domingo, abril 06, 2014

EM BUSCA DE IARA



Estamos vivendo um momento político tão delicado que obras sobre os anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, que até pouco tempo atrás eram representativas de nosso passado recente, hoje, diante de pequenos grupos que acreditam que a solução para o Brasil é um retrocesso, um filme como EM BUSCA DE IARA (2013), lançado na semana em que o país completa o aniversário dos 50 anos do Golpe de 64, serve também para sermos alertados do perigo de sermos dominados novamente por aquela falsa "ordem e progresso". Um dos momentos mais curiosos do filme é justamente o trecho de um documentário patrocinado pelos militares que mostrava os artistas e as autoridades todos felizes, um exemplo de um país perfeito.

O caso específico deste trabalho sobre a história de Iara, mais conhecida como a companheira do Capitão Carlos Lamarca, é mais uma obra a ingressar num já longo dossiê sobre filmes acerca do regime militar. Hoje em dia nem interessa tanto se se trata de uma obra dirigida mais a um público de esquerda e que pensa ainda em uma revolução ao estilo da que foi feita em Cuba, mas principalmente a um público que não quer mais viver na repressão.

A estrutura do filme é próxima do convencional para um documentário, mas a figura do entrevistador, no caso uma entrevistadora (Mariana Pamplona, sobrinha de Iara), dá um ar de diferença, já que existe um vínculo não apenas afetivo, mas também familiar entre os idealizadores do filme e o seu objeto de estudo. Assim, ela se emociona junto com os entrevistados e a câmera não se furta a mostrar as suas emoções também.

EM BUSCA DE IARA também tem um caráter investigativo, trazendo à tona documentários da época, imagens de arquivo e de documentos escritos, a fim de procurar uma resposta definitiva sobre a morte de Iara, que foi enterrada como suicida, por ser essa a versão dos militares. A família e amigos, porém, jamais acreditaram nessa teoria. Assim, o filme também mostra as cenas da tentativa de fazer uma autópsia com os restos mortais de Iara.

O momento mais interessante é aquele em que um dos membros do MR-8, a organização de Lamarca, vai com Mariana e equipe até o apartamento onde Iara estava escondida quando foi morta pelas forças militares. A reconstituição do crime e a entrada naquele apartamento, ainda que passados mais de 40 anos, é um momento particularmente perturbador.

O que talvez deponha um pouco contra o filme seja o seu andamento, que passa a impressão de que poderia ter trechos cortados, a fim de dar mais agilidade ao documentário. Duas lindas canções da época que aparecem no filme, como "Os Argonautas", de Caetano Veloso, e "Sangue Latino", dos Secos e Molhados, ajudam a trazer uma emoção que foge um pouco de seu caráter mais racional e investigativo.

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