quarta-feira, março 17, 2021

DUBLÊ DE CORPO (Body Double)



Depois de rever DUBLÊ DE CORPO (1984), no belo BluRay lançado recentemente pela Versátil, fui ver os extras presentes em um DVD. O que mais me deixou admirado foi saber o quanto o filme recebeu críticas negativas na época de seu lançamento, além das acusações que fizeram a Brian De Palma de estar exercitando a misoginia. Quanto às críticas negativas, pra mim foram novidade, pois comecei minha cinefilia vendo os críticos da revista SET enaltecendo esta e outras obras dele. Mas tudo bem. É um caso clássico de filme incompreendido em sua época. Se bem que se fosse lançado hoje também poderia ser alvo de controvérsia.

Para aprofundar meus estudos em De Palma, consegui um livro muito interessante, Brian De Palma’s Split-Screen - A Life in Film, de Douglas Keesey. Como o próprio título indica, trata-se de um livro que pretende analisar a obra levando em consideração fatos da vida do realizador. Esse tipo de estudo muito me interessa. Na época da faculdade, meu TCC foi sobre a vida e a obra de Edgar Allan Poe. No caso de De Palma, minha surpresa em saber certos detalhes de sua juventude me ajudou a tirar a imagem que eu tinha dele como um cineasta mais técnico e exclusivamente focado no cinema, bebendo da fonte de Hitchcock e de outros diretores, como Antonioni, Eisenstein ou Kubrick, para construir sua própria carreira. Algo que outros diretores pós-modernos, como Tarantino e Leone também fazem/fizeram.

Acontece que há um homem de carne e osso por trás da câmera, alguém que, assim como seus mestres, tem seus próprios traumas, seus próprios demônios a exorcizar (ou a alimentar). No caso de De Palma, ele foi criado como sendo o irmão menos inteligente da família; família que parecia promover uma competição entre ele e o irmão Bruce. E Bruce era o gênio da família, enquanto Brian ficava à sua sombra. 

Em DUBLÊ DE CORPO, vemos um homem frágil (Craig Wasson), tanto por sofrer de claustrofobia e isso lhe custar o emprego como ator de um filme de terror B, quanto por flagrar a namorada transando com outro homem quando voltava para casa. Assim, depois de ficar sem ter nem onde dormir, encontrar refúgio em uma casa muito especial e que ainda podia ver, através de um telescópio, uma linda mulher se masturbando e se despindo, isso parecia ser um alento e tanto, por mais que houvesse ali algum tipo de culpa pelo ato voyeurístico, mesmo que uma culpa não tão explicitada.

Outro evento importante na vida de De Palma aconteceu quando ele estava no ensino médio. Sua mãe tentou o suicídio com pílulas. O motivo: o marido a estava traindo. Disposto a proteger a mãe, o jovem De Palma gravou escutas telefônicas para servirem de provas do adultério do pai. Além disso, ele subiu numa árvore para tirar fotos comprometedoras do pai, e em seguida o rapaz ainda entrou abruptamente em seu escritório e o flagrou com a amante. Isso foi fundamental para o processo do divórcio.

Quem leu esse parágrafo acima e teve contato com boa parte da obra do cineasta pode ficar, assim como eu fiquei, impressionado com as similaridades desses eventos com as tramas dos filmes do realizador. É possível fazer um estudo sobre questões morais, além de refletir o aspecto voyeurístico de suas obras. Curiosamente, seu contato com UM CORPO QUE CAI, do Hitchcock se deu poucos meses após ele ter fotografado o pai.

E é principalmente de UM CORPO QUE CAI, mas também, obviamente, de JANELA INDISCRETA, que ele se inspira para a materialização deste trabalho. Que é mais um exemplar também de excelência técnica, de um virtuosismo que poucos diretores vivos possuem. E o engraçado é que ele faz isso em DUBLÊ DE CORPO sem medo dos excessos. Para que melhor exemplo do que a cena do beijo na praia em 360º? Há uma questão interessante que Keesey levanta: o beijo que o protagonista ganha daquela mulher dos sonhos (Deborah Shelton) teria sido um prêmio por ele ter sido um "bom garoto", ao conseguir reaver a bolsa da moça. 

O homem depalmiano dividido pode ter visto a figura do "índio" como se fosse uma espécie de versão sombria de si. Afinal, assim como ele, o "índio" também apareceu primeiro em sua visão enquanto ele estava espiando a moça em seu balé sensual, que só depois ele descobriria que era feito para ele. Ou seja, assim como em UM CORPO QUE CAI, uma mulher havia sido contratada para enganar o protagonista de modo que houvesse um álibi para o assassino. A principal diferença em comparação com Hitchcock é que talvez De Palma use mais humor, um tom de sátira, que perpassa todo o filme e é um convite ao sorriso durante toda a metragem. Inclusive nas cenas de violência, como a que mostra o "índio" perfurando a vítima com uma furadeira elétrica gigante.

E embora goste muito do filme até aquele momento do assassinato da morena, acredito que DUBLÊ DE CORPO consegue ficar ainda mais interessante com a entrada em cena da loira vivida por Melanie Griffith, que faz a atriz pornô contratada para dançar para o personagem de Wasson sem que ele saiba. A entrada do personagem dentro do universo dos filmes pornográficos é também muito divertida e isso acabou causando problema ao diretor, já que ele chegou a contratar os serviços da estrela pornô Annette Haven e Hollywood odeia se misturar com o mundo dos filmes adultos. Por isso são tão poucos os diretores que se atrevem a contratar essas estrelas (Paul Thomas Anderson, John Waters, Steven Soderbergh e David Cronenberg são alguns deles).

E, nos bastidores, é curiosa a entrada de Melanie e a aceitação dela em fazer a cena sensual, imitando uma atriz pornô, já que ela havia rejeitado um papel em CARRIE, A ESTRANHA (1976), do próprio De Palma, pois não queria beijar um homem desconhecido. Anos depois, eis que ela aceita fazer este papel bem mais ousado, talvez por já ter feito cena de striptease em CIDADE DO MEDO, de Abel Ferrara, no mesmo ano. O ar doce e ingênuo mas também sensual de Melanie lembra um pouco Marilyn Monroe, e funcionou muito bem para o papel. Além do mais, como bom discípulo de Hitchcock, De Palma adorou trabalhar com a filha de uma estrela do mestre do suspense - Melanie é filha de Tippi Hedren (de OS PÁSSAROS e MARNIE - CONFISSÕES DE UMA LADRA).

Quanto à questão da misoginia, algo que pode depor bastante contra De Palma é o final do filme, quando vemos uma jovem bonita sendo filmada no chuveiro como vítima do vampiro e depois sendo substituída por uma dublê, que não tem o rosto tão bonito, mas tem seios mais belos. Ou seja, em De Palma, a ideia da mulher ideal se explicita na própria produção cinematográfica, quando a "magia do cinema" pode transformar duas belas mulheres em uma mulher ideal.

Agradecimentos à Paula pela companhia durante a sessão.

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