domingo, setembro 16, 2012

CINEMA DE LÁGRIMAS (Cinema of Tears)



Em 1995, quando foi celebrado o centenário do Cinema, foi produzida uma série de documentários a respeito de diferentes cinematografias. O mais famoso deles é UMA VIAGEM PESSOAL ATRAVÉS DO CINEMA AMERICANO, de Martin Scorsese. Jean-Luc Godard dirigiu um sobre o cinema francês; Nagisa Oshima, sobre o japonês; Stephen Frears, sobre o inglês. Lembro até que foi feito um documentário exclusivo sobre o cinema neozelandês, que é um cinema que tem uma história curta e que o documentário até destacou como a melhor produção neozelandesa o thriller ALMAS GÊMEAS, de Peter Jackson. Tirando o do Scorsese, não tenho muita lembrança dos outros documentários (que foram exibidos na extinta Rede Manchete), mas já naquela época fiquei bastante incomodado com o fato de o Brasil não ter um documentário só sobre o seu cinema.

Em vez disso, o representante do BFI (British Film Institute) convidou Nelson Pereira dos Santos para tratar do cinema latino-americano. O que é um absurdo, já que não se poderia dar conta de tantos países. Foi quando Nelson teve a ideia de fazer uma ficção que contivesse cenas de alguns melodramas produzidos no México, na Argentina, em Cuba e sobrou espaço para um filme brasileiro, DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL (1963), de Glauber Rocha, que passa longe de ser classificado como um melodrama.

Na trama de CINEMA DE LÁGRIMAS (1995), Raul Cortez é um ator em decadência que é abordado por um estudante de jornalismo, que quer fazer uma entrevista com ele. Em vez disso, o ator veterano pede para que o jovem (André Barros) o siga até a Cidade do México, pois ele está em busca de um filme. O último filme que sua mãe viu antes de cometer suicídio. Assim, o personagem segue uma rotina de ir até uma cinemateca da capital mexicana e assistir uma série de filmes, dos quais vemos trechos. Um deles me chamou muito a atenção: uma mulher deixa o filho de colo numa lata de lixo por causa de uma paixão por um homem.

Um dos filmes que passa é o mexicano ESCRAVOS DO RANCOR (1954), de Luis Buñuel, que eu confesso não ter reconhecido. Mas fica-se curioso mesmo é para descobrir o tal filme que a mãe do ator viu antes de morrer. Trata-se do argentino ARMIÑO NEGRO (1953), de Carlos Hugo Christensen. Infelizmente não consegui encontrar cópia deste filme na web. Fiquei curioso.

Quanto a CINEMA DE LÁGRIMAS, só não é ruim porque lida com uma obsessão e com o próprio cinema, dois elementos muito bem-vindos quando se quer ver um bom filme. Além do mais, a marca de Nelson Pereira dos Santos está lá, especialmente ao lidar com o fascínio pela mulher, um elemento que de uma forma ou de outra está presente na obra do diretor. Mas não deixa de ser frustrante que não tenha havido um documentário só sobre o cinema mexicano, outro sobre o cinema brasileiro, outro sobre o cinema argentino, só para citar três cinematografias que têm tanto para serem apresentadas ao mundo.