terça-feira, abril 21, 2009

ESTÔMAGO



Pisei na bola ao não ter visto ESTÔMAGO (2008) quando de sua rápida passagem pelos cinemas da cidade. Acho que o cartaz pouco atraente e a falta de melhores informações fizeram com que eu privilegiasse outros filmes em detrimento desse. Mas acredito que ter visto o filme em casa foi tão prazeroso quanto tê-lo visto na telona. Peguei pra ver na madrugada de sábado para domingo e perdi até o sono, de tão entusiasmado que fiquei. E João Miguel mostrou o quanto é capaz de levar um filme sozinho. Depois de papéis de destaque em CINEMA, ASPIRINAS E URUBUS e O CÉU DE SUELY, ele novamente encarna um nordestino. Mas dessa vez em terras paulistas, onde é chamado "carinhosamente" de Ceará. Mesmo tendo vindo da Paraíba.

ESTÔMAGO, filme de estreia de Marcos Jorge na direção de longas de ficção, se beneficia da simpatia do protagonista. João Miguel imprime no personagem uma figura engraçada com sua cadência, seu modo de falar, sua ingenuidade e falta de conhecimentos que rivalizam com sua inteligência para aprender rápido as coisas. O que nem sempre o cérebro consegue absorver é evitar que arroubos de ira, sentimentos passionais, consigam virar a cabeça de alguém pelo avesso.

Um dos atrativos do filme é sua montagem "estilo LOST", onde vemos dois tempos distintos da narrativa. Num deles, Raimundo Nonato, o personagem de João Miguel, começa a trabalhar como cozinheiro de coxinhas e pastéis para um mesquinho dono de lanchonete, que só lhe dá a comida e a hospedagem. Nada de salário. Com a mão boa que tem, suas coxinhas fazem um incrível sucesso, ao mesmo tempo em que ele começa a se relacionar com uma prostituta (Fabiula Nascimento). A outra narrativa que se intercala à anterior o mostra numa prisão. Provavelmente no futuro, embora inicialmente não se tenha certeza.

Como outros filmes que tratam da arte da culinária, ESTÔMAGO, com sua maior proximidade com a realidade brasileira, tem um poder lúdico muito maior do que a grande maioria dos trabalhos estrangeiros que também lidam com comida. Acredito que tanto pessoas com intimidade com a cozinha quanto aquelas que, como eu, nada sabem, devem ficar encantadas com a magia que alguns ingredientes são capazes de fazer.

Espero que Fabiula Nascimento, a garota-revelação do filme, não fique como "a bunda" de O CHEIRO DO RALO e simplesmente desapareça. Até porque Fabiula tem muito potencial de fazer sucesso com seu corpo de musa italiana. Quanto a João Miguel, uma pena que ele esteja na roubada que parece ser a nova versão de BONITINHA, MAS ORDINÁRIA, sob a direção de Moacyr Góes. Não consigo imaginá-lo no papel que foi de José Wilker. Mas como até hoje não vi nenhum filme baseado em Nelson Rodrigues que fosse destituído de interesse, há chances de que essa refilmagem não seja tão ruim.

ESTÔMAGO foi o grande vencedor da recente edição do Grande Prêmio Cinema Brasil. Um prêmio que parece não valer muita coisa, já que há pouca divulgação. E acho também que se é para premiar os filmes do ano anterior, o prêmio deveria acontecer no início do ano seguinte e não apenas em abril. Mas talvez isso se deva à péssima distribuição dos filmes brasileiros no cinema. O que mais tem incomodado críticos e cinéfilos é a aparente ignorância dos membros da "academia" em relação aos filmes de bilheteria pouco expressiva.

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