segunda-feira, outubro 10, 2005

CLEAN



De uma coisa não resta dúvida: Olivier Assayas é um dos grandes cineastas franceses da atualidade. Ele escreveu durante a década de 80 nos Cahiers du Cinéma, pertence a uma geração que assimilou uma quantidade enorme de filmes de todas as partes do mundo e tem uma queda pela cultura pop, pelo subversivo e pelo rock and roll. O Sonic Youth até colaborou com o diretor para a trilha sonora do excelente ESPIONAGEM NA REDE (2002). O rock também está bastante presente em CLEAN (2004). Senti um entusiasmo tremendo na cena do show do Metric tocando "Dead Disco". Nem parece aquela coisa deprimente dos shows filmados por Michael Winterbottom em 9 CANÇÕES. Assayas mostra o rock como ele deve ser: uma poderosa força que abala as nossas estruturas, um sopro de vida juvenil. Outro astro do rock que aparece no filme numa cena antológica é Tricky, num hipnotizante show de trip-hop.

CLEAN mostra o sofrimento de Emily (Maggie Cheung, ex-esposa do diretor), uma mulher dependente de heroína, e sua luta para botar sua vida nos trilhos e reaver a guarda do filho. Ela passa seis meses na prisão depois da morte por overdose de seu marido. Assim como acontece em ESPIONAGEM NA REDE, boa parte das coisas importantes da vida dos personagens acontece fora da tela, nas elipses. Muita coisa a gente fica sabendo pelas conversas e pelos novos personagens que aparecem.

Assayas pode levar a fama de cineasta mais globalizado do mundo. Seus filmes se passam em vários países e são falados em diversas línguas. CLEAN é falado em inglês, francês e cantonês e se passa em cidades do Canadá, França, Inglaterra e EUA. E é impressionante a segurança e fluência de Maggie Cheung nessas três línguas. Ela já havia se mostrado brilhante em IRMA VEP (1996), também de Assayas, mas é em CLEAN que ela mostra mais a sua força. Tanto que ela ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes do ano passado por esse filme.

A fotografia de CLEAN impressiona desde o começo, quando vemos os créditos passando nos cantos do belo enquadramento em scope, mostrando ao fundo as fábricas da cidade de Hamilton, perto de um lago enevoado. O mesmo lago onde Emily vai dormir sedada, depois de aplicar uma dose heroína na veia. Depois disso sua vida se transforma num inferno.

Apesar de Maggie Cheung estar presente em quase todo quadro do filme, vale destacar também as presenças luminosas de Nick Nolte, como o gentil sogro de Emily, Béatrice Dalle como a melhor amiga e Laetitia Spigarelli como a lésbica atraente. Pelo visto Assayas nasceu para filmar mulheres fortes, vide a trinca sexy formada por Connie Nielsen, Chlöe Sevigny e Gina Gershon em ESPIONAGEM NA REDE. Assayas, com certeza, deve concordar com Woody Allen, que diz que a mulher é psicologicamente muito mais interessante do que o homem.

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