sábado, outubro 15, 2005

UMA AVENTURA NA MARTINICA (To Have and Have Not)



Ver filmes do Howard Hawks tem um sabor especial pra mim. É como se eu estivesse saboreando um prato bem gostoso, desses que quando acaba a gente lamenta que acabou, mas ainda assim satisfeito por ter experimentado. Claro que a comparação pode não ter sido muito feliz, já que os filmes de Hawks também envolvem uma certa dose de emoção e sentimento que vão muito além dos prazeres gastronômicos.

UMA AVENTURA NA MARTINICA (1944) é puro Hawks. Estão lá as pessoas de passado obscuro; a ausência da família; o homem durão que já teve algum relacionamento mal sucedido no passado e por isso prefere se concentrar no trabalho; a mulher que toma sempre a iniciativa; a relação de amizade e respeito entre os companheiros; a sensação de perigo nos momentos difíceis; a opção pelo cinismo nos diálogos, como meio de ocultar os sentimentos. Interessante que eu sempre fico comovido com a dedicação amorosa que os pares românticos dos heróis hawksianos lhes demonstram.

Como o próprio Hawks falou em entrevista no "Afinal, Quem Faz os Filmes", a trama política não é importante. É apenas um meio de Hawks contar uma história de amor num ambiente hostil. Lembrando que o diretor já mostrou ambientes bem mais hostis em filmes como O PARAÍSO INFERNAL (1939) e HATARI!(1962). E o grande barato é que a química entre Humphrey Bogart e a estreante Lauren Bacall não ficou apenas na telona. A paixão dos dois astros foi tamanha que o casal se tornou um das mais célebres da história do cinema. Bogart até largou a esposa, dependente do alcool, para ficar com Lauren. No DVD do filme, lançado no Brasil pela Warner, tem um mini-documentário de 11 minutos dedicado exclusivamente ao histórico encontro dos dois. Fiquei sabendo que Hawks ficou puto com o Bogart, porque ele queria agarrar a moça também. Mas, no fim, Hawks não ficou atrás e ainda teve um caso com a coadjuvante, a bela Dolores Moran.

Entre as minhas seqüências favoritas, estão as cenas de intimidade de Bogart com Bacall, a cena em que Bogart carrega Dolores Moran nos braços e as duas cenas mais eletrizantes do filme: a do resgate no barco - teria Brian De Palma se inspirado nesse filme para fazer a cena do barco de O PAGAMENTO FINAL? - e aquela em que Bogart atira num dos policiais. Sensacional.

Interessante que o filme foi feito a partir de uma aposta entre Hawks e Ernest Hemingway. Hawks apostou para Hemingway que conseguiria fazer um filme a partir do pior livro do escritor, que era o "To Have and Have Not". Ele aceitou a aposta, Hawks comprou os direitos do livro, e chamou outro famoso escritor para fazer o roteiro, William Faukner.

No DVD, além do minidoc que eu comentei, há um desenho animado de 6 minutos que é impagável. Sinceramente, foi o desenho da Warner que eu mais gostei até hoje. (Só perdendo, é claro, praquele em que o Gaguinho constrói um robô para exterminar o Pernalonga.) Mas BACALL TO ARMS é um desenho que deve ser melhor apreciado por quem assistiu ao filme do Hawks.

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