difíceis de se trabalhar do que os de ontem, do que os da minha geração. Um dos maiores problemas da geração atual - sem querer generalizar, já que sempre existem exceções - é a completa falta de respeito com professores, pais e adultos em geral.

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA se diferencia dos costumeiros "filmes de professor" não apenas pelo modo como constrói seus personagens, mas principalmente pela escolha narrativa, pouco convencional. Em tom semidocumental, o filme mostra François Bégaudeau, autor do livro no qual o filme se baseia, interpretando uma versão de si mesmo e fazendo sua estreia como ator. O fato de ter um professor de verdade e não um ator famoso interpretando faz a diferença, dando ao filme um aspecto mais realista. O filme se passa quase que inteiramente nas aulas de francês, onde o professor tem que lidar com alunos de diferentes etnias e de situações econômicas e sociais difíceis, mas que pelo menos têm o mérito de serem questionadores. Eles questionam, por exemplo, o porquê de se usar o subjuntivo, já que eles não o utilizam nas ruas. E o professor, até que tenta, pacientemente, explicar os motivos, ainda que muitas vezes não os convença. Um dos grandes problemas da turma está na disciplina; em ter que fazer com que os alunos consigam se concentrar. É nessas horas que eu vejo o quanto a educação mais rígida do passado era muito mais eficiente, ainda que seja acusada de ser menos "humana" pelos pedagogos contemporâneos.

Pelo menos há o consolo de saber que a realidade das escolas públicas da França não é muito diferente da realidade brasileira, embora o Brasil apresente problemas muito mais gritantes e de diferentes naturezas, dependendo da região do país, como pode ser visto no belo documentário PRO DIA NASCER FELIZ, de João Jardim. O filme de Jardim me comoveu muito mais, enquanto que os alunos do filme de Cantent sequer despertaram a minha simpatia. No máximo, eu me senti um pouco na pele do professor em alguns momentos. Mesmo assim, ver o filme é uma experiência mais do que válida. A projeção digital não estava tão ruim no aspecto da luz, mas a Rain comeu os lados do filme, originalmente em scope. Não que eu ache que isso vá fazer tanta falta. Como bem disse Sergio Alpendre em seu blog, ENTRE OS MUROS DA ESCOLA poderia ser filmado em 1:66 que daria no mesmo.

ENTRE OS MUROS DA ESCOLA foi o vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2008.

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