quarta-feira, outubro 26, 2005

UM FILME FALADO (A Talking Picture / Un Film Parlato / Un Film Parlé)



Enquanto os cinéfilos paulistas estão tendo a sorte e a oportunidade de conferir uma retrospectiva com a filmografia completa de Manoel de Oliveira, inclusive com a presença do próprio cineasta, só agora eu, cinéfilo cearense "sem dinheiro no bolso" e "sem parentes importantes", tive a oportunidade de ver pela primeira vez um filme do mestre, em DVD. Verdadeira lenda viva e cineasta mais velho em atividade no mundo (97 anos!), Manoel dirige filmes desde os tempos do cinema mudo. Um amigo meu chegou a ficar emocionado durante a Mostra Internacional de Cinema, ao encontrar com o diretor no banheiro e assistindo reverentemente a um documentário sobre Ingmar Bergman.

Assim como Eric Rohmer, Manoel de Oliveira é tido como um cineasta da palavra. Fala-se muito em seus filmes. UM FILME FALADO (2003) é uma de suas obras mais festejadas. Muito saboroso ouvir Rosa Maria (Leonor Silveira), em bom português, dando uma aula de História para a filha de 7 anos e, por tabela, para nós, espectadores. Sentimos como se estivéssemos vendo uma tele-aula, mas com uma estranheza intrigante que só as grandes obras têm.

A primeira metade do filme mostra Rosa Maria, professora de História, falando sobre a história por trás dos monumentos e das ruínas encontrados em diversos países visitados por elas, ao redor do Mediterrâneo. Passamos por Portugal, Espanha, França, Itália, Grécia, Egito, Turquia. Uma maneira gostosa e barata de fazer uma viagem pela Europa. A segunda metade do filme consiste basicamente nas conversas poliglotas entre o comandante do navio (o americano John Malkovich) e três atrizes de três países diferentes: Catherine Deneuve (França), Stefania Sandrelli (Itália) e Irene Papas (Grécia). Cada um conversa em sua própria língua, sendo milagrosamente entendido por todos. Só depois, com a chegada da moça portuguesa na mesa, é que o inglês passa a ser a língua utilizada por todos. Os assuntos discutidos são dos mais interessantes. E o filme passa de tele-aula a talk show televisivo, desses que mostram grupo de pessoas discutindo quase que livremente sobre diversos assuntos.

Alguns dos temas ficaram mais guardados na memória. Em certo momento, Catherine Deneuve diz que às vezes a prisão de estar com alguém pode até ser pior do que o inferno da solidão. Fala-se sobre a dominação da língua inglesa, enquanto que uma língua fundamental para a construção da civilização ocidental - o grego - hoje é falada apenas na Grécia. Fala-se até da nossa língua portuguesa, que, ainda que pouco falada nos países de primeiro mundo, está presente nos quatro cantos do mundo. A noção de civilização é questionada pela garotinha por causa da barbárie, com a mãe dizendo que foram com as guerras que se fizeram as nações, que o ser humano é cheio de paradoxos.

O final de UM FILME FALADO é surpreendente, chocante, até pelo andamento e pela forma como o filme se desenvolve antes do final. Se com as guerras se fizeram as nações, para onde iremos com essa série de atentados terroristas? Qual será o nosso destino? O Brasil é o país do futuro?

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