segunda-feira, abril 14, 2014

EU, MAMÃE E OS MENINOS (Les Garçons et Guillaume, à Table!)



Mesmo não sendo um entusiasta de EU, MAMÃE E OS MENINOS (2013), a nova sensação do cinema francês contemporâneo, não resta dúvida que o filme de estreia de Guillaume Gallienne é no mínimo muito interessante. Além de ser bastante pessoal, pois é baseado em uma peça inspirada na vida do próprio ator/diretor/roteirista, que, durante a infância e boa parte da juventude, cresceu sendo tratado como uma menina. Ou quase uma menina.

Se bem que o filme em certos momentos, principalmente quando mostra o olhar de desaprovação do pai ao ver o filho brincando de Sissi, a Imperatriz, no quarto, por exemplo, passa uma imagem dúbia nesse sentido, já que há toda uma tentativa de "fazer dele um homem", ao vê-lo sendo mandado para internatos para rapazes, longe de casa.

Assim, o filme é também um inventário do que sofre um rapaz efeminado diante de um grupo de adolescentes, que geralmente são extremamente perversos no que se refere a quem é diferente. Aliás, muito interessante este momento atual, tão cheio de filmes que lidam com a temática gay, ainda que de forma tangente. Funciona como uma espécie de resposta a uma sociedade que cada vez mais ataca os direitos dos homossexuais. A arte responde à altura.

Não por acaso, outros dois filmes franceses recentes, UM ESTRANHO NO LAGO e AZUL É A COR MAIS QUENTE, além de premiados e/ou bem recebidos por boa parte da crítica como ótimos exemplares de grande cinema, também estão nesse rol. Mas EU, MAMÃE E OS MENINOS segue outra linha. Pra começar, não há a busca por chamar a atenção com cenas de sexo e nudez, por exemplo.

O filme dialoga com sua origem teatral ao começar com o monólogo do próprio Gallienne para uma plateia, contando sobre seu passado, o bullying que sofreu tanto em casa quanto nas diversas escolas por onde passou e sua busca por uma identidade própria, já que ele se espelhava muito na mãe (não por acaso, interpretada por ele mesmo) e outras mulheres que ele admirava.

EU, MAMÃE E OS MENINOS cansa um pouco em alguns momentos, especialmente quando as piadas não funcionam, prejudicando o andamento de um filme que parece ter mais do que apenas 85 minutos de duração. Em compensação, há momentos de impressionante beleza plástica, como a cena em que ele está quase se afogando em uma piscina. É neste e em outros momentos que chegamos a pensar como serão os próximos trabalhos de Gallienne para o cinema, já que este é extremamente pessoal.

EU, MAMÃE E OS MENINOS (o título nacional deixa a impressão de que se trata de uma comédia bem familiar, com direito a crianças brincando por todos os lados) ganhou o César de melhor filme francês do ano passado, além dos prêmios de melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor estreia na direção. Pode ser visto no Festival Varilux de Cinema Francês, mas tem previsão de estreia no circuito para 1º de maio deste ano.

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