quarta-feira, abril 02, 2014

LARANJA MECÂNICA (A Clockwork Orange)



É sempre um desafio escrever sobre uma obra de Stanley Kubrick. Há uma aura muito forte sobre o autor. Sua genialidade faz com que eu até tenha receio de escrever um texto de elogio. Quanto mais um texto sobre um dos filmes do mestre que não despertam a minha paixão, como pude comprovar revendo no cinema semanas atrás. Ainda assim, isso não quer dizer que a admiração que tenho por Kubrick tenha diminuído. Ele ainda é, pra mim, o autor do melhor filme de todos os tempos: 2001 – UMA ODISSEIA NO ESPAÇO, 1968.

Rever LARANJA MECÂNICA (1971), inclusive, fez com que eu finalmente adquirisse o delicioso livro de Michel Cement, que aqui no Brasil ganhou o equivocado título Conversas com Kubrick, justamente para combinar com os demais livros de entrevistas com outros diretores lançados no país. Ao ver que o livro possuía poucas entrevistas com o diretor, comecei a achar que se tratava de uma obra picareta. Não é bem assim, já que os ótimos artigos do autor compensam a falta de mais entrevistas. O fato é que Kubrick era avesso a conversas com a imprensa e as entrevistas que há no livro foram dadas com muita boa vontade para um estudioso dedicado da obra do cineasta, como se pode comprovar nos capítulos que antecedem algumas entrevistas.

Eu, erroneamente, percebi o quanto sou um fã fajuto do cineasta, já que nunca havia adquirido nenhum livro teórico a respeito de seus filmes. Assim, como primeira aquisição, Conversas com Kubrick foi bastante esclarecedor em muitos pontos. Sempre achava complicado encontrar elementos em comum em seus filmes. Muito diferente de Hitchcock, de Hawks, de Khouri, de Allen, para citar exemplos de autores que apresentam elementos recorrentes e de fácil identificação em suas obras.

Kubrick, até por passar muito tempo entre uma obra e outra, acabava quase sempre deixando plateias e críticos incomodados, já que ele vinha sempre com algo diferente, recusando-se a oferecer o que se esperava dele. Para meu espanto, a conceituada crítica Pauline Kael falou sobre 2001: "Um filme de uma falta de imaginação monumental". Então, o que se percebe é que é preciso que seus filmes amadureçam para que sejam devidamente reconhecidos como grandes obras que são.

LARANJA MECÂNICA foi o trabalho de Kubrick logo após 2001. Então, imagino-me como espectador daquela época e possivelmente também me decepcionando com este trabalho tão distinto de seu opus de ficção científica. Apesar de ser também futurista, é uma espécie de negação do anterior, assim como BARRY LYNDON (1975) seria uma negação de LARANJA MECÂNICA, no que se refere à acidez, à violência e ao sentimentalismo.

LARANJA MECÂNICA, na época em que foi exibido, causou muito alvoroço no público mais conservador e até foi proibido por alguns anos no Brasil, tendo sido liberado com bolinhas pretas cobrindo as poucas cenas em que aparecem genitálias femininas. O que hoje é visto como uma bobagem tremenda, já que até mesmo a violência mostrada no filme deixou de ter o seu impacto.

Porém, isso não quer dizer que o filme tenha perdido o seu valor, a sua força e a sua importância. Passado o calor daquele momento, é até mais fácil ver, de maneira racional, suas qualidades. A paixão e a razão, como elementos presentes na obra do diretor também comparecem na história de Alex, um deliquente juvenil que é amante de música erudita (Beethoven, principalmente) mas também de ultraviolência. Chega a invadir, com seus amigos, a casa de pessoas ricas para espancá-las até a morte. O uso da narração em voice-over de Alex, com seu humor negro, faz com que tenhamos uma simpatia por ele.

E não deixa de ser espantoso como é possível até nos identificarmos com uma figura de moral tão repulsiva quanto a deste rapaz, capaz de fazer coisas que abominamos, mas que no fundo, até gostaríamos de fazer, como uma maneira de deixar fluir o nosso instinto animalesco, semelhante ao dos macacos no primeiro ato de 2001, ou ao personagem surtado de Jack Nicholson em O ILUMINADO. Segundo o próprio Kubrick, "o inconsciente não tem consciência. No inconsciente, todos nós matamos e violamos".

E essa simpatia com Alex fica claramente mais forte quando ele é preso e principalmente quando se submete a um experimento que o leva a ser impedido de sentir prazer com aquilo de que mais gosta, ou seja, praticar a violência e ouvir a sua sinfonia preferida de Beethoven. Assim, ele passa a ser um homem castrado, sem o livre arbítrio que é direito de todos. Pronto para ser um cidadão pronto para a sociedade.

Não deixa de ser uma crítica forte a uma sociedade controladora, como a nazista. Ou a comunista e até mesmo a capitalista, que consegue disfarçar mais esse viés. Quanto à associação da violência à música agradável e que faz bem aos sentidos e à mente, não deixa de ser curioso como, na mesma década, cineastas ligados ao gênero horror, como Dario Argento, por exemplo, tenham conseguido associar a violência gráfica ao prazer de ouvir uma boa música de fundo e de também apreciar a orquestração no uso da câmera. Kubrick, porém, mais complexo que é, precisa sempre ser revisitado, estudado, reavaliado, apreciado, de modo que a chama da paixão pela sua obra permaneça constantemente acesa.

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