terça-feira, abril 28, 2009

CALAFRIOS (Shivers)



Agora sim. Depois de dois trabalhos underground experimentais, David Cronenberg faz um filme para o grande público – ou para um público maior, pelo menos. Tinha dúvidas se já tinha visto CALAFRIOS (1975) naquela cópia em VHS, se eu não me engano, da FJ Lucas. Mas o que eu devo ter visto foi o filme seguinte dele, ENRAIVECIDA – NA FÚRIA DO SEXO (1977), que reverei nas próximas semanas e que voltou aos holofotes recentemente por causa da morte de Marilyn Chambers. Quanto a CALAFRIOS, ele retoma alguns temas já mostrados nos dois trabalhos anteriores, especialmente em CRIMES OF THE FUTURE (1970). No arquivo que consegui do filme, vem junto uma pequena entrevista com o cineasta, onde ele conta as dificuldades enfrentadas durante a produção e como ele conseguiu driblá-las com pouca experiência e muita criatividade. E o engraçado é quando o diretor conta que uma de suas atrizes (Susan Petrie) não conseguia chorar nas cenas e ela pedia para que o cineasta a batesse no rosto com força, o que chegou a deixar algumas pessoas do elenco escandalizadas com esse "novo método" do diretor. É divertido ver Cronenberg falando desse incidente na entrevista.

Como se trata de um "bezão" assumido - foi filmado com baixo orçamento e em apenas quinze dias -, o filme não poupa sequências de gore nem de nudez. E o parasita, que lembra uma cobra ou um verme tamanho família, aparece várias vezes atacando algumas vítimas. Entre elas, a musa dos filmes de horror italianos Barbara Steele (de A MÁSCARA DE SATÃ, de Mario Bava). A sequência de Barbara Steele sendo atacada pelo parasita na banheira é antológica. Mas são tantas as cenas boas do filme que fica até difícil eleger uma. CALAFRIOS tem uma montagem tão acertada que seus 87 minutos passam voando, num filme que dá muito prazer ao espectador. Isto é, se ele não se incomodar com cenas que pode considerar "nojentas".

Uma das características da obra de Cronenberg, além das comumente citadas, é o pessimismo. Em geral, os personagens de seus filmes têm um fim trágico. Não há espaço para salvação. No caso de CALAFRIOS, o mal se manifesta na forma de um parasita que toma de assalto um grupo de pessoas que moram num condomínio. As primeiras vítimas desse parasita são mostradas logo no início do filme: um homem pega uma jovem à força, deixa-a inconsciente e abre o seu abdômen com uma faca. Depois do que vê em suas entranhas, ele mesmo se mata. Como o filme se concentra também num consultório médico e há também cenas envolvendo investigação policial, ficamos sabendo que a tal garota havia feito sexo com várias pessoas do lugar, havendo, portanto, uma contaminação. E todas essas pessoas passaram a apresentar um comportamento excessivamente erótico e violento. Em certo sentido, CALAFRIOS lembra os filmes de zumbi de George A. Romero, onde há os infectados e aqueles que fogem da doença. A diferença é que Cronenberg centra mais no sexo, no corpo, sua grande obsessão, seu objeto de estudo, bem como nos corpos estranhos, aqueles que interferem de forma monstruosa na estrutura do corpo e na psique de seus personagens. Um filme admirável e um dos melhores da filmografia do mestre.

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